Código CID-11: 6A2Z
O que é?
Imagine que o seu cérebro é como uma orquestra. Cada instrumento toca uma parte importante da música da sua vida: os violinos são suas emoções, os tambores são seus pensamentos, os metais são suas memórias, e o maestro é a sua capacidade de organizar tudo isso. Agora, imagine que, de repente, o maestro começa a dar ordens confusas, alguns músicos param de tocar, outros tocam notas erradas sem perceber, e alguns até começam a inventar músicas que não existem. É como se a orquestra perdesse a harmonia, e a música que antes fazia sentido se transformasse em algo difícil de entender — tanto para você quanto para quem está ouvindo.
A esquizofrenia e outros transtornos psicóticos primários são algo parecido com isso. Eles afetam a forma como a pessoa percebe a realidade, pensa, sente e se comporta. Não é uma “dupla personalidade” (isso é um mito muito comum), nem é algo que a pessoa “escolhe” ter. É uma condição de saúde mental que altera a maneira como o cérebro processa informações, como se houvesse um curto-circuito em alguns fios importantes. Isso pode fazer com que a pessoa tenha dificuldade para distinguir o que é real do que não é, ouça vozes que os outros não ouvem, acredite em coisas que não têm base na realidade, ou tenha pensamentos tão confusos que fica difícil se comunicar.
Essa condição afeta cerca de 1 em cada 100 pessoas no mundo, o que significa que, só no Brasil, mais de 2 milhões de pessoas vivem com algum transtorno psicótico. Ela costuma aparecer no final da adolescência ou no início da vida adulta — geralmente entre os 16 e 30 anos —, mas pode surgir em qualquer idade. Nos homens, os sintomas costumam aparecer um pouco mais cedo (entre 18 e 25 anos), enquanto nas mulheres é mais comum entre os 25 e 35 anos. Também há diferenças na forma como os sintomas se manifestam: os homens tendem a ter mais sintomas “negativos” (como isolamento e falta de motivação), enquanto as mulheres podem ter mais oscilações de humor junto com os sintomas psicóticos.
É importante saber que a esquizofrenia e outros transtornos psicóticos não são culpa de ninguém. Não é por falta de força de vontade, nem por “fraqueza”, nem por algo que a pessoa ou a família fez “errado”. Assim como o diabetes ou a hipertensão, são condições que envolvem fatores biológicos, genéticos e ambientais. A boa notícia é que, com tratamento adequado, muitas pessoas conseguem levar uma vida plena, trabalhar, estudar e ter relacionamentos significativos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece esses transtornos na Classificação Internacional de Doenças (CID-11), sob o código 6A2Z, e o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) também os descreve em detalhes.
Se você ou alguém que você ama acabou de receber esse diagnóstico, saiba que não está sozinho. Muitas pessoas passam pelo mesmo susto inicial, pela confusão e até pelo medo do desconhecido. Mas entender o que está acontecendo é o primeiro passo para aprender a lidar com isso. Vamos juntos?
Como se manifesta? (Sinais e sintomas)
Os sintomas da esquizofrenia e de outros transtornos psicóticos podem ser divididos em quatro grandes grupos: sintomas positivos, sintomas negativos, sintomas cognitivos e sintomas de desorganização. Cada pessoa pode apresentar uma combinação diferente desses sintomas, e eles podem variar muito em intensidade. Vamos entender cada um deles com exemplos do dia a dia.
1. Sintomas positivos (o que “aparece a mais”)
São chamados de “positivos” não porque são bons, mas porque são experiências que se adicionam ao funcionamento normal da pessoa. São os sintomas mais conhecidos e que costumam chamar mais atenção.
Delírios
O que é: Crenças falsas e inflexíveis, que a pessoa mantém mesmo quando há evidências claras de que não são verdadeiras. É como se a mente criasse uma história e acreditasse nela de forma absoluta, mesmo que todos ao redor digam o contrário.
Exemplos no cotidiano:
– Delírio de perseguição: A pessoa acredita que está sendo vigiada, seguida ou que alguém quer lhe fazer mal. Por exemplo: “Meus vizinhos colocaram câmeras na minha casa para me espionar” ou “A polícia está atrás de mim, mesmo que eu não tenha feito nada”.
– Delírio de referência: A pessoa acredita que mensagens ocultas estão sendo enviadas especialmente para ela. Por exemplo: “O apresentador da TV está falando comigo através das notícias” ou “As placas de trânsito têm mensagens secretas que só eu consigo entender”.
– Delírio de grandeza: A pessoa acredita ter poderes, habilidades ou uma importância exagerada. Por exemplo: “Eu sou o escolhido para salvar o mundo” ou “Sou um enviado de Deus com uma missão especial”.
– Delírio de controle: A pessoa acredita que seus pensamentos, sentimentos ou ações estão sendo controlados por uma força externa. Por exemplo: “Alienígenas estão colocando pensamentos na minha cabeça” ou “Meu corpo não é meu, alguém está me obrigando a fazer coisas”.
Como os outros percebem:
Os familiares podem notar que a pessoa fica desconfiada, irritada ou assustada sem motivo aparente. Ela pode trancar portas e janelas repetidamente, evitar sair de casa ou até acusar pessoas próximas de traição.
Alucinações
O que é: Percepções sensoriais que acontecem sem um estímulo real. A pessoa vê, ouve, cheira, sente gosto ou toca algo que não existe. As alucinações mais comuns são as auditivas (ouvir vozes), mas todas as formas são possíveis.
Exemplos no cotidiano:
– Alucinações auditivas: A pessoa ouve vozes que os outros não ouvem. Essas vozes podem ser:
– Críticas: “Você é um fracasso, não serve para nada”.
– Ameaçadoras: “Vou te matar se você sair de casa”.
– De comando: “Pule da janela agora”.
– Conversando entre si: “Ela é perigosa, temos que pará-la”.
– Alucinações visuais: Ver coisas que não estão lá, como sombras, pessoas, animais ou luzes estranhas.
– Alucinações táteis: Sentir algo que não existe, como insetos rastejando na pele ou mãos invisíveis tocando o corpo.
– Alucinações olfativas/gustativas: Cheirar ou sentir gosto de algo que não está presente, como veneno na comida ou um cheiro de podre que ninguém mais sente.
Como os outros percebem:
A pessoa pode parecer distraída, como se estivesse ouvindo algo que ninguém mais ouve. Ela pode responder a vozes, cobrir os ouvidos, olhar fixamente para um ponto vazio ou até agir de acordo com o que as vozes dizem (por exemplo, fugir de casa porque “alguém está vindo pegá-la”).
2. Sintomas negativos (o que “falta”)
São chamados de “negativos” porque representam perdas em relação ao funcionamento normal. São menos chamativos que os sintomas positivos, mas podem ser tão ou mais incapacitantes, porque afetam a motivação, as emoções e a capacidade de interagir com o mundo.
Embotamento afetivo
O que é: Dificuldade para expressar emoções. A pessoa pode parecer indiferente, com o rosto pouco expressivo, a voz monótona e sem variações de humor.
Exemplo no cotidiano:
– Um familiar conta uma notícia triste ou alegre, e a pessoa reage com a mesma expressão neutra, como se não sentisse nada.
– Não demonstra entusiasmo por coisas que antes gostava, como um hobby ou um encontro com amigos.
Como os outros percebem:
Os familiares podem achar que a pessoa está “fria”, “distante” ou “sem coração”, mas na verdade ela pode estar sentindo as emoções, só não consegue expressá-las.
Apatia (falta de motivação)
O que é: Perda de interesse ou iniciativa para fazer coisas, mesmo as mais simples. A pessoa pode passar horas sem fazer nada, sem sentir vontade de se levantar da cama, tomar banho ou comer.
Exemplo no cotidiano:
– Deixar de ir ao trabalho ou à escola por dias seguidos, sem um motivo claro.
– Não cuidar da higiene pessoal, como escovar os dentes ou trocar de roupa.
– Não sentir vontade de sair com amigos ou fazer atividades que antes gostava.
Como os outros percebem:
Os familiares podem achar que a pessoa está “preguiçosa” ou “desinteressada”, mas na verdade ela pode estar lutando contra uma falta de energia que não consegue controlar.
Anedonia (incapacidade de sentir prazer)
O que é: Dificuldade para sentir prazer em coisas que antes eram agradáveis. A pessoa pode até fazer as atividades, mas não sente satisfação.
Exemplo no cotidiano:
– Assistir a um filme que antes adorava e não sentir nada.
– Comer um prato favorito e não sentir o gosto.
– Encontrar amigos e não sentir alegria na conversa.
Isolamento social
O que é: A pessoa se afasta de amigos, familiares e atividades sociais, muitas vezes porque se sente sobrecarregada ou desinteressada.
Exemplo no cotidiano:
– Parar de atender ligações ou mensagens.
– Evitar sair de casa, mesmo para compromissos importantes.
– Ficar horas no quarto sem interagir com ninguém.
Como os outros percebem:
Os familiares podem achar que a pessoa está “deprimida” ou “chateada com algo”, mas o isolamento pode ser um sintoma da própria condição.
Pobreza do discurso
O que é: Dificuldade para falar ou responder de forma completa. As respostas são curtas, vagas ou sem conteúdo.
Exemplo no cotidiano:
– Quando perguntam “Como foi o seu dia?”, a pessoa responde apenas “Normal” ou “Tá bom”.
– Dificuldade para manter uma conversa ou explicar o que está sentindo.
3. Sintomas cognitivos (problemas de pensamento)
São dificuldades relacionadas à memória, atenção, raciocínio e tomada de decisões. Esses sintomas podem ser sutis, mas afetam muito a vida diária.
Dificuldade de concentração
O que é: A pessoa se distrai facilmente e tem dificuldade para focar em uma tarefa por muito tempo.
Exemplo no cotidiano:
– Começar a ler um livro e não conseguir passar da primeira página.
– Assistir a uma aula ou reunião e não conseguir acompanhar o que está sendo dito.
– Esquecer o que ia fazer no meio de uma atividade (por exemplo, ir até a cozinha e não lembrar o que foi buscar).
Problemas de memória
O que é: Dificuldade para lembrar de coisas recentes ou seguir instruções.
Exemplo no cotidiano:
– Esquecer onde deixou as chaves ou o celular.
– Não lembrar de compromissos marcados.
– Ter dificuldade para aprender coisas novas, como um novo caminho ou uma receita.
Pensamento desorganizado
O que é: Os pensamentos ficam confusos, pulando de um assunto para outro sem conexão lógica.
Exemplo no cotidiano:
– Começar a falar sobre o tempo e, de repente, mudar para um assunto completamente diferente, como política ou um filme.
– Ter dificuldade para organizar ideias na hora de escrever ou falar.
– Falar frases que não fazem sentido para os outros, como “O gato comeu a lua, então o ônibus está atrasado”.
Como os outros percebem:
Os familiares podem achar que a pessoa está “viajando” ou “falando coisas sem nexo”.
4. Sintomas de desorganização
São comportamentos ou falas que parecem estranhos, imprevisíveis ou sem propósito.
Discurso desorganizado
O que é: A pessoa fala de forma confusa, pulando de um assunto para outro ou usando palavras de maneira incomum.
