O que é e para que serve?
A amantadina é um medicamento que faz duas coisas bem diferentes ao mesmo tempo: age como antiviral (contra gripe) e como antiparkinsoniano (ajuda no controle de movimentos). Na psiquiatria, ela é usada principalmente para tratar efeitos colaterais motores causados por antipsicóticos — aqueles tremores, rigidez muscular e movimentos involuntários que alguns remédios para esquizofrenia ou outros transtornos podem provocar. Também é usada em casos de síndrome neuroléptica maligna, uma complicação rara mas grave de alguns antipsicóticos.
No Brasil, a amantadina é encontrada principalmente com o nome comercial Mantidan®. Pode aparecer também em versões genéricas com o nome amantadina (cloridrato de amantadina). É vendida em comprimidos ou cápsulas, geralmente de 100 mg.
Vale saber: embora a amantadina tenha sido usada no passado para tratar gripe tipo A, esse uso caiu muito em desuso porque o vírus desenvolveu resistência ao remédio. Hoje, na prática clínica, ela é prescrita quase sempre pelos seus efeitos no sistema nervoso.
Como ele age no seu cérebro?
Pense no seu cérebro como uma cidade onde os neurônios são moradores que se comunicam mandando mensageiros pelas ruas. Um dos mensageiros mais importantes se chama dopamina — ele é responsável por coordenar movimentos, motivação e prazer.
Quando você toma um antipsicótico, esse remédio “bloqueia” parte das “caixas de correio” que recebem a dopamina (os receptores). Isso é necessário para tratar a psicose, mas tem um efeito colateral: com menos dopamina circulando livremente, os movimentos ficam travados, rígidos ou trêmulos — parecido com o que acontece no Parkinson.
A amantadina entra nessa história como uma espécie de “desbloqueador”. Ela estimula os neurônios a liberar mais dopamina e também bloqueia outro tipo de receptor chamado NMDA (um receptor do glutamato, que é outro mensageiro cerebral). O resultado prático é que o equilíbrio de movimentos melhora — os tremores diminuem, a rigidez alivia, e o corpo volta a funcionar com mais fluidez.
Quando começa a fazer efeito?
Para os efeitos motores (tremores, rigidez), a amantadina costuma agir relativamente rápido — muitas pessoas percebem alguma melhora já na primeira semana de uso. Isso a diferencia de vários outros remédios psiquiátricos que levam semanas para funcionar.
Dito isso, o efeito completo pode levar de 2 a 4 semanas para se estabilizar. Nas primeiras doses, é normal sentir que o remédio ainda está “se ajustando” ao seu organismo. Se após 4 semanas você não notar nenhuma diferença nos sintomas que motivaram a prescrição, converse com seu médico — pode ser necessário ajustar a dose ou repensar a estratégia.
Como tomar corretamente
A dose habitual de amantadina para adultos fica entre 100 mg e 400 mg por dia, dividida em 2 ou 3 tomadas. O mais comum é começar com 100 mg duas vezes ao dia e ajustar conforme a resposta.
Algumas dicas práticas:
- Horário: Tome de manhã e ao meio-dia, se possível. Evite tomar à noite — a amantadina pode dificultar o sono se tomada tarde.
- Com ou sem comida: Pode ser tomada com ou sem alimentos. Se sentir enjoo no estômago, tomar junto com uma refeição ajuda bastante.
- Esqueceu uma dose? Se lembrar logo, tome assim que possível. Se já estiver perto do horário da próxima dose, pule a esquecida e siga normalmente. Nunca tome duas doses de uma vez para compensar.
- Não pare por conta própria: Interromper a amantadina de forma abrupta pode causar agitação, confusão mental e outros sintomas desagradáveis. Se quiser parar, converse com seu médico para reduzir a dose aos poucos.
Efeitos colaterais possíveis — e por que eles acontecem
Comuns (acontecem com mais frequência, geralmente passageiros)
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Enjoo e mal-estar no estômago: A amantadina pode irritar um pouco o trato digestivo, especialmente no início. Tomar com alimento resolve na maioria dos casos. Tende a melhorar nas primeiras semanas.
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Tontura ao levantar (hipotensão ortostática): Quando você se levanta rápido, a pressão pode cair por um instante, causando aquela sensação de “escurecimento” ou tontura. Isso acontece porque a amantadina afeta levemente o controle da pressão arterial. Levante devagar, especialmente de manhã.
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Dificuldade para dormir ou insônia: Como o remédio estimula a dopamina — um mensageiro que deixa o cérebro mais “ativo” — tomar à noite pode atrapalhar o sono. Ajustar o horário para manhã e tarde costuma resolver.
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Boca seca: Acontece porque o remédio tem um leve efeito sobre os nervos que controlam a produção de saliva. Beber água com frequência e mascar chicletes sem açúcar ajuda.
Menos comuns
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Livedo reticularis (manchas arroxeadas na pele): Parece um rendado roxo ou azulado na pele, geralmente nas pernas. Acontece porque a amantadina afeta os pequenos vasos sanguíneos da pele. Não é perigoso, mas é visualmente chamativo. Desaparece quando o remédio é suspenso.
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Inchaço nas pernas (edema periférico): Líquido pode se acumular nos tornozelos e pernas. Se notar inchaço progressivo, avise seu médico.
