O que é e para que serve?
O ácido valproico é um estabilizador do humor — um tipo de medicamento que ajuda a deixar as emoções mais equilibradas, evitando os altos e baixos intensos que algumas condições psiquiátricas provocam. Ele também é classificado como anticonvulsivante, porque foi usado inicialmente para tratar epilepsia, e essa continua sendo uma das suas indicações até hoje.
No Brasil, ele é encontrado principalmente com os nomes Depakene® (ácido valproico) e Depakote® (divalproato de sódio, que é uma forma ligeiramente diferente da mesma substância, com absorção um pouco mais suave). Existem também versões genéricas com o nome “ácido valproico” ou “valproato de sódio”. As apresentações variam: cápsulas, comprimidos de liberação prolongada e solução oral.
Na psiquiatria, ele é prescrito principalmente para o transtorno bipolar — tanto para controlar as crises de mania (aqueles períodos de euforia exagerada, impulsividade e pouco sono) quanto para ajudar na manutenção do humor a longo prazo. Na neurologia, é usado para epilepsia (vários tipos de convulsões) e para a prevenção de enxaquecas frequentes. Às vezes, o médico pode prescrevê-lo para outras situações além dessas — isso é chamado de uso “off-label” e é uma prática comum e legítima na medicina.
Como ele age no seu cérebro?
Pense no seu cérebro como uma cidade barulhenta, com milhares de carros (os neurônios) trafegando ao mesmo tempo. Quando há uma crise de mania ou uma convulsão, é como se todos os semáforos parassem de funcionar ao mesmo tempo — o trânsito vira um caos, com buzinas, colisões e aceleração descontrolada.
O ácido valproico age de pelo menos três formas para restaurar a ordem nessa cidade:
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Reforça o sistema de freios. Ele aumenta a quantidade de GABA (um mensageiro químico do cérebro que funciona como um sinal de “calma, para um pouco”) — tanto produzindo mais dele quanto impedindo que ele seja destruído rápido demais. Com mais GABA disponível, os neurônios ficam menos agitados.
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Bloqueia o acelerador. Ele reduz a ação do glutamato (o mensageiro que diz “vai, vai, vai!” para os neurônios) em certos pontos de ligação chamados receptores NMDA. Menos acelerador, menos agitação.
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Trava as portas dos neurônios. Os neurônios se comunicam abrindo e fechando pequenas comportas chamadas canais de sódio. O valproico ajuda a manter essas comportas fechadas quando não deveriam estar abertas, evitando que os neurônios disparem de forma descontrolada.
O resultado de tudo isso é um cérebro com o trânsito mais organizado: menos picos de agitação, menos crises, humor mais estável.
Quando começa a fazer efeito?
Depende do que está sendo tratado.
Para crises de mania aguda, o efeito pode começar a aparecer em alguns dias, especialmente quando o médico usa doses mais altas no início. Mas o efeito completo de estabilização do humor leva algumas semanas para se consolidar.
Para prevenção de episódios bipolares a longo prazo, pense nisso como construir uma cerca ao redor do seu humor: a cerca precisa ser erguida tijolo por tijolo, e isso leva semanas ou até meses. Você pode não sentir uma mudança dramática de um dia para o outro — e isso é normal. O remédio está trabalhando nos bastidores.
Para epilepsia, o controle das convulsões costuma aparecer mais rapidamente, mas o ajuste fino da dose pode levar algumas semanas.
Nas primeiras semanas, é comum sentir mais sono ou um leve enjoo — esses efeitos tendem a diminuir conforme o corpo se adapta. Se você não sentir melhora depois de algumas semanas, não abandone o tratamento por conta própria: converse com seu médico, porque pode ser necessário ajustar a dose.
Como tomar corretamente
Com ou sem comida? De preferência com alimentos — isso ajuda a reduzir o enjoo e o desconforto no estômago, que são efeitos colaterais comuns no início. Os comprimidos de liberação prolongada (Depakote® ER) podem ter a absorção um pouco alterada se tomados com refeições muito gordurosas, mas na prática do uso contínuo isso raramente faz diferença clínica.
Horário: Siga exatamente o que seu médico indicou. Geralmente é tomado uma, duas ou três vezes ao dia, dependendo da formulação. Os de liberação prolongada costumam ser tomados uma vez ao dia.
Esqueceu uma dose? Se lembrar logo depois, tome assim que puder. Se já estiver perto do horário da próxima dose, pule a esquecida e continue normalmente. Nunca tome dose dupla para compensar.
Faixa de dose: As doses variam bastante de pessoa para pessoa — seu médico pode pedir exames de sangue para medir o nível do remédio no organismo (chamado de “valproatemia”) e ajustar a dose com base nisso. Não tente ajustar a dose por conta própria.
Não pare abruptamente. Interromper o ácido valproico de repente pode desestabilizar o humor ou aumentar o risco de convulsões em quem usa para epilepsia. Se quiser parar, converse com seu médico — a retirada é feita de forma gradual e planejada.
