Definição e epidemiologia
A avaliação sistemática da possibilidade de gravidez constitui um componente fundamental da anamnese clínica e da revisão de sistemas ginecológicos e reprodutivos durante a avaliação psiquiátrica inicial de mulheres em idade fértil. Não se trata de um diagnóstico psiquiátrico, mas de uma prática clínica essencial para a segurança do paciente, o planejamento terapêutico e a prática da psiquiatria baseada em evidências. Sua posição nosológica está inserida no domínio da avaliação clínica integral e da medicina psicossomática, reconhecendo a interação bidirecional entre saúde física e mental.
A pergunta direta "Como você sabe que não está grávida?" é um exemplo metodológico citado no Compêndio de Kaplan & Sadock para obter informações precisas sobre o estado reprodutivo, indo além de suposições ou respostas evasivas. Esta abordagem visa identificar gestações desconhecidas, planejadas ou não, antes da exposição a intervenções potencialmente teratogênicas, como medicamentos psicotrópicos, ou de considerar condições psiquiátricas específicas do período gestacional.
Epidemiologicamente, a relevância desta avaliação é universal para a população feminina entre a menarca e a menopausa. No Brasil, dados do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINASC) mostram milhões de nascimentos anuais, com uma parcela significativa de gestações não planejadas. Mulheres com transtornos psiquiátricos apresentam taxas de gravidez semelhantes à população geral, mas podem enfrentar barreiras adicionais no acesso ao pré-natal e à contracepção, aumentando o risco de uma gestação não identificada no momento da consulta psiquiátrica. Fatores de risco para uma gravidez não detectada incluem: irregularidades menstruais (comuns em condições como anorexia nervosa, estresse severo ou com o uso de alguns antipsicóticos), deficiência cognitiva, baixa adesão a métodos contraceptivos, histórico de negativa ou dissimulação na relação clínica, e condições sociais de vulnerabilidade. O curso clínico esperado ao se negligenciar esta avaliação pode levar a desfechos graves, como exposição fetal a teratógenos, descompensação de transtornos psiquiátricos no puerpério não antecipada, ou atraso no diagnóstico de condições médicas (ex.: tumor produtor de hormônios) que se manifestam como alteração do ciclo menstrual.
Etiopatogenia e neurobiologia
A fundamentação para incluir a avaliação de gravidez na prática psiquiátrica não reside na etiopatogenia de um transtorno único, mas em um modelo multifatorial que integra:
- Fatores Biológicos e Farmacológicos: A fisiologia da gestação altera profundamente a farmacocinética e a farmacodinâmica dos psicofármacos. Mudanças no volume plasmático, na ligação proteica, na atividade enzimática hepática e na filtração glomerular modificam os níveis séricos dos medicamentos. Além disso, a barreira placentária é permeável a quase todas as classes de psicotrópicos, expondo o feto em desenvolvimento. O risco teratogênico é mais crítico no primeiro trimestre, período de organogênese, mas efeitos adversos no neurodespreado podem ocorrer em trimestres posteriores. Sistemas de neurotransmissão como o serotoninérgico, dopaminérgico e GABAérgico, alvos comuns dos psicofármacos, estão ativamente envolvidos no desenvolvimento fetal.
- Fatores Psicológicos e Relacionais: A gravidez é um evento biográfico de alto impacto psicológico, podendo desencadear ou exacerbar transtornos mentais. A avaliação cuidadosa permite identificar vulnerabilidades, como histórico de transtorno disfórico pré-menstrual, transtornos psiquiátricos no pós-parto anterior ou conflitos significativos em relação à maternidade. O Compêndio menciona, por exemplo, processos psicológicos como "desejo patológico e medo da gravidez" e "ambivalência quanto a gênero, sexualidade ou ideia de ter filhos" como fatores predisponentes para condições como a pseudociese. Ignorar essa dimensão compromete a compreensão integral do paciente.
- Fatores Sociais e Éticos: A decisão de engravidar, continuar uma gestação ou interrompêla é profundamente influenciada por contextos culturais, religiosos, socioeconômicos e legais. No Brasil, a interrupção legal da gravidez é permitida em casos de risco de vida para a mãe, estupro e anencefalia fetal. A avaliação psiquiátrica pode ser solicitada em alguns desses contextos. O psiquiatra deve estar ciente dessas nuances para fornecer um cuidado ético e dentro da lei, respeitando a autonomia da paciente.
