Definição e epidemiologia
O Transtorno de Ansiedade Social (TAS), também denominado Fobia Social, é um transtorno mental caracterizado por um medo ou ansiedade acentuados e persistentes acerca de uma ou mais situações sociais nas quais o indivíduo está exposto à possível avaliação por outras pessoas. O cerne da psicopatologia é o medo intenso de agir de modo a ser humilhado, constrangido ou rejeitado, levando à evitação ou sofrimento intenso diante dessas situações. Nos sistemas classificatórios, o TAS está posicionado entre os Transtornos de Ansiedade (DSM-5-TR e CID-11). A CID-11 mantém a categoria "Transtorno de Ansiedade Social", alinhando-se ao DSM-5-TR, que unificou as antigas subclassificações em um único diagnóstico, com o especificador "apenas de desempenho" para casos restritos a falar ou atuar em público.
Os critérios diagnósticos do DSM-5-TR exigem:
A. Medo ou ansiedade acentuados acerca de uma ou mais situações sociais onde o indivíduo está exposto a possível avaliação por outros (ex.: interações sociais, ser observado, desempenhar uma tarefa perante outros).
B. O indivíduo teme agir de modo que será avaliado negativamente.
C. As situações sociais quase sempre provocam medo ou ansiedade.
D. As situações são evitadas ou suportadas com intenso medo/ansiedade.
E. O medo/ansiedade é desproporcional ao perigo real.
F. A duração é de 6 meses ou mais.
G. O medo/ansiedade causa sofrimento ou prejuízo clinicamente significativo no funcionamento social, ocupacional ou em outras áreas importantes.
H. O quadro não é atribuível a efeitos fisiológicos de uma substância ou outra condição médica.
I. O quadro não é melhor explicado por outro transtorno mental.
J. Se outra condição médica está presente, o medo/ansiedade é claramente não relacionado ou é excessivo.
A epidemiologia aponta o TAS como um dos transtornos psiquiátricos mais prevalentes. Estudos de base populacional indicam uma prevalência de vida em torno de 7-13% em países ocidentais. No Brasil, dados do São Paulo Megacity Study apontam uma prevalência de vida de 5,7%. A distribuição por sexo mostra uma discreta predominância no sexo feminino (razão ~1,5:1). O início é tipicamente precoce, com pico de incidência entre a média infância e o início da adolescência, frequentemente por volta dos 13 anos. O curso é frequentemente crônico, com remissões e exacerbações ao longo da vida, podendo causar prejuízos profundos e duradouros no desenvolvimento acadêmico, profissional e na construção de relacionamentos. Fatores de risco incluem história familiar (hereditabilidade estimada em 30-50%), temperamento inibido/inibido comportamental na infância, experiências de humilhação ou bullying, e estilos parentais superprotetores ou excessivamente críticos.
Etiopatogenia e neurobiologia
A etiologia do TAS é multifatorial, envolvendo uma complexa interação entre vulnerabilidade genética, substratos neurobiológicos, fatores psicológicos e influências ambientais.
Fatores Genéticos: Estudos de famílias e gêmeos confirmam uma agregação familiar substancial. Não se trata de um gene único, mas de uma herança poligênica. Pesquisas de associação genômica têm investigado polimorfismos em genes relacionados aos sistemas de neurotransmissores serotoninérgico, dopaminérgico e ao eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA).
Neurobiologia e Neuroimagem: Modelos propõem uma disfunção em circuitos cerebrais envolvidos no processamento do medo, da recompensa social e da autorregulação emocional.
- Sistema de Medo: A amígdala, estrutura-chave na detecção de ameaças, mostra hiperreatividade em indivíduos com TAS diante de estímulos sociais (ex.: rostos com expressões de desaprovação ou críticas). Há também envolvimento do córtex pré-frontal medial e ventromedial, que modulam a resposta da amígdala. Uma regulação "de cima para baixo" ineficiente pode perpetuar a resposta de medo.
- Sistema Dopaminérgico: Evidências sugerem uma hipofunção do sistema dopaminérgico mesocortical e mesolímbico. A dopamina está envolvida na motivação para aproximação social e na sensação de recompensa. Sua redução pode contribuir para a evitação social e a percepção de interações sociais como pouco gratificantes ou ameaçadoras. Estudos de neuroimagem funcional mostram atividade reduzida no corpo estriado (área rica em dopamina) durante tarefas de cooperação social.
