Definição e epidemiologia
Pica é um transtorno alimentar e de ingestão de alimentos caracterizado pela ingestão persistente de substâncias não nutritivas e não alimentares por um período mínimo de um mês. O comportamento é inadequado ao nível de desenvolvimento do indivíduo e não faz parte de uma prática culturalmente sancionada ou socialmente normativa. A definição do DSM-5-TR especifica que a ingestão de substâncias não nutritivas não deve ser parte de uma prática culturalmente apoiada ou socialmente normativa. O CID-11 classifica a pica dentro das "Anormalidades do comportamento alimentar" (código 6B81), exigindo também que o comportamento seja persistente e clinicamente significativo.
O diagnóstico só deve ser considerado após os 2 anos de idade, conforme o DSM-5-TR, para excluir a fase normal de desenvolvimento oral e a inserção acidental de objetos na boca por bebês e crianças pequenas. Em crianças menores de 2 anos, a exploração oral do ambiente é um comportamento esperado.
A epidemiologia da pica é pouco estudada e os dados de prevalência são variáveis. Um levantamento citado no Compêndio de Kaplan & Sadock indica que comportamentos de colocar substâncias não nutritivas na boca são comuns em bebês (75% aos 12 meses) e diminuem com a idade (15% entre 2 e 3 anos). No entanto, este comportamento, quando transitório e sem ingestão real, é considerado adequado ao desenvolvimento. A pica clinicamente significativa, que requer atenção, tem maior prevalência em populações específicas. É substancialmente mais comum entre crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Deficiência Intelectual (DI). Estima-se que até 15% das pessoas com deficiência intelectual grave se envolvam nessa prática. A doença parece afetar igualmente ambos os sexos.
No contexto brasileiro, dados epidemiológicos específicos são escassos. A prevalência pode ser influenciada por fatores socioeconômicos, como condições de moradia (exposição a tintas com chumbo em casas antigas), acesso à supervisão adequada e nível de informação sobre os riscos. A prática pode ser observada em contextos de vulnerabilidade social e negligência, mas também ocorre em todas as classes sociais, frequentemente associada a condições neuropsiquiátricas subjacentes.
O curso clínico da pica é frequentemente transitório na infância típica, durando vários meses e entrando em remissão espontânea. Em adolescentes, pode estar associada a sintomas depressivos e uso de substâncias. Em populações com TEA ou DI, a pica pode persistir por anos, representando um desafio crônico de manejo. Na gravidez, a pica (como geofagia ou amilofagia) geralmente se limita à duração da gestação. Os principais fatores de risco incluem: presença de TEA ou DI, histórico de negligência ou maus-tratos infantis, privação psicossocial, supervisão inadequada, alimentação inadequada e deficiências nutricionais específicas (como ferro e zinco).
Etiopatogenia e neurobiologia
A etiologia da pica é multifatorial, sem uma causa biológica específica única identificada. Os modelos atuais integram fatores neurobiológicos, nutricionais, psicológicos e ambientais.
Fatores Nutricionais e Metabólicos: Deficiências de minerais, particularmente ferro e zinco, foram relatadas em associação com a pica. Há relatos de desejo específico por gelo (pagofagia) e terra (geofagia) em casos de anemia ferropriva. A correção da deficiência com suplementação pode levar à remissão do comportamento em alguns casos, sugerindo um mecanismo compensatório ou uma busca instintiva por nutrientes faltantes. No entanto, tais deficiências são consideradas raras como causa única e não explicam a maioria dos casos.
Fatores Neuropsiquiátricos e do Desenvolvimento: A forte associação com TEA e DI aponta para anormalidades no desenvolvimento cerebral como um substrato central. Em indivíduos com TEA, a pica pode estar relacionada a alterações sensoriais (busca por estímulos orais ou texturas específicas), comportamentos repetitivos e restritos (interesses fixos em objetos não comestíveis) ou dificuldades na discriminação entre itens comestíveis e não comestíveis. Na DI, o comportamento pode refletir um atraso na aquisição de habilidades adaptativas e na compreensão dos perigos. Esquizofrenia na infância e a Síndrome de Kleine-Levin também são citadas como condições comórbidas.