- Fatores Relativos ao Diagnóstico Diferencial: Alterações fisiológicas da gravidez (fadiga, alterações de apetite, insônia) podem mimetizar sintomas depressivos ou ansiosos. Por outro lado, condições psiquiátricas podem apresentar sintomas somáticos que confundem-se com sinais de gravidez. A pseudociese, citada no Compêndio, é um exemplo extremo onde um delírio somático ou uma crença fixa não delirante de estar grávida ocorre na ausência de uma gestação objetiva. A neurobiologia da pseudociese não é totalmente compreendida, mas envolve possíveis disfunções do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal e da via dopaminérgica, que podem levar a sintomas como amenorreia, distensão abdominal e sensação de movimentos fetais.
Quadro clínico
O "quadro clínico" aqui refere-se não a uma doença, mas aos cenários e apresentações que tornam a pergunta sobre gravidez clinicamente relevante.
- Paciente com Transtorno Psiquiátrico Ativo em Idade Fértil: Qualquer mulher em avaliação para início ou ajuste de tratamento farmacológico. Sintomas como amenorreia (comum na anorexia nervosa, em estresse extremo ou com antipsicóticos), náuseas, vômitos, mastalgia ou alterações de peso devem aumentar o índice de suspeita. A irregularidade menstrual pode tanto mascarar uma gravidez quanto ser um efeito adverso de uma condição ou tratamento.
- Paciente com Suspeita ou Diagnóstico de Transtorno Psiquiátrico Perinatal: A avaliação é primordial para identificar depressão maior, ansiedade, psicose puerperal ou transtorno bipolar desencadeados no período gestacional ou pós-parto. O início dos sintomas e sua relação temporal com o parto são dados prognósticos e terapêuticos cruciais.
- Paciente com Queixas Somáticas Inespecíficas: Como destacado no Compêndio, em uma pesquisa, 75% das queixas somáticas em pacientes clínicos não tinham uma explicação aparente, e 10% presumiam-se de base psicológica. Sintomas como fadiga, alterações gastrointestinais ou tonturas podem ser tanto manifestações de um transtorno de ansiedade quanto de uma gestação inicial.
- Paciente com Pseudociese (Gravidez Falsa): Quadro descrito no Compêndio em que a paciente apresenta convicção de estar grávida acompanhada de sinais físicos objetivos (amenorreia, distensão abdominal, galactorreia, sensação de movimentos fetais) na ausência de uma gestação. Pode ocorrer no contexto de um transtorno psicótico (delírio somático), de um transtorno depressivo grave, ou como uma condição dissociativa/conversiva. O teste de realidade pode estar ausente (delírio) ou presente (crença fixa).
- Paciente em Situações de Vulnerabilidade: Inclui adolescentes, pacientes com deficiência intelectual, histórico de abuso sexual, ou em contextos de violência doméstica, onde a comunicação sobre a sexualidade e a reprodução pode ser dificultada.
Especificadores Relevantes: A avaliação deve documentar:
- Status gestacional confirmado: Não grávida, grávida (com idade gestacional estimada), amamentando.
- Intenção reprodutiva: Desejo de engravidar no curto, médio ou longo prazo.
- Método contraceptivo utilizado: E sua efetividade e adesão.
- Histórico reprodutivo: Número de gestações, partos, abortos (espontâneos ou induzidos), complicações obstétricas.
- Histórico psiquiátrico perinatal: Episódios de humor ou psicose durante gestações ou puerpérios anteriores.
Avaliação e diagnóstico
A avaliação da possibilidade de gravidez é um processo sequencial e integrado à entrevista psiquiátrica geral.
1. Entrevista Clínica e Anamnese:
- História Reprodutiva e Menstrual: Deve ser parte padrão da revisão de sistemas. Perguntar: "Qual foi a data do seu último período menstrual (DUM)?"; "Seus ciclos são regulares?"; "Você usa algum método contraceptivo? Qual e com que regularidade?".
- Pergunta Direta e Não Assumitiva: Como modelado no Compêndio: "Como você sabe que não está grávida?" Esta formulação é mais eficaz do que "Você está grávida?", pois convida a uma justificativa concreta (ex.: "Tomei pílula todos os dias", "Não tenho vida sexual", "Fiz laqueadura", "Fiz um teste negativo há uma semana") e revela o grau de certeza da paciente ("Espero que não").
- História da Doença Atual: Incluir explicitamente a relação temporal entre o início dos sintomas psiquiátricos e o ciclo menstrual, gestações recentes ou partos.