- Sistema Serotoninérgico: O papel da serotonina é complexo e modulatório. Envolve a regulação do humor, da ansiedade e do comportamento inibitório. Polimorfismos no gene do transportador de serotonina (5-HTTLPR) têm sido associados à sensibilidade à rejeição social e à vulnerabilidade ao TAS.
- Outros Sistemas: O sistema de ocitocina, relacionado ao vínculo e à confiança social, e o glutamato, principal neurotransmissor excitatório, também são alvos de investigação.
Fatores Psicológicos e de Desenvolvimento: Teorias cognitivo-comportamentais destacam o papel de crenças nucleares disfuncionais (ex.: "sou inadequado", "os outros vão me rejeitar"), atenção seletiva para sinais de ameaça social (ex.: um bocejo interpretado como tédio), e comportamentos de segurança (ex.: falar pouco, evitar contato visual) que, paradoxalmente, mantêm a ansiedade. Experiências precoces de humilhação, críticas excessivas ou rejeição podem contribuir para a formação desses esquemas. O modelo psicodinâmico, como mencionado no Compêndio, sugere a exteriorização de um padrão característico de relações objetais internas em situações sociais, com projeção da antecipação de humilhação e crítica nos outros, sendo a vergonha e o embaraço os principais estados afetivos.
Quadro clínico
As manifestações do TAS ocorrem em três domínios inter-relacionados: cognitivo, comportamental e somático.
Domínio Cognitivo (Pensamentos e Crenças):
- Antecipação Catastrófica: Pensamentos automáticos negativos antes, durante e após situações sociais (ex.: "Vou gaguejar", "Vão achar que sou burro", "Vou ficar vermelho e todos vão notar").
- Hiperfoco no Self: Atenção excessivamente voltada para si mesmo (auto-observação), monitorando sinais de ansiedade (ex.: tremor nas mãos, rubor) e a própria performance.
- Interpretação enviesada: Tendência a interpretar ambiguidades sociais de forma negativa e a superestimar a probabilidade e o custo de uma avaliação negativa.
- Padrões de Pensamento: Ruminação pós-eventos sociais, revivendo detalhes percebidos como embaraçosos.
Domínio Comportamental:
- Evitação: É o sintoma cardinal. Pode ser óbvia (recusar convites, evitar falar em reuniões) ou sutil (chegar tarde para evitar cumprimentos, sentar-se no fundo da sala, usar álcool para "desinibir").
- Comportamentos de Segurança: Ações destinadas a prevenir ou minimizar o temido desfecho (ex.: preparar excessivamente um discurso, falar rápido para acabar logo, evitar temas pessoais).
- Inibição Comportamental: Postura rígida, voz baixa, pouco contato visual, dificuldade em iniciar ou manter conversas.
Domínio Somático/Fisiológico:
- Sintomas de hiperativação do sistema nervoso autônomo, frequentemente desencadeados pela antecipação ou exposição à situação social. Diferentemente do transtorno de pânico, onde sintomas como falta de ar, tontura e medo de morrer são proeminentes, no TAS os sintomas mais característicos envolvem rubor, sudorese (especialmente nas axilas e palmas), tremores, taquicardia, boca seca, tensão muscular e sensação de "branco" na mente. Esses sintomas, por sua vez, alimentam os medos cognitivos ("eles estão vendo que estou suando").
Especificadores Diagnósticos (DSM-5-TR):
- Apenas de desempenho: O medo restringe-se a falar ou atuar em público. É uma forma mais circunscrita.
- Generalizada: O medo abrange a maioria das situações sociais. É a forma mais comum e incapacitante.
O caso da Srta. B., descrito no Compêndio, ilustra o quadro: uma profissional que, diante de uma promoção que exigia interação social, experimentava taquicardia, boca seca e sudorese, com pensamentos catastróficos de cometer gafes, levando-a a faltar a reuniões importantes – um claro prejuízo funcional ocupacional.
Avaliação e diagnóstico
Entrevista Clínica e Anamnese:
- História do Problema: Investigar situações sociais temidas (interação, observação, desempenho), idade de início, curso, gravidade e prejuízos resultantes (acadêmico, profissional, social, conjugal).
- Sintomas: Esclarecer a natureza dos medos (humilhação, embaraço), sintomas cognitivos, comportamentais (evitação) e somáticos.
- Impacto Funcional: Perguntar diretamente: "O que você deixou de fazer na vida por causa desse medo?" (ex.: evitar promoções, não participar de reuniões familiares, adiar a formação de um relacionamento).
