Cetamina

O que é e para que serve?

A cetamina é um medicamento que existe há décadas — foi criada nos anos 1960 como anestésico, ou seja, para deixar as pessoas sem dor e inconscientes durante cirurgias. Ela ainda é muito usada com essa finalidade hoje em dia, tanto em humanos quanto em animais. Mas nos últimos anos, a medicina descobriu algo surpreendente: em doses bem menores do que as usadas na anestesia, a cetamina pode ajudar pessoas com depressão grave que não melhorou com outros tratamentos — o que os médicos chamam de depressão resistente ao tratamento. Ela também é usada para controlar dores intensas e crônicas, especialmente aquelas que não respondem bem a outros analgésicos.

No Brasil, a cetamina é encontrada principalmente sob o nome comercial Ketalar®, mas também existe em versão genérica. Ela não é um comprimido que você toma em casa: na maioria dos casos, é administrada por infusão intravenosa (aquele soro no braço) em ambiente hospitalar ou clínica especializada, com monitoramento médico. Se você recebeu uma prescrição de cetamina, provavelmente vai fazer sessões em uma clínica, não vai levar o remédio para casa.

É importante saber que o uso da cetamina para depressão ainda é considerado experimental no Brasil — não tem aprovação formal da ANVISA para essa indicação, mas médicos podem prescrevê-la com base em evidências científicas sólidas, dentro de um protocolo cuidadoso. Isso não significa que é perigoso ou que seu médico está fazendo algo errado; significa que é uma ferramenta poderosa que exige cuidado e acompanhamento próximo.


Como ele age no seu cérebro?

Pensa assim: o seu cérebro é uma cidade enorme, e os neurônios são os moradores dessa cidade que se comunicam o tempo todo — mandando mensagens uns para os outros por meio de substâncias químicas chamadas neurotransmissores. Um dos “correios” mais importantes dessa cidade se chama glutamato, que é o principal mensageiro de ativação do cérebro.

Para o glutamato entregar suas mensagens, ele precisa bater na porta de receptores específicos nos neurônios. Um desses receptores se chama NMDA (N-metil-D-aspartato — não precisa decorar o nome). A cetamina age justamente bloqueando essa porta: ela entra no receptor NMDA e o tampona, impedindo que o glutamato entre.

Aí você pode pensar: “mas se bloqueia a comunicação, não seria ruim?” É aí que está o truque. Quando a cetamina bloqueia esse receptor, o cérebro reage de um jeito inesperado — como se fosse uma mola que foi comprimida e de repente é solta. Há uma liberação em cascata de outros mensageiros, e isso acaba estimulando outros receptores de glutamato (chamados AMPA), que disparam uma série de reações dentro dos neurônios. Essas reações ativam proteínas que ajudam os neurônios a crescer, se reconectar e funcionar melhor — especialmente em regiões do cérebro ligadas ao humor, como o córtex pré-frontal e o hipocampo.

É como se a depressão tivesse “podado” as conexões entre os neurônios, deixando o cérebro com menos “fios” funcionando, e a cetamina ajudasse a replantá-los rapidamente. Isso explica por que o efeito antidepressivo da cetamina é tão rápido — diferente dos antidepressivos comuns, que levam semanas para agir.

Além disso, a cetamina mexe com vários outros sistemas ao mesmo tempo: ela influencia a serotonina (o famoso neurotransmissor do bem-estar), a dopamina (ligada à motivação e ao prazer) e até receptores opioides (os mesmos que respondem a analgésicos fortes). Isso explica tanto seus efeitos contra a dor quanto seus efeitos no humor.


Quando começa a fazer efeito?

Aqui está uma das coisas mais impressionantes da cetamina: ela age muito rápido. Enquanto antidepressivos tradicionais como a fluoxetina podem levar de 4 a 6 semanas para começar a funcionar, muitas pessoas sentem melhora no humor já nas primeiras horas ou no dia seguinte à infusão.

Isso é especialmente importante para quem está em sofrimento intenso ou com pensamentos suicidas — a cetamina é uma das poucas substâncias que mostrou reduzir esses pensamentos rapidamente.