- História Médica Geral: Identificar condições que afetam a fertilidade ou mimetizam gravidez (ex.: tumores pélvicos, distúrbios endócrinos).
- História Familiar: Incluir histórico de complicações na gravidez ou transtornos psiquiátricos perinatais em parentes de primeiro grau.
2. Exame do Estado Mental:
- Avaliar a congruência do afeto e do pensamento em relação à possibilidade de gravidez. Em uma pseudociese delirante, a convicção é inabalável. Em outros casos, pode haver ansiedade marcante ou negação dissociativa.
- Avaliar a capacidade de insight e julgamento, essenciais para decisões sobre contracepção e tratamento.
3. Exames Complementares:
- Teste de Gravidez Urinário (β-hCG): Deve ser considerado rotineiramente antes de iniciar medicamentos com potencial teratogênico (ex.: lítio, valproato, paroxetina) ou de classe X. Em contextos ambulatoriais, pode ser solicitado com o consentimento da paciente. Em emergências, quando a capacidade de consentimento está comprometida, o princípio da beneficência pode justificar o teste.
- Dosagem Sérica de β-hCG: Mais sensível, indicada em situações de dúvida ou se o teste urinário for negativo mas a suspeita clínica permanecer alta.
- Ultrassonografia Pélvica: Exame definitivo para confirmar ou excluir gravidez intrauterina e datá-la. É também a ferramenta diagnóstica para a pseudociese, fornecendo evidência objetiva para a paciente.
- Exames de Rotina: Hemograma, perfil metabólico e função tireoidiana podem ser indicados como parte da avaliação clínica inicial, conforme sugerido pelo Compêndio.
4. Diagnóstico Diferencial Estruturado:
| Condição/ Situação | Achados Chave | Diferenciação |
|---|---|---|
| Gravidez Confirmada | β-hCG positivo, USG confirmatória. | Base para todas as decisões terapêuticas subsequentes. |
| Pseudociese (Delirante) | Convicação inabalável de gravidez, β-hCG negativo, USG negativa. Delírio somático. | Associada a esquizofrenia, transtorno delirante, depressão psicótica. |
| Pseudociese (Não Delirante) | Crença de estar grávida com preservação do teste de realidade, mas com sintomas somáticos. β-hCG e USG negativos. | Pode estar associada a forte desejo ou medo de gravidez, transtorno de sintomas somáticos. |
| Amenorreia por Outras Causas | β-hCG negativo. História de anorexia, estresse, SOP, hiperprolactinemia (por antipsicóticos ou prolactinoma). | Investigação ginecológica/endócrina. |
| Transtorno de Sintomas Somáticos | Preocupação excessiva com sintomas (ex.: inchaço) interpretados como gravidez, mas sem convicção fixa. | Foco no sofrimento gerado pelos sintomas. |
| Negativa ou Dissimulação | Paciente omite gravidez intencionalmente. História inconsistente, sinais físicos podem estar presentes. | Requer abordagem não confrontativa e construção de vínculo. |
5. Armadilhas Diagnósticas e Comorbidades:
- Armadilha: Assumir que irregularidade menstrual é sempre efeito colateral de medicamento ou do transtorno psiquiátrico.
- Armadilha: Não perguntar sobre gravidez em pacientes mais velhas (perimenopausa) ou que afirmam não ter vida sexual ativa.
- Armadilha: Iniciar medicamentos teratogênicos baseado apenas na história verbal, sem teste objetivo, em pacientes com relato pouco confiável.
- Comorbidade Frequente: Transtornos de uso de substâncias, que podem aumentar o risco de gravidez não planejada e complicações obstétricas.
Tratamento farmacológico
O manejo farmacológico é diretamente determinado pelo resultado da avaliação da possibilidade de gravidez.
Algoritmo Terapêutico Baseado em Evidências:
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Paciente NÃO GRÁVIDA e sem planejar gravidez no curto prazo:
- Escolha do psicofármaco baseada na eficácia para o diagnóstico primário, perfil de efeitos adversos e comodidades da paciente.
- Psicoeducação sobre Teratogenicidade: Discutir os riscos conhecidos (ex.: valproato e lítio no primeiro trimestre) e a importância de contracepção eficaz durante o tratamento.
- Plano de Ação para Gravidez Não Planejada: Estabelecer, em conjunto com a paciente, o que fazer em caso de suspeita de gravidez (suspender medicação? Ligar imediatamente? Fazer teste?).