- Comportamentos de Segurança: Identificar estratégias usadas para enfrentar situações (ex.: uso de álcool, medicamentos não prescritos, sempre levar um acompanhante).
Exame do Estado Mental:
- Pode ser normal na consulta individual, especialmente se o médico for percebido como não julgador. Em casos graves, pode-se observar: ansiedade moderada, discurso pouco espontâneo, contato visual reduzido, postura tensa. O pensamento é geralmente lógico e orientado, mas o conteúdo revela as preocupações sociais. Nenhum prejuízo na sensorium ou na cognição é esperado, a menos que a ansiedade seja extrema.
Instrumentos de Avaliação Validados no Brasil:
- Mini-International Neuropsychiatric Interview (MINI): Módulo para TAS.
- Liebowitz Social Anxiety Scale (LSAS): Escala de auto-relato e/ou aplicada pelo clínico que avalia níveis de medo e evitação em 24 situações. Existe versão validada para o português.
- Social Phobia Inventory (SPIN) e sua versão breve (Mini-SPIN): Úteis para rastreamento.
- Inventário de Fobia Social (IFS): Desenvolvido e validado no Brasil.
Exames Complementares:
- Não há exames laboratoriais ou de neuroimagem para diagnóstico. Eles são indicados apenas para excluir condições médicas que possam mimetizar ou exacerbar a ansiedade (ex.: hipertireoidismo, feocromocitoma, uso de substâncias). Um hemograma, perfil tireoidiano e eletrólitos podem ser parte da avaliação inicial de rotina.
Diagnóstico Diferencial Estruturado:
| Condição | Pontos de Distinção Chave em Relação ao TAS |
|---|---|
| Timidez Normal / Medo Social Adequado | O limiar clínico é o prejuízo funcional e o sofrimento acentuado. A timidez é um traço de personalidade comum que não impede a participação em atividades desejadas nem causa sofrimento incapacitante. A ansiedade é proporcional e transitória. |
| Transtorno de Pânico | Os ataques de pânico são inesperados e não estão inicialmente ligados a situações sociais. O medo é dos próprios sintomas do pânico (medo de morrer, perder o controle). No TAS, a ansiedade é sempre antecipatória ou desencadeada pela situação social. |
| Agorafobia | O medo está relacionado a situações onde escapar pode ser difícil ou o socorro indisponível (ex.: multidões, transporte público). Um indivíduo com agorafobia muitas vezes se sente confortado pela presença de um acompanhante, enquanto um com TAS fica mais ansioso por ser observado. |
| Transtorno Depressivo Maior | A evitação social na depressão é secundária à anedonia, falta de energia e baixa autoestima, não a um medo específico de avaliação negativa. O humor deprimido é o sintoma central. |
| Transtorno da Personalidade Esquiva | A diferenciação pode ser difícil e exigir avaliação longitudinal. O TP Esquiva é um padrão pervasivo e estável de inibição social, sentimentos de inadequação e hipersensibilidade à crítica, com início na idade adulta jovem. O TAS pode ser mais situacional e episódico. Muitos pacientes preenchem critérios para ambos. |
| Transtorno do Espectro Autista | As dificuldades sociais derivam de déficits na comunicação social e na reciprocidade socioemocional, não primariamente de um medo de avaliação. Pode haver interesses restritos e comportamentos repetitivos. |
| Fobia Específica (tipo situacional) | O medo está focado em consequências específicas da situação (ex.: em um avião, medo de cair; em um elevador, medo de ficar preso), não no julgamento social. |
Armadilhas Diagnósticas e Comorbidades:
- Subdiagnóstico: Atribuir os sintomas a "timidez" sem investigar o impacto funcional.
- Comorbidades Frequentes: Outros transtornos de ansiedade (especialmente Transtorno de Ansiedade Generalizada), depressão maior, transtorno por uso de substâncias (especialmente álcool como automedicação), transtornos alimentares.
Tratamento farmacológico
O tratamento farmacológico do TAS é eficaz, particularmente na forma generalizada. A escolha considera a gravidade, comorbidades, efeitos adversos e preferência do paciente.
Algoritmo Terapêutico Baseado em Evidências:
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1ª Linha: Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRS) e Inibidores da Recaptação de Serotonina e Noradrenalina (IRSN). São considerados farmacoterapia de primeira escolha devido à eficácia, tolerabilidade e baixo potencial de abuso.
