O que é e para que serve?
A memantina é um medicamento usado para tratar a doença de Alzheimer em fase moderada a grave. Ela pertence a uma classe chamada “antagonistas do receptor NMDA” — um nome complicado para uma função bem específica: proteger os neurônios de um tipo de dano que acontece quando o cérebro fica superestimulado por um mensageiro químico chamado glutamato. Em termos simples, ela age como um “filtro” que protege as células do cérebro do excesso de atividade.
No Brasil, a memantina é encontrada sob os nomes comerciais Ebix®, Memantine®, Alois® e Memorin®, além de versões genéricas com o próprio nome da substância. Ela costuma ser prescrita quando a doença de Alzheimer já avançou além da fase leve — geralmente em combinação com outro grupo de medicamentos chamados inibidores da colinesterase (como donepezila ou rivastigmina).
É importante deixar claro: a memantina não cura o Alzheimer e não reverte os danos já causados. O que ela faz é ajudar a desacelerar a piora dos sintomas — como perda de memória, confusão e dificuldade para realizar tarefas do dia a dia — e melhorar a qualidade de vida tanto do paciente quanto de quem cuida dele.
Como ela age no seu cérebro?
Imagine que os neurônios do seu cérebro são vizinhos que se comunicam gritando mensagens pela janela. Em condições normais, eles gritam na hora certa, a mensagem é ouvida, e tudo funciona bem. No Alzheimer, um desses “vizinhos barulhentos” — o glutamato — começa a gritar o tempo todo, sem parar, mesmo quando não tem nada importante a dizer.
Esse grito constante do glutamato ativa uma “porta” nos neurônios chamada receptor NMDA. Quando essa porta fica aberta demais e por tempo demais, entra uma quantidade excessiva de cálcio dentro da célula — e cálcio em excesso é tóxico para o neurônio. É como deixar a torneira aberta até o banheiro alagar: a água em si não é o problema, mas o excesso destrói tudo.
A memantina age como um porteiro inteligente nessa porta. Ela se encaixa no receptor NMDA e bloqueia a entrada excessiva de cálcio, sem impedir completamente o funcionamento normal. Assim, os neurônios conseguem se comunicar quando precisam, mas ficam protegidos do “barulho” constante que os danificaria. O resultado prático é uma melhora — ou pelo menos uma estabilização — da memória, da atenção e da capacidade de realizar atividades cotidianas.
Quando começa a fazer efeito?
A memantina não é um remédio de efeito imediato. Pense nela como um protetor solar aplicado todos os dias: você não sente o efeito na hora, mas ao longo do tempo ele está protegendo sua pele de danos maiores.
A dose começa baixa (5 mg por dia) e vai sendo aumentada gradualmente ao longo de semanas — geralmente chegando a 20 mg por dia após um mês. Esse aumento lento é proposital: dá tempo para o organismo se adaptar e reduz a chance de efeitos colaterais.
Os primeiros sinais de melhora — como menos confusão, melhor desempenho em tarefas simples ou comportamento mais tranquilo — costumam aparecer entre 4 e 12 semanas de uso regular. Em alguns casos, o benefício mais visível não é a melhora em si, mas a desaceleração da piora: a família percebe que o paciente está “segurando” melhor do que esperavam. Isso também é um resultado positivo, mesmo que seja menos óbvio.
Como tomar corretamente
A memantina pode ser tomada com ou sem alimentos — a comida não interfere na absorção do remédio, então não precisa se preocupar com isso.
O esquema mais comum é:
– Semana 1: 5 mg, uma vez por dia (geralmente de manhã)
– Semana 2: 10 mg, divididos em duas tomadas (5 mg de manhã + 5 mg à tarde/noite)
– Semana 3: 15 mg por dia
– Semana 4 em diante: 20 mg por dia, divididos em duas tomadas de 10 mg
Existe também uma versão de liberação prolongada (28 mg, uma vez ao dia), que seu médico pode ter prescrito — nesse caso, basta uma tomada diária.
