Palilalia em Paralisia Supranuclear Progressiva

Definição e conceito

A palilalia é um fenômeno da linguagem caracterizado pela repetição automática, involuntária e estereotipada de palavras ou frases que o próprio indivíduo acabou de emitir em seu discurso. Descrita inicialmente pelo neurologista francês Alexandre-Achille Cyprien Souques em 1908, ela se insere no espectro dos transtornos da fluência e da prosódia, classificando-se como uma estereotipia verbal. Na semiologia psiquiátrica e neurológica, a palilalia é um sinal "soft" ou "duro" que aponta para uma desorganização dos circuitos neurais responsáveis pelo controle executivo e inibitório da fala, frequentemente associada a lesões ou disfunções nos sistemas fronto-subcorticais.

A terminologia técnica é crucial para o diagnóstico diferencial:

  • Palilalia (EN: Palilalia): Repetição das próprias palavras/frases.
  • Ecolalia (EN: Echolalia): Repetição das palavras/frases de outrem.
  • Logoclonia (EN: Logoclonia): Repetição específica das últimas sílabas de uma palavra.
  • Perseveração verbal (EN: Verbal perseveration): Repetição inadequada de uma resposta a um estímulo anterior, persistindo em contextos novos. Reflete mais um déficit no controle inibitório e na flexibilidade mental.
  • Coprolalia (EN: Coprolalia): Emissão involuntária de palavras obscenas ou socialmente inapropriadas, típica (mas não exclusiva) da Síndrome de Tourette.

Na Paralisia Supranuclear Progressiva (PSP), a palilalia não é um sintoma de apresentação universal, mas sua ocorrência é significativa e clinicamente relevante. A PSP é um parkinsonismo atípico (ou síndrome parkinsoniana plus) de etiologia neurodegenerativa, caracterizada clinicamente pela tríade clássica: paralisia supranuclear do olhar vertical (dificuldade voluntária de olhar para baixo e, posteriormente, para cima), rigidez axial proeminente (com instabilidade postural e quedas frequentes para trás) e disfunção cognitiva de padrão fronto-subcortical. A palilalia emerge neste contexto como uma manifestação da desintegração dos circuitos fronto-estriatais-talâmicos-frontais, que governam não apenas a motricidade, mas também a programação e a fluência da linguagem.

Dados epidemiológicos específicos sobre a prevalência da palilalia na PSP são escassos na literatura, mas as fontes indicam que ela é um fenômeno "comum" neste quadro, assim como em outras condições que afetam o sistema extrapiramidal, como a Doença de Parkinson e a Doença de Huntington. Sua presença auxilia na diferenciação clínica entre parkinsonismos, sendo mais sugestiva de PSP ou outros parkinsonismos atípicos do que da Doença de Parkinson idiopática.

Apresentação clínica

A manifestação da palilalia na PSP é tipicamente um fenômeno tardio no curso da doença, surgindo à medida que a degeneração progride para regiões corticais frontais e seus circuitos de conexão. Sua apresentação é distinta e observável durante a entrevista clínica e o exame do estado mental.

Domínio Cognitivo/Linguístico:
A palilalia na PSP ocorre de forma involuntária e mecânica. O paciente, após completar uma frase ou pensamento, repete a última palavra ou um conjunto de palavras finais, geralmente com uma prosódia plana e velocidade acelerada. Por exemplo, ao responder "Eu vim de táxi", ele pode acrescentar "…de táxi, de táxi, de táxi". A repetição pode ocorrer em séries de 2 a 5 vezes. É crucial notar que o paciente não tem consciência plena do fenômeno ou, se tem, não consegue inibi-lo voluntariamente. Este sintoma coexiste com outros distúrbios da linguagem típicos da síndrome disejecutiva da PSP, como:

  • Bradifrenia: Lentidão do processamento do pensamento.
  • Redução da fluência verbal: Dificuldade em gerar palavras, especialmente em testes de fluência categórica (animais) ou fonêmica (palavras com F, A, S).
  • Aprosódia: Perda da melodia da fala, tornando-a monótona, sem variações de altura (agudo-grave) e com amplitude reduzida dos contornos prosódicos. A voz pode ser hipofônica.
  • Perseverações: Não apenas verbais, mas também em tarefas motoras ou de raciocínio.

Domínio Comportamental/Motor:
A palilalia é apenas um componente de um quadro motor complexo. Ela está inserida no contexto de:

  • Paralisia Supranuclear do Olhar: Dificuldade inicial para olhar para baixo voluntariamente (sinal do "olhar congelado ao descer escadas"), evoluindo para a vertical completa e depois para a horizontal. Os reflexos oculocefálicos (movimento dos olhos ao girar a cabeça) estão preservados, confirmando a origem "supranuclear" (acima dos núcleos oculomotores).
  • Rigidez Axial: Hipertonia plástica predominante no eixo do corpo (pescoço e tronco), contrastando com a rigidez assimétrica e distal da Doença de Parkinson. Isso leva a uma postura rígida e ereta, e a quedas frequentes para trás.
  • Instabilidade Postural Precoce: Dificuldade de equilíbrio e quedas recorrentes, muitas vezes nos primeiros anos da doença.
  • Pseudobulbar: Disfagia, disartria (fala arrastada e imprecisa) e labilidade emocional (riso ou choro inapropriados).

