Flupentixol

O que é e para que serve?

O flupentixol é um antipsicótico — um tipo de remédio usado para tratar condições em que o cérebro produz pensamentos, percepções ou emoções muito fora do esperado. Ele pertence a uma família chamada tioxantenos, que são antipsicóticos mais antigos, mas que ainda têm um papel importante no tratamento de algumas pessoas.

No Brasil, ele é usado principalmente para duas situações: o tratamento de manutenção da esquizofrenia (especialmente em pessoas que já estão estabilizadas, sem agitação intensa) e o tratamento de depressão leve a moderada, às vezes acompanhada de ansiedade. Existe também uma combinação do flupentixol com outro medicamento chamado melitracen, usada para sintomas mistos de ansiedade, depressão e cansaço.

No Brasil, o flupentixol é encontrado principalmente sob o nome comercial Fluanxol®. Ele vem em comprimidos (para uso diário) e também em forma injetável de depósito (uma injeção que dura semanas, chamada de Fluanxol Depot®), que é muito usada quando a pessoa tem dificuldade de tomar comprimidos todos os dias.


Como ele age no seu cérebro?

Pense no seu cérebro como uma cidade cheia de ruas movimentadas. Os neurônios (células do cérebro) se comunicam jogando “mensageiros” de um lado para o outro — e um dos mensageiros mais importantes se chama dopamina. Em condições como a esquizofrenia, essa cidade fica com excesso de tráfego em certas ruas: dopamina demais em alguns lugares, causando alucinações, delírios e pensamentos desorganizados.

O flupentixol age como um guarda de trânsito que fecha parcialmente essas ruas congestionadas. Ele bloqueia os receptores de dopamina (que são como as “portinhas” onde a dopamina entra nas células) — especialmente os chamados D1 e D2. Com menos dopamina passando por essas portinhas, o tráfego se organiza e os sintomas melhoram.

Na depressão, o mecanismo ainda não é completamente entendido, mas acredita-se que, em doses baixas, esse mesmo ajuste no sistema de dopamina ajuda a melhorar o humor, a motivação e a energia — e o efeito costuma aparecer mais rápido do que em antidepressivos tradicionais.


Quando começa a fazer efeito?

Depende do que está sendo tratado.

Para a depressão, o flupentixol é surpreendentemente rápido: muitas pessoas começam a sentir melhora já nos primeiros 2 a 3 dias. Isso é diferente da maioria dos antidepressivos, que costumam demorar 2 a 4 semanas. Mesmo assim, o efeito completo leva algumas semanas para se consolidar.

Para a esquizofrenia, o processo é mais gradual — como reformar uma casa: você começa a ver os primeiros resultados logo, mas a obra completa leva mais tempo. Nas primeiras semanas, o que costuma melhorar primeiro é a agitação e o sono. Os pensamentos e percepções distorcidas vão melhorando progressivamente ao longo de semanas a meses.

Na versão injetável (depot), o remédio vai sendo liberado aos poucos no organismo durante semanas — como um reservatório que vai soltando água devagar. Por isso, os níveis no sangue demoram mais para estabilizar, mas a vantagem é que você não precisa se preocupar em tomar comprimido todo dia.


Como tomar corretamente

Comprimidos: O flupentixol oral pode ser tomado com ou sem comida — a alimentação não interfere na absorção. O horário ideal é de manhã ou no início da tarde, porque em algumas pessoas ele pode causar um leve efeito estimulante que atrapalha o sono se tomado à noite.

As doses variam bastante dependendo do que está sendo tratado. Para depressão, as doses costumam ser baixas (em torno de 0,5 mg a 3 mg por dia). Para esquizofrenia, as doses são maiores e definidas pelo seu médico conforme sua resposta ao tratamento.

Se esquecer uma dose: Tome assim que lembrar, desde que ainda não esteja perto do horário da próxima dose. Se já estiver quase na hora da próxima, pule a esquecida e siga normalmente. Nunca tome dose dupla para compensar.

Não pare por conta própria. Isso é muito importante. Parar o flupentixol de repente pode fazer os sintomas voltarem com força — às vezes até mais intensos do que antes. Se quiser parar ou mudar o remédio, converse com seu médico para fazer isso de forma gradual e segura, diminuindo a dose aos poucos ao longo de semanas.