Exemplo no cotidiano:
– Responder uma pergunta com algo que não tem relação com o que foi perguntado.
– Usar palavras inventadas ou combinar palavras de forma estranha, como “O relógio azul dança no telhado”.
– Falar de forma tão rápida que fica difícil entender.
Comportamento desorganizado ou catatônico
O que é: A pessoa age de forma estranha, sem um objetivo claro, ou fica em posições incomuns por muito tempo.
Exemplos no cotidiano:
– Comportamento desorganizado:
– Vestir roupas de forma inadequada (como usar um casaco no verão).
– Rir ou chorar sem motivo aparente.
– Fazer movimentos repetitivos, como balançar o corpo ou bater os dedos.
– Catatonia:
– Ficar imóvel por horas, como uma estátua.
– Repetir palavras ou movimentos de outras pessoas (ecolalia ou ecopraxia).
– Resistir a ser movido ou, ao contrário, ficar em posições desconfortáveis por muito tempo.
Sintomas “escondidos” (que muita gente não associa à esquizofrenia)
Além dos sintomas mais conhecidos, algumas pessoas também podem apresentar:
– Ansiedade intensa: Medo constante de que algo ruim vai acontecer, mesmo sem motivo.
– Depressão: Tristeza profunda, desesperança ou pensamentos suicidas.
– Dificuldade para dormir: Insônia ou sono excessivo.
– Irritabilidade: Explosões de raiva sem motivo aparente.
– Sensibilidade aumentada: Ficar sobrecarregado com barulhos, luzes ou multidões.
Os critérios diagnósticos — em linguagem simples
Para que um médico diagnostique esquizofrenia ou outro transtorno psicótico primário, ele segue critérios específicos do DSM-5 e da CID-11. Vamos traduzir cada um deles para o que isso significa na prática.
Critérios para Esquizofrenia (DSM-5)
Critério A: Dois ou mais dos seguintes sintomas por pelo menos 1 mês
“Dois (ou mais) dos seguintes sintomas, cada um presente por uma quantidade significativa de tempo durante um período de 1 mês (ou menos, se tratados com sucesso). Pelo menos um deles deve ser (1), (2) ou (3):”
1. Delírios
Na prática: A pessoa acredita firmemente em algo que não é real, mesmo que todos ao redor mostrem evidências do contrário. Por exemplo:
– “Meu chefe está tentando me envenenar” (sem nenhuma prova).
– “Sou um agente secreto com uma missão importante” (sem base na realidade).
2. Alucinações
Na prática: A pessoa ouve, vê, cheira, sente gosto ou toca algo que não existe. O exemplo mais comum é ouvir vozes:
– “Uma voz me diz que eu sou o anticristo”.
– “Ouço meu vizinho me xingando, mesmo quando ele não está em casa”.
3. Discurso desorganizado
Na prática: A pessoa fala de forma confusa, pulando de um assunto para outro ou usando palavras de maneira estranha. Por exemplo:
– “Ontem eu fui ao mercado, mas o céu estava azul, então o presidente é um robô” (sem conexão lógica).
– Usar palavras inventadas ou frases que não fazem sentido.
4. Comportamento grosseiramente desorganizado ou catatônico
Na prática:
– Desorganizado: Agir de forma estranha, como rir sem motivo, vestir roupas inadequadas ou fazer movimentos repetitivos.
– Catatônico: Ficar imóvel por horas, resistir a ser movido ou repetir movimentos de outras pessoas.
5. Sintomas negativos
Na prática: Perda de motivação, emoções ou interesse pela vida. Por exemplo:
– Não sentir prazer em nada (anedonia).
– Não ter vontade de sair da cama ou fazer atividades básicas (apatia).
– Falar pouco ou com pouca expressão (embotamento afetivo).
Critério B: Prejuízo no funcionamento
“Por uma quantidade significativa de tempo desde o início da perturbação, o nível de funcionamento em uma ou mais áreas importantes (como trabalho, relações interpessoais ou autocuidado) está acentuadamente abaixo do nível alcançado antes do início.”
Na prática: A pessoa não consegue mais fazer coisas que fazia antes, como:
– Trabalho/estudo: Ser demitido porque não consegue mais cumprir tarefas, ou abandonar a faculdade porque não consegue se concentrar.
– Relações: Se isolar dos amigos e familiares, ou ter brigas constantes por causa dos delírios ou da irritabilidade.
– Autocuidado: Parar de tomar banho, escovar os dentes ou se alimentar direito.
Critério C: Duração mínima de 6 meses
“Sinais contínuos da perturbação persistem por pelo menos 6 meses. Esse período de 6 meses deve incluir pelo menos 1 mês de sintomas que atendem ao Critério A (ou menos, se tratados com sucesso) e pode incluir períodos de sintomas prodrômicos ou residuais.”
Na prática:
– Os sintomas ativos (delírios, alucinações, etc.) precisam durar pelo menos 1 mês.
– Mas a pessoa pode ter sinais mais leves (como isolamento, dificuldade de concentração ou desconfiança) por 6 meses ou mais antes ou depois desse período.
– Por exemplo: Nos últimos 6 meses, a pessoa teve 1 mês de alucinações intensas, mas antes disso já vinha se isolando e tendo dificuldade para trabalhar.
Critério D: Exclusão de outros transtornos
“O transtorno esquizoafetivo e o transtorno depressivo ou bipolar com características psicóticas foram descartados porque:
1. Nenhum episódio depressivo maior ou maníaco ocorreu concomitantemente aos sintomas da fase ativa; ou
2. Se episódios de humor ocorreram durante os sintomas da fase ativa, sua duração total foi breve em relação à duração dos períodos ativo e residual.”
Na prática:
– Se a pessoa tem apenas sintomas psicóticos (delírios, alucinações) sem episódios de depressão ou mania, é esquizofrenia.
– Se ela tem sintomas psicóticos + episódios de depressão ou mania, pode ser transtorno esquizoafetivo (falaremos dele mais adiante).
– Por exemplo: Se a pessoa ouve vozes e passa semanas sem sair da cama por depressão, pode ser transtorno esquizoafetivo, não esquizofrenia.
Critério E: Exclusão de substâncias ou condições médicas
“A perturbação não pode ser atribuída aos efeitos fisiológicos de uma substância (p. ex., droga de abuso, medicamento) ou a outra condição médica.”
Na prática:
– O médico precisa descartar que os sintomas sejam causados por:
– Drogas: Cocaína, maconha, LSD, álcool, etc.
– Medicamentos: Corticoides, alguns remédios para Parkinson, etc.
– Doenças: Tumores cerebrais, infecções (como HIV ou sífilis), doenças autoimunes (como lúpus), etc.
– Por exemplo: Se a pessoa começou a ouvir vozes depois de usar um remédio novo, o médico vai investigar se o remédio pode ser a causa.
Critério F: Relação com autismo ou transtorno de comunicação
“Se há história de transtorno do espectro autista ou de um transtorno de comunicação iniciado na infância, o diagnóstico adicional de esquizofrenia é feito somente se delírios ou alucinações proeminentes, além dos outros sintomas exigidos de esquizofrenia, também estiverem presentes por pelo menos 1 mês (ou menos, se tratados com sucesso).”
Na prática:
– Se a pessoa tem autismo, o médico só vai diagnosticar esquizofrenia se ela também tiver delírios ou alucinações claras por pelo menos 1 mês.
– Por exemplo: Uma pessoa autista que já tem dificuldade de comunicação não vai receber diagnóstico de esquizofrenia só por isso. Mas se ela começar a ouvir vozes ou acreditar que está sendo perseguida, o médico pode considerar os dois diagnósticos.
Critérios para “Outro transtorno psicótico primário não especificado” (CID-11: 6A2Z)
Esse diagnóstico é usado quando a pessoa tem sintomas psicóticos, mas não se encaixa perfeitamente em nenhum dos outros transtornos do grupo (como esquizofrenia, transtorno delirante ou transtorno esquizoafetivo).
Na prática:
– A pessoa pode ter delírios ou alucinações, mas:
– Os sintomas duram menos de 1 mês (não é esquizofrenia).
– Não há sintomas negativos ou desorganização significativos.
– Não há episódios de humor (depressão ou mania) junto com os sintomas psicóticos.
– Por exemplo:
– Uma pessoa que acredita que está sendo envenenada (delírio), mas não tem outros sintomas e funciona bem no trabalho.
– Alguém que ouve vozes por algumas semanas, mas depois melhora sem tratamento.
O que pode causar isso?
Se você ou seu familiar receberam esse diagnóstico, é natural se perguntar: “Por que isso aconteceu?”. A verdade é que não existe uma única causa, mas sim uma combinação de fatores que aumentam o risco. Vamos entender cada um deles.
1. Fatores genéticos (hereditariedade)
A esquizofrenia não é como uma doença genética clássica, em que se herda um gene e a doença aparece. É mais como uma predisposição, como a tendência a ter pressão alta ou diabetes.
- Se um gêmeo idêntico tem esquizofrenia, o outro tem 50% de chance de desenvolver também.
- Se um parente de primeiro grau (pai, mãe, irmão) tem esquizofrenia, o risco aumenta para 10% (contra 1% na população geral).
- Se ambos os pais têm esquizofrenia, o risco sobe para 40%.
Analogia:
Imagine que os genes são como um baralho de cartas. Algumas pessoas nascem com cartas que aumentam o risco de desenvolver esquizofrenia, mas não é garantido que vão desenvolver. O ambiente (estresse, traumas, uso de drogas) pode ser como “embaralhar as cartas” e fazer com que a doença apareça.
2. Fatores neurobiológicos (o que acontece no cérebro)
O cérebro de uma pessoa com esquizofrenia funciona de forma um pouco diferente. Alguns dos principais achados são:
Desequilíbrio de neurotransmissores
Os neurotransmissores são como “mensageiros químicos” que ajudam as células do cérebro a se comunicarem. Na esquizofrenia, dois deles estão especialmente envolvidos:
– Dopamina: Está em excesso em algumas áreas do cérebro, o que pode causar delírios e alucinações.
– Glutamato: Está em falta em outras áreas, o que pode causar sintomas negativos e cognitivos.
Analogia:
Pense na dopamina como o volume de um rádio. Se o volume está muito alto, você começa a ouvir coisas que não existem (alucinações) ou acreditar em coisas que não são reais (delírios). Já o glutamato é como o combustível do cérebro. Se está baixo, o cérebro fica “lento”, causando falta de motivação e dificuldade de concentração.
Alterações na estrutura do cérebro
Estudos de imagem mostram que algumas pessoas com esquizofrenia têm:
– Ventrículos cerebrais aumentados (espaços cheios de líquido dentro do cérebro).
– Menor volume em algumas áreas, como o córtex pré-frontal (responsável pelo raciocínio e tomada de decisões) e o hipocampo (responsável pela memória).
– Conexões menos eficientes entre diferentes partes do cérebro.
Analogia:
Imagine o cérebro como uma cidade. Em uma cidade saudável, as ruas (conexões cerebrais) estão bem sinalizadas e o trânsito flui bem. Na esquizofrenia, algumas ruas estão esburacadas, outras estão fechadas, e o trânsito fica confuso.