- Documentação: Registrar claramente no prontuário a discussão sobre riscos e o plano estabelecido.
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Paciente NÃO GRÁVIDA mas PLANEJANDO ENGRAVIDAR:
- Pré-concepção: Idealmente, otimizar o tratamento para alcançar a remissão estável com a menor dose eficaz do medicamento mais seguro. Em alguns casos (ex.: transtorno bipolar I grave), pode ser muito arriscado suspender a estabilizadora de humor. A decisão deve ser compartilhada (paciente-psiquiatra-obstetra).
- Revisão da Farmacoterapia: Priorizar medicamentos com maior perfil de segurança na gestação (ex.: sertralina, citalopram entre os ISRS; alguns antipsicóticos de segunda geração como quetiapina ou olanzapina em doses baixas). Evitar valproato, paroxetina e benzodiazepínicos de longa ação.
- Encaminhamento: Para acompanhamento pré-concepcional com obstetra/ginecologista.
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Paciente GRÁVIDA (diagnóstico confirmado):
- Reavaliação Urgente do Tratamento: Nenhum psicofármaco é absolutamente seguro, mas o risco da doença mental descompensada (suicídio, desnutrição, abuso de substâncias) frequentemente supera o risco da medicação.
- Princípio do Menor Risco: Manter a medicação se a paciente estiver estável, especialmente se há histórico de recaída grave após descontinuação. Se for necessário iniciar, escolher a opção com melhor perfil de segurança para aquele diagnóstico e trimestre.
- Monitorização: Doses podem precisar de ajuste ao longo da gestação (especialmente no terceiro trimestre) e no pós-parto imediato.
- Trabalho em Equipe: Coordenação obrigatória com o obstetra e o pediatra/neonatologista. Discutir plano de parto e monitorização neonatal para síndromes de abstinência ou efeitos adversos.
Classes Farmacológicas e Considerações Especiais na Gestação/Lactação:
- Antidepressivos (ISRS/SNRI): Sertralina e citalopram são os mais estudados. Paroxetina deve ser evitada no primeiro trimestre (risco cardíaco fetal). Ao final da gestação, monitorar síndrome de adaptação neonatal (irritabilidade, dificuldade respiratória).
- Estabilizadores de Humor: Lítio apresenta risco de anomalia de Ebstein no primeiro trimestre; requer monitorização sérica e ecocardiograma fetal. Valproato é contraindicado devido a alto risco de defeitos do tubo neural e prejuízo cognitivo. Lamotrigina tem perfil melhor, mas dose pode precisar de aumento progressivo na gestação.
- Antipsicóticos: Tanto típicos quanto atípicos são usados. Preferência por olanzapina, quetiapina ou risperidona, com monitorização de ganho de peso e glicemia. A hiperprolactinemia por alguns antipsicóticos pode interferir na lactação.
- Benzodiazepínicos: Evitar uso crônico, especialmente no primeiro trimestre (risco de fenda palatina) e no final da gestação (síndrome do bebê flácido, abstinência neonatal). Usar apenas para crises de ansiedade aguda, na menor dose e tempo possível.
Contexto Brasileiro: O RENAME (Relação Nacional de Medicamentos Essenciais) lista várias opções. A ANVISA classifica os medicamentos por risco na gravidez (categorias A, B, C, D, X). É dever do prescritor conhecer essa classificação. No SUS, o acesso a medicamentos de última geração pode ser limitado, exigindo criatividade clínica e advocacy. Os CAPS podem ser pontos centrais para o acompanhamento integrado da gestante com transtorno mental.
Tratamento não farmacológico
Intervenções não farmacológicas são vitais, especialmente no contexto perinatal.
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Psicoterapias:
- Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC): Eficaz para depressão e ansiedade na gestação e pós-parto. Foca em reestruturar pensamentos disfuncionais sobre a maternidade, o parto e a autoimagem.
- Terapia Interpessoal (TIP): Particularmente adequada, pois foca em transições de papel (para a maternidade), conflitos interpessoais e luto, temas centrais no período perinatal.
- Psicoterapia de Apoio e Psicoeducação: Essencial para todas as pacientes. Inclui normalizar alterações emocionais, ensinar estratégias de regulação do estresse e planejar suporte pós-parto.
- Para a pseudociese, o Compêndio recomenda psicoterapia durante ou após a apresentação para avaliar e tratar a disfunção psicológica subjacente, como conflitos não resolvidos sobre maternidade ou sexualidade.
