Palilalia

Definição e conceito

Palilalia é um distúrbio da linguagem caracterizado pela repetição automática, estereotipada e involuntária de palavras ou frases que o próprio indivíduo acabou de emitir. É um fenômeno de perseveração verbal, onde o paciente, após pronunciar uma palavra ou frase, repete-a várias vezes, geralmente com crescente rapidez e diminuição da intensidade da voz. O termo deriva do grego palin (novamente) e lalia (fala). Descrita primeiramente pelo neurologista francês Alexandre-Achille Cyprien Souques em 1908, a palilalia é classificada na psicopatologia como uma alteração da produção da linguagem, especificamente dentro do grupo dos distúrbios de repetição e perseveração.

A repetição ocorre sem controle voluntário, sendo um comportamento verbal automático. É comum, mas não obrigatório, que a palavra repetida seja a última da frase emitida. A palilalia se distingue de fenômenos semelhantes:

  • Logoclonia: Repetição automática e involuntária das últimas sílabas de uma palavra pronunciada pelo paciente. É considerada uma variação ou subtipo da palilalia, com a mesma significação psicopatológica.
  • Ecolalia: Repetição, como um eco, da última palavra ou frase que outra pessoa (examinador, familiar) falou. É um fenômeno também automático e involuntário, mas a fonte da repetição é externa.
  • Verbigeração ou Estereotipia Verbal: Repetição monótona, inadequada e sem sentido comunicativo de palavras ou frases, frequentemente descontextualizada e persistente.
  • Tiques Verbais/Fonéticos: Repetições ou emissões de sons/sílabas/palavras que são parte de um transtorno de tiques, geralmente precedidas por uma sensação de impulso (premonitory urge) e com algum grau de controle voluntário temporário, diferindo da automatização completa da palilalia.

A palilalia e a logoclonia são formas de alteração da linguagem que indicam a desestruturação do controle voluntário complexo da linguagem e sua substituição por mecanismos mais automáticos e estereotipados de comportamento verbal. Não são fenômenos primários de pensamento, mas de expressão linguística, embora possam refletir uma disfunção em sistemas cerebrais que sustentam ambos.

Dados epidemiológicos específicos para a palilalia são escassos, pois ela é um sintoma que ocorre em diversas condições neurológicas e psiquiátricas. Sua prevalência é associada à prevalência das doenças de base em que ela se manifesta, como doenças neurodegenerativas e lesões cerebrais específicas.

Apresentação clínica

A manifestação clínica da palilalia é bastante característica e pode ser observada durante a entrevista psiquiátrica ou neurológica, na conversação espontânea ou em resposta a perguntas.

Domínio Cognitivo/Linguístico: O núcleo do fenômeno reside na produção da linguagem. O paciente inicia uma frase ou palavra normalmente. Após sua emissão completa, inicia uma repetição da última palavra ou frase, que pode ocorrer de 3 a 10 vezes ou mais. As repetições tendem a ser mais rápidas e com volume decrescente em cada ciclo. O paciente não parece ter intenção comunicativa na repetição; ela ocorre como um "curto-circuito" no fluxo verbal. O conteúdo do discurso prévio à repetição pode ser completamente adequado e coerente. A palilalia não é, por si só, um indicador de conteúdo delirante ou pensamento desorganizado, mas de um defeito na execução motora da linguagem e no seu controle.

Domínio Comportamental: A repetição é involuntária. O paciente pode demonstrar frustração ou embaraço após o episódio, especialmente se tem insight sobre o fenômeno. Durante a repetição, ele pode parecer "preso" em um loop verbal, incapaz de prosseguir com o discurso até que o ciclo se complete. Não há, tipicamente, alterações motoras associadas (como tiques motores) durante a palilalia, exceto aquelas relacionadas à doença de base (e.g., parkinsonismo).

Domínio Afetivo: O estado afetivo durante o episódio pode ser de neutralidade, concentração no ato de falar, ou irritação. O impacto afetivo posterior pode ser significativo, com sentimentos de vergonha, constrangimento social e ansiedade ante a possibilidade de ocorrer em situações públicas.

