O que é e para que serve?
O escitalopram é um antidepressivo da família dos ISRS — Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina. Apesar do nome “antidepressivo”, ele não serve só para depressão: é um dos medicamentos mais usados no mundo para tratar ansiedade também. Pense nele como um regulador do humor e da ansiedade, não como um “remédio para ficar feliz”.
No Brasil, ele é encontrado com os nomes comerciais Lexapro®, Reconter®, Exodus® e Espran®, além de versões genéricas com o próprio nome escitalopram. Todos têm a mesma substância ativa e o mesmo efeito.
As condições para as quais ele é mais prescrito são: depressão (a partir dos 12 anos), transtorno de ansiedade generalizada (aquela preocupação excessiva com tudo o tempo todo), síndrome do pânico, TOC (transtorno obsessivo-compulsivo), fobia social, TEPT (estresse pós-traumático) e TDPM (tensão pré-menstrual severa). Seu médico pode ter te prescrito para qualquer uma dessas condições — ou até para mais de uma ao mesmo tempo, o que é bastante comum.
Como ele age no seu cérebro?
Imagine que os neurônios do seu cérebro são vizinhos que se comunicam mandando mensagens pelo muro. A serotonina é uma dessas mensagens — ela está ligada ao bem-estar, ao sono, ao humor e à sensação de calma. Depois que uma mensagem é enviada, o neurônio que a mandou costuma “recolhê-la” de volta para reutilizar. Esse processo se chama recaptação.
O problema é que, em pessoas com depressão ou ansiedade, essa mensagem acaba sendo recolhida rápido demais — antes de fazer efeito direito no vizinho do lado. O escitalopram age bloqueando esse recolhimento. Ele funciona como um porteiro que impede a mensagem de voltar cedo demais, deixando a serotonina circular por mais tempo entre os neurônios.
Com o tempo, o cérebro se adapta a esse nível maior de serotonina disponível, e é aí que os sintomas de depressão e ansiedade começam a melhorar. O escitalopram é considerado um dos ISRS mais “limpos” que existem — ou seja, ele age quase exclusivamente nesse mecanismo da serotonina, sem mexer muito em outros sistemas do cérebro. Isso tende a significar menos efeitos colaterais em comparação com antidepressivos mais antigos.
Quando começa a fazer efeito?
Essa é uma das perguntas mais importantes — e a resposta costuma frustrar um pouco: o efeito completo demora de 2 a 6 semanas para aparecer. Às vezes até um pouco mais.
Por quê tanta demora? Porque o escitalopram não é como um analgésico que age em horas. Ele precisa de tempo para que o cérebro se adapte e reorganize seus circuitos. É como plantar uma árvore: você rega todo dia, mas a sombra só aparece depois de um tempo. O remédio está funcionando mesmo que você ainda não sinta.
Nas primeiras 1 a 2 semanas, é comum sentir alguns efeitos colaterais (náusea, leve agitação, insônia) antes de qualquer melhora no humor. Isso é normal e não significa que o remédio está te fazendo mal — é o cérebro se ajustando. A melhora costuma aparecer primeiro no sono e na energia, e só depois no humor e na ansiedade. Se após 4 a 6 semanas você não sentir nenhuma diferença, converse com seu médico — pode ser necessário ajustar a dose.
Como tomar corretamente
O escitalopram vem em comprimidos (geralmente de 10 mg ou 20 mg) e pode ser tomado com ou sem comida — o estômago não interfere na absorção. Se a náusea incomodar no início, tomar junto com uma refeição pode ajudar.
Horário: pode ser tomado de manhã ou à noite. Se ele te deixar mais agitado ou atrapalhar o sono, prefira a manhã. Se te deixar com sono, tome à noite. Converse com seu médico sobre o que funciona melhor para você.
Dose habitual: a maioria das pessoas começa com 10 mg por dia. Dependendo da resposta, o médico pode aumentar para 20 mg — que é a dose máxima recomendada. Não aumente a dose por conta própria.
Esqueceu uma dose? Tome assim que lembrar, desde que não esteja muito perto do horário da próxima dose. Se estiver, pule a dose esquecida e continue normalmente. Nunca tome duas doses de uma vez para compensar.
Não pare abruptamente. Esse é um ponto fundamental. Parar o escitalopram de repente pode causar uma síndrome de descontinuação — tontura, formigamentos, irritabilidade, sensação estranha de “choque elétrico” na cabeça. Quando chegar a hora de parar, seu médico vai orientar uma redução gradual da dose ao longo de semanas.
Efeitos colaterais possíveis — e por que eles acontecem
A serotonina não age só no cérebro — ela está presente no intestino, nos vasos sanguíneos, nos centros do sono e em outros lugares do corpo. Quando o escitalopram aumenta a serotonina disponível, esses outros lugares também sentem o efeito, e é daí que vêm a maioria dos efeitos colaterais. A boa notícia: a maioria deles aparece no começo do tratamento e some em algumas semanas, enquanto o efeito terapêutico (a melhora de verdade) só cresce com o tempo.