- ISRS: Escitalopram (10-20 mg/dia), paroxetina (20-50 mg/dia), sertralina (50-200 mg/dia). Paroxetina tem indicação formal para TAS em muitos países.
- IRSN: Venlafaxina XR (75-225 mg/dia), duloxetina (60-120 mg/dia).
- Mecanismo: Aumentam a disponibilidade sináptica de serotonina (e noradrenalina, no caso dos IRSN), modulando circuitos de medo e ansiedade no córtex pré-frontal e amígdala.
- Monitoramento: Início com dose baixa para minimizar agitação inicial, náuseas, cefaleia. Titulação lenta. Efeito ansiolítico social pode levar 8-12 semanas para ser pleno. Monitorar ativação/sedação, disfunção sexual, ganho de peso.
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2ª Linha:
- Inibidores da Monoaminoxidase (IMAOs) não seletivos (ex.: fenelzina): Altamente eficazes, mas uso limitado pela necessidade de dieta restritiva (tiramina) e perfil de efeitos adversos. Podem ser considerados em casos refratários.
- Benzodiazepínicos (ex.: clonazepam 0,5-2 mg/dia, lorazepam): Oferecem alívio sintomático rápido, mas riscos de tolerância, dependência, sedação e prejuízo cognitivo limitam seu uso. Podem ser usados de forma adjuvante e por tempo limitado em situações específicas (ex.: apresentação única importante) ou no início do tratamento com ISRS/IRSN até que estes façam efeito.
- Pregabalina: Modulador do canal de cálcio dependente de voltagem. Dose de 150-600 mg/dia. Eficácia demonstrada, com perfil de efeitos adversos que incluem tontura, sonolência, ganho de peso.
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3ª Linha / Adjuvantes:
- Betabloqueadores (ex.: propranolol 10-40 mg, 1 hora antes do evento): Úteis apenas para o especificador "apenas de desempenho". Controlam sintomas somáticos periféricos (tremor, taquicardia, sudorese), mas não afetam os componentes cognitivos. Não são indicados para TAS generalizado.
- Buspirona: Agonista parcial 5-HT1A. Pode ser usada como adjuvante.
- Antipsicóticos atípicos em baixa dose (ex.: quetiapina, aripiprazol): Apenas em casos graves e refratários, com cuidadosa avaliação risco-benefício (metabólico, neurológico).
Contexto Brasileiro (RENAME/SUS):
A Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME) disponibiliza no SUS várias opções de primeira linha, como sertralina e fluoxetina (este último com evidência mais modesta para TAS). Escitalopram e venlafaxina também estão disponíveis, podendo haver variação por estado. O acesso a psicoterapias especializadas (TCC) nos CAPS é limitado e irregular, tornando o manejo farmacológico no SUS uma ferramenta crucial.
Situações Especiais:
- Gestação/Lactação: A psicoterapia (especialmente TCC) é a intervenção de primeira linha. Se farmacoterapia for necessária, sertralina e paroxetina são frequentemente consideradas, com discussão detalhada de riscos e benefícios.
- Idosos: Iniciar com metade da dose inicial adulta, titulação mais lenta. Maior sensibilidade a efeitos anticolinérgicos, hiponatremia (com ISRS) e quedas (com benzodiazepínicos).
Tratamento não farmacológico
A psicoterapia é um pilar fundamental do tratamento, com eficácia equivalente ou superior à farmacoterapia em muitos casos, e com efeitos mais duradouros após a descontinuação.
Psicoterapias com Evidência:
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Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC): Tratamento psicológico de primeira linha. Baseia-se no princípio da autoexposição à situação temida. Componentes principais:
- Psicoeducação: Sobre o modelo cognitivo do TAS.
- Reestruturação Cognitiva: Identificar e desafiar pensamentos automáticos negativos e crenças disfuncionais sobre si mesmo e as situações sociais.
- Exposição Gradual e Sistemática: O paciente enfrenta, de forma planejada e progressiva, as situações sociais temidas, sem usar comportamentos de segurança. Pode ser in vivo (na vida real) ou na imaginação.
- Treinamento de Habilidades Sociais: Para pacientes com déficits reais, ensina comportamentos específicos (ex.: iniciar conversas, manter contato visual, dar feedback).
- Formato: Geralmente individual, em grupo (especialmente eficaz para praticar interações), ou combinado. Duração típica: 12-20 sessões semanais.