Exemplos Clínicos Concisos:

  1. Palilalia: Durante uma avaliação, o paciente relata: "Eu moro em uma casa em Jundiaí, em Jundiaí, em Jundiaí, em Jundiaí…". A repetição da última palavra ("Jundiaí") ocorre várias vezes, acelerando.
  2. Palilalia: Em uma conversa sobre preferências, o indivíduo diz: "Gosto de maçã, gosto de maçã, gosto de maçã…", repetindo a frase inteira.
  3. Logoclonia: O paciente afirma: "Moro em Jundiaí, aí, aí, aí, aí…", repetindo apenas a última sílaba da palavra final.
  4. Palilalia em contexto: O examinador pergunta "Qual é seu nome?" e o paciente responde "Eu me chamo João… João, João, João…".

Neurobiologia e fisiopatologia

A palilalia é entendida como um sintoma decorrente de uma dissociação entre os sistemas voluntários e automáticos de controle da linguagem. O modelo fisiopatológico sugere uma lesão ou disfunção em circuitos cerebrais que modulam a iniciativa, o planejamento e a cessação voluntária da produção verbal, permitindo que mecanismos mais primitivos, automáticos e estereotipados de repetição motora vocal assumam o controle.

Circuitos Cerebrais e Localização: Baseando-se nas fontes e em evidências clássicas, a palilalia está associada a:

  • Sistema Extrapiramidal: É um local comum de disfunção. A palilalia ocorre frequentemente em doenças que afetam os núcleos da base e circuitos talamo-cortico-striatais, como a Doença de Parkinson (DP), a Doença de Huntington e a Paralisia Supranuclear Progressiva (PSP). Nestas condições, a disfunção dopaminérgica e de outros neurotransmissores nos circuitos que conectam o córtex frontal aos núcleos da base compromete o controle executivo sobre a linguagem, liberando padrões motores verbais repetitivos.
  • Lesões em Núcleos Subtalâmicos, Tálamo Medial e Mesencéfalo: Casos descritos associam palilalia a infartos ou lesões nessas regiões profundas, que são parte integrante dos circuitos de modulação e controle motor, incluindo a fala.
  • Córtex Frontal: A palilalia pode ser uma manifestação ictal (durante uma crise) na epilepsia do lobo frontal, especialmente do lobo frontal esquerdo (responsável pela linguagem expressiva). Isso sugere que a atividade epileptiforme em áreas frontais envolvidas no planejamento e sequenciamento da ação verbal pode gerar o fenômeno. Além disso, lesões no córtex frontal mesial e no córtex do cíngulo anterior (envolvidos no monitoramento de ações e no controle de erros) podem estar implicadas, por analogia com os mecanismos propostos para a ecolalia.
  • Hemisfério Direito (ação vicariante/compensatória): Em alguns modelos (como para ecolalia), a disfunção do hemisfério esquerdo (dominante para linguagem) pode levar a uma tentativa compensatória do hemisfério direito, que não possui a sofisticação do controle linguístico do hemisfério esquerdo, resultando em padrões repetitivos e automáticos como a palilalia. Isso pode ocorrer em contextos de lesão ou degeneração do hemisfério esquerdo.

Neurotransmissão: Os sistemas dopaminérgico (crucial para o funcionamento dos núcleos da base e iniciativa motora), serotoninérgico e glutamatérgico estão implicados nas doenças de base que causam palilalia. A desregulação desses sistemas pode levar a um desequilíbrio entre os circuitos que promovem a ação (iniciativa) e os que a inhibem ou modulam (controle), resultando em perseveração.

Modelo Integrado: A palilalia pode ser vista como uma perseveração motora verbal. Perseveração é a continuação inadequada de uma atividade após sua conclusão apropriada. Em nível cerebral, isso pode refletir uma falha nos mecanismos de "desengajamento" ou "reset" após a execução de um programa motor verbal (a palavra/frase). Áreas frontais (córtex pré-frontal, cíngulo anterior) que normalmente sinalizam a conclusão e iniciam a próxima ação estão comprometidas, enquanto circuitos subcorticais (núcleos da base) que sustentam o padrão motor repetitivo continuam ativos.

Avaliação clínica e diagnóstico diferencial

Achados ao Exame do Estado Mental: Durante a avaliação, o profissional deve observar a fala espontânea e dirigida. A palilalia pode surgir após perguntas diretas ou no curso de um relato. É importante notar:

  • Frequência: Quantas vezes o fenômeno ocorre na entrevista.
  • Padrão: Repetição de palavras inteiras (palilalia) ou apenas sílabas (logoclonia).
  • Velocidade e Volume: Se as repetições aceleram e se o volume diminui, como tipicamente descrito.
  • Consciência e Reação: O paciente tem insight sobre a repetição? Demonstra tentativa de controle? Apresenta embaraço?
  • Contexto Linguístico Geral: Avaliar a presença de outros distúrbios da linguagem (afasia, parafasias), do pensamento (perseveração ideativa, desorganização) e da comunicação (aprosódia, hipofonia). A palilalia pode coexistir com ecolalia, estereotipias verbais e mussitação.

