O que é e para que serve?
A lamotrigina é um estabilizador do humor — um tipo de medicamento que ajuda a deixar as emoções mais equilibradas, evitando que elas subam ou desçam demais. Ela também é classificada como anticonvulsivante, porque foi criada originalmente para tratar epilepsia (crises convulsivas) e só depois descobrimos que funciona muito bem para o humor também.
No Brasil, ela é usada principalmente para o transtorno bipolar tipo I, especialmente para prevenir os episódios de depressão que fazem parte dessa condição. Ela é ótima para manter a estabilidade ao longo do tempo — mas é importante saber que ela não é indicada para tratar uma crise aguda (uma depressão ou mania que já está acontecendo agora). Ela funciona mais como uma proteção contínua, evitando que essas crises apareçam. Além disso, é usada no tratamento de epilepsia, tanto em adultos quanto em crianças a partir dos 2 anos.
No Brasil, a lamotrigina é vendida com os nomes Lamictal®, Labileno® e Lamictin®, além de versões genéricas com o próprio nome “lamotrigina” em diferentes marcas. Ela existe em comprimidos de 25 mg, 50 mg, 100 mg e 200 mg — e também em versões mastigáveis e dispersíveis (que dissolvem na água).
Como ela age no seu cérebro?
Pense nos neurônios (as células do seu cérebro) como vizinhos que se comunicam o tempo todo, jogando mensagens uns para os outros. Alguns desses vizinhos são muito agitados e ficam gritando mensagens de “ATIVA! EXCITA! FAZ MAIS!” — e o principal mensageiro dessa turma barulhenta se chama glutamato.
Quando há glutamato demais circulando, o cérebro fica superestimulado. Isso pode contribuir para crises convulsivas na epilepsia, e também parece ter relação com as oscilações de humor no transtorno bipolar.
A lamotrigina age como uma cancela nos portões de sódio dos neurônios. Sódio é o que os neurônios usam para “ligar” e disparar mensagens. Quando a lamotrigina bloqueia esses portões de forma seletiva, os neurônios mais agitados ficam um pouco mais calmos — e aí o glutamato é liberado em quantidade menor e mais controlada. O resultado é um cérebro mais estável, com menos risco de crises convulsivas e de oscilações bruscas de humor.
Não sabemos exatamente por que isso ajuda no humor — a ciência ainda está estudando isso. Mas na prática, o que vemos é que a lamotrigina é especialmente boa em proteger contra os episódios depressivos do transtorno bipolar.
Quando começa a fazer efeito?
A lamotrigina é um remédio que pede paciência — e isso não é um defeito, é uma característica necessária. A dose precisa ser aumentada muito devagar, ao longo de semanas, justamente para evitar um efeito colateral sério na pele (vamos falar disso mais adiante). Por isso, o processo de chegar na dose ideal costuma levar de 6 a 8 semanas, às vezes mais.
Pense nisso como cultivar uma planta: você não planta a semente hoje e colhe amanhã. Você rega aos poucos, espera brotar, espera crescer. O efeito da lamotrigina é assim — gradual, mas consistente.
Nas primeiras semanas, é possível que você não sinta muita diferença. Isso é normal. O que o médico está fazendo é construir uma base segura para o seu tratamento. Com o tempo, o que a maioria das pessoas percebe não é uma mudança dramática, mas sim que as coisas ficam mais estáveis — os altos e baixos ficam menos intensos, os episódios depressivos aparecem com menos frequência.
Como tomar corretamente
A lamotrigina pode ser tomada com ou sem alimentos — não faz diferença para a absorção. O horário pode ser de manhã ou à noite, dependendo do que o seu médico orientou e do que funciona melhor para a sua rotina. O importante é tentar tomar sempre no mesmo horário todos os dias.
A dose começa baixa — geralmente 25 mg por dia — e vai subindo aos poucos, a cada duas semanas, até chegar na dose que funciona para você. A dose de manutenção mais comum fica entre 100 mg e 200 mg por dia, mas isso varia muito de pessoa para pessoa e depende de outros remédios que você esteja tomando.
Se esquecer uma dose: tome assim que lembrar, desde que não esteja muito próximo do horário da próxima dose. Se já estiver perto, pule a dose esquecida e continue normalmente. Nunca tome duas doses de uma vez para compensar.
Não pare de tomar por conta própria. Se você ficou 5 dias ou mais sem tomar (por qualquer motivo — viagem, esquecimento, falta do remédio), não retome na dose que estava. Avise seu médico, porque provavelmente será necessário recomeçar do zero, com dose baixa, para proteger sua pele.