3. Fatores psicológicos (experiências de vida)
Algumas experiências podem aumentar o risco, especialmente se a pessoa já tem uma predisposição genética.
Traumas na infância
- Abuso físico, emocional ou sexual.
- Negligência (falta de cuidado básico).
- Bullying ou violência familiar.
Exemplo:
Uma criança que cresce em um ambiente violento pode desenvolver uma hipervigilância (estado de alerta constante), que, mais tarde, pode se transformar em delírios de perseguição.
Estresse intenso
- Perda de um ente querido.
- Desemprego ou dificuldades financeiras.
- Mudanças bruscas (como mudar de cidade ou começar uma faculdade).
Exemplo:
Uma pessoa que já tem uma predisposição genética pode desenvolver sintomas psicóticos após um estresse extremo, como a morte de um familiar ou um assalto.
Padrões de pensamento
- Tendência a interpretar eventos de forma negativa (por exemplo, achar que um olhar estranho significa que alguém está contra você).
- Dificuldade para distinguir pensamentos de realidade (por exemplo, achar que um pensamento ruim pode se tornar real).
4. Fatores ambientais e sociais
Uso de drogas
Algumas drogas podem desencadear sintomas psicóticos em pessoas predispostas, especialmente:
– Maconha: Aumenta o risco em 40% se usada na adolescência.
– Cocaína, LSD e anfetaminas: Podem causar alucinações e delírios temporários, mas em pessoas predispostas, podem desencadear um episódio psicótico duradouro.
– Álcool: O uso excessivo pode piorar sintomas ou causar psicose alcoólica.
Importante:
– Não é toda pessoa que usa drogas que vai desenvolver esquizofrenia, mas o uso aumenta o risco, especialmente em quem já tem predisposição.
– Parar de usar drogas não “cura” a esquizofrenia, mas pode ajudar no tratamento.
Isolamento social
- Viver sozinho ou ter poucas interações sociais pode piorar os sintomas.
- Pessoas que migram para outros países (imigrantes) têm um risco maior, possivelmente por causa do estresse e da dificuldade de adaptação.
Condições de vida precárias
- Pobreza, falta de acesso a saúde e moradia inadequada podem piorar o curso da doença.
5. Fatores de proteção (o que diminui o risco)
Nem tudo é risco! Alguns fatores podem proteger contra o desenvolvimento da esquizofrenia ou ajudar no tratamento:
– Rede de apoio forte: Ter amigos e familiares que oferecem suporte emocional.
– Estilo de vida saudável: Exercícios físicos, alimentação balanceada e sono regular.
– Acesso a tratamento precoce: Quanto antes a pessoa receber ajuda, melhor o prognóstico.
– Habilidades de enfrentamento: Aprender a lidar com o estresse de forma saudável.
Mitos comuns (e a verdade por trás deles)
❌ “Esquizofrenia é a mesma coisa que dupla personalidade.”
✅ Não! A “dupla personalidade” é um nome popular para o transtorno dissociativo de identidade, que é completamente diferente. Na esquizofrenia, a pessoa não “troca” de personalidade, mas pode ter dificuldade para distinguir a realidade.
❌ “Pessoas com esquizofrenia são violentas e perigosas.”
✅ Falso. A grande maioria das pessoas com esquizofrenia não é violenta. Na verdade, elas têm mais chances de serem vítimas de violência do que de cometê-la. A violência só acontece em casos raros, geralmente quando a pessoa não está em tratamento ou está sob efeito de drogas.
❌ “Esquizofrenia é causada por má criação ou trauma emocional.”
✅ Não é bem assim. Traumas podem aumentar o risco, mas não são a causa única. A esquizofrenia é uma condição biológica, com alterações no cérebro. Muitas pessoas com esquizofrenia tiveram infâncias felizes.
❌ “Quem tem esquizofrenia não pode trabalhar, estudar ou ter uma vida normal.”
✅ Falso! Com tratamento adequado, muitas pessoas com esquizofrenia trabalham, estudam, têm relacionamentos e levam uma vida plena. O tratamento ajuda a controlar os sintomas e a recuperar a qualidade de vida.
❌ “Esquizofrenia não tem tratamento.”
✅ Tem sim! Embora não tenha cura, os sintomas podem ser controlados com medicamentos, terapia e mudanças no estilo de vida. Muitas pessoas conseguem viver bem com a condição.
Como é feito o diagnóstico?
Receber um diagnóstico de esquizofrenia ou outro transtorno psicótico pode ser assustador, mas entender como esse diagnóstico é feito pode ajudar a diminuir a ansiedade. Não existe um exame de sangue ou de imagem que confirme a esquizofrenia — o diagnóstico é clínico, ou seja, baseado em uma avaliação detalhada feita por um profissional de saúde mental.
Vamos entender passo a passo como funciona esse processo.
1. Não existe um “exame” para esquizofrenia
Ao contrário de doenças como diabetes (que pode ser diagnosticada com um exame de glicemia) ou anemia (com um hemograma), a esquizofrenia não tem um exame específico. Isso acontece porque:
– Os sintomas são subjetivos (como ouvir vozes ou acreditar em delírios).
– Não há alterações específicas no cérebro que apareçam em todos os casos (as mudanças vistas em exames de imagem variam de pessoa para pessoa).
Por isso, o diagnóstico é feito com base em:
– Entrevistas clínicas (conversas com o médico ou psicólogo).
– Observação do comportamento.
– Relatos de familiares.
– Exclusão de outras condições (como doenças neurológicas ou uso de drogas).
2. Passo a passo de uma avaliação típica
Primeira consulta: Entrevista clínica
O médico (geralmente um psiquiatra) vai fazer uma conversa detalhada para entender:
– Quais são os sintomas? (O que a pessoa está sentindo, ouvindo, acreditando?)
– Há quanto tempo eles existem? (Dias, semanas, meses?)
– Como eles afetam a vida diária? (Trabalho, estudo, relacionamentos?)
– Há histórico familiar de transtornos mentais?
– A pessoa usa drogas ou álcool?
– Há outras doenças clínicas? (Problemas de tireoide, infecções, etc.)
Exemplo de perguntas que o médico pode fazer:
– “Você já ouviu vozes que outras pessoas não ouvem?”
– “Você acredita que alguém está tentando te prejudicar?”
– “Como está o seu sono? E o seu apetite?”
– “Você já teve períodos de muita energia ou euforia?” (para descartar transtorno bipolar)
Segunda etapa: Entrevista com familiares
Os familiares são peças-chave no diagnóstico, porque muitas vezes a pessoa com sintomas psicóticos:
– Não percebe que algo está errado (falta de insight).
– Não consegue descrever bem o que está sentindo.
– Esconde os sintomas por medo ou vergonha.
O médico pode perguntar aos familiares:
– “Vocês notaram mudanças no comportamento nos últimos meses?”
– “Ele(a) tem falado coisas que não fazem sentido?”
– “Ele(a) tem se isolado ou parado de fazer coisas que gostava?”
– “Vocês já viram ele(a) respondendo a vozes ou olhando para o nada?”
Terceira etapa: Testes e escalas padronizadas
O médico pode usar questionários ou escalas para avaliar a gravidade dos sintomas. Alguns exemplos:
– Escala PANSS (Positive and Negative Syndrome Scale): Avalia sintomas positivos, negativos e cognitivos.
– Escala de Avaliação de Sintomas Psicóticos (BPRS): Mede a gravidade dos sintomas.
– Testes neuropsicológicos: Avaliam memória, atenção e raciocínio.
Exemplo de pergunta da PANSS:
“Nos últimos 7 dias, com que frequência você ouviu vozes que os outros não ouviam?”
(Respostas variam de “nunca” a “o tempo todo”)
Quarta etapa: Exames complementares
Embora não exista um exame para esquizofrenia, o médico pode pedir alguns exames para descartar outras condições que podem causar sintomas psicóticos, como:
– Exames de sangue:
– Hemograma (para descartar anemia ou infecções).
– Dosagem de hormônios da tireoide (hipotireoidismo pode causar sintomas psicóticos).
– Sorologia para sífilis e HIV (essas infecções podem afetar o cérebro).
– Exames de imagem:
– Tomografia ou ressonância magnética do cérebro: Para descartar tumores, AVC ou outras lesões.
– Eletroencefalograma (EEG): Para descartar epilepsia ou outras alterações elétricas no cérebro.
– Teste de drogas: Para verificar se os sintomas são causados por substâncias.
Quinta etapa: Diagnóstico diferencial
O médico vai comparar os sintomas com os de outras condições que podem se parecer com esquizofrenia. Vamos falar mais sobre isso na seção “Condições parecidas”, mas alguns exemplos são:
– Transtorno bipolar com sintomas psicóticos.
– Depressão psicótica.
– Transtorno esquizoafetivo.
– Transtorno delirante.
– Psicose induzida por drogas.
– Doenças neurológicas (como epilepsia do lobo temporal).
3. Quanto tempo leva o diagnóstico?
O diagnóstico de esquizofrenia não é feito em uma única consulta. O médico precisa:
– Observar a pessoa por um tempo (geralmente semanas ou meses).
– Confirmar que os sintomas duram pelo menos 1 mês (para esquizofrenia) ou 6 meses (para confirmar o prejuízo no funcionamento).
– Descartar outras causas (doenças, drogas, etc.).
Por isso, é comum que o diagnóstico seja provisório no início e depois confirmado ou ajustado.
4. Quem pode diagnosticar?
No Brasil, os profissionais que podem diagnosticar esquizofrenia são:
– Psiquiatra: Médico especializado em saúde mental. É o profissional mais indicado para fazer o diagnóstico e prescrever medicamentos.
– Neurologista: Pode diagnosticar em alguns casos, especialmente se houver suspeita de doenças neurológicas.
– Psicólogo: Pode identificar sintomas e encaminhar para um psiquiatra, mas não pode prescrever medicamentos.
Importante:
– Evite diagnósticos feitos pela internet ou por pessoas sem formação. Muitos sintomas podem ser confundidos com outras condições.
– Se você desconfia que tem esquizofrenia, procure um psiquiatra. Quanto antes o diagnóstico for feito, melhor o tratamento.
5. Como buscar diagnóstico no Brasil
Pelo SUS (Sistema Único de Saúde)
O SUS oferece atendimento gratuito para saúde mental. O caminho geralmente é:
1. Procure uma UBS (Unidade Básica de Saúde): O médico da família pode fazer uma avaliação inicial e encaminhar para um especialista.
2. Encaminhamento para um CAPS (Centro de Atenção Psicossocial):
– CAPS I, II ou III: Para adultos.
– CAPSi: Para crianças e adolescentes.
– CAPS AD: Para pessoas com problemas com álcool e drogas.
3. Avaliação com psiquiatra: No CAPS, você será atendido por uma equipe multidisciplinar (psiquiatra, psicólogo, assistente social, etc.).
4. Tratamento: O CAPS oferece acompanhamento contínuo, grupos terapêuticos e, em alguns casos, medicação gratuita.
Dica:
– Se você ou seu familiar estiverem em crise (com sintomas graves, como alucinações intensas ou risco de autoagressão), procure um CAPS 24 horas ou uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento).