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Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT): Foca na aceitação dos pensamentos e sensações de ansiedade, sem tentar controlá-los, e no comprometimento com ações alinhadas aos valores pessoais (ex.: valor de "conectar-se com outros"), mesmo na presença do desconforto.
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Terapia Psicodinâmica Interpessoal (TPI): Versões focadas e breves podem abordar padrões interpessoais disfuncionais e conflitos relacionados à autoestima e à assertividade que sustentam a ansiedade social.
Intervenções Psicossociais:
- Grupos de Apoio e de Habilidades Sociais: Oferecem um ambiente seguro para prática e normalização das experiências.
- Suporte Familiar: A família, como citado no Compêndio, pode inadvertidamente encorajar o comportamento fóbico (ex.: fazendo ligações para o paciente, justificando suas ausências) e servir como obstáculo ao tratamento. A psicoeducação familiar é crucial para que se tornem aliados, encorajando a exposição e a autonomia.
Procedimentos:
- Estimulação Magnética Transcraniana (TMS): Protocolos de TMS repetitiva aplicada no córtex pré-frontal dorsolateral têm sido investigados para TAS refratário, mas ainda não são considerados tratamento padrão.
- Eletroconvulsoterapia (ECT): Não é indicada para TAS isolado. Pode ser considerada em casos excepcionais com grave comorbidade depressiva melancólica com risco de vida.
Manejo clínico prático
Tomada de Decisão: A escolha entre psicoterapia, farmacoterapia ou sua combinação depende da gravidade, preferência do paciente, disponibilidade de recursos e presença de comorbidades. Para casos leves, a TCC pode ser suficiente. Casos moderados a graves geralmente se beneficiam da combinação. A forma "apenas de desempenho" pode ser bem manejada com TCC ou betabloqueadores situacionais.
Monitoramento: Avaliar resposta a cada 4-8 semanas. Indicadores: redução na evitação (ex.: frequência a mais eventos), diminuição do sofrimento subjetivo durante exposições, melhora no funcionamento (ex.: performance no trabalho, vida social). Escalas como a LSAS podem ser usadas para quantificar a resposta.
Manejo da Resistência Terapêutica: Se não houver resposta após 8-12 semanas de dose adequada de um ISRS/IRSN:
- Reavaliar diagnóstico e adesão.
- Otimizar a dose do medicamento.
- Trocar para outra classe de 1ª linha (ex.: de ISRS para IRSN ou vice-versa).
- Adicionar outra modalidade (ex.: iniciar TCC se apenas farmacoterapia foi usada).
- Considerar estratégias de aumento (augmentation) com um benzodiazepínico de curta duração para situações críticas ou, em casos refratários, com um antipsicótico atípico.
- Considerar um IMAO (se disponível e com paciente adequadamente orientado).
Contexto Brasileiro: No SUS, o manejo é desafiador. O CAPS pode ser a porta de entrada, oferecendo acolhimento, possível psicoterapia individual ou em grupo (dependendo da equipe) e manejo medicamentoso. A falta de terapeutas de TCC especializados é uma lacuna. A articulação com a Atenção Básica para continuidade do cuidado farmacológico é essencial. A ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria) emite diretrizes que podem orientar a prática, mas sua implementação no SUS é heterogênea.
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
Vivência do Paciente: O paciente com TAS não é simplesmente "tímido". Ele vive em um estado de vigilância constante, antecipando o julgamento alheio. Situações corriqueiras como almoçar com colegas, usar um banheiro público ou falar com um atendente são fontes de intenso sofrimento. A evitação traz alívio imediato, mas reforça a crença de que a situação é intolerável, criando um ciclo vicioso de isolamento. A vergonha é um afeto central, muitas vezes levando a um atraso de anos na busca por ajuda.
Psicoeducação:
- Para o Paciente: Explicar que o TAS é um transtorno médico legítimo, com base biológica, não uma falha de caráter. Enfatizar que o tratamento é eficaz. Normalizar a ansiedade social, mas destacar o ponto onde ela se torna doença: o prejuízo. Ilustrar o modelo do ciclo da ansiedade social (pensamento -> sintoma -> evitação -> alívio -> reforço do pensamento).
- Para a Família: Ensinar que a ajuda excessiva (proteção) pode ser prejudicial. Incentivá-los a apoiar os pequenos passos de exposição, validando o esforço, não o resultado. Evitar críticas do tipo "é só se soltar".
Impacto Funcional: O prejuízo é profundo: evitação escolar/evasão, subemprego (recusa de promoções), isolamento social, dificuldade em formar relacionamentos íntimos, maior risco para depressão e abuso de substâncias.