Fatores Psicológicos e Comportamentais: A pica pode funcionar como um mecanismo de autorregulação para estados de ansiedade, tédio ou estresse. Pode ser um comportamento aprendido ou mantido por consequências ambientais, como atenção (mesmo que negativa) dos cuidadores. Em contextos de grave negligência e privação psicossocial, como no nanismo psicossocial, a pica pode emergir como parte de um quadro de comportamentos bizarros e desorganizados, refletindo um ambiente caótico e não estimulante.
Fatores Socioculturais e Ambientais: A falta de supervisão adequada é um fator de risco ambiental significativo. Crianças com maior mobilidade e independência, mas com supervisão reduzida, têm maior acesso a substâncias perigosas. Práticas culturais podem, em raros casos, normalizar a ingestão de certas substâncias não alimentares por supostos benefícios espirituis ou medicinais; nesses contextos, um diagnóstico de pica não se aplica. A exposição ambiental a substâncias como tinta com chumbo em residências antigas é tanto um fator de risco quanto uma grave consequência.
Neurobiologia: Não há achados de neuroimagem ou genética molecular específicos para a pica. A neurobiologia é inferida a partir das condições comórbidas. Disfunções nos sistemas de neurotransmissão envolvidos no controle de impulsos, recompensa e comportamentos repetitivos (como os sistemas dopaminérgico e serotoninérgico) podem estar implicadas. A busca por substâncias não nutritivas pode ativar circuitos de recompensa de forma atípica em cérebros com desenvolvimento neuroatípico. A associação com sintomas depressivos em adolescentes sugere uma possível interface com alterações no sistema serotoninérgico.
Quadro clínico
A manifestação cardinal da pica é a ingestão persistente e recorrente de substâncias não nutritivas e não alimentares. O comportamento é secreto ou feito às escondidas em muitas ocasiões, sendo descoberto apenas quando surgem complicações médicas ou quando observado diretamente por um cuidador.
Substâncias Ingeridas: A natureza das substâncias varia com a idade, desenvolvimento, acesso e ambiente:
- Bebês e crianças pequenas (1-3 anos): Tinta, reboco, cordões, fios, cabelos, panos, algodão, poeira.
- Crianças maiores e adolescentes: Terra, argila, areia, pedras pequenas, cascalho, papel, sabão, giz, carvão, fezes de animais (coprofagia), gelo em excesso (pagofagia).
- Subtipos com nomes específicos: Geofagia (ingestão de terra/argila), Amilofagia (ingestão de amido, como goma de lavandeira ou maisena), Pagofagia (ingestão compulsiva de gelo).
Domínios Clínicos:
- Comportamento: O ato de ingerir é o sintoma central. Pode ser acompanhado por outros comportamentos orais (levar objetos à boca constantemente) ou estereotipias. Em adolescentes, pode coexistir com comportamentos de oposição, retraimento social ou uso de substâncias psicoativas.
- Cognição: Em crianças com desenvolvimento típico, a cognição pode estar preservada. Nos casos associados a TEA ou DI, observam-se os déficits cognitivos e adaptativos característicos dessas condições.
- Humor: Geralmente não há alterações primárias do humor, exceto na comorbidade com depressão em adolescentes, onde a pica pode ser um sintoma entre outros.
- Sintomas Somáticos: Frequentemente ausentes até o surgimento de complicações. A criança pode queixar-se de dor abdominal, constipação ou náuseas apenas quando há uma complicação física.
Especificadores Diagnósticos (DSM-5-TR): O DSM-5-TR não oferece especificadores para a pica, mas exige a especificação "Em remissão" se os critérios não forem mais preenchidos por um período prolongado. É crucial documentar a(s) substância(s) ingerida(s) e a gravidade (leve, moderada, grave) com base na frequência, quantidade e periculosidade do material.
Complicações Médicas: Constituem a principal razão para a busca de atendimento e variam conforme a substância:
- Intoxicação por chumbo: A complicação mais grave e comum em contextos de moradia inadequada, decorrente da ingestão de lascas de tinta à base de chumbo. Leva a anemia, dor abdominal, constipação, déficits neurocognitivos irreversíveis e encefalopatia.
- Obstrução ou perfuração intestinal: Por bolas de cabelo (tricobezoares), pedras, cascalho ou outros objetos acumulados.
- Infecções parasitárias: Como toxoplasmose ou larva migrans, por ingestão de terra ou fezes contaminadas.
- Deficiências nutricionais: Anemia e deficiência de zinco (por ingestão de argila que quelata minerais), deficiência grave de ferro (após ingestão de grandes quantidades de amido/goma).