Particular ou por convênio
Se você tem plano de saúde ou pode pagar por uma consulta particular:
1. Procure um psiquiatra: Peça indicações a amigos, familiares ou ao seu médico de confiança.
2. Verifique a formação do profissional: Dê preferência a psiquiatras com experiência em transtornos psicóticos.
3. Primeira consulta: Leve um diário de sintomas (anote quando os sintomas aparecem, o que os desencadeia e como eles afetam sua vida).
4. Avaliação: O psiquiatra fará uma entrevista detalhada e poderá pedir exames.
Dica:
– Se você não tem condições de pagar uma consulta particular, algumas universidades oferecem atendimento gratuito ou de baixo custo em clínicas-escola de psicologia ou psiquiatria.
Condições parecidas (diagnóstico diferencial)
Muitos sintomas da esquizofrenia podem ser confundidos com os de outras condições. O médico precisa fazer um diagnóstico diferencial, ou seja, descartar outras possibilidades antes de confirmar a esquizofrenia. Vamos entender as principais condições que podem ser confundidas e como diferenciá-las.
1. Transtorno bipolar com sintomas psicóticos
Por que são confundidos?
– No transtorno bipolar, a pessoa tem episódios de mania (euforia, agitação, falta de sono) e episódios de depressão.
– Durante a mania, ela pode ter delírios de grandeza (acreditar que é famosa ou tem poderes).
– Durante a depressão, pode ter delírios de culpa (acreditar que é responsável por coisas ruins que aconteceram).
Diferença-chave:
– Na esquizofrenia, os sintomas psicóticos (delírios, alucinações) acontecem mesmo quando a pessoa não está em mania ou depressão.
– No transtorno bipolar, os sintomas psicóticos só aparecem durante os episódios de humor (mania ou depressão).
Exemplo:
– Esquizofrenia: A pessoa ouve vozes e acredita que está sendo perseguida o tempo todo, mesmo quando está estável.
– Transtorno bipolar: A pessoa só ouve vozes durante um episódio de mania ou depressão. Quando o episódio passa, os sintomas psicóticos desaparecem.
2. Transtorno esquizoafetivo
Por que são confundidos?
– O transtorno esquizoafetivo tem sintomas de esquizofrenia (delírios, alucinações) e sintomas de transtorno de humor (depressão ou mania).
– A diferença é que, no transtorno esquizoafetivo, os sintomas de humor (depressão ou mania) duram a maior parte do tempo, enquanto na esquizofrenia eles são breves ou não existem.
Diferença-chave:
– Esquizofrenia: Sintomas psicóticos sem episódios longos de humor.
– Transtorno esquizoafetivo: Sintomas psicóticos com episódios longos de depressão ou mania.
Exemplo:
– Esquizofrenia: A pessoa ouve vozes e acredita que está sendo espionada, mas não tem episódios de depressão ou mania.
– Transtorno esquizoafetivo: A pessoa ouve vozes e passa semanas sem sair da cama por depressão, ou tem períodos de euforia e agitação.
3. Depressão psicótica
Por que são confundidos?
– Na depressão psicótica, a pessoa tem depressão grave (tristeza profunda, falta de energia, pensamentos de morte) junto com delírios ou alucinações.
– Os delírios costumam ser congruentes com o humor, ou seja, estão relacionados à tristeza. Por exemplo:
– “Sou um fracasso e mereço morrer” (delírio de culpa).
– “Meu corpo está apodrecendo por dentro” (delírio somático).
Diferença-chave:
– Na esquizofrenia, os delírios e alucinações não estão necessariamente ligados a um humor depressivo.
– Na depressão psicótica, os sintomas psicóticos só aparecem durante a depressão e desaparecem quando a depressão melhora.
Exemplo:
– Esquizofrenia: A pessoa acredita que está sendo perseguida pela CIA mesmo quando não está deprimida.
– Depressão psicótica: A pessoa acredita que é culpada pela morte de alguém apenas durante um episódio depressivo.
4. Transtorno delirante
Por que são confundidos?
– No transtorno delirante, a pessoa tem delírios (crenças falsas e inflexíveis), mas não tem alucinações, sintomas negativos ou desorganização.
– Os delírios costumam ser plausíveis, ou seja, poderiam acontecer na vida real (ao contrário dos delírios da esquizofrenia, que costumam ser bizarros).
Diferença-chave:
– Esquizofrenia: Delírios bizarros (como acreditar que é um alienígena) + alucinações + sintomas negativos.
– Transtorno delirante: Delírios não bizarros (como acreditar que o vizinho está envenenando sua comida) sem outros sintomas.
Exemplo:
– Esquizofrenia: “Sou o rei do universo e os marcianos estão me controlando.”
– Transtorno delirante: “Meu marido está me traindo, mesmo sem nenhuma prova.”
5. Psicose induzida por substâncias
Por que são confundidos?
– Algumas drogas (como maconha, cocaína, LSD, álcool e até alguns medicamentos) podem causar sintomas psicóticos (delírios, alucinações).
– Se a pessoa parar de usar a substância, os sintomas podem desaparecer.
Diferença-chave:
– Na esquizofrenia, os sintomas persistem mesmo depois que a pessoa para de usar drogas.
– Na psicose induzida por substâncias, os sintomas melhoram quando a substância sai do organismo.
Exemplo:
– Esquizofrenia: A pessoa continua ouvindo vozes meses depois de parar de usar maconha.
– Psicose por drogas: A pessoa para de ouvir vozes alguns dias depois de parar de usar cocaína.
Importante:
– Se a pessoa já tinha sintomas psicóticos antes de usar drogas, é mais provável que seja esquizofrenia.
– Se os sintomas começaram depois do uso de drogas, pode ser psicose induzida.
6. Doenças neurológicas
Algumas doenças do cérebro podem causar sintomas psicóticos, como:
– Epilepsia do lobo temporal: Pode causar alucinações e delírios.
– Tumores cerebrais: Dependendo da localização, podem causar sintomas psicóticos.
– Doenças autoimunes: Como lúpus ou encefalite anti-NMDA (que causa sintomas psicóticos graves).
– Doenças neurodegenerativas: Como Alzheimer ou doença de Huntington.
Diferença-chave:
– Na esquizofrenia, não há alterações estruturais no cérebro (como tumores ou lesões).
– Nas doenças neurológicas, os exames de imagem (tomografia, ressonância) mostram alterações.
Exemplo:
– Esquizofrenia: Ressonância magnética normal.
– Tumor cerebral: Ressonância mostra uma massa no cérebro.
7. Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT)
Por que são confundidos?
– No TEPT, a pessoa pode ter flashbacks (reviver o trauma como se estivesse acontecendo de novo) e pesadelos.
– Em casos graves, pode ter alucinações (ouvir vozes relacionadas ao trauma) ou delírios (acreditar que o trauma vai se repetir).
Diferença-chave:
– Na esquizofrenia, os sintomas psicóticos não estão necessariamente ligados a um trauma.
– No TEPT, os sintomas psicóticos só aparecem em relação ao trauma (por exemplo, ouvir a voz do agressor).
Exemplo:
– Esquizofrenia: A pessoa ouve vozes que não têm relação com nenhum trauma.
– TEPT: A pessoa ouve a voz do agressor que a violentou.
8. Transtorno do espectro autista (TEA)
Por que são confundidos?
– Algumas pessoas com autismo podem ter dificuldade de comunicação e comportamentos repetitivos, que podem ser confundidos com sintomas de esquizofrenia.
– Além disso, pessoas com autismo têm maior risco de desenvolver esquizofrenia na vida adulta.
Diferença-chave:
– No autismo, os sintomas começam na infância (antes dos 3 anos) e envolvem dificuldade de interação social e comunicação.
– Na esquizofrenia, os sintomas começam na adolescência ou vida adulta e envolvem delírios e alucinações.
Exemplo:
– Autismo: A criança tem dificuldade para fazer amigos e repete frases de desenhos animados.
– Esquizofrenia: O adolescente começa a ouvir vozes e acreditar que está sendo perseguido.
Tratamento
Receber o diagnóstico de esquizofrenia ou outro transtorno psicótico pode ser um baque. Muitas pessoas se perguntam: “E agora? Como vou viver com isso?”. A boa notícia é que existem tratamentos eficazes que ajudam a controlar os sintomas e melhorar a qualidade de vida. O tratamento geralmente envolve uma combinação de medicamentos, psicoterapia e mudanças no estilo de vida.
Vamos entender cada parte do tratamento em detalhes.
Medicamentos
Os medicamentos são a base do tratamento para esquizofrenia e outros transtornos psicóticos. Eles ajudam a reduzir os sintomas, especialmente os positivos (delírios e alucinações), e a prevenir recaídas. Existem diferentes tipos de medicamentos, e o psiquiatra vai escolher o mais adequado para cada caso.
Importante:
– Nenhum medicamento “cura” a esquizofrenia, mas eles ajudam a controlar os sintomas e a melhorar a qualidade de vida.
– Não pare de tomar o medicamento por conta própria, mesmo que esteja se sentindo melhor. Isso pode causar uma recaída.
– Os efeitos colaterais podem ser manejados com ajustes na dose ou troca de medicamento.
1. Antipsicóticos (ou neurolépticos)
São os medicamentos mais usados no tratamento da esquizofrenia. Eles agem principalmente na dopamina, um neurotransmissor que está em excesso em algumas áreas do cérebro.
Antipsicóticos típicos (ou de primeira geração)
São os mais antigos e costumam ter mais efeitos colaterais, especialmente movimentos involuntários (como tremores ou rigidez).
Exemplos:
– Haloperidol (Haldol).
– Clorpromazina (Amplictil).
– Flufenazina (Flufenan).
Como funcionam:
Eles bloqueiam os receptores de dopamina no cérebro, reduzindo delírios e alucinações.
Efeitos colaterais comuns:
– Sintomas extrapiramidais: Tremores, rigidez muscular, movimentos involuntários (como mexer a boca sem querer).
– Sedação: Sonolência excessiva.
– Ganho de peso.
– Boca seca.
– Constipação.
Como lidar com os efeitos colaterais:
– Tremores e rigidez: O médico pode prescrever um medicamento chamado biperideno para aliviar esses sintomas.
– Sedação: Tomar o medicamento à noite pode ajudar a dormir melhor.
– Ganho de peso: Fazer exercícios e ter uma alimentação equilibrada.
Antipsicóticos atípicos (ou de segunda geração)
São mais modernos e costumam ter menos efeitos colaterais motores, mas podem causar ganho de peso e problemas metabólicos.
Exemplos:
– Risperidona (Risperdal).
– Olanzapina (Zyprexa).
– Quetiapina (Seroquel).
– Aripiprazol (Abilify).
– Clozapina (Leponex) — usado em casos resistentes.
Como funcionam:
Eles bloqueiam a dopamina e a serotonina, o que ajuda a reduzir delírios, alucinações e também alguns sintomas negativos.
Efeitos colaterais comuns:
– Ganho de peso (especialmente com olanzapina e clozapina).
– Aumento do açúcar no sangue (risco de diabetes).
– Aumento do colesterol.
– Sedação.
– Tontura.
– Boca seca.
Como lidar com os efeitos colaterais:
– Ganho de peso e diabetes: Fazer exames de sangue regulares e ter uma alimentação saudável.
– Sedação: Tomar o medicamento à noite.