O problema é que esse efeito não dura para sempre. Em geral, a melhora dura de alguns dias a cerca de uma semana após uma única infusão. Por isso, o tratamento costuma envolver uma série de sessões — geralmente 6 infusões ao longo de 2 a 3 semanas — e depois o médico avalia se é necessário fazer sessões de manutenção.

Pensa como uma bateria que precisa ser recarregada: a cetamina dá uma carga rápida e potente, mas o cérebro vai “descarregando” com o tempo. A ideia é que, durante esse período de melhora, outras estratégias (psicoterapia, ajuste de outros medicamentos, mudanças de hábito) ajudem a construir uma recuperação mais duradoura.


Como tomar corretamente

A cetamina para depressão ou dor crônica não é tomada em casa como um comprimido. Ela é administrada por infusão intravenosa em uma clínica ou hospital, com você deitado ou reclinado, monitorado por profissionais de saúde durante todo o processo.

Como é uma sessão típica:
– Você chega à clínica e é acomodado em uma poltrona ou maca confortável
– Uma agulha pequena é colocada em uma veia do seu braço (igual a um soro comum)
– A infusão dura em torno de 40 minutos
– Durante esse tempo, você pode sentir efeitos dissociativos (explicados na seção de efeitos colaterais) — isso é esperado e passa
– Depois da infusão, você fica em observação por mais um tempo antes de ir embora
Você não pode dirigir no dia da sessão — leve um acompanhante ou chame um transporte

A dose usada para depressão é bem menor do que a usada para anestesia — geralmente em torno de 0,5 mg por quilo de peso corporal. Seu médico vai calcular a dose certa para você.

Nunca tente usar cetamina por conta própria, comprada fora de uma clínica. Além de ilegal, é extremamente perigoso sem monitoramento adequado.


Efeitos colaterais possíveis — e por que eles acontecem

Comuns (acontecem com mais frequência, geralmente passageiros)

  • Sensação de dissociação (“estar fora do corpo”): Durante a infusão, muitas pessoas sentem que estão “flutuando”, que o ambiente parece irreal, ou que estão observando a si mesmas de fora. Isso acontece porque a cetamina bloqueia os receptores NMDA em regiões do cérebro responsáveis pela percepção de si mesmo e do ambiente. É o efeito mais característico da cetamina e passa quando a infusão termina. Avise a equipe se ficar muito desconfortável — eles podem ajustar a velocidade da infusão.

  • Alucinações leves: Algumas pessoas veem cores, formas ou ouvem sons que não existem durante a sessão. É temporário e causado pelo mesmo mecanismo da dissociação. Não significa que você está “ficando louco”.

  • Tontura e enjoo: A cetamina pode causar náusea e sensação de cabeça girando, especialmente logo após a infusão. Acontece porque ela afeta o sistema nervoso autônomo (a parte do sistema nervoso que controla funções automáticas como equilíbrio e digestão). Geralmente passa em poucas horas.

  • Aumento da pressão arterial e da frequência cardíaca: A cetamina estimula o sistema cardiovascular — é como se ela desse um “empurrão” no coração e nos vasos sanguíneos. Por isso, sua pressão e pulso são monitorados durante toda a sessão. Em pessoas saudáveis, isso é temporário e controlável.

  • Sedação e sonolência: Você pode se sentir muito sonolento durante e após a sessão. É esperado — a cetamina é um anestésico, afinal. Planeje descansar no restante do dia.

  • Salivação aumentada: A cetamina pode fazer você salivar mais do que o normal. Em alguns casos, a equipe médica pode dar um medicamento preventivo para reduzir isso.

Menos comuns

  • Visão dupla ou movimentos involuntários dos olhos (nistagmo): Os olhos podem ficar se movendo de um lado para o outro durante a infusão. É causado pelo efeito da cetamina no sistema nervoso e passa quando o medicamento sai do organismo.

  • Dor ou vermelhidão no local da injeção: Pode haver um pouco de desconforto onde a agulha foi colocada. Normal e passageiro.