Comuns (acontecem com mais frequência, geralmente passageiros)
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Náusea: É o efeito colateral mais relatado, especialmente nas primeiras semanas. Acontece porque a serotonina estimula receptores no intestino que controlam o movimento intestinal. Tomar o remédio com comida ajuda bastante. Costuma passar em 1 a 2 semanas.
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Insônia ou sonhos intensos: A serotonina também age nos centros do sono no cérebro. No início, esse ajuste pode atrapalhar o sono. Tomar o remédio de manhã costuma resolver. Se persistir, avise seu médico.
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Diarreia ou constipação: Pelo mesmo motivo da náusea — a serotonina mexe com o funcionamento do intestino. Geralmente passageiro.
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Boca seca: Acontece porque a serotonina interfere indiretamente nas glândulas salivares. Beber água com frequência e manter uma boa higiene bucal ajuda.
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Dor de cabeça: Comum nas primeiras semanas, tende a desaparecer sozinha. Analgésicos comuns (como paracetamol) podem ser usados pontualmente — mas avise seu médico se for frequente.
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Cansaço ou sonolência: Algumas pessoas se sentem mais lentas no início. Costuma melhorar com o tempo.
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Sudorese aumentada: Especialmente à noite. Acontece por ação da serotonina no sistema nervoso autônomo, que controla funções automáticas do corpo como a temperatura.
Menos comuns
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Disfunção sexual: Esse é um dos efeitos que mais incomoda e que pode persistir enquanto o remédio está sendo usado. Nos homens, pode causar demora para ejacular ou dificuldade de ereção. Em homens e mulheres, pode diminuir o desejo sexual ou dificultar o orgasmo. Acontece porque a serotonina em excesso reduz a liberação de dopamina — que é o neurotransmissor ligado ao prazer e à motivação sexual. Se isso estiver te incomodando muito, não sofra em silêncio: converse com seu médico. Existem estratégias para lidar com isso.
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Embotamento emocional ou apatia: Algumas pessoas descrevem uma sensação de “ficar no piloto automático” — não sentem tristeza, mas também não sentem alegria. Isso acontece pelo mesmo mecanismo da disfunção sexual: o excesso de serotonina pode reduzir a dopamina, que é responsável pela motivação e pelo prazer. Se você sentir isso, avise seu médico — pode ser necessário ajustar a dose ou a estratégia de tratamento.
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Tremores leves: Podem aparecer, especialmente em doses mais altas. Avise seu médico se isso ocorrer.
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Agitação ou nervosismo: Paradoxalmente, algumas pessoas ficam mais ansiosas no início do tratamento antes de melhorar. Isso é mais comum em quem já tem tendência a ansiedade intensa. Geralmente passa em 1 a 2 semanas.
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Ganho ou perda de peso: Pode acontecer em ambas as direções, dependendo da pessoa.
Raros mas importantes (quando ir ao médico imediatamente)
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Síndrome serotoninérgica: É uma reação rara mas grave que acontece quando há serotonina demais no organismo — geralmente quando o escitalopram é combinado com outros medicamentos que também aumentam a serotonina. Os sinais são: agitação intensa, confusão mental, tremores, rigidez muscular, febre, batimento cardíaco acelerado e suor excessivo. Se isso acontecer, vá à emergência imediatamente.
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Pensamentos de se machucar: Em adolescentes e adultos jovens (até cerca de 24 anos), antidepressivos podem, raramente, aumentar pensamentos suicidas nas primeiras semanas de tratamento. Isso não significa que o remédio vai causar isso em você — mas é importante que familiares e pessoas próximas fiquem atentos a mudanças de comportamento, especialmente no início. Se você tiver esses pensamentos, procure ajuda imediatamente.
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Hiponatremia (sódio baixo no sangue): Raro, mais comum em idosos. Sinais: confusão, dor de cabeça intensa, fraqueza, convulsão. Procure atendimento médico.
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Sangramento incomum: O escitalopram pode afetar a coagulação do sangue. Se você notar hematomas fáceis, sangramento gengival sem motivo ou sangramento prolongado após um corte, avise seu médico.
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Glaucoma de ângulo fechado: Muito raro, mas pode acontecer em pessoas com predisposição. Sinal: dor intensa no olho com visão turva. Emergência oftalmológica.
O que fazer se tiver efeitos colaterais?
A maioria dos efeitos colaterais do escitalopram é desconfortável, mas não perigosa, e tende a diminuir nas primeiras 2 a 3 semanas. A tentação de parar o remédio por conta própria é grande — mas resistir a ela é importante, porque você pode estar a poucos dias de o desconforto passar.