– Tontura: Levantar devagar da cama ou da cadeira.
Dica:
– A clozapina é o medicamento mais eficaz para casos resistentes (quando outros antipsicóticos não funcionam), mas requer monitoramento frequente com exames de sangue, porque pode causar uma queda perigosa nos glóbulos brancos.
2. Estabilizadores de humor
São usados quando a pessoa tem sintomas de humor (como depressão ou mania) junto com os sintomas psicóticos. São comuns no transtorno esquizoafetivo.
Exemplos:
– Lítio.
– Ácido valproico (Depakote).
– Carbamazepina (Tegretol).
Como funcionam:
Eles ajudam a estabilizar o humor e prevenir episódios de depressão ou mania.
Efeitos colaterais comuns:
– Tremores.
– Ganho de peso.
– Sede excessiva.
– Problemas renais ou tireoidianos (com lítio).
Como lidar com os efeitos colaterais:
– Lítio: Beber bastante água e fazer exames de sangue regulares para monitorar os níveis do medicamento.
– Ácido valproico: Fazer exames de fígado.
3. Antidepressivos
São usados quando a pessoa tem sintomas de depressão junto com os sintomas psicóticos.
Exemplos:
– Fluoxetina (Prozac).
– Sertralina (Zoloft).
– Escitalopram (Lexapro).
Como funcionam:
Eles aumentam a serotonina no cérebro, melhorando o humor e a motivação.
Efeitos colaterais comuns:
– Náusea.
– Dor de cabeça.
– Insônia ou sonolência.
– Diminuição do desejo sexual.
Como lidar com os efeitos colaterais:
– Náusea: Tomar o medicamento com comida.
– Insônia: Tomar o medicamento pela manhã.
4. Benzodiazepínicos
São usados por curtos períodos para aliviar ansiedade, agitação ou insônia.
Exemplos:
– Diazepam (Valium).
– Clonazepam (Rivotril).
– Lorazepam (Lorax).
Como funcionam:
Eles aumentam o efeito do GABA, um neurotransmissor que acalma o cérebro.
Efeitos colaterais comuns:
– Sonolência.
– Dependência (por isso são usados por pouco tempo).
– Tontura.
– Dificuldade de memória.
Como lidar com os efeitos colaterais:
– Sonolência: Evitar dirigir ou operar máquinas.
– Dependência: Usar apenas pelo tempo prescrito pelo médico.
Psicoterapia
Os medicamentos ajudam a controlar os sintomas, mas a psicoterapia é fundamental para:
– Aprender a lidar com os sintomas no dia a dia.
– Melhorar a autoestima e a motivação.
– Recuperar habilidades sociais e profissionais.
– Prevenir recaídas.
Nem todas as abordagens de terapia são eficazes para esquizofrenia. As que têm mais evidência científica são:
1. Terapia Cognitivo-Comportamental para Psicose (TCCp)
É uma adaptação da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) para pessoas com sintomas psicóticos.
Como funciona:
– A terapia ajuda a pessoa a identificar e questionar pensamentos distorcidos (como delírios).
– Ensina estratégias para lidar com alucinações (por exemplo, ignorar as vozes ou responder a elas de forma racional).
– Ajuda a melhorar a autoestima e a reduzir a ansiedade.
Exemplo de técnica:
– Questionamento socrático: O terapeuta faz perguntas para ajudar a pessoa a avaliar se seus delírios fazem sentido. Por exemplo:
– “Quais são as evidências de que você está sendo perseguido?”
– “Existe outra explicação possível para o que está acontecendo?”
Duração:
– Geralmente 12 a 24 sessões, mas pode ser mais longo dependendo da necessidade.
2. Treinamento de Habilidades Sociais
Muitas pessoas com esquizofrenia têm dificuldade para se comunicar e interagir com os outros, o que pode levar ao isolamento.
Como funciona:
– A terapia ensina habilidades práticas, como:
– Iniciar e manter uma conversa.
– Expressar emoções de forma adequada.
– Lidar com críticas ou conflitos.
– Pode ser feita individualmente ou em grupo.
Exemplo de atividade:
– Role-playing: O terapeuta simula uma situação social (como uma entrevista de emprego) e a pessoa pratica como agir.
Duração:
– Pode ser contínuo, dependendo das necessidades da pessoa.
3. Psicoeducação
É uma abordagem que ensina a pessoa e sua família sobre a esquizofrenia, o tratamento e como lidar com os sintomas.
Como funciona:
– Explica o que é a esquizofrenia e como ela afeta o cérebro.
– Ensina a identificar sinais de recaída.
– Orienta sobre como ajudar um familiar com esquizofrenia.
– Pode ser feita individualmente ou em grupo.
Exemplo de tema:
– “Como lidar com alucinações: estratégias práticas”.
– “A importância da medicação: por que não parar de tomar?”.
Duração:
– Geralmente 4 a 8 sessões, mas pode ser mais longo.
4. Terapia Familiar
A família é uma peça-chave no tratamento da esquizofrenia. A terapia familiar ajuda a:
– Melhorar a comunicação entre a pessoa e seus familiares.
– Reduzir o estresse em casa.
– Ensinar estratégias para lidar com os sintomas.
Como funciona:
– O terapeuta trabalha com a família para identificar padrões de comunicação que podem piorar os sintomas.
– Ensina como oferecer apoio sem sobrecarregar a pessoa.
Exemplo de tema:
– “Como responder quando seu familiar diz que está sendo perseguido?”.
– “Como lidar com a falta de motivação?”.
Duração:
– Pode ser contínua, dependendo das necessidades da família.
Mudanças no dia a dia
Além dos medicamentos e da terapia, algumas mudanças no estilo de vida podem ajudar a controlar os sintomas e melhorar a qualidade de vida. Vamos ver algumas delas.
1. Exercício físico
Por que ajuda?
– Reduz o estresse e a ansiedade.
– Melhora o humor (libera endorfinas, que são “hormônios da felicidade”).
– Ajuda a controlar o peso (muitos antipsicóticos causam ganho de peso).
– Melhora a cognição (memória, atenção).
Quais exercícios são melhores?
– Caminhada, corrida ou ciclismo: São fáceis de fazer e não exigem equipamentos caros.
– Yoga ou tai chi: Ajudam a reduzir o estresse e melhorar a concentração.
– Musculação: Ajuda a melhorar a autoestima e a força física.
Dica:
– Comece com 30 minutos por dia, 3 vezes por semana, e aumente aos poucos.
– Escolha uma atividade que você goste, para não desistir.
2. Sono
Por que é importante?
– A falta de sono pode piorar os sintomas psicóticos e a irritabilidade.
– Muitos medicamentos causam sonolência ou insônia.
Dicas para uma boa noite de sono:
– Tenha uma rotina: Tente dormir e acordar no mesmo horário todos os dias.
– Evite telas antes de dormir: A luz do celular ou da TV pode atrapalhar o sono.
– Faça atividades relaxantes antes de dormir: Ler, ouvir música calma ou meditar.
– Evite cafeína à noite: Café, chá preto e refrigerantes podem deixar você acordado.
– Mantenha o quarto escuro e silencioso.
3. Alimentação
Por que é importante?
– Alguns medicamentos causam ganho de peso e aumento do açúcar no sangue.
– Uma alimentação equilibrada ajuda a controlar esses efeitos colaterais e a melhorar o humor.
Dicas:
– Coma mais:
– Frutas, verduras e legumes.
– Grãos integrais (arroz integral, aveia).
– Proteínas magras (frango, peixe, ovos).
– Gorduras boas (abacate, azeite, nozes).
– Evite:
– Açúcar refinado (doces, refrigerantes).
– Alimentos ultraprocessados (salsicha, salgadinhos).
– Excesso de sal.
Dica:
– Beba bastante água, pois alguns medicamentos causam boca seca.
4. Rotina
Por que é importante?
– A esquizofrenia pode causar desorganização do pensamento e falta de motivação.
– Ter uma rotina estruturada ajuda a:
– Manter o foco.
– Reduzir a ansiedade.
– Melhorar a produtividade.
Como criar uma rotina:
– Defina horários fixos para acordar, comer, trabalhar/estudar e dormir.
– Faça uma lista de tarefas para o dia, começando pelas mais importantes.
– Inclua atividades prazerosas, como hobbies ou tempo com amigos.
– Use alarmes ou lembretes no celular para não esquecer compromissos.
Exemplo de rotina:
| Horário | Atividade |
|—————|——————————-|
| 7:00 | Acordar e tomar café da manhã |
| 8:00 – 12:00 | Trabalhar/estudar |
| 12:00 – 13:00 | Almoçar |
| 13:00 – 14:00 | Descansar |
| 14:00 – 16:00 | Exercício físico |
| 16:00 – 18:00 | Tempo livre (hobby, amigos) |
| 18:00 – 19:00 | Jantar |
| 19:00 – 21:00 | Assistir TV ou ler |
| 21:00 – 22:00 | Preparar-se para dormir |
| 22:00 | Dormir |
5. Rede de apoio
Por que é importante?
– A esquizofrenia pode causar isolamento social, o que piora os sintomas.
– Ter uma rede de apoio (amigos, familiares, grupos de apoio) ajuda a:
– Sentir-se compreendido.
– Reduzir a solidão.
– Ter ajuda em momentos de crise.
Como construir uma rede de apoio:
– Converse com amigos e familiares sobre o que você está passando.
– Participe de grupos de apoio para pessoas com esquizofrenia (existem grupos presenciais e online).
– Procure atividades em grupo, como cursos, voluntariado ou esportes.
– Use a tecnologia para se conectar com outras pessoas (redes sociais, fóruns).
Dica:
– Não tenha vergonha de pedir ajuda. Muitas pessoas querem ajudar, mas não sabem como.
6. Técnicas de manejo de sintomas
Algumas estratégias práticas podem ajudar a lidar com os sintomas no dia a dia.
Para alucinações:
– Ignore as vozes: Tente não dar atenção a elas. Lembre-se de que são sintomas, não realidade.
– Distraia-se: Ouça música, converse com alguém ou faça uma atividade que exija concentração.
– Responda de forma racional: Se as vozes disserem algo negativo, responda mentalmente: “Isso não é real, é só um sintoma”.
Para delírios:
– Questione o delírio: Pergunte a si mesmo: “Quais são as evidências de que isso é verdade?”.
– Busque uma segunda opinião: Converse com alguém de confiança sobre o que está pensando.
– Anote os pensamentos: Escrever pode ajudar a organizar as ideias e ver que o delírio não faz sentido.
Para falta de motivação:
– Comece com pequenas metas: Em vez de pensar “Preciso arrumar a casa toda”, comece com “Vou arrumar só a mesa”.
– Use lembretes: Anote suas tarefas em um papel ou no celular.
– Peça ajuda: Se não conseguir fazer algo sozinho, peça a um familiar ou amigo para ajudar.
7. Tecnologia assistiva
Alguns apps e ferramentas podem ajudar a gerenciar os sintomas e melhorar a qualidade de vida.
Exemplos:
– Apps de meditação: Como Headspace ou Calm, para reduzir o estresse.
– Apps de organização: Como Google Keep ou Trello, para lembrar de tarefas e compromissos.
– Apps de sono: Como Sleep Cycle, para monitorar o sono.