Efeitos colaterais possíveis — e por que eles acontecem
Comuns (acontecem com mais frequência, geralmente passageiros)
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Tontura e visão dupla ou embaçada: A lamotrigina age nos canais elétricos dos neurônios, e isso pode afetar temporariamente o equilíbrio e a visão, especialmente quando a dose está sendo aumentada. Costuma melhorar com o tempo. Se for muito incômodo, avise o médico — talvez a dose esteja subindo rápido demais.
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Dor de cabeça: Comum no início do tratamento. Geralmente passa nas primeiras semanas. Pode tomar um analgésico comum se precisar, mas avise o médico se for frequente.
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Náusea: Pode aparecer no começo, especialmente se tomar o comprimido com o estômago vazio. Tomar com um lanchinho leve costuma ajudar.
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Sonolência ou cansaço: Algumas pessoas sentem mais sono, especialmente no início. Isso tende a diminuir com o tempo.
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Insônia: Paradoxalmente, outras pessoas sentem o oposto — dificuldade para dormir. Nesse caso, pode valer a pena mudar o horário da dose para a manhã.
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Erupção cutânea leve (vermelhidão na pele): Acontece em cerca de 10% das pessoas. Na maioria das vezes é benigna, mas precisa ser avaliada pelo médico imediatamente, porque existe uma versão grave e rara dessa reação. Não espere para ver se passa.
Menos comuns
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Tremores: Podem aparecer, especialmente em doses mais altas.
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Dificuldade de coordenação (ataxia): Sensação de que os movimentos estão um pouco descoordenados. Acontece porque o medicamento age nos neurônios que controlam o movimento. Avise o médico se isso aparecer.
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Boca seca: Menos frequente com a lamotrigina do que com outros estabilizadores, mas pode ocorrer.
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Dor nas costas e dor abdominal: Relatados por algumas pessoas, especialmente no tratamento do transtorno bipolar.
Raros mas importantes — vá ao médico ou à emergência imediatamente
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Erupção cutânea grave (Síndrome de Stevens-Johnson ou Necrólise Epidérmica Tóxica): Este é o efeito colateral mais sério da lamotrigina. Felizmente é raro (menos de 1% dos adultos), mas é grave. Os sinais de alerta são: manchas na pele que formam bolhas, descamação, feridas na boca ou nos olhos, febre, mal-estar intenso, gânglios inchados. Se aparecer qualquer um desses sinais, vá à emergência imediatamente e diga que está tomando lamotrigina. O risco é maior nas primeiras 8 semanas de tratamento e quando a dose sobe rápido demais — por isso o aumento é sempre lento.
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Reação de hipersensibilidade com múltiplos órgãos: Febre, inchaço de gânglios, alterações no fígado. Raro, mas requer atenção médica urgente.
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Pensamentos de se machucar: Como qualquer medicamento que age no cérebro, a lamotrigina carrega uma advertência sobre pensamentos suicidas, especialmente no início do tratamento. Se isso acontecer, avise alguém de confiança e entre em contato com seu médico ou vá a uma emergência.
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Meningite asséptica: Muito raro. Sintomas: dor de cabeça intensa, rigidez no pescoço, sensibilidade à luz, febre. Emergência médica.
O que fazer se tiver efeitos colaterais?
Ligue para o seu médico se:
– Aparecer qualquer mancha ou vermelhidão nova na pele — mesmo que pareça pequena e sem importância.
– A tontura ou visão dupla estiver atrapalhando sua vida diária.
– Você estiver sentindo pensamentos de se machucar.
– Ficou mais de 5 dias sem tomar o remédio por qualquer motivo.
Vá à emergência imediatamente se:
– A mancha na pele estiver formando bolhas, descamando ou se espalhando rapidamente.
– Aparecerem feridas na boca, nos olhos ou nos genitais.
– Tiver febre alta junto com qualquer alteração na pele.
– Sentir dor de cabeça muito forte com rigidez no pescoço.
O que NÃO fazer:
– Não pare o remédio de repente por conta própria — isso pode desestabilizar seu humor ou, no caso da epilepsia, provocar crises de rebote.
– Não aumente a dose por conta própria achando que vai funcionar mais rápido.
– Não ignore uma erupção na pele esperando que passe sozinha.
A maioria das pessoas tolera a lamotrigina muito bem. Os efeitos colaterais mais sérios são raros e, quando o aumento de dose é feito devagar (como o médico orienta), o risco cai bastante.
Cuidados importantes
Outros remédios que interferem na lamotrigina:
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Valproato (Depakote®, ácido valpróico): Se você tomar os dois juntos, o valproato faz a lamotrigina durar muito mais tempo no sangue — o que aumenta o risco de efeitos colaterais. Por isso, quando os dois são usados juntos, a dose da lamotrigina precisa ser menor (geralmente pela metade). Não mude as doses por conta própria.