Instrumentos e Escalas: Não existem escalas específicas para quantificar a palilalia. Sua avaliação é qualitativa e parte do exame neurológico e psiquiátrico geral. Escalas que avaliam a linguagem e a comunicação em doenças específicas podem capturar o fenômeno:

  • Escalas para Demência: Como o Teste de Linguagem do Montreal Cognitive Assessment (MoCA) ou subescalas de linguagem em instrumentos como o ADAS-Cog (Alzheimer’s Disease Assessment Scale-Cognitive Subscale) podem identificar distúrbios de repetição.
  • Escalas para Transtornos do Movimento: A Unified Parkinson’s Disease Rating Scale (UPDRS) parte III (motora) avalia a fala, e observações de palilalia podem ser registradas.
  • Exame Psiquiátrico Padronizado: A observação e descrição do fenômeno no Exame do Estado Mental é fundamental, utilizando a terminologia precisa.

Diagnóstico Diferencial Estruturado:

Fenômeno Definição Distintiva Contextos Clínicos Mais Comuns Diferença Crucial da Palilalia
Ecolalia Repetição automática da fala de outra pessoa. Autismo, Síndrome Catatônica (Esquizofrenia), Demências. A fonte da repetição é externa (outra pessoa).
Logoclonia Repetição automática das últimas sílabas da própria fala. Demências, doenças extrapiramidais. É uma forma de palilalia com repetição em nível silábico, não lexical.
Tiques Verbais/Fonéticos Emissões súbitas, rápidas, involuntárias de sons, palavras ou frases, precedidas por impulso sensorial. Transtorno de Tourette, outros transtornos de tiques. Podem ser parcialmente suprimidos; não são necessariamente repetição da última palavra própria; têm componente sensorial (premonitory urge).
Coprolalia Emissão involuntária e repetitiva de palavras obscenas/vulgares. Transtorno de Tourette (como tique verbal), Epilepsia Ictal (lobo temporal/orbitofrontal). O conteúdo específico (obsceno) é a característica definidora, não o padrão de repetição da própria fala.
Verbigeração/Estereotipia Verbal Repetição monótona, inadequada e descontextualizada de palavras/frases, sem função comunicativa. Síndrome Catatônica, Demências graves. A repetição é persistente e descontextualizada do discurso corrente; pode não ser da última palavra emitida.
Perseveração Ideativa Repetição persistente de uma ideia, resposta ou tema cognitivo, não necessariamente verbal. Lesões Frontal, Demências, Esquizofrenia. É um distúrbio do conteúdo do pensamento, não da forma da expressão verbal. O paciente pode dar a mesma resposta a perguntas diferentes.

Armadilhas Diagnósticas Comuns:

  1. Confundir com Ecolalia: O clínico deve atentar para quem iniciou a palavra/frase repetida. Se foi o paciente, é palilalia; se foi o entrevistador, é ecolalia.
  2. Interpretar como "Ansiedade" ou "Nervosismo": Repetições ocasionais por tensão são voluntárias e têm função comunicativa (e.g., "Eu estou muito, muito nervoso"). A palilalia é involuntária, automática e não serve à comunicação.
  3. Não Investigar a Condição de Base: Identificar a palilalia é apenas o primeiro passo. O erro seria não prosseguir com a investigação neurológica e psiquiátrica completa para diagnosticar a doença causadora (e.g., demência, doença extrapiramidal).
  4. Desconsiderar o Contexto Ictal: Em pacientes com epilepsia, especialmente de lobo frontal, episódios de palilalia podem ser crises epilépticas (manifestação ictal) e não um sintoma constante. A avaliação EEG e a história são cruciais.