Efeitos colaterais possíveis — e por que eles acontecem
Comuns (acontecem com mais frequência, geralmente passageiros)
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Enjoo, náusea e dor de barriga: O valproico irrita um pouco o revestimento do estômago, especialmente no início. Tomar com alimentos ajuda bastante. Costuma melhorar nas primeiras semanas.
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Sonolência e cansaço: Como o remédio aumenta o GABA (o “freio” do cérebro), ele pode deixar você mais sonolento, especialmente no começo. Tende a diminuir com o tempo. Se atrapalhar muito, avise seu médico — pode ser que o horário da dose precise ser ajustado.
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Tremor nas mãos: Um tremorzinho fino nas mãos é relativamente comum. Acontece porque o valproico interfere nos sinais elétricos dos nervos que controlam os músculos. Em geral é leve e tolerável, mas se incomodar muito, existem formas de manejá-lo.
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Ganho de peso e aumento do apetite: O valproico pode aumentar o apetite e favorecer o acúmulo de gordura, especialmente na barriga. O mecanismo exato não é totalmente claro, mas envolve efeitos no metabolismo e em hormônios. Manter uma alimentação equilibrada e atividade física ajuda a controlar.
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Queda de cabelo (alopecia): Alguns pacientes notam afinamento ou queda de cabelo, especialmente nos primeiros meses. Isso acontece porque o valproico pode interferir no metabolismo do zinco e do selênio, nutrientes importantes para o folículo capilar. Na maioria das vezes é temporário. Suplementação de zinco pode ajudar — pergunte ao seu médico.
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Diarreia ou constipação: O trânsito intestinal pode ser afetado no início do tratamento.
Menos comuns
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Alterações menstruais e ovários policísticos (em mulheres): O valproico pode elevar os níveis de hormônios masculinos (andrógenos) no organismo feminino, causando irregularidade menstrual, acne, crescimento de pelos em locais indesejados e, em alguns casos, síndrome dos ovários policísticos (SOP). Se você notar essas mudanças, avise seu médico.
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Queda de plaquetas (trombocitopenia): As plaquetas são as células que ajudam o sangue a coagular. O valproico pode reduzi-las, o que pode causar hematomas com facilidade, sangramento nas gengivas ou demora para parar de sangrar em pequenos cortes. Por isso, exames de sangue periódicos são importantes.
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Elevação das enzimas do fígado: O fígado é o principal responsável por processar o valproico, e ele pode reagir com uma leve inflamação, detectável em exames de sangue. Na maioria das vezes é assintomática e reversível.
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Confusão mental ou lentidão de raciocínio: Pode acontecer, especialmente em doses mais altas ou em combinação com outros remédios.
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Perda de osso (osteoporose) no uso prolongado: O uso por muitos anos pode reduzir a densidade óssea. Suplementar vitamina D (2.000 UI/dia) e cálcio (600 a 1.000 mg/dia) pode ajudar a prevenir — converse com seu médico sobre isso.
Raros mas importantes — vá ao médico ou à emergência imediatamente se notar:
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Sinais de problema no fígado: Amarelamento da pele ou dos olhos (icterícia), dor forte na barriga, inchaço abdominal, urina muito escura ou fezes esbranquiçadas. A falência hepática grave é rara, mas existe — e é mais comum em crianças pequenas e em pessoas com doenças genéticas específicas.
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Pancreatite: Dor intensa na barriga que irradia para as costas, acompanhada de náusea e vômito intensos. A inflamação do pâncreas é uma complicação séria e rara, mas que pode acontecer mesmo com doses normais.
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Confusão mental súbita, vômitos e letargia sem explicação: Pode ser sinal de hiperamonemia — acúmulo de amônia no sangue, que o fígado normalmente elimina. Isso pode acontecer especialmente em quem usa valproico junto com topiramato. Procure atendimento imediato.
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Pensamentos de se machucar ou suicídio: Anticonvulsivantes em geral carregam um alerta sobre esse risco. Se tiver esses pensamentos, procure ajuda imediatamente — ligue para o CVV (188) ou vá a uma emergência.
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Reação alérgica grave: Erupção cutânea intensa, febre, inchaço no rosto ou dificuldade para respirar. Vá à emergência.
O que fazer se tiver efeitos colaterais?
Primeiro: não entre em pânico. A maioria dos efeitos colaterais do ácido valproico é leve, aparece no início do tratamento e melhora sozinha nas primeiras semanas.
Ligue para o seu médico se:
– O enjoo ou o tremor estiverem atrapalhando muito sua rotina
– Você notar queda de cabelo significativa
– Tiver irregularidade menstrual ou outros sinais hormonais
– Os exames de sangue mostrarem alterações
Vá a uma UPA ou emergência se:
– Tiver dor abdominal intensa e persistente
– Notar amarelamento da pele ou dos olhos
– Ficar muito confuso, com vômitos intensos e sem conseguir se manter acordado
– Tiver pensamentos de se machucar
O que NÃO fazer:
– Não pare o remédio de repente por conta própria — isso pode piorar sua condição e, no caso da epilepsia, aumentar o risco de convulsões.
