Metadona

O que é e para que serve?

A metadona é um opioide sintético — ou seja, um remédio da mesma família da morfina e da codeína, fabricado em laboratório. Ela age diretamente no sistema nervoso central para aliviar a dor e, principalmente, para ajudar pessoas que dependem de opioides (como heroína, morfina ou outros analgésicos fortes) a se tratarem de forma segura e controlada.

No Brasil, ela é usada em dois contextos principais: no tratamento da dependência de opioides, dentro de programas especializados de saúde, e no controle de dores crônicas intensas que não respondem a outros analgésicos. Por ser um medicamento controlado de uso restrito, ela só é dispensada em serviços autorizados pelo Ministério da Saúde — você não vai encontrá-la em farmácias comuns.

Os nomes comerciais disponíveis no Brasil incluem Metadon® e Mytedom®, além de formulações manipuladas em farmácias especializadas credenciadas. Em programas públicos de tratamento, ela costuma ser fornecida diretamente pelo serviço de saúde, muitas vezes em solução oral.


Como ele age no seu cérebro?

Pense no seu cérebro como uma cidade cheia de fechaduras espalhadas por todos os lados. Essas fechaduras se chamam receptores opioides — elas existem naturalmente no seu corpo e servem para receber substâncias que aliviam dor e regulam o humor. Quando você usa heroína ou morfina, essas drogas abrem essas fechaduras de forma muito intensa e rápida, causando euforia e dependência.

A metadona funciona como uma chave que abre as mesmas fechaduras, mas de um jeito muito mais lento e controlado. Ela “encaixa” principalmente nos receptores chamados mu (pronuncia-se “mi”) — que são os principais responsáveis pelo alívio da dor e pela sensação de bem-estar. Por agir devagar e durar muito tempo no organismo, ela não provoca aquela euforia intensa que as drogas ilícitas causam. É como trocar uma montanha-russa por uma estrada plana: o corpo recebe o que precisa para não entrar em crise, mas sem os picos e quedas violentas.

Além disso, a metadona também bloqueia parcialmente outro tipo de receptor no cérebro chamado NMDA (um receptor que participa da transmissão de sinais de dor). Isso ajuda a explicar por que ela funciona bem em dores crônicas difíceis de tratar.


Quando começa a fazer efeito?

No tratamento da dependência de opioides, a metadona começa a agir relativamente rápido — nas primeiras horas após a dose. Mas o ajuste fino, aquele ponto em que a dose está certa para controlar a fissura e os sintomas de abstinência sem causar sonolência excessiva, pode levar alguns dias a algumas semanas.

Pense assim: é como regular a temperatura de um chuveiro elétrico antigo. Você vai ajustando aos poucos até encontrar o ponto ideal. Nas primeiras semanas, o médico vai monitorar como você está respondendo e pode ajustar a dose com cuidado.

Para dor crônica, o efeito analgésico também aparece nas primeiras doses, mas a estabilização do tratamento — quando o nível do remédio no sangue fica constante — leva alguns dias. Não tente acelerar esse processo tomando doses extras: a metadona tem uma característica importante que explicamos mais abaixo, e doses a mais podem ser perigosas.


Como tomar corretamente

A metadona geralmente é tomada uma vez ao dia, por via oral — seja em comprimido (5 mg ou 10 mg) ou em solução líquida. Em programas de tratamento para dependência, a dose de manutenção costuma ficar entre 60 e 120 mg por dia. Para abstinência aguda, doses menores são usadas no início, com aumento gradual.

Pode ser tomada com ou sem alimento — o estômago cheio pode deixar a absorção um pouco mais lenta, mas não compromete o efeito. Se você toma no mesmo horário todo dia, o nível do remédio no sangue fica mais estável, o que é importante para o tratamento funcionar bem.

Se esquecer uma dose: tome assim que lembrar, desde que não esteja próximo do horário da próxima. Se já estiver perto, pule a dose esquecida e siga normalmente. Nunca tome dose dupla para compensar.

Não pare de tomar por conta própria. A metadona precisa ser reduzida aos poucos, com orientação médica. Parar de repente pode causar sintomas sérios de abstinência.


Efeitos colaterais possíveis — e por que eles acontecem

Comuns (acontecem com mais frequência, geralmente passageiros)

  • Sonolência e cansaço: A metadona age no sistema nervoso central e, especialmente no início do tratamento, pode deixar você com sono. Isso tende a melhorar conforme o corpo se adapta à dose. Evite dirigir ou operar máquinas até saber como o remédio te afeta.