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Intervenções Psicossociais e Suporte Familiar:
- Grupos de Apoio para Gestantes e Puérperas: Reduzem isolamento e oferecem suporte prático.
- Visitas Domiciliares: Realizadas por equipes multiprofissionais do CAPS ou da Estratégia Saúde da Família, são cruciais para puérperas em alto risco.
- Intervenção Familiar: Envolver o parceiro(a) e a família extensa no plano de cuidado, educando sobre sinais de alerta de descompensação pós-parto.
- Suporte à Amamentação: A lactação, como descrita no Compêndio, é um processo psiconeuroendócrino complexo. Dificuldades podem precipitar ou agravar depressão pós-parto. Suporte de consultores em aleitamento é valioso.
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Procedimentos:
- Eletroconvulsoterapia (ECT): Considerada segura e altamente eficaz para depressão grave, psicose ou catatonia refratária durante a gestação. Pode ser a intervenção de escolha quando há risco iminente para a mãe ou o feto (ex.: recusa alimentar, suicídio).
Manejo clínico prático
- Quando Iniciar/Modificar: A decisão de iniciar, manter ou alterar um psicofármaco na gestante deve ser uma decisão compartilhada, pesando o risco absoluto da medicação (baseado em dados epidemiológicos) contra o risco da doença descompensada. Documentar essa discussão detalhadamente.
- Monitoramento: Na gestante em uso de psicofármacos, monitorar sintomas psiquiátricos, efeitos adversos, ganho de peso, parâmetros metabólicos e adesão ao pré-natal. A colaboração com o obstetra é não-opcional.
- Resistência Terapêutica: Se há pouca resposta na gestante, revisar diagnóstico, adesão, interações medicamentosas e comorbidades clínicas (ex.: hipotireoidismo). Considerar aumento de dose (com cautela), troca para uma classe diferente ou ECT.
- Contexto Brasileiro:
- SUS/CAPS: A Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) deve garantir o cuidado integral. O CAPS pode coordenar o caso, oferecendo psicoterapia, grupos e articulação com a rede obstétrica.
- Acesso a Medicamentos: Barreiras de acesso a medicamentos de primeira escolha (ex.: alguns antipsicóticos atípicos) podem forçar o uso de opções menos ideais. O clínico deve conhecer os protocolos locais e advogar pelo melhor tratamento.
- Aspectos Legais e Éticos: Em caso de paciente gestante com grave comprometimento de julgamento (ex.: psicose), pode ser necessário acionar o Ministério Público ou a Vara da Infância para garantir a proteção fetal e materna, sempre visando o cuidado e não a punição.
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
Para a paciente, a pergunta sobre gravidez pode ser carregada de significados. Pode evocar medo de julgamento (em caso de gravidez não planejada), esperança (em caso de desejo), ou angústia (em caso de infertilidade ou perda recente). Em pacientes com trauma sexual, a pergunta pode ser retraumatizante se feita de forma brusca.
- Psicoeducação: Explicar de forma clara e empática porque a pergunta é feita: "Preciso perguntar sobre gravidez porque isso muda completamente a forma como podemos planejar o tratamento mais seguro para você. Alguns medicamentos podem causar danos a um bebê em formação, e outros podem precisar de ajustes durante uma gestação. Minha prioridade é sua segurança em qualquer situação."
- Impacto Funcional: Uma gravidez não diagnosticada em uma paciente psiquiátrica pode levar a: interrupção abrupta de medicação por medo, causando recaída; exposição fetal inadvertida; e falta de preparo para o puerpério, período de alto risco.
- Adesão: Pacientes que entendem o racional por trás da avaliação e do plano terapêutico proposto têm maior adesão. Incluir a paciente nas decisões sobre contracepção e manejo farmacológico potencial na gestação aumenta seu senso de controle e colaboração.
Perguntas frequentes
1. Para Profissionais: "É realmente necessário fazer um teste de gravidez em todas as pacientes antes de prescrever? E se ela me garantir que não está grávida?"
R: A história clínica é fundamental, mas não é infalível. Ciclos irregulares, falhas contraceptivas e negação podem ocorrer. O teste objetivo (β-hCG) é um padrão de cuidado obrigatório antes de iniciar medicamentos de alto risco (categorias D e X da ANVISA) e deve ser fortemente considerado para outros, especialmente se há qualquer dúvida na história. A garantia verbal não exime o médico da responsabilidade em caso de dano fetal.