Se esquecer uma dose: tome assim que lembrar, desde que não esteja próximo do horário da próxima dose. Se já estiver perto, pule a dose esquecida e siga normalmente. Nunca tome dose dupla para compensar.
Não pare o remédio por conta própria. Mesmo que pareça que não está fazendo efeito, ou que o paciente “melhorou”, interromper sem orientação médica pode acelerar a piora dos sintomas. Qualquer dúvida sobre continuar ou parar, ligue para o médico antes de tomar qualquer decisão.
Efeitos colaterais possíveis — e por que eles acontecem
A memantina é considerada um dos medicamentos mais bem tolerados para o Alzheimer. A maioria das pessoas não sente nada de significativo. Mas é bom conhecer o que pode acontecer.
Comuns (acontecem com mais frequência, geralmente passageiros)
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Tontura: Acontece porque a memantina age no sistema nervoso central e pode afetar o equilíbrio nas primeiras semanas, especialmente quando a dose está sendo aumentada. Costuma melhorar sozinha. Evite movimentos bruscos ao levantar da cama ou da cadeira.
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Dor de cabeça: Relativamente comum no início do tratamento. O mecanismo é parecido com o da tontura — o cérebro está se adaptando ao novo medicamento. Geralmente passa em poucos dias.
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Confusão mental: Pode parecer paradoxal — um remédio para o Alzheimer causando confusão — mas isso pode acontecer especialmente no início ou quando a dose sobe rápido demais. Se piorar muito, avise o médico para ajustar o ritmo de aumento da dose.
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Constipação (intestino preso): A memantina pode reduzir a movimentação do intestino em algumas pessoas. Aumentar a ingestão de água e fibras (frutas, verduras, legumes) costuma resolver. Se persistir, o médico pode indicar um laxante leve.
Menos comuns
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Sonolência: Algumas pessoas ficam mais sonolentas, especialmente no início. Nesse caso, pode ser útil tomar a dose maior à noite.
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Pressão alta: Houve relatos de pequena elevação da pressão arterial em alguns pacientes. Se o paciente já tem hipertensão, vale monitorar a pressão com mais atenção nas primeiras semanas.
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Náuseas, vômitos ou diarreia: Menos frequentes do que com outros medicamentos para Alzheimer, mas podem ocorrer. Tomar o remédio com um pouco de comida pode ajudar, mesmo não sendo obrigatório.
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Agitação: Em alguns casos, especialmente em doses mais altas, pode ocorrer o efeito oposto ao esperado — o paciente fica mais agitado. Avise o médico se isso acontecer.
Raros mas importantes (quando ir ao médico imediatamente)
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Alucinações visuais (ver coisas que não existem): Pode acontecer em casos de superdosagem ou em pacientes muito sensíveis. Procure atendimento médico.
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Perda de consciência ou desmaios: Foram relatados casos raros de perda de consciência em uso prolongado. Se isso acontecer, vá a uma emergência.
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Sinais de reação alérgica — inchaço no rosto, dificuldade para respirar, urticária generalizada: Raríssimo, mas exige atendimento de emergência imediato.
O que fazer se tiver efeitos colaterais?
Primeiro: não entre em pânico. A maioria dos efeitos colaterais da memantina é leve e passa sozinha nas primeiras semanas, especialmente enquanto a dose está sendo ajustada.