  • Náusea e vômito: Os receptores opioides existem também em uma região do cérebro que controla o reflexo do vômito. Quando a metadona os ativa, pode dar enjoo — especialmente nas primeiras semanas. Tomar com um lanche leve pode ajudar.

  • Constipação (intestino preso): Esse é um dos efeitos mais persistentes. A metadona reduz os movimentos do intestino, deixando tudo mais lento. Beba bastante água, coma fibras e, se necessário, converse com seu médico sobre um laxante suave.

  • Suor excessivo: Muitas pessoas transpiram mais do que o normal, especialmente à noite. Isso acontece porque os opioides afetam a regulação da temperatura corporal. Não é perigoso, mas pode ser incômodo.

  • Boca seca: Os opioides reduzem a produção de saliva ao afetar o sistema nervoso autônomo (a parte do sistema nervoso que controla funções automáticas do corpo). Beba água com frequência e evite balas muito açucaradas, que podem favorecer cáries.

  • Tontura: Especialmente ao levantar rápido, porque a metadona pode baixar um pouco a pressão arterial. Levante devagar, segure em algo se precisar.

Menos comuns

  • Coceira na pele: A metadona pode fazer com que células da pele liberem histamina (a mesma substância envolvida em alergias), causando coceira e vermelhidão. Isso não é uma alergia de verdade ao remédio, mas pode ser desconfortável. Anti-histamínicos podem ajudar — pergunte ao seu médico.

  • Diminuição do desejo sexual e alterações hormonais: O uso prolongado de opioides pode reduzir os níveis de testosterona em homens e alterar o ciclo menstrual em mulheres. Isso acontece porque os opioides interferem no eixo hormonal do cérebro. Se notar essas mudanças, converse com seu médico.

  • Inchaço nas pernas: Pode ocorrer retenção de líquido em algumas pessoas. Eleve as pernas quando possível e informe ao médico se o inchaço for intenso.

  • Dificuldade para urinar: Os opioides aumentam o tônus muscular da bexiga, dificultando o esvaziamento. Se sentir dificuldade para urinar, avise o médico.

Raros mas importantes (quando ir ao médico imediatamente)

  • Respiração lenta ou difícil: Este é o efeito mais sério da metadona. Ela pode diminuir o impulso do cérebro para respirar, especialmente em doses altas ou quando combinada com outros remédios que causam sonolência. Se alguém ao seu redor estiver respirando muito devagar, com dificuldade para acordar ou com lábios azulados, ligue imediatamente para o SAMU (192) ou vá à emergência.

  • Batimento cardíaco irregular (arritmia): A metadona pode alterar a condução elétrica do coração, prolongando um intervalo chamado QT (uma medida do eletrocardiograma). Em casos raros, isso pode causar arritmias graves. Sintomas de alerta: coração acelerado ou irregular, desmaio, sensação de que o coração “pulou”. Procure atendimento de urgência se isso acontecer.

  • Síndrome serotoninérgica: Se combinada com certos antidepressivos, a metadona pode causar um excesso de serotonina no cérebro. Sintomas: agitação intensa, tremores, febre, confusão mental. É uma emergência médica.


O que fazer se tiver efeitos colaterais?

Náusea, sonolência leve e constipação nas primeiras semanas são esperadas e costumam melhorar. Não pare o remédio por causa delas — converse com seu médico, que pode sugerir ajustes ou medidas para aliviar o desconforto.

Ligue para o seu médico ou serviço de tratamento se:
– Os efeitos colaterais estiverem atrapalhando muito sua rotina
– Você sentir coceira intensa ou inchaço no rosto (pode ser reação alérgica)
– Notar batimentos cardíacos irregulares ou desmaios
– Sentir dificuldade para urinar por mais de algumas horas

Vá à UPA ou emergência imediatamente se:
– Você ou alguém próximo estiver respirando muito devagar ou com dificuldade para acordar
– Houver suspeita de overdose (sonolência extrema, lábios roxos, não responde ao chamado)
– Sentir agitação intensa, tremores e febre ao mesmo tempo

Nunca pare a metadona de repente. A retirada abrupta causa sintomas de abstinência que podem ser muito intensos: dores no corpo, diarreia, ansiedade, insônia, cólicas. A redução precisa ser feita gradualmente, sempre com orientação médica.