  • Confusão mental temporária: Algumas pessoas ficam um pouco desorientadas logo após a sessão — não sabem bem onde estão ou que horas são. Isso passa em algumas horas. Por isso é importante ter um acompanhante.

  • Problemas urinários: Pessoas que usam cetamina com frequência por longos períodos podem desenvolver irritação na bexiga — sintomas como vontade urgente de urinar, dor ao urinar ou até sangue na urina. Isso acontece porque a cetamina e seus resíduos podem irritar o revestimento interno da bexiga. Se isso ocorrer, avise seu médico imediatamente. Geralmente melhora quando o tratamento é interrompido.

Raros mas importantes (quando ir ao médico imediatamente)

  • Pressão arterial muito alta ou muito baixa: Embora a cetamina normalmente aumente a pressão, em alguns casos pode causar instabilidade cardiovascular. Por isso o monitoramento durante a sessão é obrigatório.

  • Dificuldade para respirar: Raramente, a cetamina pode causar depressão respiratória (respiração muito lenta ou superficial). É por isso que você nunca deve usar cetamina sem supervisão médica.

  • Reação alérgica grave (anafilaxia): Muito raro, mas possível. Sinais: inchaço no rosto ou garganta, dificuldade para respirar, queda brusca de pressão. A equipe da clínica está preparada para isso.

  • Problemas no fígado ou nas vias biliares: O uso prolongado de cetamina, especialmente em doses altas ou uso recreativo, pode causar inflamação no fígado e nas vias biliares. Em tratamentos controlados e de curta duração, esse risco é muito baixo, mas vale monitorar se você fizer tratamentos longos.


O que fazer se tiver efeitos colaterais?

A maioria dos efeitos colaterais da cetamina acontece durante ou logo após a sessão, quando você ainda está na clínica — e a equipe está lá justamente para lidar com isso. Não hesite em falar com os profissionais presentes se sentir qualquer desconforto.

Depois que você for para casa:

  • Se sentir tontura, náusea ou sonolência persistentes por mais de algumas horas, ligue para a clínica ou para seu médico
  • Se tiver dificuldade para respirar, dor no peito, inchaço no rosto ou garganta, vá imediatamente a uma UPA ou pronto-socorro — pode ser uma reação alérgica
  • Se notar sintomas urinários (dor ao urinar, urgência, sangue na urina) nos dias seguintes, avise seu médico na próxima consulta — não espere piorar
  • Se sentir que seu humor piorou muito ou tiver pensamentos de se machucar, entre em contato com seu médico ou ligue para o CVV: 188 (funciona 24 horas)

O que NÃO fazer: Não beba álcool no dia da sessão nem nas horas seguintes. Não dirija. Não tome decisões importantes logo após a infusão — seu julgamento pode estar um pouco alterado temporariamente.


Cuidados importantes

Álcool e outras substâncias: A cetamina potencializa muito o efeito de álcool, benzodiazepínicos (como diazepam, clonazepam), opioides (como morfina, codeína) e outros sedativos. Misturar essas substâncias pode causar sedação profunda, parada respiratória e até morte. Seja completamente honesto com seu médico sobre tudo que você usa — incluindo remédios para dormir e ansiedade.

Medicamentos que interagem:
Benzodiazepínicos (diazepam, clonazepam, alprazolam): aumentam muito o efeito sedativo da cetamina. Seu médico vai decidir se você deve ou não tomar antes da sessão — em alguns casos, uma dose pequena é usada justamente para reduzir os efeitos dissociativos, mas isso precisa ser controlado
Teofilina ou aminofilina (usados para asma): não devem ser usados junto com cetamina, pois aumentam o risco de convulsões
Antibióticos como claritromicina ou antifúngicos como cetoconazol: podem aumentar a concentração de cetamina no sangue — avise seu médico se estiver tomando

Hipertensão: Se você tem pressão alta não controlada, a cetamina pode ser contraindicada ou exigir cuidados extras, já que ela aumenta a pressão arterial.