– Apps de saúde mental: Como MoodTools (para depressão) ou eMoods (para transtorno bipolar), que podem ser adaptados para esquizofrenia.
Convivendo com o diagnóstico
Receber o diagnóstico de esquizofrenia ou outro transtorno psicótico pode ser um momento de muitas emoções: medo, alívio (por finalmente ter uma explicação), raiva, tristeza ou até negação. Todas essas reações são normais. O importante é lembrar que você não está sozinho e que, com o tempo, é possível aprender a conviver com a condição e levar uma vida plena.
Vamos falar sobre como lidar com o diagnóstico, tanto para a pessoa que recebeu o diagnóstico quanto para familiares e amigos.
Para a pessoa com o diagnóstico
1. Permita-se sentir
É normal sentir medo, tristeza ou raiva ao receber o diagnóstico. Não tente “ser forte” o tempo todo. Permita-se sentir essas emoções e converse sobre elas com alguém de confiança.
Dica:
– Escreva em um diário sobre o que está sentindo.
– Converse com um terapeuta sobre suas emoções.
2. Aprenda sobre a condição
Quanto mais você souber sobre a esquizofrenia, menos assustadora ela será. Leia livros, assista a vídeos e converse com seu médico sobre o que está acontecendo.
Dica:
– Evite fontes não confiáveis, como fóruns anônimos ou sites sem embasamento científico.
– Procure informações em fontes sérias, como:
– Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).
– Organização Mundial da Saúde (OMS).
– Livros escritos por psiquiatras ou psicólogos.
3. Siga o tratamento
Os medicamentos e a terapia são fundamentais para controlar os sintomas. Pode ser difícil no começo, especialmente por causa dos efeitos colaterais, mas não desista.
Dicas:
– Tome os medicamentos nos horários certos. Use alarmes no celular para não esquecer.
– Converse com seu médico se os efeitos colaterais estiverem muito incômodos. Ele pode ajustar a dose ou trocar o medicamento.
– Não pare de tomar os medicamentos por conta própria, mesmo que esteja se sentindo melhor. Isso pode causar uma recaída.
4. Estabeleça uma rotina
Uma rotina estruturada ajuda a manter o foco, reduzir a ansiedade e melhorar a produtividade.
Dicas:
– Defina horários fixos para acordar, comer, trabalhar/estudar e dormir.
– Faça uma lista de tarefas para o dia, começando pelas mais importantes.
– Inclua atividades prazerosas, como hobbies ou tempo com amigos.
5. Cuide da sua saúde física
A esquizofrenia não afeta só a mente, mas também o corpo. Cuidar da saúde física ajuda a melhorar o humor e a energia.
Dicas:
– Faça exercícios físicos regularmente (caminhada, yoga, musculação).
– Tenha uma alimentação equilibrada (frutas, verduras, proteínas magras).
– Durma bem (tente dormir e acordar no mesmo horário todos os dias).
– Evite álcool e drogas, pois podem piorar os sintomas.
6. Construa uma rede de apoio
Ter pessoas com quem contar faz toda a diferença. Não tenha vergonha de pedir ajuda.
Dicas:
– Converse com amigos e familiares sobre o que você está passando.
– Participe de grupos de apoio para pessoas com esquizofrenia (existem grupos presenciais e online).
– Procure atividades em grupo, como cursos, voluntariado ou esportes.
7. Aprenda a lidar com os sintomas
Algumas estratégias práticas podem ajudar a lidar com os sintomas no dia a dia.
Para alucinações:
– Ignore as vozes: Tente não dar atenção a elas. Lembre-se de que são sintomas, não realidade.
– Distraia-se: Ouça música, converse com alguém ou faça uma atividade que exija concentração.
– Responda de forma racional: Se as vozes disserem algo negativo, responda mentalmente: “Isso não é real, é só um sintoma”.
Para delírios:
– Questione o delírio: Pergunte a si mesmo: “Quais são as evidências de que isso é verdade?”.
– Busque uma segunda opinião: Converse com alguém de confiança sobre o que está pensando.
– Anote os pensamentos: Escrever pode ajudar a organizar as ideias e ver que o delírio não faz sentido.
Para falta de motivação:
– Comece com pequenas metas: Em vez de pensar “Preciso arrumar a casa toda”, comece com “Vou arrumar só a mesa”.
– Use lembretes: Anote suas tarefas em um papel ou no celular.
– Peça ajuda: Se não conseguir fazer algo sozinho, peça a um familiar ou amigo para ajudar.
8. Busque grupos de apoio
Participar de um grupo de apoio pode ajudar a:
– Sentir-se compreendido.
– Aprender com as experiências de outras pessoas.
– Reduzir a solidão.
Onde encontrar grupos de apoio no Brasil:
– Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Esquizofrenia (ABRE): Oferece grupos de apoio em várias cidades.
– CAPS (Centro de Atenção Psicossocial): Muitos CAPS oferecem grupos terapêuticos.
– Grupos online: Existem fóruns e grupos no Facebook para pessoas com esquizofrenia.
9. Não tenha vergonha
A esquizofrenia não define quem você é. Você é muito mais do que um diagnóstico. Não tenha vergonha de falar sobre o que está passando.
Dicas:
– Converse com pessoas de confiança sobre sua condição.
– Explique para os outros o que é a esquizofrenia, se você se sentir confortável.
– Lembre-se: Você não está sozinho. Muitas pessoas vivem bem com esquizofrenia.
10. Tenha esperança
A esquizofrenia é uma condição crônica, mas não é uma sentença. Com tratamento adequado, muitas pessoas conseguem:
– Controlar os sintomas.
– Trabalhar ou estudar.
– Ter relacionamentos saudáveis.
– Levar uma vida plena e feliz.
Lembre-se:
– Você não é sua doença. Você é uma pessoa com sonhos, habilidades e qualidades.
– O tratamento funciona. Muitas pessoas melhoram significativamente com medicamentos e terapia.
– Você merece uma vida boa. Não desista de buscar ajuda e de viver bem.
Para familiares e amigos
Se você é familiar ou amigo de alguém com esquizofrenia, seu apoio é fundamental. Mas também é importante cuidar de si mesmo e aprender a ajudar da melhor forma.
1. Informe-se sobre a condição
Quanto mais você souber sobre a esquizofrenia, melhor poderá ajudar. Leia livros, assista a vídeos e converse com o médico da pessoa.
Dicas:
– Evite fontes não confiáveis, como fóruns anônimos ou sites sem embasamento científico.
– Procure informações em fontes sérias, como:
– Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).
– Organização Mundial da Saúde (OMS).
– Livros escritos por psiquiatras ou psicólogos.
2. Seja paciente
A esquizofrenia pode causar mudanças de comportamento que são difíceis de entender. Lembre-se de que não é culpa da pessoa e que ela está lutando contra sintomas que não consegue controlar.
Dicas:
– Não leve os sintomas para o lado pessoal. Se a pessoa estiver irritada ou isolada, não é porque ela não gosta de você.
– Evite discussões sobre delírios ou alucinações. Não tente convencer a pessoa de que o que ela está vivenciando não é real. Em vez disso, diga: “Eu entendo que isso é real para você, mas eu não estou vendo/ouvindo a mesma coisa”.
– Dê tempo para a pessoa se expressar. Ela pode ter dificuldade para organizar os pensamentos.
3. Ofereça apoio prático
Pequenas ações podem fazer uma grande diferença no dia a dia da pessoa.
Dicas:
– Ajude com tarefas cotidianas, como cozinhar, limpar a casa ou fazer compras.
– Lembre a pessoa de tomar os medicamentos, se ela tiver dificuldade para lembrar.
– Acompanhe a pessoa em consultas médicas, se ela se sentir confortável.
– Incentive atividades prazerosas, como hobbies ou passeios.
4. Cuide da sua saúde mental
Cuidar de alguém com esquizofrenia pode ser estressante e emocionalmente desgastante. Não se esqueça de cuidar de si mesmo.
Dicas:
– Procure apoio psicológico, se sentir necessidade.
– Participe de grupos de apoio para familiares, como os oferecidos pela ABRE.
– Tire um tempo para si mesmo. Faça atividades que goste e que ajudem a relaxar.
– Não se isole. Converse com amigos e familiares sobre o que está passando.
5. Aprenda a identificar sinais de recaída
Uma recaída acontece quando os sintomas pioram depois de um período de melhora. Saber identificar os sinais de alerta pode ajudar a prevenir uma crise.
Sinais de recaída:
– Mudanças no sono: Dormir muito mais ou muito menos do que o normal.
– Isolamento social: Parar de atender ligações ou sair de casa.
– Irritabilidade ou agressividade: Ficar mais irritado ou ter explosões de raiva.
– Desconfiança excessiva: Acreditar que as pessoas estão contra ela.
– Fala desorganizada: Falar coisas que não fazem sentido.
– Comportamentos estranhos: Agir de forma incomum, como rir sem motivo ou ficar imóvel por muito tempo.
O que fazer:
– Converse com a pessoa sobre o que está observando.
– Incentive-a a procurar o médico.
– Evite discutir ou confrontar os delírios ou alucinações.
6. Saiba como agir em uma crise
Uma crise acontece quando os sintomas estão muito intensos e a pessoa pode representar um risco para si mesma ou para os outros.
Sinais de crise:
– Alucinações ou delírios intensos (por exemplo, ouvir vozes mandando se machucar).
– Comportamento agressivo (gritar, quebrar objetos, ameaçar pessoas).
– Negligência extrema (não comer, não tomar banho, não tomar medicamentos).
– Risco de suicídio (falar em morte, doar pertences, se despedir das pessoas).
O que fazer:
– Mantenha a calma. Evite gritar ou discutir.
– Não deixe a pessoa sozinha. Fique por perto para garantir sua segurança.
– Procure ajuda profissional. Ligue para o SAMU (192) ou leve a pessoa para uma UPA ou CAPS 24 horas.
– Se a pessoa estiver armada ou muito agressiva, não tente contê-la sozinho. Ligue para a polícia (190) e peça ajuda.
7. Não tenha vergonha
Muitas famílias sentem vergonha ou culpa por ter um familiar com esquizofrenia. Mas lembre-se: não é culpa de ninguém. A esquizofrenia é uma condição de saúde, como diabetes ou hipertensão.
Dicas:
– Converse com outras pessoas sobre o que está passando. Você não precisa enfrentar isso sozinho.
– Busque apoio. Grupos de apoio para familiares podem ajudar muito.
– Lembre-se: Você está fazendo o seu melhor. Não se cobre demais.
8. Incentive a independência
É importante incentivar a pessoa a ser independente, dentro das suas possibilidades. Isso ajuda a melhorar a autoestima e a qualidade de vida.
Dicas:
– Incentive a pessoa a fazer pequenas tarefas, como arrumar a cama ou lavar a louça.
– Ajude-a a encontrar um trabalho ou atividade que ela goste e consiga fazer.
– Respeite os limites da pessoa. Não force atividades que ela não se sinta capaz de fazer.
9. Celebre as pequenas vitórias
Viver com esquizofrenia pode ser desafiador, mas cada pequena conquista merece ser celebrada.
Exemplos de pequenas vitórias:
– Tomar os medicamentos todos os dias.