Efeitos colaterais possíveis — e por que eles acontecem

Comuns (acontecem com mais frequência, geralmente passageiros)

  • Sonolência ou cansaço: O flupentixol tem um leve efeito sedativo, especialmente no início. Acontece porque ele também age em outros receptores do cérebro além da dopamina. Tende a melhorar com o tempo. Se atrapalhar muito, avise seu médico — o horário da dose pode ser ajustado.

  • Boca seca: Acontece porque o remédio tem um efeito anticolinérgico leve (ou seja, ele reduz um pouco a atividade de um sistema que controla, entre outras coisas, a produção de saliva). Beber água com frequência e mascar chiclete sem açúcar ajuda bastante.

  • Tontura ao levantar rápido: O flupentixol pode baixar um pouco a pressão arterial quando você muda de posição de repente (deitado para em pé, por exemplo). Levante devagar, especialmente de manhã.

  • Tremores leves ou rigidez muscular: Como o remédio bloqueia a dopamina, ele pode afetar o sistema que controla os movimentos — o mesmo sistema afetado no Parkinson. Isso é mais comum em doses maiores. Avise seu médico se acontecer; existem remédios que ajudam a controlar esse efeito.

  • Inquietação nas pernas (acatisia): Uma sensação desconfortável de precisar ficar se mexendo, como se as pernas não conseguissem ficar paradas. Também está relacionada ao bloqueio de dopamina. Não ignore esse sintoma — fale com seu médico.

  • Aumento de peso: Pode acontecer, especialmente com o uso prolongado. Manter uma alimentação equilibrada e atividade física ajuda a controlar.

Menos comuns

  • Aumento da prolactina: A prolactina é um hormônio produzido pela hipófise (uma glândula no cérebro). O flupentixol pode aumentar seus níveis porque bloqueia a dopamina nessa região — e a dopamina normalmente “segura” a produção de prolactina. O resultado pode ser saída de leite pelo mamilo (mesmo sem estar grávida ou amamentando), irregularidade menstrual nas mulheres ou diminuição da libido. Avise seu médico se isso ocorrer.

  • Constipação (intestino preso): Também relacionado ao efeito anticolinérgico leve. Aumentar a ingestão de água, fibras e fazer atividade física ajuda.

  • Fotossensibilidade: A pele pode ficar mais sensível ao sol. Use protetor solar e evite exposição prolongada.

  • Alterações no eletrocardiograma (QTc prolongado): O remédio pode causar uma alteração no ritmo elétrico do coração chamada prolongamento do QTc. Isso raramente causa problema em pessoas saudáveis, mas é monitorado pelo médico, especialmente se você tomar outros remédios ou tiver histórico cardíaco.

Raros mas importantes (quando ir ao médico imediatamente)

  • Síndrome Neuroléptica Maligna: É uma reação rara mas grave. Os sinais são: febre alta, músculos muito rígidos, confusão mental e suor excessivo, tudo ao mesmo tempo. Se isso acontecer, vá imediatamente a uma emergência e informe que está tomando flupentixol. O remédio precisa ser suspenso com urgência.

  • Discinesia tardia: Com o uso prolongado, pode aparecer movimentos involuntários repetitivos — especialmente na boca, língua e rosto (como mastigar ou piscar sem querer). Avise seu médico assim que notar qualquer movimento estranho.

  • Convulsões: O flupentixol pode baixar o limiar para convulsões em pessoas predispostas. Se você tiver epilepsia, informe seu médico antes de começar.

  • Icterícia (pele ou olhos amarelados): Sinal de que o fígado pode estar sendo afetado. Procure atendimento médico imediatamente.


O que fazer se tiver efeitos colaterais?

A maioria dos efeitos colaterais do flupentixol aparece no início do tratamento e tende a diminuir nas primeiras semanas, conforme o corpo se adapta. Não entre em pânico se sentir algo diferente logo de cara.

Ligue para seu médico se: tiver tremores, rigidez muscular, inquietação intensa nas pernas, saída de leite pelo mamilo, irregularidade menstrual ou qualquer coisa que esteja atrapalhando sua rotina.

Vá a uma UPA ou emergência se: tiver febre alta com rigidez muscular e confusão (pode ser a síndrome neuroléptica maligna), sentir o coração batendo de forma irregular ou muito acelerada, tiver convulsões, ou perceber que sua pele ou olhos estão amarelados.