- Danos dentários: Desgaste e fratura de dentes.
- Intoxicações diversas: Por produtos de limpeza, pesticidas ou outros químicos presentes nas substâncias ingeridas.
Avaliação e diagnóstico
A avaliação deve ser abrangente, multidisciplinar e focada em identificar a causa, as complicações e os fatores mantenedores.
1. Entrevista Clínica e Anamnese:
- História do Comportamento: Descrição precisa da substância ingerida, frequência, duração, contexto (quando e onde ocorre), e se há tentativas de esconder.
- História Desenvolvimental: Marcos do desenvolvimento, especialmente linguagem e interação social. Rastreio para sintomas de TEA.
- História Psiquiátrica Pessoal e Familiar: Sintomas de ansiedade, depressão, TEA, DI, esquizofrenia, outros transtornos alimentares.
- História Médica: Queixas gastrointestinais, sintomas de anemia (fadiga, palidez), histórico de infecções, exposição ambiental a chumbo.
- História Psicossocial: Dinâmica familiar, supervisão, possíveis situações de negligência ou maus-tratos, estressores recentes, condições de moradia.
- História Alimentar e Nutricional: Hábitos alimentares, apetite, possíveis deficiências.
2. Exame do Estado Mental:
Pode ser normal em crianças com desenvolvimento típico. Em casos associados a outras condições, pode revelar:
- Aparência: Criança pode parecer desnutrida, pálida (anêmica).
- Comportamento e Atividade: Hiperatividade, inquietação ou, inversamente, apatia. Pode-se observar a criança levando objetos à boca durante a consulta.
- Humor e Afeto: Pode ser eutímico, irritável ou deprimido.
- Pensamento: Em crianças maiores, pode haver pensamentos mágicos ou crenças incomuns sobre os benefícios da substância ingerida. Em TEA, pensamento concreto.
- Cognição: Avaliação do nível intelectual e funcionamento adaptativo é crucial.
3. Escalas e Instrumentos (Contexto Brasileiro):
Não existem escalas validadas especificamente para pica. A avaliação utiliza instrumentos para condições associadas:
- M-CHAT-R/F (Modified Checklist for Autism in Toddlers): Para rastreio de TEA em crianças pequenas.
- ADI-R (Autism Diagnostic Interview-Revised) e ADOS-2 (Autism Diagnostic Observation Schedule): Padrão-ouro para diagnóstico de TEA, aplicáveis por profissionais treinados.
- Escalas de Comportamento Adaptativo (ex.: Vineland-II): Para avaliar deficiência intelectual.
- CBCL (Child Behavior Checklist): Pode identificar problemas de comportamento internalizantes e externalizantes associados.
4. Exames Complementares:
São essenciais para descartar complicações e causas orgânicas:
- Laboratoriais:
- Hemograma completo (para anemia).
- Dosagem de Ferro sérico, Ferritina, Capacidade Total de Ligação do Ferro (TIBC).
- Dosagem de Zinco sérico.
- Chumbemia (Pb no sangue): Exame obrigatório em todos os casos suspeitos.
- Pesquisa de ovos e parasitas nas fezes.
- Níveis de vitaminas e outros minerais conforme a suspeita.
- Imagem:
- Radiografia de abdome: Pode revelar corpos estranhos radio-opacos (moedas, pedras, metais) ou impactação fecal.
- Radiografia abdominal seriada ou tomografia: Para suspeita de obstrução ou bezoares.
- Raio-X dos membros (em crianças): Pode mostrar linhas de chumbo em ossos longos em intoxicação crônica.
