Definição e Posição Nosológica
A avaliação do nível de consciência e excitação constitui o componente fundamental do exame do estado mental (EEM), servindo como o ponto de partida para toda a investigação neuropsiquiátrica subsequente. Consiste na observação e mensuração clínica do estado de alerta basal do paciente, que varia em um continuum desde a vigília plena e atenção sustentada até estados de redução (obnubilação, torpor, coma) ou elevação patológica (agitação psicomotora) da consciência.
Conforme o modelo proposto por Kaplan & Sadock, o "nível de consciência e excitação" é listado como o segundo item da "Descrição Geral" no Exame do Estado Mental Neuropsiquiátrico (Tabela 21.1-1), antecedido apenas pela aparência geral. Esta posição hierárquica reflete sua natureza primária: é um pré-requisito para a avaliação confiável de todas as outras funções mentais superiores, como atenção, memória, linguagem e pensamento. Um comprometimento neste nível invalida ou qualifica significativamente os achados nas demais áreas.
O nível de consciência não é, por si só, um diagnóstico nos manuais DSM-5-TR ou CID-11, mas sim um sinal clínico cardinal de uma vasta gama de condições. Sua alteração é um critério central para diagnósticos como Delirium (perturbação neurocognitiva aguda), estados catatônicos, episódios maníacos graves, intoxicações e abstinências por substâncias, e uma infinidade de condições neurológicas (traumatismo cranioencefálico, acidente vascular cerebral, encefalites, etc.). A precisão na sua descrição é, portanto, um elemento crítico para a formulação diagnóstica diferencial e para a decisão sobre a urgência da intervenção.
Etiopatogenia e Neurobiologia
A consciência, em seu aspecto mais básico de alerta e excitação (também chamada de arousal), é mediada primariamente pelo Sistema de Ativação Reticular Ascendente (SARA), uma rede neural difusa localizada no tronco cerebral, diencéfalo e suas projeções talâmicas e corticais. O SARA integra estímulos sensoriais, autonômicos e endócrinos para modular o tônus cortical global. Qualquer processo patológico que afete estrutural ou funcionalmente este sistema ou suas projeções pode alterar o nível de consciência.
Os principais mecanismos etiopatogênicos incluem:
- Lesões Estruturais Diretas: Tumores, hemorragias, infartos, traumatismos ou compressões do tronco cerebral, tálamo ou hemisférios cerebrais difusamente.
- Disfunção Metabólica/Difusa: Distúrbios que afetam globalmente o metabolismo neuronal, como hipóxia, hipoglicemia, distúrbios eletrolíticos (especialmente sódio e cálcio), insuficiência hepática ou renal, e disfunções endócrinas graves (mixedema, crise tireotóxica).
- Efeitos de Substâncias Psicoativas: Depressores do SNC (álcool, opioides, benzodiazepínicos, barbitúricos) reduzem a excitabilidade neuronal global. Estimulantes (cocaína, anfetaminas, metilfenidato) podem elevar excessivamente o arousal, levando à agitação e, em casos extremos, a estados confusionais ou convulsivos. Alucinógenos podem desorganizar o processamento cortical.
- Processos Inflamatórios/Infecciosos: Meningites, encefalites e condições autoimunes (ex.: encefalite por anti-receptor de NMDA) causam disfunção neuronal por inflamação direta.
- Crises Epilépticas: Especialmente estados de mal epiléptico não convulsivo, que podem se manifestar como um estado de consciência flutuante e reduzida.
- Distúrbios Psiquiátricos Primários: Em condições como a catatonia (seja na esquizofrenia, no transtorno bipolar ou na depressão), há uma profunda desregulação dos circuitos cortico-estriatais-tálamo-corticais, levando a extremos de imobilidade/estupor ou agitação. Episódios maníacos graves e psicóticos agudos também podem apresentar níveis de excitação patologicamente elevados.
Do ponto de vista neuroquímico, múltiplos sistemas de neurotransmissores modulam o SARA:
- Noradrenalina: Originária do locus coeruleus, é crucial para a vigilância, o despertar e a resposta ao estresse.
- Acetilcolina: Projeta-se de núcleos do tronco cerebral e da base do cérebro para o tálamo e o córtex, promovendo o estado de vigília e o sono REM.
- Dopamina: Envolvida na motivação, direcionamento da atenção e comportamento orientado a objetivos. Sua hiperatividade está ligada à agitação e psicose.