Histórico de psicose ou esquizofrenia: A cetamina pode piorar sintomas psicóticos em pessoas com esse histórico. Informe seu médico se você ou alguém da sua família já teve episódios de psicose.

Glaucoma: A cetamina aumenta a pressão dentro dos olhos, o que pode ser perigoso para quem tem glaucoma. Avise seu médico.

Gravidez e amamentação: A cetamina não é recomendada durante a gravidez, especialmente no primeiro trimestre, pois pode afetar o desenvolvimento do sistema nervoso do bebê. Se você está grávida ou amamentando, converse com seu médico antes de qualquer sessão.

Epilepsia: A cetamina pode baixar o limiar para convulsões em algumas situações. Se você tem epilepsia, seu médico precisa saber.


Perguntas frequentes

Vou ficar dependente da cetamina?
É uma preocupação legítima. A cetamina tem potencial de abuso — ela é usada recreativamente por algumas pessoas justamente pelos seus efeitos dissociativos. No entanto, quando usada em um protocolo médico controlado, com sessões espaçadas e monitoramento, o risco de dependência é muito menor. Seu médico vai acompanhar de perto a frequência das sessões e os sinais de que você pode estar desenvolvendo tolerância (precisando de doses maiores para sentir o mesmo efeito). Se você tiver histórico de dependência química, avise seu médico — isso não necessariamente impede o tratamento, mas exige cuidados adicionais.

O efeito vai durar? Vou precisar fazer isso para sempre?
O efeito antidepressivo de uma série de infusões dura, em média, de alguns dias a algumas semanas. Cerca de metade das pessoas com depressão resistente melhora com cetamina, mas apenas um terço dessas mantém a melhora por mais de uma semana sem novas sessões. Por isso, a cetamina geralmente é usada como uma “ponte” — ela alivia o sofrimento rapidamente enquanto outras estratégias (ajuste de medicamentos, psicoterapia) constroem uma melhora mais duradoura. Seu médico vai conversar com você sobre o que fazer depois das primeiras sessões.

Posso beber álcool entre as sessões?
No dia da sessão, definitivamente não. Nos dias entre as sessões, o ideal é evitar ou reduzir muito o consumo de álcool — além de interagir com a cetamina, o álcool em si piora a depressão. Converse com seu médico sobre isso de forma honesta.

Vou ter alucinações? Isso é perigoso?
Muitas pessoas têm experiências perceptivas incomuns durante a infusão — sensação de flutuar, ver cores, sentir que o tempo está passando diferente. Isso é esperado e faz parte do efeito da cetamina. Não é perigoso quando você está em um ambiente seguro com profissionais presentes. A maioria das pessoas descreve como uma experiência estranha, mas não assustadora. Se você ficar muito ansioso, avise a equipe — eles podem ajudar.

A cetamina é a mesma coisa que o “Special K” que as pessoas usam como droga?
Sim, é a mesma substância. A diferença está na dose, na forma de uso e no contexto. Nas festas, ela é usada em doses altas, sem controle, misturada com outras substâncias — o que é muito perigoso. No tratamento médico, ela é usada em doses baixas e controladas, em ambiente seguro, com monitoramento constante. É como a diferença entre tomar um analgésico prescrito pelo médico e abusar de opioides: a substância pode ser parecida, mas o contexto muda tudo.


Referências

  • Stahl, S.M. Fundamentos de Psicofarmacologia de Stahl, 3ª ed. Artmed, 2014.
  • Moreno, R.A.; Moreno, D.H.; Ratzke, R. Psicofarmacologia Prática. Editora Manole.
  • Newport, D.J. et al. “Ketamine and Other NMDA Antagonists: Early Clinical Trials and Possible Mechanisms in Depression.” American Journal of Psychiatry, 2015.
  • FDA Label — KETALAR (ketamine hydrochloride) injection. Disponível em: dailymed.nlm.nih.gov
  • PubChem — Ketamine. National Library of Medicine. Disponível em: pubchem.ncbi.nlm.nih.gov

Este conteúdo é educativo e não substitui a orientação do seu médico. Em caso de dúvidas, consulte o profissional que te prescreveu.

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