5. Diagnóstico Diferencial (Estruturado):
| Condição | Como Diferenciar da Pica |
|---|---|
| Comportamento Normal de Desenvolvimento Oral | Ocorre em crianças < 2 anos. É exploratório, não persistente, e geralmente não envolve ingestão real. |
| Aversão Alimentar / Anorexia Infantil | A recusa é por alimentos nutritivos, não há busca ativa por substâncias não nutritivas. |
| Deficiência de Ferro ou Zinco (isolada) | A pica pode ser um sintoma. A correção da deficiência leva à remissão do comportamento. A pica primária persiste mesmo com níveis normais. |
| Transtorno do Espectro Autista (TEA) | A pica é uma comorbidade frequente. O diagnóstico de TEA é feito pelos critérios de prejuízo social e comportamentos restritos/repetitivos. |
| Deficiência Intelectual (DI) | A pica é um comportamento desadaptativo comum. O diagnóstico de DI é baseado em déficits intelectuais e adaptativos. |
| Esquizofrenia de Início na Infância | A ingestão pode ser parte de um comportamento bizarro ou influenciada por delírios. Há presença de outros sintomas psicóticos. |
| Síndrome de Kleine-Levin | A pica pode ocorrer durante os episódios de hipersonia. O quadro é episódico, com períodos de normalidade. |
| Nanismo Psicossocial | A pica é um entre vários comportamentos bizarros (ex.: beber água da privada). Há grave prejuízo no crescimento, reversível com mudança de ambiente. |
| Prática Cultural Sancionada | A ingestão é aceita e praticada por um grupo cultural (ex.: geofagia em algumas comunidades). Não causa angústia ou prejuízo individual. |
6. Armadilhas Diagnósticas e Comorbidades Frequentes:
- Armadilha: Não investigar intoxicação por chumbo em TODOS os casos. É uma omissão grave com consequências neurológicas permanentes.
- Armadilha: Diagnosticar pica em crianças menores de 2 anos, confundindo com desenvolvimento normal.
- Armadilha: Ignorar o contexto de negligência ou maus-tratos, tratando apenas o sintoma.
- Comorbidades Frequentes: TEA, DI, Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH), Transtorno de Oposição Desafiante (TOD), Transtornos Depressivos, Transtornos de Ansiedade.
Tratamento farmacológico
Não existe um tratamento farmacológico específico aprovado para a pica. A farmacoterapia é direcionada às condições psiquiátricas comórbidas subjacentes que possam estar impulsionando ou exacerbando o comportamento. O manejo das complicações médicas (como suplementação de ferro) é primordial.
Algoritmo Terapêutico Baseado em Condições Associadas:
-
Condição Primária: Deficiência Nutricional (Ferro/Zinco).
- Intervenção de 1ª linha: Suplementação oral do mineral deficiente.
- Exemplo: Sulfato Ferroso, na dose de 3-6 mg/kg/dia de ferro elementar, dividido. Monitorar hemograma e ferritina.
- Resposta Esperada: Melhora do comportamento de pica em semanas a meses, se for secundário à deficiência.
-
Condição Primária: Transtorno do Espectro Autista ou Deficiência Intelectual com Comportamentos Disruptivos/Impulsivos.
- Intervenção de 1ª linha: Antipsicóticos Atípicos. Podem reduzir a impulsividade, agitação e comportamentos estereotipados que facilitam a pica.
- Risperidona: Dose inicial 0.25 mg/dia (≥20kg) ou 0.5 mg/dia (>20kg), titulando semanalmente. Dose alvo usual: 0.5-2.5 mg/dia. Monitorar: ganho de peso, perfil glicêmico, lipídico, prolactina, sinais extrapiramidais.
- Aripiprazol: Dose inicial 2 mg/dia, titulando para 5-15 mg/dia. Monitorar: agitação, sonolência, ganho de peso.
- Mecanismo: Antagonismo de receptores dopaminérgicos (D2) e serotoninérgicos (5-HT2A), modulando circuitos de recompensa e controle de impulsos.
- Intervenção de 1ª linha: Antipsicóticos Atípicos. Podem reduzir a impulsividade, agitação e comportamentos estereotipados que facilitam a pica.
-
Condição Primária: Transtorno Depressivo Maior ou Ansiedade Generalizada.
- Intervenção de 1ª linha: Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRS).
- Fluoxetina: Dose inicial 10 mg/dia, podendo titular até 20-40 mg/dia em adolescentes. Monitorar: ativação, ideação suicida (especialmente no início), sintomas gastrointestinais.
- Sertralina: Dose inicial 25 mg/dia, titulando até 50-200 mg/dia.
- Mecanismo: Aumento da disponibilidade de serotonina na fenda sináptica, melhorando regulação do humor e possivelmente reduzindo comportamentos compulsivos.
- Intervenção de 1ª linha: Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRS).
-
Condição Primária: Intoxicação por Chumbo.
- Intervenção Específica: Quelação. Indicada para níveis de chumbo no sangue ≥45 µg/dL em crianças. Deve ser realizada em ambiente hospitalar por médico com experiência.
- Agentes: Succimer (DMSA), EDTA de cálcio dissódico, D-penicilamina.