- Serotonina: Originária dos núcleos da rafe, modula o humor, o ciclo sono-vigília e os comportamentos inibitórios.
- Glutamato (principal excitatório) e GABA (principal inibitório): Mantêm o equilíbrio excitação/inibição cortical. A disfunção neste equilíbrio é central em condições como delirium e epilepsia.
Quadro Clínico: O Continuum da Consciência
A avaliação clínica requer a categorização do paciente em um ponto do espectro de consciência. A terminologia deve ser precisa e descritiva.
Estados de Consciência Reduzida (Hipovigília)
São caracterizados por uma elevação do limiar necessário para eliciar uma resposta a estímulos. A progressão típica, da menor para a maior gravidade, é:
- Letargia ou Obnubilação: O paciente está sonolento, mas pode ser despertado completamente por estímulos verbais normais. Uma vez despertado, pode manter a atenção por um tempo limitado, tendendo a retornar ao estado de sonolência se não estimulado. O pensamento e as ações são lentificados.
- Torpor ou Estupor: O paciente só é despertado por estímulos vigorosos e repetidos (sacudir, chamar em voz alta, estímulos dolorosos). A resposta, quando ocorre, é simples (um gemido, um movimento de afastamento) e o paciente não atinge um estado de alerta completo. A interação verbal é mínima ou ausente.
- Coma: Estado de completa inconsciência. O paciente não desperta, não abre os olhos e não apresenta qualquer resposta significativa a estímulos, inclusive dolorosos. Podem persistir reflexos do tronco cerebral ou espinhais.
Estados de Consciência Alterada ou Desorganizada
- Delirium (Estado Confusional Agudo): Caracteriza-se por uma alteração aguda e flutuante da consciência e da atenção. O paciente pode oscilar entre períodos de relativa lucidez e períodos de profunda desorientação e obnubilação. A desatenção é proeminente, e há pensamento desorganizado, discurso incoerente e, frequentemente, alterações perceptivas (ilusões, alucinações). É uma emergência médica.
- Estado de Consciência Limítrofe ou Flutuante: Comum em demências avançadas, encefalopatias crônicas ou após lesões cerebrais. O paciente não está em claro torpor, mas seu nível de alerta oscila ao longo do dia, com períodos de maior interação e outros de apatia e retraimento.
Estados de Excitação Elevada (Hipervigília)
- Agitação Psicomotora: Aumento patológico, não dirigido e geralmente despropositado da atividade motora, acompanhado de uma sensação interna de tensão, angústia ou irritabilidade. O paciente pode ser incapaz de permanecer sentado, andar de um lado para outro, mexer as mãos, remexer na roupa ou apresentar agressividade. O nível de consciência pode estar claro, mas a capacidade de focar a atenção está gravemente prejudicada pela intensa excitação interna.
- Mania/Acessos de Fúria: A agitação está inserida em um contexto de humor eufórico ou irritável, grandiosidade, aceleração do pensamento (fuga de ideias) e impulsividade. A excitação é parte de uma síndrome afetiva mais ampla.
- Ansiedade Extrema/Pânico: A excitação é motivada por um afeto de medo intenso, apreensão ou terror, com ativação autonômica marcante (taquicardia, sudorese, tremores).
Achados Associados no Exame do Estado Mental
Conforme o Compêndio de Kaplan & Sadock, a avaliação do nível de consciência e excitação não é isolada. Ela se integra à observação de outros itens da Descrição Geral:
- Atenção ao Ambiente: O paciente responde a sons da sala? Olha para a porta quando alguém entra? Parece absorto em estímulos internos (alucinações)?
- Postura e Movimentos: Em estados catatônicos, pode-se observar a catalepsia (manutenção rígida de uma postura imposta), flexibilidade cérea ou agitação estereotipada. No delirium, é comum o flapping (asterixe).
- Atitude Geral e Reação ao Examinador: O paciente é cooperativo, desconfiado, hostil, indiferente? O contato visual é estabelecido e mantido? A reação é apropriada ao contexto da entrevista?
Avaliação e Diagnóstico
Entrevista Clínica e Observação
A avaliação começa no momento em que o clínico vê o paciente. Dados cruciais são obtidos antes de qualquer pergunta formal:
- Observação Inicial: O paciente está deitado com os olhos fechados? Responde ao ser chamado pelo nome? A expressão facial é reativa? A postura é natural?
- Anamnese (frequentemente colateral): É imperativo obter informações de familiares, acompanhantes ou equipe de enfermagem sobre:
- Início e evolução da alteração (horas, dias).