Cuidados importantes

Álcool e outros remédios que causam sonolência: Misturar metadona com álcool, benzodiazepínicos (como diazepam ou clonazepam), outros opioides ou remédios para dormir é muito perigoso. Todos esses combinados aumentam o risco de parar de respirar durante o sono. Evite completamente.

Antibióticos, antifúngicos e antirretrovirais: Alguns remédios usados para infecções (como eritromicina, fluconazol e medicamentos para HIV) podem aumentar o nível de metadona no sangue, elevando o risco de overdose. Outros, como rifampicina e carbamazepina, fazem o oposto — reduzem o efeito da metadona e podem desencadear abstinência. Sempre informe ao médico ou farmacêutico que você usa metadona antes de começar qualquer remédio novo.

Antidepressivos: Alguns antidepressivos, especialmente a fluvoxamina, podem aumentar os níveis de metadona. Outros podem interagir e causar síndrome serotoninérgica. Informe sempre ao seu psiquiatra ou clínico todos os remédios que você usa.

Gravidez: A metadona é usada em gestantes dependentes de opioides porque é considerada mais segura do que a abstinência abrupta ou o uso de drogas ilícitas durante a gravidez. No entanto, bebês nascidos de mães em uso de metadona podem apresentar síndrome de abstinência neonatal — ficam irritados, com tremores e dificuldade para se alimentar nos primeiros dias de vida. Isso é tratável e monitorado pela equipe médica. Se você está grávida, não pare a metadona sem orientação — converse com seu obstetra e com o médico que acompanha seu tratamento.

Amamentação: Pequenas quantidades de metadona passam para o leite materno. Em doses estáveis e baixas, o aleitamento pode ser permitido com monitoramento, mas a decisão deve ser tomada junto com o médico. Bebês amamentados por mães em uso de metadona precisam ser observados para sinais de sonolência excessiva.

Idosos: São mais sensíveis aos efeitos da metadona, especialmente à sonolência e ao risco de queda. Doses menores e monitoramento mais frequente são necessários.

Problemas cardíacos: Se você tem histórico de arritmia, usa diuréticos ou tem níveis baixos de potássio ou magnésio no sangue, o risco de alteração no ritmo cardíaco é maior. Seu médico pode pedir um eletrocardiograma antes e durante o tratamento.


Perguntas frequentes

Vou ficar dependente da metadona?
O corpo desenvolve adaptação física à metadona com o tempo — isso significa que parar de repente causa sintomas de abstinência. Mas isso é diferente de dependência no sentido de perda de controle. No tratamento de dependência de opioides, a metadona é usada justamente para estabilizar o organismo e permitir que você recupere sua vida. A retirada, quando chegar a hora, é feita de forma gradual e planejada com o médico.

Posso beber álcool enquanto tomo metadona?
Não. Álcool e metadona juntos aumentam muito o risco de depressão respiratória — ou seja, o risco de você parar de respirar durante o sono. Essa combinação pode ser fatal. Evite completamente.

A metadona vai me deixar “chapado” ou sedado o dia todo?
Nas primeiras semanas, alguma sonolência é comum enquanto o corpo se adapta. Com a dose certa e estabilizada, a maioria das pessoas consegue levar uma vida normal — trabalhar, estudar, cuidar da família. Se a sonolência persistir ou for intensa, converse com seu médico sobre ajuste de dose.

Posso parar de tomar quando me sentir bem?
Não por conta própria. Sentir-se bem é um sinal de que o tratamento está funcionando — não de que ele acabou. A retirada precisa ser planejada com o médico, de forma lenta e gradual, para evitar abstinência e recaída.

E se eu tomar uma dose a mais por acidente?
Procure atendimento médico imediatamente, mesmo que esteja se sentindo bem. A metadona tem uma característica importante: o efeito de depressão respiratória pode aparecer horas depois da dose, quando o efeito analgésico já passou. Não espere sintomas graves para buscar ajuda.


Referências

  • Associação Brasileira de Psiquiatria. Tratado de Psiquiatria da ABP. 1ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2021.
  • Clínica Psiquiátrica do Hospital das Clínicas da FMUSP. Clínica Psiquiátrica. 2ª ed. Barueri: Manole, 2021. v. 3.
  • U.S. Food and Drug Administration (FDA). Methadone Hydrochloride Injection — Prescribing Information. Disponível em: fda.gov. Acesso em 2024.
  • ANVISA. Consulta de medicamentos registrados. Disponível em: consultas.anvisa.gov.br.

Este conteúdo é educativo e não substitui a orientação do seu médico. Em caso de dúvidas, consulte o profissional que te prescreveu.

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