Ligue para o médico se:
– A tontura ou confusão estiver atrapalhando muito o dia a dia
– O paciente estiver mais agitado do que antes de começar o remédio
– Houver constipação que não melhora com água e fibras
– Qualquer efeito que preocupe, mesmo que não esteja nessa lista
Vá a uma UPA ou emergência se:
– O paciente perder a consciência
– Tiver alucinações intensas (ver ou ouvir coisas que não existem)
– Apresentar sinais de reação alérgica grave (falta de ar, inchaço no rosto)
– Tiver tomado uma dose muito maior do que a prescrita por engano
O que NÃO fazer:
– Não pare o remédio abruptamente sem falar com o médico
– Não aumente a dose por conta própria achando que “mais é melhor”
– Não ignore sintomas novos achando que “é só o Alzheimer”
Cuidados importantes
Outros remédios que precisam de atenção:
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Amantadina, cetamina e dextrometorfano (presente em alguns xaropes para tosse): Esses medicamentos agem de forma parecida com a memantina no cérebro. Usar os dois juntos pode causar sintomas como agitação, alucinações ou confusão intensa. Sempre avise o médico e o farmacêutico sobre todos os remédios que o paciente usa.
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Bicarbonato de sódio e alguns diuréticos: Podem deixar a urina mais alcalina (menos ácida), o que faz a memantina ser eliminada mais devagar pelo rim — aumentando sua concentração no sangue e o risco de efeitos colaterais.
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Inibidores da colinesterase (donepezila, rivastigmina, galantamina): Podem ser usados junto com a memantina — na verdade, essa combinação é frequentemente recomendada. Mas avise sempre o médico sobre todos os remédios em uso.
Problemas nos rins: O rim é o principal responsável por eliminar a memantina do corpo. Se o paciente tiver insuficiência renal grave, a dose precisa ser reduzida. Informe o médico sobre qualquer problema renal conhecido.
Fígado: A memantina praticamente não é processada pelo fígado, então doenças hepáticas geralmente não exigem ajuste de dose — mas informe o médico de qualquer forma.
Gravidez e amamentação: Não há estudos suficientes em humanos. A memantina é usada em pessoas idosas com Alzheimer, então essa situação é rara, mas se houver qualquer possibilidade, converse com o médico.
Álcool: Não há uma interação grave documentada, mas o álcool por si só prejudica a memória e o equilíbrio — exatamente o que a memantina está tentando proteger. O ideal é evitar ou reduzir ao mínimo o consumo de bebidas alcoólicas durante o tratamento.
Perguntas frequentes
O remédio vai curar o Alzheimer?
Não. A memantina não cura nem reverte o Alzheimer. O que ela faz é ajudar a desacelerar a progressão dos sintomas e melhorar a qualidade de vida do paciente. Pense nela como um freio — ela não desfaz o caminho já percorrido, mas ajuda a ir mais devagar.
Posso parar de dar o remédio se achar que não está fazendo efeito?
Não pare sem falar com o médico. Muitas vezes o benefício da memantina é justamente evitar que as coisas piorem — e isso pode ser difícil de perceber no dia a dia. O médico pode ajudar a avaliar se o tratamento está funcionando com testes específicos.
O paciente pode tomar junto com os outros remédios para Alzheimer?
Sim, na maioria dos casos. A memantina é frequentemente usada em combinação com donepezila, rivastigmina ou galantamina. Mas sempre informe o médico sobre todos os medicamentos em uso para garantir que não haja interações.
E se o paciente esquecer de tomar o remédio por alguns dias?
Retome o uso assim que possível, na dose habitual. Não tente “compensar” os dias perdidos com doses maiores. Se ficar muito tempo sem tomar, avise o médico — pode ser necessário recomeçar com doses menores e aumentar gradualmente de novo.
O remédio causa dependência?
Não. A memantina não causa dependência física nem psicológica. Você não vai precisar de doses cada vez maiores para sentir o mesmo efeito, e parar o remédio (quando indicado pelo médico) não causa síndrome de abstinência.
Referências
- Associação Brasileira de Psiquiatria. Tratado de Psiquiatria da ABP. 2021.
- Stahl, S.M. Fundamentos de Psicofarmacologia de Stahl, 3ª ed. Artmed, 2014.
- FDA. Memantine Hydrochloride — Label and Approval History. Disponível em: www.fda.gov
Este conteúdo é educativo e não substitui a orientação do seu médico. Em caso de dúvidas, consulte o profissional que te prescreveu.