– Sair de casa para uma caminhada.
– Conversar com um amigo.
– Arrumar o quarto.
Como celebrar:
– Elogie a pessoa quando ela fizer algo positivo.
– Faça algo especial, como um jantar ou um passeio.
– Lembre-a de que ela está progredindo, mesmo que aos poucos.
10. Tenha esperança
A esquizofrenia é uma condição desafiadora, mas não é o fim. Com tratamento adequado, muitas pessoas conseguem:
– Controlar os sintomas.
– Trabalhar ou estudar.
– Ter relacionamentos saudáveis.
– Levar uma vida plena e feliz.
Lembre-se:
– Você não está sozinho. Muitas famílias passam pelo mesmo desafio.
– O tratamento funciona. Muitas pessoas melhoram significativamente com medicamentos e terapia.
– Seu familiar merece uma vida boa. Não desista de ajudá-lo a viver bem.
Quando os sintomas podem piorar?
Os sintomas da esquizofrenia podem variar ao longo do tempo. Algumas pessoas têm períodos de melhora (remissão), enquanto outras podem ter recaídas (quando os sintomas pioram). Saber o que pode desencadear uma piora e como identificar os sinais de alerta é fundamental para prevenir crises.
Gatilhos comuns (o que pode piorar os sintomas)
Algumas situações ou comportamentos podem desencadear uma piora dos sintomas. Os principais são:
1. Estresse
O estresse é um dos maiores gatilhos para recaídas. Situações estressantes podem aumentar a ansiedade e a desorganização do pensamento.
Exemplos de situações estressantes:
– Problemas financeiros.
– Conflitos familiares.
– Mudanças bruscas (como mudar de cidade ou começar um novo trabalho).
– Perda de um ente querido.
– Pressão no trabalho ou na escola.
Como lidar:
– Tente reduzir o estresse no dia a dia.
– Pratique técnicas de relaxamento, como meditação ou respiração profunda.
– Converse com um terapeuta sobre como lidar com o estresse.
2. Falta de sono
A falta de sono pode piorar os sintomas psicóticos e aumentar a irritabilidade.
Como lidar:
– Tenha uma rotina de sono: Tente dormir e acordar no mesmo horário todos os dias.
– Evite telas antes de dormir: A luz do celular ou da TV pode atrapalhar o sono.
– Faça atividades relaxantes antes de dormir: Ler, ouvir música calma ou meditar.
3. Uso de drogas ou álcool
O uso de drogas ou álcool pode piorar os sintomas psicóticos e interferir nos medicamentos.
Drogas que podem piorar os sintomas:
– Maconha.
– Cocaína.
– LSD.
– Anfetaminas.
– Álcool.
Como lidar:
– Evite o uso de drogas e álcool.
– Converse com um médico ou terapeuta se tiver dificuldade para parar.
4. Parar de tomar os medicamentos
Os medicamentos são fundamentais para controlar os sintomas. Parar de tomá-los pode causar uma recaída grave.
Por que as pessoas param de tomar os medicamentos?
– Efeitos colaterais (como ganho de peso ou sonolência).
– Falta de insight (não perceber que está doente).
– Pressão de outras pessoas (como amigos que dizem que “remédio é veneno”).
Como lidar:
– Converse com o médico se os efeitos colaterais estiverem muito incômodos. Ele pode ajustar a dose ou trocar o medicamento.
– Use alarmes ou lembretes no celular para não esquecer de tomar os medicamentos.
– Converse com a família sobre a importância de continuar o tratamento.
5. Isolamento social
O isolamento social pode piorar os sintomas negativos (como apatia e embotamento afetivo) e aumentar a solidão e a depressão.
Como lidar:
– Incentive a pessoa a participar de atividades sociais, como grupos de apoio ou hobbies.
– Converse com amigos e familiares sobre a importância de manter contato.
– Use a tecnologia para se conectar com outras pessoas (redes sociais, videochamadas).
6. Doenças físicas
Algumas doenças físicas podem piorar os sintomas psicóticos, especialmente se causarem dor ou desconforto.
Exemplos:
– Infecções (como gripe ou infecção urinária).
– Doenças crônicas (como diabetes ou hipertensão).
– Dor crônica.
Como lidar:
– Mantenha as consultas médicas em dia.
– Trate as doenças físicas assim que elas aparecerem.
– Converse com o médico sobre como as doenças físicas podem afetar os sintomas psicóticos.
Sinais de recaída (como identificar que os sintomas estão piorando)
Uma recaída acontece quando os sintomas pioram depois de um período de melhora. Saber identificar os sinais de alerta pode ajudar a prevenir uma crise.
Sinais de recaída:
– Mudanças no sono: Dormir muito mais ou muito menos do que o normal.
– Isolamento social: Parar de atender ligações ou sair de casa.
– Irritabilidade ou agressividade: Ficar mais irritado ou ter explosões de raiva.
– Desconfiança excessiva: Acreditar que as pessoas estão contra ela.
– Fala desorganizada: Falar coisas que não fazem sentido.
– Comportamentos estranhos: Agir de forma incomum, como rir sem motivo ou ficar imóvel por muito tempo.
– Negligência com a higiene: Parar de tomar banho ou escovar os dentes.
– Esquecer de tomar os medicamentos.
O que fazer:
– Converse com a pessoa sobre o que está observando.
– Incentive-a a procurar o médico.
– Evite discutir ou confrontar os delírios ou alucinações.
– Aumente o apoio no dia a dia (ajude com tarefas, lembre-a de tomar os medicamentos).
O que fazer quando percebe piora
Se você perceber que os sintomas estão piorando, não espere para agir. Quanto antes a pessoa receber ajuda, melhor será o resultado.
Passo a passo:
1. Converse com a pessoa de forma calma e empática. Diga o que está observando e pergunte como ela está se sentindo.
2. Incentive-a a procurar o médico. Se ela resistir, ofereça-se para acompanhá-la.
3. Aumente o apoio no dia a dia. Ajude com tarefas, lembre-a de tomar os medicamentos e incentive atividades prazerosas.
4. Evite situações estressantes. Tente reduzir o estresse no ambiente (evite discussões, mantenha uma rotina tranquila).
5. Monitore os sintomas. Anote quando eles aparecem, o que os desencadeia e como eles afetam a vida da pessoa.
6. Procure ajuda profissional se necessário. Se os sintomas estiverem muito intensos ou a pessoa representar um risco para si mesma ou para os outros, procure um CAPS 24 horas ou uma UPA.
Sinais de que precisa voltar ao médico
É importante manter o acompanhamento médico regular, mesmo quando os sintomas estão controlados. Mas alguns sinais indicam que é urgente voltar ao médico.
Sinais de que precisa voltar ao médico:
– Os sintomas estão piorando (delírios, alucinações, desorganização).
– Novos sintomas apareceram (como depressão ou ansiedade intensa).
– Os medicamentos não estão fazendo mais efeito.
– Os efeitos colaterais estão insuportáveis.
– A pessoa está tendo pensamentos suicidas.
– A pessoa está negligenciando a higiene ou a alimentação.
– A pessoa está tendo comportamentos de risco (como usar drogas ou dirigir de forma perigosa).
O que fazer:
– Marque uma consulta com o psiquiatra o mais rápido possível.
– Se a pessoa estiver em crise, procure um CAPS 24 horas ou uma UPA.
– Não espere os sintomas piorarem. Quanto antes a pessoa receber ajuda, melhor.
Perguntas frequentes
Receber o diagnóstico de esquizofrenia ou outro transtorno psicótico traz muitas dúvidas. Vamos responder às perguntas mais comuns que pacientes e familiares fazem.
1. “Tem cura?”
Resposta:
A esquizofrenia não tem cura, mas tem tratamento. Com medicamentos, terapia e mudanças no estilo de vida, muitas pessoas conseguem controlar os sintomas e levar uma vida plena. O objetivo do tratamento não é “curar”, mas melhorar a qualidade de vida e prevenir recaídas.
Exemplo:
– Uma pessoa com esquizofrenia pode trabalhar, estudar, ter relacionamentos e ser feliz, mesmo que precise tomar medicamentos pelo resto da vida.
2. “É para sempre?”
Resposta:
Os sintomas da esquizofrenia podem variar ao longo da vida. Algumas pessoas têm períodos de melhora (remissão), em que os sintomas ficam muito leves ou desaparecem. Outras podem ter recaídas (quando os sintomas pioram). O importante é manter o tratamento para controlar os sintomas e prevenir crises.
Exemplo:
– Uma pessoa pode ter uma recaída se parar de tomar os medicamentos, mas pode melhorar novamente quando voltar ao tratamento.
3. “Posso trabalhar/estudar normalmente?”
Resposta:
Sim! Muitas pessoas com esquizofrenia trabalham, estudam e têm uma vida profissional ativa. O tratamento ajuda a controlar os sintomas, permitindo que a pessoa desempenhe suas atividades.
Dicas para trabalhar ou estudar:
– Converse com o médico sobre como os sintomas podem afetar o trabalho ou os estudos.
– Peça adaptações, se necessário (como horários flexíveis ou ambiente de trabalho tranquilo).
– Use técnicas de organização, como listas de tarefas e lembretes.
– Não se cobre demais. Faça o que for possível e peça ajuda quando precisar.
Exemplo:
– Uma pessoa com esquizofrenia pode trabalhar em meio período ou estudar com um tutor para ajudá-la a se organizar.
4. “Meus filhos podem ter também?”
Resposta:
A esquizofrenia tem um componente genético, ou seja, pode ser herdada. Mas isso não significa que seus filhos vão desenvolver a doença. O risco é maior do que na população geral, mas ainda é baixo.
Risco de herança:
– População geral: 1%.
– Filho de um pai/mãe com esquizofrenia: 10%.
– Filho de dois pais com esquizofrenia: 40%.
O que fazer:
– Não se culpe. A esquizofrenia não é culpa de ninguém.
– Fique atento aos sinais de alerta na adolescência (como isolamento, mudanças de comportamento).
– Incentive um estilo de vida saudável (sono regular, exercícios, alimentação equilibrada).
5. “Como explicar para as outras pessoas?”
Resposta:
Explicar sobre a esquizofrenia pode ser desafiador, mas é importante falar com honestidade e simplicidade. Você não precisa dar todos os detalhes, mas pode ajudar as pessoas a entenderem o que está acontecendo.
Dicas:
– Comece com o básico: “Tenho uma condição de saúde mental chamada esquizofrenia. Ela afeta a forma como eu percebo a realidade, mas com tratamento eu consigo levar uma vida normal.”
– Explique os sintomas: “Às vezes eu ouço vozes que os outros não ouvem, ou acredito em coisas que não são reais. Mas os medicamentos ajudam a controlar isso.”
– Fale sobre o tratamento: “Eu tomo medicamentos e faço terapia para controlar os sintomas.”
– Peça apoio: “É importante para mim ter pessoas que me apoiam e entendem o que estou passando.”
– Corrija mitos: “Não, esquizofrenia não é dupla personalidade. E não, eu não sou perigoso.”
Exemplo de conversa:
“Eu tenho esquizofrenia, que é uma condição que faz com que eu às vezes ouça vozes ou acredite em coisas que não são reais. Mas eu tomo medicamentos e faço terapia, e isso me ajuda a controlar os sintomas. Eu não sou perigoso, e com tratamento consigo levar uma vida normal. Se você tiver dúvidas, pode me perguntar.”