Adesão ao Tratamento: Barreiras incluem: vergonha de buscar ajuda, medo de que o medicamento mude a personalidade, ansiedade inicial com ISRS, desconforto com a ideia da exposição na TCC. Estratégias: estabelecer uma aliança terapêutica sólida, explicar claramente os efeitos esperados e a linha do tempo, começar com metas de tratamento pequenas e alcançáveis.
Perguntas frequentes
1. Qual a diferença real entre timidez e fobia social?
Timidez é um traço de personalidade comum que causa um desconforto passageiro em situações novas ou de avaliação, mas não impede a pessoa de fazer o que deseja. A Fobia Social (Transtorno de Ansiedade Social) é uma condição de saúde mental onde o medo é tão intenso e persistente que leva a pessoa a evitar situações sociais importantes (como ir a festas, falar em reuniões, fazer amizades), causando sofrimento significativo e prejuízos concretos na vida acadêmica, profissional e pessoal.
2. Beber um pouco de álcool antes de uma situação social ajuda. Isso é um problema?
Sim, é uma bandeira vermelha. O uso de álcool para reduzir a ansiedade social é uma forma comum de automedicação e é um comportamento de segurança. A curto prazo, parece ajudar, mas a longo prazo, impede que a pessoa aprenda que pode enfrentar a situação sem a substância, mantendo o transtorno. Além disso, aumenta significativamente o risco de desenvolver um Transtorno por Uso de Álcool.
3. Os remédios para fobia social viciam?
Os medicamentos de primeira linha, os ISRS e IRSN, não causam dependência ou vício. Eles não produzem euforia e sua interrupção deve ser feita de forma gradual para evitar sintomas de descontinuação. Benzodiazepínicos, quando prescritos, têm potencial de causar dependência física e tolerância, devendo ser usados com cautela, por períodos limitados e sob supervisão médica rigorosa.
4. A terapia realmente funciona? O que eu tenho que fazer?
Sim, especialmente a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) tem alta eficácia comprovada para a fobia social. O componente central é a exposição, que significa enfrentar, de forma gradual e planejada, as situações que você teme, começando pelas mais fáceis. Pode ser desafiador no início, mas é através dessa prática que o cérebro reaprende que a situação não é perigosa. O terapeuta o guiará nesse processo, ensinando também técnicas para lidar com os pensamentos ansiosos.
5. Meu filho adolescente é extremamente tímido. Pode ser fobia social? Quando devo procurar ajuda?
O início do TAS é comum na adolescência. Procure ajuda se a timidez do seu filho estiver causando: recusa em ir à escola, evitação de todas as atividades sociais com colegas (festas, esportes), queda brusca no rendimento escolar por não fazer perguntas ou apresentar trabalhos, queixas físicas frequentes (dor de barriga, dor de cabeça) antes de eventos sociais, ou sofrimento intenso e choro relacionado a interações sociais. A intervenção precoce é crucial.
6. Fobia social tem cura?
O TAS é um transtorno que pode ser muito bem controlado. Muitas pessoas alcançam a remissão dos sintomas, ou seja, deixam de preencher os critérios para o transtorno e recuperam seu funcionamento normal. No entanto, como tende a ser crônico, algumas pessoas podem precisar de tratamento de manutenção (medicamentoso ou psicológico) por longos períodos, e outras podem ter recaídas em períodos de estresse. O objetivo do tratamento é dar ao paciente as ferramentas para gerenciar a ansiedade e viver uma vida plena.
Referências
- Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria: Ciência do Comportamento e Psiquiatria Clínica. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – Texto Revisado (DSM-5-TR). Porto Alegre: Artmed, 2022.
- Organização Mundial da Saúde. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – 11ª edição (CID-11). Genebra: OMS, 2022.
- Bandelow, B.; Michaelis, S.; Wedekind, D. Treatment of anxiety disorders. Dialogues Clin Neurosci. 2017;19(2):93-107.
- Stein, M.B.; Stein, D.J. Social anxiety disorder. Lancet. 2008;371(9618):1115-1125.
- Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Diretrizes para o tratamento do transtorno de ansiedade social. (Consulte as diretrizes mais recentes da ABP).
- Andrade, L.H. et al. Mental disorders in megacities: findings from the São Paulo megacity mental health survey, Brazil. PLoS One. 2012;7(2):e31879.
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.