- Contexto: uso de medicamentos novos, substâncias, infecção recente, trauma, cirurgia.
- Flutuação ao longo do dia (pior à noite – sundowning – sugere delirium).
- Histórico psiquiátrico e neurológico prévio.
- Histórico de condições clínicas (diabetes, hepatopatia, cardiopatia).
Exame do Estado Mental Focado
Após a observação inicial, procede-se a uma avaliação mais estruturada, conforme os itens listados no Compêndio:
-
Avaliação do Nível de Consciência:
- Estímulo Verbal: Chamar pelo nome em volume normal, depois em volume aumentado.
- Estímulo Físico: Sacudir gentilmente o ombro.
- Estímulo Doloroso: Aplicar pressão no leito ungueal ou no ângulo mandibular. A resposta deve ser descrita: "retira o membro de forma proposital", "apenas flexão reflexa", "nenhuma resposta".
- Classificação: Usar termos padronizados (Letárgico, Obnubilado, Estuporoso, Em Coma).
-
Avaliação da Atenção e Concentração: A atenção é a porta de entrada das funções cognitivas e está intimamente ligada ao nível de consciência. Testes comuns incluem:
- Séries de 7: "Subtraia 7 de 100, depois 7 do resultado, e continue." (Avalia atenção sustentada e cálculo). Kaplan & Sadock citam que no MEEM, erros nesta tarefa pontuam para desatenção.
- Soletrar uma Palavra de Trás para Frente: Ex.: "MUNDO" -> "ODNUM".
- Dígitos em Ordem Direta e Inversa: "Repita os números: 5-8-2-6." "Agora repita-os de trás para frente."
- A incapacidade de realizar estas tarefas simples em um paciente aparentemente alerta é um forte indicador de delirium ou outro comprometimento cognitivo agudo.
-
Orientação: Avaliar para pessoa, lugar, tempo e situação. A desorientação, especialmente temporal, é um dos primeiros sinais de comprometimento da consciência.
-
Aspectos Comportamentais: Documentar a presença de agitação, inquietação, retardo psicomotor, ou maneirismos.
Instrumentos de Avaliação
- Escala de Coma de Glasgow (ECG): Padrão-ouro para avaliação quantitativa do nível de consciência em emergências, especialmente em trauma. Avalia abertura ocular, resposta verbal e resposta motora.
- Confusion Assessment Method (CAM): Instrumento validado e amplamente utilizado para o diagnóstico de delirium, baseado em quatro características: início agudo e curso flutuante, desatenção, pensamento desorganizado e nível de consciência alterado.
- Miniexame do Estado Mental (MEEM) e MoCA (Montreal Cognitive Assessment): Embora sejam testes cognitivos mais amplos, sua aplicação é inviável ou pouco confiável se o nível de consciência estiver significativamente comprometido. Kaplan & Sadock alertam que o MEEM tem limitações, pois não avalia profundamente as funções executivas e pode subestimar déficits. No entanto, uma pontuação muito baixa em um paciente com nível de consciência aparentemente intacto é um sinal de alerta.
- Escalas de Agitação: Como a Positive and Negative Syndrome Scale – Excited Component (PANSS-EC) ou a Agitation-Calmness Evaluation Scale (ACES), usadas para quantificar a resposta ao tratamento em quadros de agitação.
Exames Complementares
A investigação é guiada pela suspeita clínica e tem como objetivo principal identificar causas tratáveis.
- Laboratoriais Básicos: Hemograma, glicemia, eletrólitos (Na, K, Ca, Mg), função renal (ureia/creatinina), função hepática (TGO, TGP), TSH, gasometria arterial, dosagem de etanol e toxicológico na urina/sangue.
- Neuroimagem: Tomografia Computadorizada (TC) de crânio sem contraste é a primeira linha em emergências para descartar hemorragia, edema ou hidrocefalia. A Ressonância Magnética (RM) é mais sensível para isquemia, encefalite e lesões da linha média.
- Eletroencefalograma (EEG): Fundamental para diagnosticar estados de mal epiléptico não convulsivo, encefalopatias metabólicas (mostra lentificação difusa) e para confirmar a atividade cerebral em pacientes em coma. A figura do Compêndio (Figura 1.8-3) ilustra um traçado normal de vigília.
- Líquido Cefalorraquidiano (LCR): Indicado se houver suspeita de meningite, encefalite ou hemorragia subaracnóidea.
