Alopurinol

O que é e para que serve?

O alopurinol é um medicamento usado para baixar o nível de ácido úrico no sangue. Ele pertence a uma classe chamada “inibidores da xantina oxidase” — um nome complicado para uma função simples: bloquear a enzima que fabrica ácido úrico no seu corpo. Quando o ácido úrico fica alto demais, ele forma cristais que se depositam nas articulações e nos rins, causando dor intensa e outros problemas.

No Brasil, o alopurinol é usado principalmente para tratar a gota (aquela dor fortíssima, geralmente no dedão do pé ou em outras articulações, causada pelo acúmulo de cristais de ácido úrico). Também é indicado para pessoas que fazem quimioterapia — porque o tratamento do câncer pode liberar muito ácido úrico de uma vez — e para quem forma pedras nos rins do tipo relacionado ao ácido úrico com frequência.

No Brasil, você pode encontrar o alopurinol vendido com os nomes Zyloric®, Lopurin® e também em versão genérica com o próprio nome “alopurinol”, disponível em farmácias comuns e no programa Farmácia Popular.


Como ele age no seu corpo?

Pense assim: o ácido úrico é o “lixo” que sobra quando o seu corpo quebra certas substâncias chamadas purinas (presentes em carnes, frutos do mar, cervejas, entre outros alimentos). Para transformar esse material em ácido úrico, o corpo usa uma “máquina” chamada xantina oxidase — uma enzima, que é basicamente uma proteína que acelera reações químicas.

O alopurinol age como se colocasse uma chave errada na fechadura dessa máquina. Ele se encaixa na xantina oxidase e a bloqueia, impedindo que ela produza ácido úrico. Com menos ácido úrico sendo fabricado, o nível no sangue cai, os cristais que já existiam começam a se dissolver aos poucos, e as crises de dor vão ficando cada vez mais raras.

Uma curiosidade: o próprio alopurinol, depois que entra no corpo, é transformado em outra substância chamada oxipurinol — que também ajuda a bloquear essa mesma enzima. Ou seja, o remédio e seu “filho” trabalham juntos para manter o ácido úrico sob controle.


Quando começa a fazer efeito?

Aqui vai uma coisa importante de entender: o alopurinol não é um remédio para a crise. Ele não vai aliviar a dor de uma crise de gota que está acontecendo agora — para isso existem outros medicamentos (como anti-inflamatórios), que o seu médico pode indicar.

O alopurinol funciona como uma prevenção de longo prazo. Pense nele como um filtro de água: ele não limpa a água que já está suja de uma vez, mas vai melhorando a qualidade aos poucos. Em geral, os níveis de ácido úrico começam a cair nas primeiras semanas, mas o efeito completo — com redução real das crises — costuma aparecer depois de alguns meses de uso contínuo.

Aliás, nas primeiras semanas de tratamento, é até comum que as crises de gota aumentem temporariamente. Isso acontece porque, quando o ácido úrico começa a cair, os cristais que estavam “acomodados” nas articulações se movimentam, causando inflamação. Não é sinal de que o remédio está fazendo mal — é parte do processo. Seu médico provavelmente vai te dar algo para lidar com isso nessa fase inicial.


Como tomar corretamente

O alopurinol geralmente é tomado uma vez ao dia, preferencialmente depois das refeições — isso ajuda a reduzir o desconforto no estômago que ele pode causar. Tomar com bastante água também é importante, especialmente para quem tem histórico de pedra nos rins.

As doses mais comuns variam entre 100 mg e 300 mg por dia, mas isso depende do seu nível de ácido úrico, da função dos seus rins e de outros fatores que só o seu médico pode avaliar. O médico costuma começar com uma dose baixa e ir aumentando aos poucos — justamente para evitar aquelas crises iniciais que mencionamos.

Se esquecer uma dose: tome assim que lembrar, desde que ainda não esteja próximo do horário da próxima dose. Se estiver, pule a dose esquecida e continue normalmente. Nunca tome duas doses de uma vez para compensar.

Não pare de tomar por conta própria, mesmo que se sinta bem. O ácido úrico volta a subir rapidamente quando o remédio é interrompido, e as crises podem voltar com força. Qualquer ajuste na dose ou decisão de parar deve ser feita junto com o seu médico.