Condições associadas

A palilalia é um sintoma não específico, mas seu aparecimento aponta fortemente para algumas condições neurológicas e psiquiátricas, conforme detalhado nas fontes:

  1. Demências: É um fenômeno classicamente associado aos quadros demenciais, especialmente nas fases moderadas a avançadas. Pode ocorrer na Demência de Alzheimer, Demência Vascular, Demência Frontotemporal (particularmente nas variantes comportamental e linguística) e na Demência por Corpos de Lewy. Nestes contextos, a palilalia coexiste frequentemente com ecolalia, logoclonia, parafasias, aprosódia e outros distúrbios da linguagem.
  2. Doenças do Sistema Extrapiramidal: É um marcador importante de disfunção dos núcleos da base.
    • Doença de Parkinson (DP): A palilalia pode surgir como parte dos distúrbios da fala no Parkinson (hipofonia, bradilalia, aprosódia).
    • Doença de Huntington: Distúrbios da fala, incluindo palilalia, são comuns nesta doença degenerativa.
    • Paralisia Supranuclear Progressiva (PSP): Alterações da linguagem, incluindo repetições automáticas, são características.
  3. Lesões Cerebrovasculares Específicas: Infartos ou lesões nos núcleos subtalâmicos, tálamo medial e mesencéfalo podem produzir palilalia como um sintoma focal.
  4. Epilepsia: A palilalia pode ser uma manifestação ictal (durante a crise) na epilepsia do lobo frontal, especialmente do lobo frontal esquerdo. Episódios repetitivos de palilalia podem, portanto, ser crises epilépticas focais.
  5. Esquizofrenia (Subtipo Catatônico): Embora a ecolalia seja mais típica da síndrome catatônica, a palilalia também pode ocorrer neste contexto, junto com estereotipias verbais, mussitação e outros distúrbios da psicomotricidade e linguagem.
  6. Autismo: Distúrbios de repetição da linguagem (ecolalia, palilalia) podem ocorrer em indivíduos com autismo, especialmente em histórias de desenvolvimento, mas no adulto com autismo e comorbidade neurológica ou degenerativa, pode persistir.

Correlações com CID-11 e DSM-5-TR: A palilalia não é um diagnóstico por si só, mas um sintoma. Portanto, não possui código específico. Ela deve ser registrada como parte da descrição sintomatológica dos transtornos abaixo:

  • CID-11: Demência (6D80-6D85), Doença de Parkinson (8A00.0), Doença de Huntington (8A01.0), Esquizofrenia (6A20), Transtorno do Espectro do Autismo (6A02), Epilepsia (8A60-8A6Z).
  • DSM-5-TR: Transtornos Neurocognitivos Maiores (Demências), Transtorno de Tourette (onde tiques verbais são diferenciados), Esquizofrenia (com especificador catatônico).

Implicações terapêuticas

O tratamento da palilalia é direcionado à condição de base que causa o fenômeno. Não há terapias específicas para a palilalia isolada, mas seu manejo integra o tratamento global do transtorno neurológico ou psiquiátrico.

Abordagens Farmacológicas: A escolha medicamentosa depende da doença primária.

  • Demências: O tratamento da demência (e.g., inibidores da acetilcolinesterase como rivastigmina, donepezil; memantina) pode melhorar globalmente a função cognitiva e a linguagem, com possível redução de sintomas como palilalia. O manejo de fatores comportamentais e psicológicos (BPSD) também é importante.
  • Doenças Extrapiramidais: Na Doença de Parkinson, o ajuste da terapia dopaminérgica (levodopa, agonistas dopaminérgicos) pode melhorar diversos sintomas motores e não-motores, incluindo distúrbios da fala. Em alguns casos, medicamentos como a clozapina (em doses baixas) para psicose ou amantadina para discinesias podem ter efeitos indiretos. Na Doença de Huntington, o tratamento é sintomático e pode incluir medicamentos para controlar movimentos coreicos e aspectos comportamentais.
  • Epilepsia: Se a palilalia é uma manifestação ictal, o tratamento com medicamentos antiepilépticos adequados para epilepsia focal (e.g., levetiracetam, lacosamida, carbamazepina) pode controlar ou abolir as crises e, consequentemente, os episódios de palilalia.
  • Esquizofrenia Catatônica: O tratamento da esquizofrenia com antipsicóticos é fundamental. Em episódios catatônicos, benzodiazepínicos (como lorazepam) podem ser utilizados para a crise catatônica. A eletroconvulsoterapia (ECT) também pode ser eficaz para catatonia refratária.

Abordagens Psicoterapêuticas e Reabilitativas: Não há psicoterapia específica para palilalia, mas intervenções podem ajudar no manejo e no impacto funcional.