- Atenção: A quelação trata a intoxicação, mas não o comportamento de pica. A intervenção comportamental e ambiental é obrigatória para prevenir reexposição.
- Intervenção Específica: Quelação. Indicada para níveis de chumbo no sangue ≥45 µg/dL em crianças. Deve ser realizada em ambiente hospitalar por médico com experiência.
Contexto Brasileiro (SUS/RENAME):
A maioria dos medicamentos citados (sulfato ferroso, risperidona, fluoxetina, sertralina) está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS) através da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME) e pode ser dispensada em CAPS Infantojuvenil (CAPSi) ou em farmácias de alto custo, mediante protocolos. A avaliação para prescrição de antipsicóticos em crianças e adolescentes deve ser criteriosa e seguir as diretrizes da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e do Conselho Federal de Medicina (CFM).
Tratamento não farmacológico
É a pedra angular do tratamento da pica, especialmente nos casos sem uma condição psiquiátrica comórbida medicável ou como terapia adjuvante essencial.
1. Intervenções Comportamentais (Baseadas em Análise do Comportamento Aplicada – ABA):
São as mais estudadas e eficazes, principalmente para indivíduos com TEA ou DI.
- Identificação de Antecedentes e Consequências (A-B-C): Analisar o que precipita o comportamento (tédio, ansiedade, fome) e o que o mantém (atenção, acesso a um item preferido, escape de uma demanda).
- Reforço Diferencial de Comportamentos Incompatíveis (DRI): Reforçar vigorosamente um comportamento que seja fisicamente incompatível com a pica (ex.: manter as mãos ocupadas com uma bola anti-stress, brincar com massinha).
- Reforço Diferencial de Comportamentos Alternativos (DRA): Ensinar e reforçar um comportamento alternativo que atenda à mesma função (ex.: se a função for estímulo oral, oferecer um alimento crocante e seguro; se for atenção, ensinar a pedir atenção de forma adequada).
- Treinamento de Discriminação: Ensinar a diferenciar itens "comestíveis" vs. "não comestíveis" usando figuras, objetos reais e reforço positivo.
- Procedimentos de Redução (quando necessário e sob supervisão especializada): Como correção suave (retirar o item da boca e redirecionar) ou supervisão próxima.
2. Modificações Ambientais e de Segurança:
- "À Prova de Pica": Remover ou tornar inacessíveis todas as substâncias-alvo. Tampar tomadas, remover tinta descascada, guardar produtos de limpeza, usar lixeiras com tampa, limitar acesso a cômodos perigosos.
- Supervisão Aumentada: Monitoramento constante, especialmente em períodos de risco. Pode envolver a criação de rotinas estruturadas e ambientes enriquecidos para reduzir o tédio.
- Intervenção Nutricional: Garantir uma dieta balanceada e nutritiva, com horários regulares, para afastar a fome como desencadeante. Em alguns casos, o aumento da fibra dietética pode promover saciedade.
3. Psicoterapias:
- Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC): Pode ser útil para adolescentes com insight preservado. Foca em identificar pensamentos disfuncionais associados ao comportamento, desenvolver estratégias de enfrentamento para impulsos, e treinar habilidades de autorregulação e solução de problemas.
- Terapia Familiar Sistêmica: Fundamental quando há dinâmicas familiares disfuncionais, negligência ou dificuldades de supervisão. Trabalha a psicoeducação, estabelece regras claras de segurança, melhora a comunicação e apoia os cuidadores.
4. Tratamento de Condições Subjacentes:
- Intervenção Precoce e Educação Especializada: Para crianças com TEA ou DI, programas educacionais individualizados que trabalhem comunicação, habilidades sociais e de vida diária são essenciais.
- Intervenção em Casos de Negligência/Maus-Tratos: A notificação ao Conselho Tutelar e a intervenção dos órgãos de proteção são obrigatórias. O manejo do ambiente psicossocial é prioritário sobre qualquer outra intervenção.
Procedimentos como ECT ou TMS não têm indicação para pica, a menos que estejam sendo considerados para uma condição comórbida grave e refratária (ex.: depressão catatônica).
Manejo clínico prático
Tomada de Decisão Inicial:
- Avaliação de Emergência: Investigar imediatamente complicações médicas agudas (obstrução, dor abdominal intensa) e intoxicação por chumbo. Estas demandam intervenção hospitalar.