Efeitos colaterais possíveis — e por que eles acontecem

Comuns (acontecem com mais frequência, geralmente passageiros)

  • Manchas ou vermelhidão na pele (erupção cutânea): É o efeito colateral mais frequente do alopurinol. Aparece como uma vermelhidão ou manchinhas avermelhadas, geralmente no tronco ou nos braços. Acontece porque o sistema imunológico de algumas pessoas reage ao medicamento como se fosse um “invasor”. Na maioria das vezes é leve e passa, mas qualquer sinal de mancha na pele deve ser comunicado ao médico imediatamente, pois em casos raros pode evoluir para algo mais sério.

  • Náusea e desconforto no estômago: O remédio pode irritar um pouco o estômago, especialmente se tomado em jejum. Por isso a recomendação de tomar após as refeições. Geralmente passa nas primeiras semanas.

  • Diarreia: Menos comum, mas pode acontecer no início do tratamento. Se persistir, avise o médico.

  • Crises de gota no início do tratamento: Como explicado antes, é paradoxal mas esperado. O médico pode prescrever um anti-inflamatório preventivo para essa fase.

Menos comuns

  • Alterações nos exames de fígado: O alopurinol pode causar uma leve elevação nas enzimas do fígado em 2% a 6% dos pacientes. Geralmente não dá sintomas e se resolve sozinho ou com ajuste da dose. Por isso, seu médico pode pedir exames de sangue periodicamente.

  • Dor de cabeça e mal-estar geral: Algumas pessoas relatam cansaço ou dor de cabeça no início. Costuma melhorar com o tempo.

  • Sonolência ou tontura: Pode acontecer em alguns casos. Se sentir isso, evite dirigir ou operar máquinas até saber como o remédio te afeta.

Raros mas importantes (quando ir ao médico imediatamente)

  • Reação de hipersensibilidade grave (síndrome DRESS): Esta é a complicação mais séria do alopurinol. Ela combina febre alta, manchas espalhadas pelo corpo, gânglios inchados, e pode afetar fígado, rins e outros órgãos. Aparece geralmente entre 2 e 8 semanas após o início do tratamento. É rara, mas pode ser grave. Se tiver febre + manchas na pele ao mesmo tempo, vá a uma emergência.

  • Síndrome de Stevens-Johnson / Necrólise Epidérmica Tóxica: Reações alérgicas gravíssimas que causam bolhas e descamação da pele, como se fosse uma queimadura. Extremamente raras, mas potencialmente fatais. Qualquer bolha na pele, dentro da boca ou nos olhos durante o uso do alopurinol é uma emergência médica.

  • Problemas no fígado: Em casos raros, pode causar hepatite medicamentosa (inflamação do fígado). Sinais: pele ou olhos amarelados (icterícia), urina escura, dor na barriga do lado direito. Procure atendimento médico.

  • Alterações no sangue: Muito raramente, pode afetar a produção de células do sangue. Sinais de alerta: cansaço extremo, palidez, manchas roxas espontâneas no corpo, infecções frequentes.


O que fazer se tiver efeitos colaterais?

Ligue para o seu médico se:
– Aparecer qualquer mancha ou vermelhidão na pele — mesmo que pareça pequena
– A náusea ou diarreia não melhorar depois de 1 a 2 semanas
– Você sentir cansaço incomum ou amarelamento da pele/olhos
– As crises de gota estiverem muito frequentes ou intensas no início do tratamento

Vá a uma UPA ou emergência imediatamente se:
– Tiver febre alta junto com manchas na pele
– Aparecerem bolhas na pele, na boca ou nos olhos
– Sentir falta de ar, inchaço no rosto ou garganta (sinal de reação alérgica grave)

O que NÃO fazer:
– Não pare o remédio de repente por conta própria sem falar com o médico — exceto se tiver uma reação grave na pele, caso em que deve parar e buscar atendimento imediatamente.
– Não ignore manchas na pele achando que “vai passar” — com o alopurinol, é sempre melhor checar.

A boa notícia é que a maioria das pessoas toma alopurinol por anos sem nenhum problema sério. Os efeitos colaterais graves são raros, e o monitoramento regular com o médico existe exatamente para pegar qualquer sinal cedo.


Cuidados importantes

Interações com outros medicamentos:

  • Azatioprina e mercaptopurina (usados em doenças autoimunes e alguns cânceres): O alopurinol bloqueia a enzima que elimina esses remédios do corpo, fazendo com que eles se acumulem e fiquem muito mais fortes — o que pode ser perigoso. Se você usa algum deles, o médico precisa reduzir a dose significativamente. Nunca combine por conta própria.