Diagnóstico Diferencial Estruturado
| Condição | Nível de Consciência/Excitação | Curso | Achados Chave no EEM | Exames Úteis |
|---|---|---|---|---|
| Delirium | Flutuante, de letargia a agitação. Desatenção grave. | Agudo (horas/dias), flutua. | Desorientação, pensamento desorganizado, alucinações (visuais). | Identificar causa subjacente (infecção, metabólica). |
| Demência | Normal ou levemente reduzido (apatia). Agitação pode ocorrer. | Crônico e progressivo (meses/anos). | Déficits de memória, linguagem, práxias. Consciência intacta nas fases iniciais. | MEEM/MoCA, neuroimagem estrutural. |
| Depressão com Retardo Psicomotor | Alerta, mas com lentificação global (não é obnubilação). | Episódio de semanas/meses. | Humor deprimido, anedonia, pensamentos de culpa/ruína. | Avaliação clínica. MEEM normal. |
| Mania com Agitação | Excitação elevada, hiperalerta. | Episódio de dias/semanas. | Humor eufórico/irritável, fuga de ideias, grandiosidade. | Avaliação clínica, história prévia. |
| Catatonia (Estuporosa) | Estupor ou marcada imobilidade. Pode haver vigilância (olhos seguem objetos). | Agudo/Subagudo. | Catalepsia, flexibilidade cérea, mutismo, negativismo. | Teste com benzodiazepínico (melhora dramática). |
| Intoxicação por Depressores | Letargia, torpor, coma. | Relação temporal com uso. | Pupilas mióticas (opioides), nistagmo (benzodiazepínicos). | Toxicológico, etilometria. |
| Acidente Vascular Cerebral (Tronco Cerebral) | Obnubilação, torpor, coma. | Início súbito. | Sinais neurológicos focais (assimetria pupilar, déficit motor). | TC/RM de crânio urgente. |
Armadilhas Diagnósticas e Comorbidades
- "Pseudodemência" Depressiva vs. Demência Verdadeira: A lentificação da depressão pode simular um déficit cognitivo. A avaliação do humor e o curso são essenciais.
- Delirium Superposto a Demência: Muito comum. Uma piora aguda do estado mental em um paciente demenciado deve sempre levantar suspeita de delirium.
- Catatonia não Reconhecida: Frequentemente confundida com psicose grave, depressão estuporosa ou até mesmo comatose. A falta de resposta a estímulos pode ser interpretada como um nível de consciência rebaixado, quando na verdade é um estado de imobilidade voluntária e involuntária.
- Efeitos Adversos de Medicamentos: Anticolinérgicos, opioides, benzodiazepínicos, anticonvulsivantes e muitos outros fármacos podem causar sedação, confusão ou agitação paradoxal, especialmente em idosos.
Tratamento Farmacológico
O tratamento é dirigido à causa subjacente. Não se trata simplesmente a "baixa consciência" ou a "agitação".
Para Estados de Consciência Reduzida (Delirium, Encefalopatias)
- Tratar a Causa Primária: Antibióticos para infecção, correção de hipoglicemia ou distúrbios hidroeletrolíticos, descontinuação de drogas ofensivas.
- Suporte Ambiental: Ambiente calmo, iluminação adequada (dia/noite), presença de familiares, reorientação.
- Antipsicóticos (para delirium agitado/hiperativo):
- Haloperidol: Clássico, via oral, IM ou IV (com monitoração cardíaca – QT). Dose baixa (0,5 – 2 mg) e titulação cuidadosa. É a primeira linha em muitos protocolos de agitação.
- Antipsicóticos Atípicos: Risperidona, olanzapina, quetiapina. Podem ter perfil de efeitos adversos mais favorável em idosos, mas ainda com risco metabólico e sedação.
Para Estados de Agitação Psicomotora (de origem psiquiátrica)
O objetivo é a sedação rápida e segura, seguida da instituição de um tratamento de manutenção para o transtorno de base.
- Primeira Linha (Agitação Aguda):
- Benzodiazepínicos (Lorazepam): Via oral, sublingual ou IM. Eficaz para agitação por ansiedade, abstinência alcoólica e como coadjuvante em psicose. Risco de sedação excessiva e paradoxal.
- Antipsicóticos IM: Haloperidol combinado com prometazina (para reduzir efeitos extrapiramidais) ou Olanzapina IM. A Ziprasidona IM também é uma opção.