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Carbamazepina (Tegretol®): Faz o oposto — acelera a eliminação da lamotrigina, então pode ser necessário usar uma dose maior. Seu médico já sabe disso e ajusta conforme necessário.
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Anticonvulsivantes como fenitoína e fenobarbital: Também reduzem o efeito da lamotrigina.
Pílula anticoncepcional: A lamotrigina e a pílula se atrapalham mutuamente. A pílula pode reduzir o nível de lamotrigina no sangue, e a lamotrigina pode reduzir a eficácia da pílula. Se você usa anticoncepcional hormonal, avise seu médico — pode ser necessário ajustar a dose ou usar um método de barreira adicional (como camisinha).
Gravidez: A lamotrigina pode interferir no metabolismo do folato (vitamina B9), que é essencial para o desenvolvimento do bebê. Se você está grávida ou planejando engravidar, converse com seu médico antes de qualquer mudança. O uso durante a gravidez pode ser necessário em alguns casos, mas precisa de acompanhamento cuidadoso. A suplementação com ácido fólico costuma ser recomendada.
Amamentação: A lamotrigina passa para o leite materno. Converse com seu médico sobre os riscos e benefícios no seu caso específico.
Álcool: O álcool potencializa os efeitos de sonolência e tontura da lamotrigina. Além disso, o álcool é um desestabilizador do humor por si só — o que vai na direção contrária do que o remédio está tentando fazer. O ideal é evitar ou usar com muita moderação.
Doenças do fígado: A lamotrigina é metabolizada pelo fígado. Se você tiver alguma condição hepática, avise seu médico — pode ser necessário ajustar a dose.
Perguntas frequentes
Vou ficar dependente da lamotrigina?
Não. A lamotrigina não causa dependência química nem síndrome de abstinência no sentido clássico (como acontece com benzodiazepínicos, por exemplo). O que pode acontecer se você parar de repente é a volta dos sintomas da condição que ela estava tratando — não é o corpo “pedindo” o remédio, é a doença voltando sem proteção. Por isso a retirada, quando necessária, é feita de forma gradual e com acompanhamento médico.
Posso beber álcool enquanto tomo lamotrigina?
Tecnicamente não é proibido, mas não é uma boa ideia. O álcool aumenta a tontura e a sonolência que a lamotrigina já pode causar, e também desestabiliza o humor — o que trabalha contra o efeito do remédio. Se for beber em alguma ocasião especial, faça com moderação e veja como se sente.
Posso parar de tomar quando me sentir bem?
Essa é uma das perguntas mais importantes. A resposta é: não, pelo menos não sem conversar com o médico antes. Sentir-se bem muitas vezes é sinal de que o remédio está funcionando, não de que você não precisa mais dele. Parar por conta própria pode fazer os episódios voltarem. Se você quiser discutir a possibilidade de reduzir ou parar, faça isso junto com o seu médico, que vai avaliar o momento certo e como fazer isso com segurança.
Apareceu uma manchinha na minha pele — preciso parar o remédio agora?
Não pare por conta própria, mas entre em contato com seu médico o quanto antes — no mesmo dia, se possível. Ele vai avaliar se é uma reação benigna (que acontece em cerca de 10% das pessoas) ou um sinal de alerta. A diferença entre as duas é importante e precisa de avaliação profissional. Nunca ignore uma erupção nova enquanto estiver tomando lamotrigina.
A lamotrigina vai me deixar “anestesiado” emocionalmente?
Esse é um medo comum, mas a lamotrigina tem um perfil diferente de muitos outros estabilizadores. Ela não costuma causar aquela sensação de “embotamento emocional” que algumas pessoas relatam com outros medicamentos. O objetivo dela é justamente tirar os extremos — os picos muito altos e os vales muito fundos — deixando você num território mais equilibrado, onde ainda é possível sentir as emoções do dia a dia de forma natural.
Referências
- Stahl, S.M. Fundamentos de Psicofarmacologia, 3ª ed. Artmed, 2014.
- Elkis, H.; Gattaz, W.F. (orgs.). Clínica Psiquiátrica, 2ª ed., Vol. 3. Manole / USP, 2019.
- FDA. Lamotrigine (Lamictal) — Full Prescribing Information, incluindo Medication Guide. Disponível em: www.fda.gov
- ANVISA. Bula de Lamictal® (lamotrigina) — registrada no Brasil. Disponível em: bulario.anvisa.gov.br
Este conteúdo é educativo e não substitui a orientação do seu médico. Em caso de dúvidas, consulte o profissional que te prescreveu.