- Identificar a Causa Primária: A abordagem é direcionada pela etiologia suspeita: deficiência nutricional (suplementar), TEA/DI (intervenção comportamental ± medicação para sintomas-alvo), negligência (proteção social).
- Envolvimento Multidisciplinar: O manejo ideal envolve psiquiatra infantil, pediatra, psicólogo (com formação em ABA ou TCC), terapeuta ocupacional (para questões sensoriais), assistente social e nutricionista.
Monitoramento da Resposta:
- Critérios de Melhora: Redução na frequência e/ou intensidade dos episódios de ingestão, aumento de comportamentos seguros e alternativos, resolução de complicações médicas.
- Remissão: Ausência do comportamento por um período prolongado (meses), mantida mesmo com a redução gradual das intervenções.
- Ferramentas: Diários de comportamento preenchidos pelos pais, checklists, reavaliações médicas e laboratoriais periódicas (ex.: chumbemia a cada 3-6 meses até normalização).
Manejo da Resistência Terapêutica:
Se não houver resposta após 3-6 meses de intervenção adequada:
- Reavaliar o diagnóstico e as comorbidades.
- Revisar a análise funcional do comportamento (a função pode ter mudado).
- Intensificar a intervenção comportamental (aumentar horas de terapia, envolver mais cuidadores).
- Revisar a farmacoterapia para comorbidades (ajustar dose, trocar ou adicionar medicação).
- Considerar encaminhamento para serviços de maior complexidade, como hospitais-dia ou internação psiquiátrica infantil para estabilização comportamental intensiva.
Contexto Brasileiro – Rede de Atenção:
- SUS: A porta de entrada é a Unidade Básica de Saúde (UBS) ou a Pediatria. O encaminhamento deve ser feito para o CAPS Infantojuvenil (CAPSi), que é o serviço de referência para o cuidado multiprofissional em saúde mental. O CAPSi pode coordenar a intervenção, oferecer psicoterapia, acompanhamento psiquiátrico e articulação com a rede (escola, conselho tutelar).
- Acesso a Medicamentos: Medicações básicas estão na RENAME. Medicamentos de alto custo ou não padronizados podem ser solicitados via processos de solicitação judicial, uma realidade desafiadora no SUS.
- Desafios: Filas de espera para CAPSi, escassez de profissionais especializados em ABA, dificuldades socioeconômicas das famílias que impedem a "prova de pica" do ambiente. A atuação do assistente social do CAPS é vital para acessar benefícios e recursos comunitários.
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
Como o Paciente Vivencia:
Crianças pequenas podem não verbalizar o comportamento ou podem vê-lo como um hábito ou uma forma de explorar/confrontar o mundo. Não há necessariamente consciência do perigo. Adolescentes podem sentir vergonha, culpa ou medo de serem descobertos, especialmente se o comportamento é percebido como "bizarro". Em casos de deficiência, a compreensão sobre os riscos é limitada. A queixa principal que traz a família é quase sempre médica (dor, anemia) ou a observação direta do ato.
Psicoeducação para a Família:
- O que é: Explicar que a pica é um transtorno médico-psiquiátrico, não uma "manha", "teimosia" ou falta de educação. Desmistificar e retirar a culpa da criança e dos pais é o primeiro passo.
- Riscos Concretos: Mostrar, de forma clara e visual se possível, os perigos específicos da substância ingerida (ex.: mostrar uma radiografia com chumbo no intestino, explicar os danos cerebrais).
- Plano de Segurança: Ensinar a "à prova de pica" a casa. Fornecer uma lista prática de verificação.
- Estratégias de Manejo: Treinar os cuidadores nas técnicas básicas de redirecionamento, reforço positivo e supervisão. Enfatizar que gritar ou punir é ineficaz e pode piorar o comportamento.
- Expectativas Realistas: Deixar claro que o tratamento é gradual, requer paciência e consistência, e que recaídas podem ocorrer.
Impacto Funcional e na Qualidade de Vida:
Além dos riscos à saúde, a pica pode levar a isolamento social (a criança não pode ir a certos lugares ou brincar com outras por segurança), estresse familiar crônico, sobrecarga dos cuidadores e atrasos no desenvolvimento se não for manejada. A família vive em estado constante de vigilância.
Adesão ao Tratamento:
- Barreiras: Estigma, desesperança, exaustão dos cuidadores, custo de adaptações ambientais, dificuldade de acesso a terapias especializadas, falta de suporte social.