- Tratamento de Manutenção (após controle da crise):
- Definido pelo diagnóstico de base: antipsicóticos para esquizofrenia ou mania; estabilizadores de humor (lítio, valproato, carbamazepina) para transtorno bipolar; antidepressivos para depressão agitada.
Situações Especiais
- Idosos: "Começar com dose baixa e aumentar lentamente" (start low, go slow). Evitar anticolinérgicos e benzodiazepínicos de longa ação. Preferir antipsicóticos atípicos em doses mínimas, se necessário.
- Gestação/Lactação: Avaliar risco-benefício. Benzodiazepínicos e alguns antipsicóticos (como a quetiapina) podem ser considerados, mas com cautela. A psicoterapia e o suporte ambiental são prioritários.
- Contexto Brasileiro (RENAME/SUS): O Sistema Único de Saúde dispõe, através da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME), de opções fundamentais como haloperidol, prometazina, clorpromazina, carbamazepina e diazepam. Medicamentos mais novos (olanzapina, risperidona, quetiapina) também estão disponíveis, podendo haver variação entre municípios. Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) são a porta de entrada para crises não eminentemente somáticas.
Tratamento Não Farmacológico
É a base do manejo, especialmente em condições crônicas e no delirium.
- Psicoeducação Familiar: Explicar a natureza do quadro (ex.: "não é uma loucura, é uma confusão mental causada pela infecção"), orientar sobre comunicação clara e reorientação.
- Intervenções Ambientais: Para delirium e demência: calendários e relógios visíveis, iluminação natural, redução de ruídos, objetos familiares. Para agitação: ambiente de baixa estimulação, espaço seguro.
- Reabilitação Neuropsicológica e Psiquiátrica: Para pacientes com sequelas de traumatismo craniano, AVC ou doenças degenerativas, programas de reabilitação focam em estratégias compensatórias para déficits de atenção e funções executivas.
- Procedimentos:
- Eletroconvulsoterapia (ECT): Tratamento de primeira linha e altamente eficaz para catatonia (independente da causa subjacente), depressão grave com estupor e episódios maníacos agitados refratários.
- Estimulação Magnética Transcraniana (TMS): Pode ser considerada para depressão com retardo psicomotor, mas não para situações agudas de alteração da consciência.
Manejo Clínico Prático
- Prioridade: Segurança. Um paciente com nível de consciência alterado ou agitação grave é uma emergência. Avaliar risco de queda, aspiração, auto ou heteroagressividade.
- A Regra do "Por Quê?": Antes de sedar, investigar. A agitação é por dor? Retenção urinária? Abstinência? Uma causa tratável pode ser resolvida, evitando medicação desnecessária.
- Monitoramento Contínuo: Em delirium, o nível de consciência flutua. Reavaliações frequentes são necessárias. Usar escalas como a CAM diariamente.
- Resistência Terapêutica: Se a agitação não responde a doses adequadas de primeira linha, reconsiderar o diagnóstico. É catatonia? (testar com lorazepam EV). É um estado de mal não convulsivo? (solicitar EEG urgente). Há uma condição clínica não detectada?
- Alta e Seguimento: A resolução do nível de consciência alterado (especialmente no delirium) não significa cura. O paciente pode desenvolver transtorno de estresse pós-traumático relacionado à experiência. O seguimento ambulatorial com psiquiatra e/ou neurologista é crucial.
Perspectiva do Paciente e Comunicação Clínica
- Vivência do Paciente: Estados de consciência reduzida são frequentemente vivenciados como períodos de "apagão" ou memórias fragmentadas e aterrorizantes. No delirium, as alucinações são vividas como reais, causando medo intenso. A agitação é acompanhada de uma sensação angustiante de perda de controle e impulsividade incontrolável.
- Psicoeducação:
- Para a Família: "Seu familiar está com uma confusão mental aguda (delirium). Isso é comum em infecções/hospitais. Não é demência. Ele pode dizer coisas estranhas ou ficar agitado por medo. Nosso foco é tratar a causa e mantê-lo seguro. Sua presença calma e reorientadora ajuda muito."
- Para o Paciente (após a resolução): É importante revisitar o episódio, normalizar a experiência ("isso é uma reação comum do cérebro ao estresse da doença"), e assegurar que não era "loucura".
- Impacto Funcional: Uma alteração aguda da consciência é incapacitante. Na recuperação, podem persistir fadiga, dificuldades de concentração e memória por semanas ou meses ("déficit cognitivo pós-delirium").