  • Terapia da Linguagem (Fonoaudiologia): Em condições neurodegenerativas, a terapia fonoaudiológica é crucial. Técnicas podem focar em controle da velocidade da fala, pausas estratégicas, técnicas de respiração e consciência metacognitiva da produção verbal. O objetivo não é eliminar totalmente a palilalia, mas aumentar o controle voluntário, reduzir a frequência dos episódios e melhorar a comunicação funcional.
  • Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC): Para pacientes com insight, a TCC pode ajudar a manejar a ansiedade social e o constrangimento associados ao fenômeno, desenvolvendo estratégias de exposição gradual e reestruturação cognitiva sobre o impacto social da palilalia.
  • Intervenções Comportamentais: Em contextos de demência ou lesão cerebral, técnicas de modificação ambiental (redução de estímulos excessivos, conversação em ambientes calmos) e comunicação facilitada (uso de perguntas simples, pausas longas) podem reduzir a ocorrência de palilalia, que pode ser exacerbada por estresse ou sobrecarga cognitiva.

Impacto Prognóstico e na Resposta ao Tratamento: A palilalia, por ser um sintoma de desestruturação do controle voluntário da linguagem, geralmente indica uma lesão ou degeneração neurológica significativa. Sua presença, portanto, costuma correlacionar-se com quadros de maior gravidade e estágios mais avançados das doenças de base (e.g., demência moderada/avançada, Parkinson com comprometimento cognitivo). A resposta da palilalia ao tratamento da condição primária é variável. Em epilepsia ictal, pode desaparecer completamente com controle das crises. Em doenças neurodegenerativas, pode ser apenas parcialmente mitigada, persistindo como um sintoma crônico. Sua presença pode ser um marcador de maior necessidade de intervenções reabilitativas e de apoio à comunicação.

Perspectiva do paciente e comunicação clínica

Vivencia do Paciente: Pacientes com palilalia e insight preservado frequentemente descrevem o fenômeno como:

  • Uma sensação de "travar" ou "engasgar" na palavra.
  • Uma repetição que "sai automaticamente", sem que eles queiram.
  • Uma experiência frustrante, especialmente quando tentam comunicar algo importante.
  • Um motivo de constrangimento social, levando a evitar conversas, reuniões ou situações públicas.
  • Em alguns casos, especialmente em demências avançadas, o paciente pode não ter consciência crítica do fenômeno.

Impacto Funcional: A palilalia pode prejudicar significativamente:

  • Comunicação: Interrompe o fluxo natural da conversa, torna as interações mais longas e cansativas, e pode dificultar a transmissão clara de informações.
  • Relacionamentos: Familiares e amigos podem ficar impacientes, interromper o paciente ou evitar conversas, gerando isolamento social.
  • Trabalho/Atividades Profissionais: Em profissões que exigem comunicação verbal eficiente (professores, atendentes, advogados), a palilalia pode ser incapacitante.
  • Qualidade de Vida: O estresse, a vergonha e a limitação na comunicação reduzem a participação social e a autoestima.

Orientações para Comunicação Clínica e com a Família:

  1. Para o Profissional (durante a consulta):

    • Não Interrompa Brutalmente: Permitir que o ciclo de repetição se complete pode ser menos frustrante para o paciente que tentar cortá-lo.
    • Mantenha a Calma e a Paciência: Demonstrar aceitação e não mostrar irritação é fundamental.
    • Use Pausas e Frases Simples: Perguntas diretas e curtas podem minimizar a ocorrência. Dar tempo suficiente para resposta.
    • Explique o Fenômeno: Se o paciente tem insight, explicar que a palilalia é um sintoma da sua condição médica, não um "defeito" pessoal, pode reduzir a culpa e a ansiedade.
  2. Para a Família/Cuidadores:

    • Educação sobre a Condição: Explicar que a repetição é involuntária e parte da doença (e.g., demência, Parkinson).
    • Técnicas de Comunicação Facilitada: Orientar a usar um tom de voz calmo, não completar as frases para o paciente precipitadamente, e não focar na repetição ("ignore a repetição e foque no conteúdo inicial").
    • Redução do Estresse Ambiental: Conversar em ambientes tranquilos, sem múltiplas pessoas falando ao mesmo tempo ou ruídos de fundo.
    • Foco na Funcionalidade: Enfatizar que, apesar da repetição, o paciente está tentando comunicar. Valorizar a mensagem inicial, antes da palilalia.
    • Encaminhamento para Fonoaudiologia: Incentivar a terapia da linguagem para estratégias práticas de manejo.