- Estratégias: Envolver a família como parte ativa da equipe; estabelecer metas pequenas e alcançáveis para celebrar progressos; conectar a família a grupos de apoio (se existirem); utilizar recursos da comunidade (assistente social); simplificar as recomendações para que sejam factíveis dentro da realidade familiar.
Perguntas frequentes
1. Meu filho de 18 meses come areia no parque. Isso é pica?
Não necessariamente. Crianças abaixo de 2 anos exploram o mundo pela boca. Ingestão ocasional e não persistente de substâncias não alimentares pode fazer parte do desenvolvimento normal. A supervisão e o redirecionamento para brinquedos adequados são as ações indicadas. Preocupe-se se o comportamento for persistente (mais de um mês), compulsivo e continuar após os 2 anos de idade.
2. A pica tem cura?
Na maioria das crianças com desenvolvimento típico, a pica é transitória e entra em remissão espontânea após alguns meses ou com intervenções simples. Em indivíduos com Transtorno do Espectro Autista ou Deficiência Intelectual, o comportamento pode ser mais crônico e persistente, exigindo manejo contínuo ao longo da vida, mas pode ser bem controlado com intervenções adequadas.
3. Comer gelo (pagofagia) é um tipo de pica?
Sim, a ingestão compulsiva e persistente de grandes quantidades de gelo é considerada pagofagia, um subtipo de pica. É fortemente associada à deficiência de ferro (anemia ferropriva). A avaliação com hemograma e dosagem de ferritina é mandatória. Muitas vezes, a suplementação de ferro resolve o comportamento.
4. Quando devo procurar um psiquiatra infantil?
Procure um psiquiatra infantil ou um CAPSi se: o comportamento persistir por mais de um mês após os 2 anos de idade; houver ingestão de substâncias perigosas (tinta, produtos de limpeza); surgirem complicações médicas (anemia, dor abdominal); houver suspeita de uma condição subjacente como autismo ou deficiência intelectual; ou se as tentativas de manejo em casa forem ineficazes.
5. Existe remédio para parar de comer coisas não alimentares?
Não existe um medicamento específico para a pica. Remédios podem ser usados para tratar condições associadas que pioram o comportamento, como a impulsividade no autismo (com antipsicóticos atípicos) ou a depressão em adolescentes (com antidepressivos). O tratamento principal é não medicamentoso (comportamental e ambiental).
6. A pica pode ser causada por vermes?
Não é uma causa direta. No entanto, a ingestão de terra ou sujeira (geofagia) pode causar infecções parasitárias. O inverso (vermes causarem vontade de comer terra) é um mito popular sem fundamento científico. A presença de parasitas é uma complicação, não uma causa.
7. Como posso "à prova de pica" minha casa?
É um processo contínuo: repare tintas descascadas, use travas em portas de cômodos perigosos (lavanderia, banheiro), guarde todos os produtos de limpeza e medicamentos em armários altos e trancados, use lixeiras com tampa pesada, remova pequenos objetos do chão, e supervisione a criança durante brincadeiras ao ar livre.
8. No SUS, a quem devo recorrer?
Inicie na Unidade Básica de Saúde (UBS) com o pediatra ou médico da família. Ele fará os exames iniciais (como chumbemia) e poderá encaminhar para o CAPS Infantojuvenil (CAPSi) da sua região, que é o serviço especializado. Em casos de emergência médica (intoxicação, obstrução), procure imediatamente um Pronto-Socorro.
Referências
- Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria: Ciência do Comportamento e Psiquiatria Clínica. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017. (Fonte técnica principal para os trechos citados sobre pica).
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5-TR. 5ª ed. texto revisado. Porto Alegre: Artmed, 2022.
- Organização Mundial da Saúde. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID-11. Genebra: OMS, 2022.
- Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Diretrizes e protocolos clínicos para transtornos da infância e adolescência (documentos oficiais e posicionamentos). Disponível em: [https://www.abp.org.br/] (Acesso deve ser feito ao site oficial para diretrizes atualizadas).
- Ministério da Saúde (BR). Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME). Brasília: Ministério da Saúde, 2022.
- Ministério da Saúde (BR). Portaria nº 3.088, de 23 de dezembro de 2011. Institui a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Brasília, 2011. (Define a atuação dos CAPS).
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.