2. Para Pacientes: "Por que o psiquiatra está perguntando sobre minha menstruação e se posso engravidar? Eu vim aqui por ansiedade."
R: Porque a saúde da sua mente e do seu corpo estão totalmente conectadas. Se você estiver grávida, ou pensando em engravidar, alguns medicamentos para ansiedade podem não ser os mais seguros. Perguntar sobre isso desde o início nos permite criar o melhor plano de tratamento para você, levando em conta todos os aspectos da sua vida e sua saúde futura. É um cuidado de rotina para garantir sua segurança.
3. Para Familiares: "Minha filha tem esquizofrenia e está grávida. O médico disse que ela precisa continuar a medicação. Isso não vai fazer mal para o bebê?"
R: É uma preocupação muito válida. No entanto, a esquizofrenia descompensada representa um risco extremamente alto para a mãe (descuido pessoal, suicídio, violência) e, consequentemente, para o bebê. Manter a doença controlada com a medicação mais segura possível, em dose eficaz mínima, geralmente é a estratégia que oferece o melhor resultado para ambos. O psiquiatra e o obstetra devem trabalhar juntos para monitorar de perto a gestação.
4. Para Profissionais: "Como abordar a contracepção com pacientes em uso de medicamentos psiquiátricos?"
R: Deve ser uma discussão de rotina. Alguns antipsicóticos (ex.: carbamazepina) reduzem a eficácia de contraceptivos hormonais. Pacientes com transtorno bipolar, especialmente, devem usar métodos contraceptivos altamente eficazes (ex.: DIU, implante) se estiverem em uso de medicamentos teratogênicos como o valproato. Encaminhar para ginecologista quando necessário.
5. Para Pacientes: "Estou tomando antidepressivo e descobri que estou grávida. Devo parar o remédio imediatamente?"
R: Não pare abruptamente. A interrupção súbita pode causar sintomas de descontinuação e uma recaída rápida da depressão, o que é muito prejudicial para você e para a gestação. Entre em contato imediatamente com seu psiquiatra e seu obstetra para reavaliar o tratamento. Na maioria dos casos, manter o tratamento é a opção mais segura.
6. Para Profissionais: "O que fazer se suspeito de pseudociese?"
R: Primeiro, estabeleça uma relação empática, sem confrontar a crença diretamente. Peça permissão para realizar um exame físico básico e, com muita delicadeza, sugira que um teste de gravidez e um ultrassom poderiam "ajudar a entender melhor o que está acontecendo com seu corpo". O resultado objetivo do ultrassom, como citado no Compêndio, frequentemente leva à resolução. Ofereça psicoterapia para explorar os significados subjacentes daquela experiência.
7. Para Profissionais: "E no caso de pacientes LGBTQIAP+? A pergunta padrão ainda se aplica?"
R: Sim, mas a comunicação deve ser sensível e precisa. A pergunta sobre capacidade de engravidar deve ser separada da orientação sexual ou identidade de gênero. Pode-se perguntar: "Você tem útero e ovários?" ou "Há possibilidade de você engravidar, considerando sua anatomia e práticas sexuais?". Evitar suposições é fundamental para um cuidado respeitoso e preciso.
8. Para Todos: "A amamentação é possível com uso de medicamentos psiquiátricos?"
R: Sim, na grande maioria dos casos. A concentração da maioria dos psicofármacos no leite materno é muito baixa. Manter a saúde mental da mãe é crucial para o vínculo e o cuidado com o bebê. Deve-se, porém, escolher o medicamento com menor excreção no leite (ex.: sertralina em vez de fluoxetina) e, idealmente, administrá-lo logo após uma mamada. A decisão final deve ser tomada em conjunto com o psiquiatra e o pediatra.
Referências
- Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria: Ciência do Comportamento e Psiquiatria Clínica. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017. (Principal fonte técnica para as citações sobre história reprodutiva, pseudociese e avaliação clínica integral).
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5-TR. Porto Alegre: Artmed, 2022.
- Organização Mundial da Saúde. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID-11. Genebra: OMS, 2022.
- Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Diretrizes para o tratamento da depressão na gestação e no puerpério. 2020.
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Bulário Eletrônico e Categorias de Risco na Gestação.
- Ministério da Saúde do Brasil. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME). 2022.
- Stewart, D.E.; Vigod, S.N. Psychiatric Disorders in Pregnancy. BMJ, 2016.
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.