6. “Onde encontrar ajuda no Brasil?”
Resposta:
No Brasil, existem várias opções de ajuda, tanto pelo SUS quanto na rede particular.
Pelo SUS:
– UBS (Unidade Básica de Saúde): O médico da família pode fazer uma avaliação inicial e encaminhar para um especialista.
– CAPS (Centro de Atenção Psicossocial): Oferece atendimento com psiquiatra, psicólogo e assistente social. Existem CAPS para adultos (CAPS I, II, III), para crianças (CAPSi) e para pessoas com problemas com álcool e drogas (CAPS AD).
– Ambulatórios de saúde mental: Alguns hospitais e universidades oferecem atendimento especializado.
– Hospitais psiquiátricos: Em casos de crise, a pessoa pode ser internada para estabilização.
Particular ou por convênio:
– Psiquiatra: Médico especializado em saúde mental.
– Psicólogo: Profissional que oferece terapia.
– Clínicas de saúde mental: Oferecem atendimento multidisciplinar (psiquiatra, psicólogo, terapeuta ocupacional).
– Grupos de apoio: Como os oferecidos pela ABRE (Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Esquizofrenia).
Recursos online:
– CVV (Centro de Valorização da Vida): Oferece apoio emocional por telefone (188), chat ou e-mail.
– ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria): Tem informações sobre esquizofrenia e lista de profissionais.
– OMS (Organização Mundial da Saúde): Tem materiais educativos sobre saúde mental.
7. “Os medicamentos vão mudar minha personalidade?”
Resposta:
Não! Os medicamentos para esquizofrenia não mudam a personalidade. Eles ajudam a controlar os sintomas, como delírios e alucinações, permitindo que a pessoa volte a ser ela mesma.
O que pode acontecer:
– Efeitos colaterais temporários, como sonolência ou ganho de peso, que podem afetar o humor.
– Melhora na qualidade de vida, porque os sintomas psicóticos deixam de atrapalhar.
Exemplo:
– Uma pessoa que ouvia vozes e acreditava que estava sendo perseguida pode, com o tratamento, voltar a ter uma vida normal, sem que sua personalidade seja alterada.
8. “Posso parar de tomar os medicamentos se estiver me sentindo bem?”
Resposta:
Não! Os medicamentos são fundamentais para controlar os sintomas e prevenir recaídas. Parar de tomá-los por conta própria pode causar uma piora grave dos sintomas.
Por que as pessoas param de tomar os medicamentos?
– Efeitos colaterais (como ganho de peso ou sonolência).
– Falta de insight (não perceber que está doente).
– Pressão de outras pessoas (como amigos que dizem que “remédio é veneno”).
O que fazer:
– Converse com o médico se os efeitos colaterais estiverem muito incômodos. Ele pode ajustar a dose ou trocar o medicamento.
– Use alarmes ou lembretes no celular para não esquecer de tomar os medicamentos.
– Converse com a família sobre a importância de continuar o tratamento.
9. “Como lidar com as vozes?”
Resposta:
As alucinações auditivas (ouvir vozes) são um dos sintomas mais comuns da esquizofrenia. Elas podem ser assustadoras, mas existem estratégias para lidar com elas.
Estratégias:
– Ignore as vozes: Tente não dar atenção a elas. Lembre-se de que são sintomas, não realidade.
– Distraia-se: Ouça música, converse com alguém ou faça uma atividade que exija concentração.
– Responda de forma racional: Se as vozes disserem algo negativo, responda mentalmente: “Isso não é real, é só um sintoma”.
– Anote o que as vozes dizem: Isso pode ajudar a identificar padrões e a perceber que elas não fazem sentido.
– Converse com seu médico: Se as vozes estiverem muito intensas, ele pode ajustar a medicação.
Exemplo:
– Se as vozes disserem “Você é um fracasso”, responda mentalmente: “Isso não é verdade. Eu tenho qualidades e estou me tratando”.
10. “O que fazer se a pessoa se recusar a tomar os medicamentos?”
Resposta:
É comum que pessoas com esquizofrenia recusem tomar os medicamentos, especialmente se não perceberem que estão doentes (falta de insight). Nesses casos, é importante agir com paciência e estratégia.
O que fazer:
– Converse com a pessoa de forma calma e empática. Pergunte por que ela não quer tomar os medicamentos e ouça suas preocupações.
– Explique a importância do tratamento de forma simples: “Os medicamentos ajudam a controlar as vozes e a melhorar sua qualidade de vida.”
– Envolva a família. Às vezes, um familiar de confiança pode ajudar a convencer a pessoa.
– Ofereça apoio prático. Ajude a pessoa a lembrar de tomar os medicamentos (use alarmes, coloque os comprimidos em um lugar visível).
– Converse com o médico. Ele pode ajustar a dose, trocar o medicamento ou sugerir outras estratégias.
– Em casos graves, se a pessoa representar um risco para si mesma ou para os outros, pode ser necessário internação involuntária (de acordo com a Lei 10.216).
Exemplo:
– Se a pessoa disser “Não preciso de remédio, estou bem”, responda: “Eu entendo que você se sinta bem, mas os medicamentos ajudam a evitar que os sintomas voltem. Vamos conversar com o médico para ver se podemos ajustar a dose.”
Quando procurar ajuda urgente
Algumas situações exigem atendimento imediato, pois podem representar um risco para a pessoa ou para os outros. Saber identificar esses sinais e agir rápido pode salvar vidas.
Procure atendimento imediato (SAMU 192, UPA, CAPS 24 horas) se:
1. A pessoa está em risco de suicídio
Sinais de alerta:
– Falar em morte ou suicídio (“Eu não aguento mais”, “Queria desaparecer”).
– Doar pertences ou se despedir das pessoas.
– Ter um plano concreto para se matar (como comprar uma arma ou guardar comprimidos).
– Mostrar desesperança (“Nada vai melhorar”).
O que fazer:
– Não deixe a pessoa sozinha.
– Ligue para o SAMU (192) ou leve-a para uma UPA ou CAPS 24 horas.
– Tire de perto objetos perigosos (facas, remédios, cordas).
– Converse com calma, sem julgar. Diga: “Eu estou aqui para te ajudar. Vamos procurar ajuda juntos.”
2. A pessoa está tendo alucinações ou delírios intensos
Sinais de alerta:
– Ouvir vozes mandando se machucar ou machucar outras pessoas.
– Acreditar que está sendo perseguida e querer fugir ou se esconder.
– Ver coisas que não existem e agir de acordo com elas (por exemplo, tentar “fugir” de algo que não está lá).
O que fazer:
– Mantenha a calma. Evite discutir ou confrontar os delírios.
– Não deixe a pessoa sozinha.
– Ligue para o SAMU (192) ou leve-a para uma UPA ou CAPS 24 horas.
– Se a pessoa estiver armada ou muito agressiva, não tente contê-la sozinho. Ligue para a polícia (190) e peça ajuda.
3. A pessoa está muito agitada ou agressiva
Sinais de alerta:
– Gritar, quebrar objetos ou ameaçar pessoas.
– Ter explosões de raiva sem motivo aparente.
– Não conseguir ficar parada, andando de um lado para o outro.
O que fazer:
– Afaste-se se a pessoa estiver muito agressiva. Sua segurança vem em primeiro lugar.
– Tente acalmá-la com palavras tranquilas: “Eu estou aqui para te ajudar. Vamos respirar fundo.”
– Ligue para o SAMU (192) ou leve-a para uma UPA ou CAPS 24 horas.
– Se a pessoa estiver armada ou muito agressiva, não tente contê-la sozinho. Ligue para a polícia (190).
4. A pessoa está negligenciando a si mesma
Sinais de alerta:
– Não comer ou beber por dias.
– Não tomar banho ou trocar de roupa.
– Não tomar os medicamentos.
– Ficar dias sem dormir.
O que fazer:
– Ofereça ajuda prática: “Vamos tomar um banho juntos?”, “Vamos preparar uma refeição?”.
– Ligue para o SAMU (192) ou leve-a para uma UPA ou CAPS 24 horas se ela se recusar a cuidar de si mesma.
5. A pessoa está tendo comportamentos de risco
Sinais de alerta:
– Usar drogas ou álcool em excesso.
– Dirigir de forma perigosa.
– Ter relações sexuais sem proteção.
– Gastar dinheiro de forma impulsiva.
O que fazer:
– Converse com a pessoa sobre os riscos do comportamento.
– Ligue para o SAMU (192) ou leve-a para uma UPA ou CAPS 24 horas se ela estiver colocando a si mesma ou os outros em perigo.
Agende uma consulta em breve se:
1. Os sintomas estão piorando
- Delírios ou alucinações estão mais intensos.
- A pessoa está mais isolada ou desorganizada.
- Os medicamentos não estão fazendo mais efeito.
2. Novos sintomas apareceram
- Depressão, ansiedade ou irritabilidade intensa.
- Dificuldade para dormir ou dormir demais.
- Falta de motivação ou energia.
3. Os efeitos colaterais dos medicamentos estão insuportáveis
- Ganho de peso excessivo.
- Tremores ou movimentos involuntários.
- Sonolência ou tontura que atrapalham o dia a dia.
4. A pessoa está tendo dificuldade para seguir o tratamento
- Esquecer de tomar os medicamentos com frequência.
- Recusar-se a ir às consultas.
- Não querer fazer terapia.
O que fazer:
– Marque uma consulta com o psiquiatra o mais rápido possível.
– Converse com a pessoa sobre a importância de seguir o tratamento.
– Ofereça apoio prático, como lembrar de tomar os medicamentos ou acompanhar nas consultas.
Recursos de emergência no Brasil
| Situação | O que fazer | Contato |
|---|---|---|
| Risco de suicídio | Ligue para o SAMU ou vá para uma UPA | 192 |
| Crise psicótica | Ligue para o SAMU ou vá para um CAPS | 192 |
| Comportamento agressivo | Ligue para a polícia | 190 |
| Sofrimento emocional | Ligue para o CVV | 188 |
| Informações sobre saúde mental | Procure um CAPS ou UBS | – |
Referências
Este artigo foi baseado em informações de fontes científicas e oficiais. As principais referências são:
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Classificação Internacional de Doenças (CID-11). 2022.
-
Disponível em: https://icd.who.int/
-
American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). 5ª ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023.
-
Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Tratado de Psiquiatria da ABP. 2022.
-
Ministério da Saúde. Linhas de Cuidado para Atenção às Pessoas com Transtornos Mentais. Brasília, 2021.
-
Disponível em: https://www.gov.br/saude/
-
Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Esquizofrenia (ABRE).
-
Disponível em: https://www.abrebrasil.org.br/
-
National Institute of Mental Health (NIMH). Schizophrenia.
-
Disponível em: https://www.nimh.nih.gov/health/topics/schizophrenia
-
Mayo Clinic. Schizophrenia.
- Disponível em: https://www.mayoclinic.org/diseases-conditions/schizophrenia/symptoms-causes/syc-20354443
Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação profissional. Em caso de sofrimento psíquico, procure um profissional de saúde mental.