O que é e para que serve?
A ondansetrona é um antiemético — ou seja, um remédio feito para combater náuseas e vômitos. Ela não é um antidepressivo nem um calmante; o foco dela é bem específico: impedir que você sinta aquele enjoo que não passa ou que fique vomitando sem conseguir parar.
No Brasil, ela é usada principalmente para controlar náuseas e vômitos causados por quimioterapia, radioterapia e cirurgias (aquele enjoo que aparece depois de acordar da anestesia). Mas médicos também a prescrevem em outras situações, como enjoos intensos na gravidez, gastroenterites graves ou como apoio em alguns tratamentos psiquiátricos — por exemplo, junto com antipsicóticos ou em pessoas com dependência de álcool.
No Brasil, você vai encontrar a ondansetrona com os nomes comerciais Vonau®, Zofran® e Nausedron®, além de várias versões genéricas com o próprio nome “ondansetrona”. Ela vem em comprimidos, comprimidos que dissolvem na língua (muito úteis quando você está enjoado demais para engolir nada) e em solução injetável para uso hospitalar.
Como ela age no seu cérebro?
Pense assim: quando você faz quimioterapia, toma certos remédios ou passa por uma cirurgia, o seu intestino fica irritado e começa a liberar uma substância chamada serotonina (um mensageiro químico do corpo). Essa serotonina vai até um nervo chamado nervo vago e manda um recado para o cérebro: “Ei, tem algo errado aqui — vomita!”. O cérebro obedece, e lá vem o enjoo.
A ondansetrona age como um segurança na porta de um clube: ela se posiciona nos receptores 5-HT3 (os “portões” onde a serotonina tentaria entrar para dar esse recado de vômito) e simplesmente não deixa a serotonina passar. Sem o recado chegando, o cérebro não dá a ordem de vomitar.
O que é importante saber: ela bloqueia um tipo muito específico de receptor de serotonina. Ela não mexe com dopamina (outro mensageiro ligado ao humor e ao movimento) e não age como os antipsicóticos tradicionais. Por isso, ela tem um perfil de efeitos colaterais bem diferente e mais tranquilo do que muitos outros antieméticos mais antigos.
Quando começa a fazer efeito?
A ondansetrona é rápida — esse é um dos seus pontos fortes. Quando tomada por via oral, ela começa a agir em 30 a 60 minutos. Na forma injetável (usada no hospital), o efeito é ainda mais rápido.
Por isso, quando usada para prevenir enjoo de quimioterapia, ela costuma ser tomada antes do tratamento começar — não depois que o enjoo já instalou. É muito mais fácil impedir o recado de chegar do que tentar apagar o alarme depois que ele já disparou.
Se você está tomando para uma situação mais crônica (como suporte em tratamento psiquiátrico), o efeito vai sendo percebido de forma gradual, conforme o remédio se mantém no organismo com as doses regulares.
Como tomar corretamente
A ondansetrona pode ser tomada com ou sem comida — a presença de alimento até ajuda um pouco o corpo a absorvê-la melhor, mas não é obrigatório. Se você está enjoado, não se preocupe em comer antes de tomar.
As doses mais comuns para adultos são 4 mg ou 8 mg, tomados conforme a orientação do seu médico. Não existe uma regra única, porque a dose depende muito do motivo pelo qual você está usando: para quimioterapia a dose pode ser maior, para outros usos pode ser menor e mais espaçada.
Se esquecer uma dose, tome assim que lembrar — a menos que já esteja próximo do horário da próxima dose. Nesse caso, pule a esquecida e siga normalmente. Nunca tome duas doses de uma vez para compensar.
Não pare de tomar por conta própria sem conversar com o médico, especialmente se estiver usando de forma contínua como parte de um tratamento mais longo.
Efeitos colaterais possíveis — e por que eles acontecem
Comuns (acontecem com mais frequência, geralmente passageiros)
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Dor de cabeça: É o efeito colateral mais relatado. Acontece porque a serotonina também tem papel na regulação dos vasos sanguíneos da cabeça, e ao bloquear seus receptores, pode haver uma leve alteração nessa regulação. Costuma ser leve e passa sozinha. Um analgésico comum (como paracetamol) resolve na maioria das vezes.
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Prisão de ventre: A serotonina também controla o movimento do intestino. Ao bloquear os receptores 5-HT3 no intestino, a ondansetrona deixa o trânsito intestinal mais lento. Beba bastante água, coma frutas e fibras. Se ficar muito incômodo, avise o médico.
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Diarreia: Menos comum que a constipação, mas pode acontecer em algumas pessoas — o intestino reage de forma diferente em cada um. Geralmente é leve e passa.
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Cansaço ou mal-estar geral: Algumas pessoas relatam uma sensação de fadiga, especialmente no início. Tende a melhorar com o tempo.
Menos comuns
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Sensação de calor ou rubor no rosto: Um leve calor ou vermelhidão pode aparecer logo após tomar o remédio, especialmente na forma injetável. Passa rapidamente e não é perigoso.
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Boca seca: Acontece porque a ondansetrona pode reduzir levemente a produção de saliva. Manter-se hidratado e chupar balas sem açúcar ajuda.
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Tontura: Pode ocorrer, especialmente se você levantar rápido da cama ou da cadeira. Levante devagar e segure em algo firme.
Raros mas importantes (quando ir ao médico imediatamente)
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Alteração no ritmo cardíaco (prolongamento do QT): A ondansetrona pode, em doses altas ou em pessoas com predisposição, afetar o ritmo elétrico do coração — um fenômeno chamado “prolongamento do intervalo QT”. Você pode sentir o coração batendo de forma estranha, acelerado ou irregular, ou sentir tontura intensa e desmaio. Isso é mais raro com doses orais comuns, mas é importante saber. Se sentir palpitações ou desmaiar, vá a uma emergência.