- Adesão: Pacientes que vivenciaram efeitos adversos sedativos de medicamentos podem relutar em retomá-los. Explicar a diferença entre uso agudo (para sedação) e crônico (em dose terapêutica para manutenção) é fundamental.
Perguntas Frequentes
1. Meu pai idoso, internado, ficou confuso de repente à noite. Isso é normal?
Não é "normal", mas é uma complicação comum da hospitalização, chamada delirium. É um sinal de que o cérebro dele está reagindo a um estresse, que pode ser infecção, dor, medicamento novo ou mesmo a mudança de ambiente. Deve ser comunicado imediatamente à equipe médica para investigação.
2. Qual a diferença entre agitação por ansiedade e por psicose?
Na agitação ansiosa, o paciente geralmente consegue relatar uma sensação de nervosismo, preocupação ou pânico. O pensamento pode ser acelerado, mas não necessariamente desorganizado. Na agitação psicótica, o comportamento é frequentemente guiado por delírios (ex.: perseguição) ou alucinações (ex.: vozes mandando agredir). A avaliação do conteúdo do pensamento é crucial.
3. O MEEM (Miniexame do Estado Mental) serve para diagnosticar perda de consciência?
Não diretamente. O MEEM avalia funções cognitivas superiores (memória, orientação, linguagem) que dependem de um nível de consciência intacto. Se o paciente está sonolento ou desatento, o MEEM será inviável ou seu resultado inválido. Ele é útil para documentar o déficit cognitivo após o nível de consciência ser normalizado.
4. Um paciente em coma pode ouvir o que falamos ao redor?
Evidências sugerem que, em alguns estados de coma e principalmente no Estado de Consciência Mínima, o paciente pode processar estímulos auditivos em algum nível. Por precaução e respeito, recomenda-se sempre falar com o paciente como se ele pudesse ouvir, explicando os procedimentos e oferecendo palavras de conforto.
5. A catatonia é uma doença rara?
Não é rara, mas é subdiagnosticada. Pode ocorrer em até 10% das internações psiquiátricas agudas, associada a esquizofrenia, transtorno bipolar, depressão e condições médicas. Seu reconhecimento é vital, pois responde de forma dramática a benzodiazepínicos ou ECT.
6. Como posso ajudar um familiar agitado sem usar medicação?
Mantenha a calma, fale em tom baixo e pausado. Ofereça um ambiente silencioso, com poucas pessoas. Evite confronto ou argumentação sobre delírios. Tente redirecionar a atenção para uma atividade simples e calmante (ex.: tomar uma água, sentar em um lugar tranquilo). Garanta a segurança física, removendo objetos perigosos.
7. Após um episódio de delirium, a cognição volta ao normal?
Na maioria dos casos, há recuperação completa após o tratamento da causa. No entanto, especialmente em idosos e em episódios prolongados, pode haver um declínio cognitivo residual permanente. O delirium é um fator de risco independente para o desenvolvimento futuro de demência.
8. No SUS, para onde devo levar uma pessoa com alteração aguda da consciência?
Se houver qualquer suspeita de causa clínica (trauma, febre, descontrole diabético), o local adequado é a Emergência de um Hospital Geral. Se a alteração for claramente comportamental/psiquiátrica em um paciente jovem e clinicamente estável (ex.: agitação psicótica sem febre), o CAPS III (que funciona 24h em algumas cidades) ou a Emergência Psiquiátrica (se houver) são os dispositivos indicados. Na dúvida, sempre priorize a emergência clínica.
Referências
- Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria: Ciência do Comportamento e Psiquiatria Clínica. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017. (Fonte principal dos trechos citados: pp. 102, 201, 217, 219, 245, 249, 257, 711, 1452).
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5-TR. 5ª ed. Texto Revisado. Porto Alegre: Artmed, 2022.
- Organização Mundial da Saúde. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID-11. Genebra: OMS, 2022.
- Trzepacz, P.T.; Meagher, D.J. Delirium. In: Levenson, J.L. (Ed.). The American Psychiatric Association Publishing Textbook of Psychosomatic Medicine and Consultation-Liaison Psychiatry. 3rd ed. Washington: APA Publishing, 2019.
- Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Transtorno do Espectro da Esquizofrenia e outros Transtornos Psicóticos. Portaria SCTIE nº 839, de 2022.
- Faria, C.A.; et al. Tradução e adaptação transcultural da Confusion Assessment Method (CAM) para a língua portuguesa. Revista Brasileira de Psiquiatria, 2005.
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.