  • Capecitabina (quimioterápico): O alopurinol pode reduzir a eficácia desse medicamento. Geralmente são evitados juntos.

  • Diuréticos tiazídicos (como a hidroclorotiazida, usada para pressão alta): Aumentam o risco de reações alérgicas ao alopurinol. Se você usa diurético, informe o médico.

  • Ampicilina e amoxicilina (antibióticos comuns): Aumentam o risco de manchas na pele quando usados junto com alopurinol.

  • Varfarina (anticoagulante): O alopurinol pode potencializar o efeito da varfarina. Se você usa anticoagulante, o médico vai monitorar mais de perto.

  • Álcool: A cerveja e outras bebidas alcoólicas aumentam a produção de ácido úrico no corpo — ou seja, trabalham contra o que o alopurinol está tentando fazer. Além disso, o álcool pode sobrecarregar o fígado, que já está sendo monitorado durante o tratamento. Reduzir o consumo de álcool faz parte do tratamento.

Situações especiais:

  • Problemas nos rins: Como o alopurinol é eliminado pelos rins, quem tem insuficiência renal precisa de doses menores. O médico vai ajustar conforme a função renal.

  • Gravidez: O uso durante a gravidez deve ser avaliado com muito cuidado pelo médico. Só use se o benefício for claramente maior que o risco.

  • Amamentação: O alopurinol passa para o leite materno. Converse com o médico antes de amamentar durante o tratamento.

  • Idosos: Geralmente precisam de doses menores, pois os rins funcionam com menos eficiência com a idade.

Dica de dieta: Reduzir o consumo de carnes vermelhas, frutos do mar, miúdos (fígado, rim), refrigerantes com frutose e cerveja ajuda muito o tratamento a funcionar melhor.


Perguntas frequentes

Preciso tomar alopurinol para sempre?
Na maioria dos casos, sim — pelo menos enquanto o risco de crises de gota existir. O ácido úrico volta a subir quando o remédio é parado. Mas isso é algo que você e seu médico vão avaliar juntos ao longo do tempo, dependendo dos seus exames e da sua qualidade de vida.

Posso beber cerveja ou vinho enquanto tomo alopurinol?
O ideal é evitar ou reduzir bastante, especialmente a cerveja (mesmo a sem álcool, que ainda contém purinas). O álcool aumenta a produção de ácido úrico e pode provocar exatamente as crises que o remédio está tentando prevenir. Uma taça de vinho ocasional provavelmente não vai causar desastre, mas o hábito regular atrapalha o tratamento.

Por que minha gota piorou logo depois que comecei o alopurinol?
Isso é normal e tem explicação: quando o ácido úrico começa a cair, os cristais que estavam “dormindo” nas articulações se mobilizam, causando inflamação temporária. É como mexer em um formigueiro — fica pior antes de melhorar. Seu médico provavelmente já esperava isso e pode te dar algo para aliviar essa fase.

Posso parar de tomar se não tiver mais crises de gota?
Não por conta própria. A ausência de crises é sinal de que o remédio está funcionando — não de que o problema sumiu. Se parar, o ácido úrico sobe de novo e as crises voltam. Qualquer decisão de parar deve ser tomada com o médico.

O alopurinol faz mal ao fígado?
Em uma pequena porcentagem de pessoas, pode causar alterações leves nos exames de fígado — que geralmente se resolvem sozinhas. Reações mais sérias no fígado são raras. Por isso o médico pede exames de sangue periódicos: para monitorar e agir cedo se necessário. Se você não bebe em excesso e não tem doença hepática prévia, o risco é baixo.


Referências

  • Bula do Alopurinol — ANVISA (disponível em: bulario.anvisa.gov.br)
  • FDA Label — Allopurinol Tablets (U.S. Food and Drug Administration, revisão mais recente disponível em DailyMed/NIH)
  • LiverTox: Clinical and Research Information on Drug-Induced Liver Injury — National Institutes of Health (NIH). Verbete: Allopurinol. Disponível em: livertox.nih.gov

Este conteúdo é educativo e não substitui a orientação do seu médico. Em caso de dúvidas, consulte o profissional que te prescreveu.

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