O que NÃO fazer: Não pare o remédio de repente por conta própria, mesmo que esteja se sentindo mal. Parar abruptamente pode piorar os sintomas e causar uma recaída. Se os efeitos colaterais estiverem insuportáveis, ligue para seu médico — ele pode ajustar a dose ou trocar o remédio de forma segura.


Cuidados importantes

Álcool: Evite. O álcool potencializa o efeito sedativo do flupentixol — a combinação pode deixar você muito sonolento, com reflexos lentos e aumentar o risco de quedas e acidentes. Além disso, o álcool pode piorar os sintomas da condição que está sendo tratada.

Outros remédios: Avise sempre seu médico e farmacêutico sobre tudo que você toma, incluindo remédios sem receita e suplementos. Alguns cuidados específicos:
Remédios para pressão alta: O flupentixol pode aumentar o efeito deles, causando queda de pressão.
Levodopa (usado no Parkinson): O flupentixol pode reduzir o efeito dela.
Outros remédios que causam sonolência (ansiolíticos, alguns anti-histamínicos): A sonolência pode se somar.
Ritonavir (antirretroviral para HIV): Pode aumentar os níveis de flupentixol no sangue.

Calor extremo: Evite exposição prolongada ao sol forte ou ambientes muito quentes. O flupentixol pode prejudicar a capacidade do corpo de regular a temperatura.

Gravidez: Se você está grávida ou planeja engravidar, converse com seu médico. O uso durante a gravidez precisa ser avaliado com cuidado, pesando riscos e benefícios.

Amamentação: Pequenas quantidades do remédio passam para o leite materno. Estudos limitados não mostraram problemas graves em bebês, mas o ideal é monitorar o bebê de perto e discutir com seu médico se vale a pena continuar amamentando durante o tratamento.

Idosos: Pessoas mais velhas são mais sensíveis aos efeitos do remédio — especialmente tontura, quedas e alterações cardíacas. As doses costumam ser menores e o acompanhamento mais frequente.

Problemas no fígado ou nos rins: Se você tiver alguma dessas condições, informe seu médico. As doses precisam ser ajustadas.


Perguntas frequentes

Vou ficar dependente do flupentixol?
Não, o flupentixol não causa dependência química — você não vai sentir fissura ou precisar de doses cada vez maiores para sentir o mesmo efeito. Mas isso não significa que você pode parar quando quiser: o cérebro se adapta ao remédio, e parar de repente pode causar uma recaída dos sintomas. A retirada precisa ser feita com orientação médica, de forma gradual.

Posso beber álcool enquanto tomo esse remédio?
Não é recomendado. O álcool aumenta a sonolência causada pelo flupentixol e pode piorar os sintomas da sua condição. Se for a uma ocasião especial, converse com seu médico antes — mas o ideal é evitar.

Posso parar de tomar quando me sentir bem?
Não. Sentir-se bem é sinal de que o remédio está funcionando, não de que você não precisa mais dele. Parar por conta própria pode fazer tudo voltar — às vezes de forma mais intensa. A decisão de parar ou reduzir a dose precisa ser tomada junto com seu médico.

O flupentixol vai me deixar “zumbi” ou sem personalidade?
Não deveria. Nas doses corretas, o objetivo é justamente que você se sinta mais você mesmo — com menos sintomas atrapalhando sua vida. Se você estiver se sentindo muito apagado, sem emoções ou com dificuldade de pensar, avise seu médico. Pode ser necessário ajustar a dose.

E se eu esquecer a injeção de depósito?
Avise seu médico o quanto antes para remarcar. Não tente compensar com comprimidos por conta própria. A injeção de depósito tem um cronograma específico que precisa ser mantido para o remédio funcionar bem.


Referências

  • Stahl, S.M. Fundamentos de Psicofarmacologia, 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2010. pp. 320–323.
  • PubChem. Flupentixol — Pharmacology and Biochemistry. National Library of Medicine. Disponível em: https://pubchem.ncbi.nlm.nih.gov
  • ANVISA. Bula do Fluanxol® (flupentixol). Lundbeck Brasil. Disponível em: https://www.anvisa.gov.br

Este conteúdo é educativo e não substitui a orientação do seu médico. Em caso de dúvidas, consulte o profissional que te prescreveu.

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