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Confusão mental leve, dificuldade de concentração: Especialmente em idosos, a amantadina pode causar um certo “nevoeiro mental”. Se isso acontecer, é importante comunicar ao médico — pode ser necessário ajustar a dose.
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Constipação: O intestino pode ficar mais lento. Aumentar a ingestão de água e fibras ajuda.
Raros mas importantes (quando ir ao médico imediatamente)
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Alucinações ou comportamento muito agitado: A amantadina aumenta a dopamina no cérebro, e em doses altas ou em pessoas sensíveis, isso pode causar alucinações (ver ou ouvir coisas que não existem) ou agitação intensa. Se isso acontecer, procure atendimento médico — não espere a próxima consulta.
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Pensamentos de se machucar ou suicídio: Embora raro, foi relatado em alguns pacientes. Se você ou alguém próximo notar pensamentos desse tipo, procure ajuda imediatamente — ligue para o CVV (188) ou vá a uma UPA.
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Síndrome neuroléptica maligna (ao parar abruptamente): Parar a amantadina de repente, especialmente em quem usa antipsicóticos, pode desencadear febre alta, rigidez muscular extrema e confusão. Por isso, nunca interrompa sem orientação médica.
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Convulsões: Quem tem histórico de epilepsia precisa de atenção redobrada, pois a amantadina pode aumentar o risco de crises convulsivas.
O que fazer se tiver efeitos colaterais?
A maioria dos efeitos colaterais da amantadina é leve e passa nas primeiras semanas. Mas existem situações em que você precisa agir:
Ligue para seu médico se:
– A tontura for frequente ou você tiver caído por causa dela
– Aparecerem manchas roxas na pele
– Você estiver com confusão mental ou dificuldade de pensar
– O sono estiver muito prejudicado mesmo ajustando o horário
Vá a uma UPA ou emergência se:
– Tiver alucinações (ver ou ouvir coisas que não existem)
– Sentir febre alta junto com rigidez muscular
– Tiver pensamentos de se machucar
– Tiver convulsões
O que NÃO fazer:
– Não pare o remédio de uma hora para outra sem falar com seu médico — isso pode causar sintomas de retirada sérios.
– Não aumente a dose por conta própria achando que vai funcionar melhor mais rápido.
Cuidados importantes
Álcool: Evite. O álcool potencializa os efeitos sobre o sistema nervoso central, aumentando tontura, confusão e risco de quedas.
Outros remédios: Avise sempre seu médico sobre tudo que você toma, incluindo remédios para pressão, diuréticos (como a hidroclorotiazida) e outros remédios para o sistema nervoso. Alguns diuréticos podem aumentar a concentração de amantadina no sangue, elevando o risco de efeitos colaterais.
Gravidez: A amantadina não é recomendada durante a gravidez. Se você está grávida ou planejando engravidar, converse com seu médico para avaliar alternativas.
Amamentação: O remédio passa para o leite materno e pode reduzir a produção de leite (porque diminui a prolactina, o hormônio que estimula a lactação). O ideal é evitar durante a amamentação.
Idosos: Pessoas mais velhas são mais sensíveis aos efeitos da amantadina no sistema nervoso — confusão, tontura e risco de queda são maiores. Doses menores e acompanhamento mais próximo são necessários.
Problemas nos rins: A amantadina é eliminada quase toda pelos rins. Se você tiver insuficiência renal, o remédio pode se acumular no organismo e causar toxicidade. Seu médico precisará ajustar a dose.
Perguntas frequentes
Vou ficar dependente da amantadina?
Não, a amantadina não causa dependência química no sentido tradicional. Você não vai sentir “fissura” por ela. Mas o corpo se adapta à presença do remédio, então parar de repente pode causar sintomas desconfortáveis — por isso a retirada deve ser gradual, com orientação médica.
Posso beber álcool enquanto tomo amantadina?
Não é recomendado. O álcool e a amantadina juntos aumentam a tontura e a confusão mental, o que pode ser perigoso — especialmente se você precisar dirigir ou operar máquinas.
Posso parar de tomar quando me sentir melhor?
Não por conta própria. A melhora que você sente é justamente porque o remédio está funcionando. Parar abruptamente pode fazer os sintomas voltarem — e ainda causar sintomas de retirada. Sempre converse com seu médico antes de qualquer mudança.
A amantadina vai me deixar “dopado” ou sonolento?
Na maioria das pessoas, não — ela tende a ser mais estimulante do que sedativa. Alguns pacientes até relatam dificuldade para dormir no início. Se você sentir muita sonolência, avise seu médico, pois pode ser necessário ajustar a dose ou o horário.
Posso dirigir enquanto tomo amantadina?
Depende de como você se sente. Nas primeiras semanas, enquanto o corpo está se adaptando, a tontura pode ser um problema. Observe como você reage antes de dirigir ou operar máquinas pesadas. Se sentir tontura ou confusão, evite essas atividades e converse com seu médico.
Referências
- Bula do Mantidan® (cloridrato de amantadina) — ANVISA/Brasil
- Clínica Psiquiátrica USP, 2ª edição, Volume 3 — Editora Manole
- Tratado de Psiquiatria da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) — Artmed
Este conteúdo é educativo e não substitui a orientação do seu médico. Em caso de dúvidas, consulte o profissional que te prescreveu.