– Não aumente a dose achando que vai melhorar mais rápido.
– Não tome remédios por conta própria para tratar os efeitos colaterais sem avisar seu médico.
Cuidados importantes
Álcool: Evite ou reduza bastante o consumo. O álcool e o valproico são processados pelo mesmo órgão (o fígado) e ambos deprimem o sistema nervoso central. Juntos, podem aumentar muito a sonolência e sobrecarregar o fígado.
Gravidez — atenção redobrada: O ácido valproico é um dos medicamentos com maior risco para bebês durante a gestação. Ele pode causar malformações (especialmente no tubo neural, que forma a coluna e o cérebro do bebê), além de reduzir o QI da criança. Se você está grávida ou planeja engravidar, converse com seu médico antes de qualquer decisão — ele vai avaliar se o benefício do tratamento supera o risco ou se existe uma alternativa mais segura. Não interrompa o remédio por conta própria.
Amamentação: Pequenas quantidades do valproico passam para o leite materno, mas em concentrações geralmente baixas. A decisão de amamentar deve ser tomada junto com seu médico, avaliando cada caso.
Interações com outros remédios:
– Carbamazepina, fenitoína e fenobarbital (outros anticonvulsivantes): podem reduzir o nível do valproico no sangue, fazendo-o funcionar menos.
– Lamotrigina (outro estabilizador do humor): o valproico faz a lamotrigina durar muito mais tempo no organismo — por isso, quando usados juntos, a dose da lamotrigina precisa ser reduzida pelo médico.
– Topiramato (outro anticonvulsivante): a combinação pode causar acúmulo de amônia no sangue. Fique atento a confusão mental, vômitos ou sonolência excessiva.
– Aspirina: pode aumentar os níveis de valproico no sangue.
– Antibióticos carbapenêmicos (usados em infecções graves): podem reduzir drasticamente os níveis de valproico — avise sempre qualquer médico ou dentista que você usa esse remédio.
Exames de sangue: Seu médico provavelmente vai pedir exames periódicos para checar o fígado, as plaquetas e o nível do remédio no sangue. Não pule esses exames — eles são parte do tratamento.
Perguntas frequentes
Vou tomar esse remédio para sempre?
Não necessariamente. O tempo de tratamento depende do diagnóstico e de como você responde. No transtorno bipolar, muitas pessoas usam por anos para manter a estabilidade — mas isso é sempre reavaliado com o médico. Na epilepsia, alguns pacientes ficam sem crises por tanto tempo que o médico considera retirar o remédio gradualmente. Essa decisão é sempre individualizada.
Posso beber álcool?
O ideal é evitar. O álcool potencializa a sonolência causada pelo valproico e sobrecarrega o fígado, que já está trabalhando para processar o remédio. Uma taça ocasional pode não causar problema grave, mas beber com frequência ou em grandes quantidades é arriscado. Converse com seu médico sobre sua situação específica.
Posso parar de tomar quando me sentir bem?
Não. Sentir-se bem é sinal de que o remédio está funcionando — não de que você não precisa mais dele. Parar abruptamente pode fazer os sintomas voltarem com força, e no caso da epilepsia, pode desencadear convulsões. Se quiser discutir a possibilidade de reduzir ou parar, faça isso com seu médico, que vai planejar uma retirada gradual e segura.
Esse remédio vai me deixar “dopado” ou mudar minha personalidade?
No início, a sonolência é comum e pode incomodar. Mas com o tempo, a maioria das pessoas se adapta e consegue levar a vida normalmente. O objetivo do remédio é justamente o contrário de “apagar” você — é estabilizar o humor para que você consiga ser quem você é, sem os extremos que a doença provoca.
Preciso evitar algum alimento?
Não há restrições alimentares específicas como acontece com alguns outros remédios. Tomar com alimentos ajuda a reduzir o desconforto gástrico. Manter uma dieta equilibrada é sempre recomendado, especialmente porque o remédio pode favorecer o ganho de peso.
Referências
- Bula do Depakene® (ácido valproico) — ANVISA. Disponível em: bulario.anvisa.gov.br
- Associação Brasileira de Psiquiatria. Tratado de Psiquiatria da ABP. 2ª ed. Artmed, 2021.
- Stahl SM. Fundamentos de Psicofarmacologia de Stahl. 3ª ed. Artmed, 2014.
- FDA. Valproic Acid — Drug Label. NorthStar Rx LLC. Disponível em: dailymed.nlm.nih.gov
Este conteúdo é educativo e não substitui a orientação do seu médico. Em caso de dúvidas, consulte o profissional que te prescreveu.