Ligue para seu médico se:
– Os efeitos colaterais estiverem muito intensos ou atrapalhando sua vida
– A disfunção sexual estiver te incomodando muito
– Você sentir agitação ou ansiedade piores do que antes de começar
– Você tiver pensamentos de se machucar
Vá a uma UPA ou emergência se:
– Você sentir agitação intensa + confusão + febre + tremores (pode ser síndrome serotoninérgica)
– Você tiver pensamentos sérios de se machucar
– Você sentir dor no peito, batimento cardíaco muito irregular ou desmaio
– Você tiver convulsão
O que NÃO fazer:
– Não pare o remédio de repente sem orientação médica — a parada abrupta causa sintomas desagradáveis de descontinuação
– Não aumente a dose por conta própria achando que vai melhorar mais rápido
– Não tome uma dose dupla para compensar uma dose esquecida
Cuidados importantes
Álcool: Evite ou reduza bastante o consumo de álcool durante o tratamento. O álcool é um depressor do sistema nervoso central e pode piorar a depressão e a ansiedade — o oposto do que o remédio está tentando fazer. Além disso, a combinação pode aumentar a sonolência e prejudicar o raciocínio.
Outros medicamentos — atenção especial:
– IMAO (como fenelzina, tranilcipromina, selegilina): combinação proibida. Pode causar síndrome serotoninérgica grave. É necessário um intervalo de pelo menos 14 dias entre um e outro.
– Pimozida (antipsicótico): combinação proibida — risco cardíaco.
– Anti-inflamatórios (ibuprofeno, aspirina, diclofenaco) e anticoagulantes (varfarina): aumentam o risco de sangramento quando usados junto com o escitalopram. Avise seu médico se precisar usar esses medicamentos com frequência.
– Erva de São João (Hypericum): suplemento natural que também aumenta a serotonina. Combinado com escitalopram, pode causar excesso de serotonina. Evite.
– Triptanos (usados para enxaqueca, como sumatriptano): avise seu médico se usar, pois também aumentam a serotonina.
Gravidez: O escitalopram não parece causar malformações, mas pode aumentar o risco de baixo peso ao nascer e outros efeitos no recém-nascido. A decisão de manter ou suspender o medicamento durante a gravidez precisa ser feita junto com seu médico — porque tratar a depressão na gravidez também é importante para a saúde da mãe e do bebê. Não tome essa decisão sozinha.
Amamentação: O escitalopram passa para o leite materno em pequenas quantidades. Os estudos mostram que a quantidade que chega ao bebê é baixa, mas a decisão deve ser individualizada com seu médico e pediatra.
Idosos: O escitalopram pode ser usado, mas com mais cuidado — especialmente porque pode baixar o sódio no sangue (hiponatremia) e aumentar o risco de quedas por tontura. A dose costuma ser menor (10 mg/dia).
Problemas no fígado: A dose deve ser reduzida para 10 mg/dia, pois o fígado é responsável por metabolizar o medicamento.
Problemas nos rins: Casos leves a moderados não precisam de ajuste de dose. Casos graves requerem cautela.
Perguntas frequentes
Vou ficar dependente do escitalopram?
Não da forma que a palavra “dependência” costuma evocar — o escitalopram não causa euforia, não cria fissura e não precisa de doses cada vez maiores para funcionar. O que pode acontecer é uma síndrome de descontinuação se você parar de repente (tontura, formigamentos, irritabilidade), mas isso é diferente de dependência. Com uma redução gradual orientada pelo médico, a parada é tranquila.
Posso beber álcool enquanto tomo?
O ideal é evitar. O álcool piora a depressão e a ansiedade, pode aumentar a sonolência causada pelo remédio e trabalha contra o tratamento. Uma taça ocasional provavelmente não vai causar um problema grave, mas o consumo regular ou excessivo é um problema real.
Posso parar de tomar quando me sentir bem?
Sentir-se bem é sinal de que o remédio está funcionando — não de que você não precisa mais dele. A maioria dos médicos recomenda manter o tratamento por pelo menos 6 a 12 meses após a melhora dos sintomas para evitar recaída. A decisão de parar deve ser sempre tomada junto com seu médico, com redução gradual da dose.
O escitalopram vai mudar minha personalidade?
Não. Ele não vai te deixar “entorpecido”, “zumbi” ou diferente de quem você é. O objetivo é justamente te devolver a você mesmo — tirar o peso da depressão ou da ansiedade que estava impedindo você de ser quem você é. Se você sentir que está se sentindo “apagado” ou sem emoções, isso é um efeito colateral que deve ser discutido com seu médico, não o efeito esperado do tratamento.
Quanto tempo vou precisar tomar?
Depende de cada pessoa e de cada situação. Para um primeiro episódio de depressão, o tratamento costuma durar de 6 meses a 1 ano após a melhora. Para pessoas com episódios recorrentes ou ansiedade crônica, pode ser mais longo. Seu médico é a melhor pessoa para responder isso no seu caso específico.
Referências
- Stahl, S.M. Fundamentos de Psicofarmacologia de Stahl, 3ª ed. Artmed, 2014. pp. 269–273.
- FDA. Escitalopram — Full Prescribing Information (Lexapro). AbbVie Inc. Disponível em: www.fda.gov
- ANVISA. Bula do Lexapro® (escitalopram). Disponível no portal de bulário eletrônico da ANVISA: bulario.anvisa.gov.br
Este conteúdo é educativo e não substitui a orientação do seu médico. Em caso de dúvidas, consulte o profissional que te prescreveu.