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Reação alérgica grave: Muito rara, mas pode acontecer. Sinais: inchaço no rosto, lábios ou garganta, dificuldade para respirar, urticária intensa. Ligue para o SAMU (192) ou vá imediatamente a uma emergência.
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Síndrome serotoninérgica: Extremamente rara com a ondansetrona sozinha, mas pode ocorrer se ela for usada junto com outros remédios que aumentam a serotonina (como antidepressivos). Os sinais são: agitação, confusão mental, tremores, batimento cardíaco acelerado e febre. É uma emergência médica.
O que fazer se tiver efeitos colaterais?
A maioria dos efeitos colaterais da ondansetrona é leve e passa sozinha em poucos dias. Dor de cabeça e prisão de ventre são os mais comuns e raramente exigem que você pare o remédio.
Ligue para o seu médico se:
– A prisão de ventre durar mais de 3 dias sem melhora
– A dor de cabeça for muito intensa ou não ceder com analgésico
– Você sentir tontura persistente que atrapalha suas atividades
Vá a uma UPA ou emergência se:
– Sentir o coração batendo de forma irregular ou muito acelerada
– Tiver dificuldade para respirar ou inchaço no rosto/garganta
– Sentir confusão mental, tremores e febre ao mesmo tempo
Não pare o remédio abruptamente sem falar com o médico, especialmente se estiver em uso contínuo. Se os efeitos colaterais estiverem insuportáveis, ligue para o consultório e explique — sempre há alternativas.
Cuidados importantes
Álcool: Misturar ondansetrona com álcool não é uma boa ideia. O álcool já irrita o estômago e pode piorar o enjoo que você está tentando tratar. Além disso, ambos podem afetar o coração de formas que se somam. Evite.
Outros remédios: Avise sempre o seu médico sobre tudo que você toma, incluindo remédios naturais e suplementos. Alguns remédios importantes para ficar atento:
– Antidepressivos (especialmente ISRS e IRSN): Podem aumentar o risco de síndrome serotoninérgica quando combinados com ondansetrona. Não significa que não podem ser usados juntos — significa que o médico precisa saber e monitorar.
– Apomorfina (usado para Parkinson): Combinação proibida. Pode causar queda grave da pressão e perda de consciência.
– Tramadol (analgésico): A ondansetrona pode reduzir o efeito do tramadol. Se você usa os dois, avise o médico.
– Fenitoína, carbamazepina e rifampicina: Esses remédios aceleram a eliminação da ondansetrona pelo fígado, podendo reduzir sua eficácia.
Gravidez: A ondansetrona é usada em casos de enjoos graves na gravidez, mas a decisão deve ser do médico. Estudos mostram que o risco é baixo, mas existe uma discussão sobre um possível (e pequeno) risco de alterações cardíacas no bebê em uso no primeiro trimestre. Não tome por conta própria durante a gravidez.
Amamentação: Pequenas quantidades passam para o leite materno, mas os estudos disponíveis não mostraram efeitos negativos nos bebês. Converse com o seu médico para avaliar o risco-benefício no seu caso.
Idosos: O organismo de pessoas mais velhas elimina a ondansetrona mais devagar, então pode ser necessário ajuste de dose. O risco de alteração no ritmo cardíaco também merece atenção maior nessa faixa etária.
Problemas no fígado: O fígado é responsável por processar a ondansetrona. Se você tem doença hepática grave, avise o médico — pode ser necessário reduzir a dose.
Perguntas frequentes
Posso tomar ondansetrona para enjoo de carro ou de barco?
Tecnicamente ela funciona para enjoo, mas não é a primeira escolha para esse tipo de situação. Para enjoo de movimento (cinetose), existem remédios mais específicos e mais baratos, como a dimenidrinato. Converse com o médico ou farmacêutico sobre a melhor opção para você.
Vou ficar dependente da ondansetrona?
Não. A ondansetrona não causa dependência física nem psicológica. Ela não dá euforia, não altera o humor e não cria aquela sensação de “precisar” do remédio. Você pode parar de tomar quando o médico indicar, sem síndrome de abstinência.
Posso tomar ondansetrona e dirigir?
Na maioria das pessoas, sim. Mas se você sentir tontura ou cansaço nas primeiras doses, espere para ver como o seu corpo reage antes de pegar o volante. Cada organismo responde de um jeito.
Por que meu médico prescreveu ondansetrona junto com meu antipsicótico?
Pesquisas mostraram que a ondansetrona, quando usada junto com antipsicóticos, pode ajudar a melhorar alguns sintomas da esquizofrenia — especialmente os chamados “sintomas negativos” (como apatia e isolamento). Também pode reduzir alguns efeitos colaterais dos antipsicóticos. É um uso menos conhecido, mas com base científica.
Quanto tempo vou precisar tomar?
Depende completamente do motivo pelo qual você está usando. Para enjoo de quimioterapia, pode ser só nos dias do tratamento. Para uso psiquiátrico contínuo, pode ser por meses. Quem define isso é o seu médico, com base na sua resposta ao tratamento.
Referências
- Bula de Ondansetrona — ANVISA (disponível em: bulario.anvisa.gov.br)
- Stahl, S.M. Psicofarmacologia Prática — Bases neurocientíficas e aplicações clínicas. Artmed, 2021.
- PubChem — National Library of Medicine. Ondansetron. Compound CID 4595. Disponível em: pubchem.ncbi.nlm.nih.gov
Este conteúdo é educativo e não substitui a orientação do seu médico. Em caso de dúvidas, consulte o profissional que te prescreveu.