Perguntas frequentes

1. Palilalia é um tipo de tique?
Não, não é um tique. Embora ambos sejam repetitivos, os tiques (como no Transtorno de Tourette) são movimentos ou vocalizações súbitas, rápidas, muitas vezes precedidas por uma sensação de impulso (premonitory urge) e podem ser temporariamente suprimidos. A palilalia é uma repetição automática e involuntária da própria fala imediatamente anterior, sem essa sensação prévia, e é mais característica de doenças neurodegenerativas ou lesões cerebrais.

2. A palilalia significa que o paciente está ficando com demência?
A palilalia é um sintoma comum em várias formas de demência, especialmente em estágios mais avançados. Sua presença em um adulto ou idoso sem história prévia deve levantar a suspeita de um processo neurodegenerativo ou outra lesão cerebral e motivar uma avaliação neurológica e neuropsicológica completa. Não é, porém, exclusiva da demência.

3. É possível controlar ou parar a palilalia voluntariamente?
Por definição, a palilalia é involuntária. Pacientes com algum grau de insight e função cognitiva preservada podem desenvolver, com terapia fonoaudiológica, estratégias para reduzir sua frequência – como fazer uma pausa consciente após a frase, controlar a velocidade da fala ou usar técnicas de respiração – mas não conseguem simplesmente "ordenar" sua cessação como um ato voluntário simples.

4. Palilalia e ecolalia são a mesma coisa?
Não. São fenômenos distintos. Na palilalia, o paciente repete suas próprias palavras ou frases. Na ecolalia, o paciente repete as palavras ou frases de outra pessoa. Ambos são automáticos e involuntários, mas a fonte da repetição é diferente.

5. A palilalia tem cura?
A palilalia como sintoma isolado não tem uma "cura" específica. Sua melhora ou remissão depende do tratamento eficaz da condição de base que está causando o fenômeno. Por exemplo, se for devido a epilepsia do lobo frontal, o controle das crises com medicamentos antiepilépticos pode abolir a palilalia. Em doenças neurodegenerativas como Parkinson ou Alzheimer, o tratamento pode melhorar outros sintomas, mas a palilalia pode persistir como um sintoma crônico, sendo mais manejada que curada.

6. Como devo reagir quando alguém tem um episódio de palilalia durante uma conversa?
A melhor abordagem é manter a calma e a paciência. Evite interromper bruscamente ou dizer "você já disse isso". Permita que o ciclo de repetição se complete naturalmente. Depois, responda ao conteúdo da mensagem inicial que o paciente transmitiu antes da repetição. Isso mostra que você está ouvindo o conteúdo, não apenas o sintoma. Em contextos clínicos ou com familiares, essa abordagem reduz a ansiedade e mantém a fluência da comunicação.

7. A palilalia ocorre em crianças?
É muito menos comum em crianças como sintoma isolado. Em crianças, distúrbios de repetição da linguagem são mais frequentemente ecolalia, que pode ser parte do desenvolvimento normal da linguagem ou associada a condições como o Transtorno do Espectro do Autismo. A palilalia em crianças pode ocorrer em contextos muito específicos, como em sequelas de lesões cerebrais graves ou em doenças neurológicas progressivas raras na infância.

8. Existe medicamento específico para tratar a palilalia?
Não existe um medicamento desenvolvido especificamente para tratar a palilalia. O uso de medicamentos é sempre dirigido à doença primária (e.g., levodopa para Parkinson, antipsicóticos para esquizofrenia, antiepilépticos para epilepsia). Em alguns casos, medicamentos que modulam sistemas neurotransmissores envolvidos no controle motor e cognitivo (como dopamina, acetilcolina) podem, indiretamente, reduzir a frequência ou intensidade da palilalia.

Referências

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  • Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
  • Berthier, M.L., et al. "Memantine and constraint-induced language therapy for chronic poststroke aphasia: A randomized controlled trial." Neurology, 2017. (Mecanismos neuronais das ecolalias e fenômenos relacionados).
  • Yasuda, Y., et al. "Palilalia and repetitive speech in two patients with left thalamic infarction." Journal of Neurology, Neurosurgery & Psychiatry, 1990.
  • Cho, A., et al. "Ictal palilalia, ecolalia, and ecopraxia in a patient with left frontal lobe epilepsy." Epilepsy & Behavior, 2009.
  • Kobierska, M., et al. "Coprolalia in Tourette syndrome." Neurologia i Neurochirurgia Polska, 2014.
  • Magnin, E., et al. "Language disorders in dementia." Revue Neurologique, 2018.

Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.

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