Exemplo Clínico Conciso:
Paciente de 68 anos, com diagnóstico de PSP há 3 anos, é questionado sobre suas atividades diárias. Responde com lentidão: "Hoje… tomei café… fui ao banco… ao banco, ao banco." A fala é monótona, a expressão facial é fixa (hipomimia) e ele mantém a cabeça estendida, com dificuldade evidente em baixar o olhar para encontrar o copo d’água à sua frente.

Neurobiologia e fisiopatologia

A fisiopatologia da palilalia na PSP está intrinsecamente ligada à degeneração seletiva de populações neuronais específicas e seus circuitos associados. A PSP é uma taupatia, caracterizada pelo acúmulo anormal da proteína tau de 4 repetições (isoforma 4R) nos neurônios e células gliais, formando os chamados "emaranhados neurofibrilares" e "corpos astrocitários" (como os "coiled bodies" e os "tufos astrocitários").

Circuitos Envolvidos:

  1. Circuito Fronto-Subcortical (Córtex Pré-Frontal Dorsolateral – Núcleo Caudado – Globo Pálido/Substância Negra pars reticulata – Tálamo – Córtex Pré-Frontal): Este circuito é fundamental para as funções executivas, incluindo a iniciação, planejamento, monitoramento e inibição de respostas. A degeneração no córtex pré-frontal e suas projeções para o estriado (via substância negra pars compacta e locus coeruleus também afetados) leva à perda do controle inibitório sobre padrões motores e verbais estereotipados. A palilalia e as perseverações são entendidas como uma liberação de automatismos verbais devido a esta falha inibitória frontal.
  2. Núcleos da Base e Tálamo: As fontes citam especificamente que a palilalia pode ocorrer em lesões de núcleos subtalâmicos, tálamo medial e mesencéfalo. Na PSP, há uma marcada degeneração de estruturas como o núcleo subtalâmico, o globo pálido e os núcleos pedúnculo-pontinos. O tálamo medial, crucial para a integração de informações límbicas e corticais, também é afetado. Esta patologia subcortical interrompe o processamento e o "gate" (controle de passagem) das informações que retornam ao córtex, contribuindo para a geração de padrões repetitivos.
  3. Tronco Encefálico Superior: A degeneração no colículo superior e nas regiões pré-tectais do mesencéfalo é responsável pela paralisia do olhar vertical. A proximidade anatômica e a progressão da patologia tau ligam, assim, o distúrbio oculomotor ao distúrbio da fala.

Neurotransmissão:
Há um déficit colinérgico significativo (núcleos pedúnculo-pontinos e núcleo basal de Meynert), dopaminérgico (substância negra pars compacta) e noradrenérgico (locus coeruleus). O déficit dopaminérgico contribui para a rigidez e bradicinesia, mas a palilalia responde menos à levodopa do que os sintomas motores da Doença de Parkinson, sugerindo que os déficits colinérgicos e a própria degeneração neuronal cortical e talâmica têm um peso maior em sua gênese.

Evidências de Neuroimagem:
A Ressonância Magnética (RM) estrutural pode mostrar, em estágios moderados, uma atrofia característica do mesencéfalo, com o sinal do "pinguim" ou "morning glory flower" no plano sagital (afinamento da protuberância anterior do mesencéfalo) e no plano axial (atrofia seletiva do tegmento mesencefálico com preservação relativa dos pedúnculos cerebrais). A atrofia do tálamo e do córtex frontal também pode ser observada. Estas alterações estruturais correlacionam-se com a disfunção dos circuitos descritos.

Avaliação clínica e diagnóstico diferencial

Achados ao Exame do Estado Mental:

  • Observação da Fala Espontânea: O examinador deve permitir que o paciente fale livremente, observando a ocorrência de repetições no final das frases. Notar a velocidade (geralmente acelerada nas repetições), o volume (hipofonia) e a prosódia (aprosódia).
  • Testes de Fluência Verbal: Solicitar que o paciente cite o máximo de animais em 1 minuto (fluência semântica) e palavras começando com "F", "A", "S" (fluência fonêmica). Na PSP, o desempenho é pobre (< 10-12 palavras por categoria), e podem ocorrer perseverações (repetir a mesma palavra) ou, menos comumente, palilalia durante o teste.
  • Avaliação de Funções Executivas: Teste de Trilhas (Trail Making) B, Teste de Stroop, testes de sequenciamento motor (Luria). Déficits são esperados.
  • Exame de Linguagem: Avaliar compreensão, repetição, nomeação e leitura para afastar afasia. Na PSP, a linguagem é preservada em seus aspectos centrais, mas é "desorganizada" em sua produção.

Instrumentos e Escalas:

  • Escala de Avaliação da Paralisia Supranuclear Progressiva (PSP Rating Scale): Avalia domínios como história, mentação, bulbar, ocular, movimentação, marcha e postura. Sintomas de linguagem são abordados.
  • Mini-Exame do Estado Mental (MEEM) e MoCA (Montreal Cognitive Assessment): Úteis para rastrear déficit cognitivo global, mas pouco sensíveis à síndrome disejecutiva pura. O MoCA é superior para funções executivas.
  • Escala de Avaliação Frontal (FRS – Frontal Assessment Battery): Mais específica para avaliar funções frontais.
  • Gravação de Áudio: Pode ser útil para documentar e analisar a prosódia e a ocorrência de palilalia.

Diagnóstico Diferencial Estruturado:
A palilalia é um sinal inespecífico. Sua correta interpretação depende do contexto sindrômico.

Condição Características Distintivas Mecanismo/Mecanismo da Palilalia
Paralisia Supranuclear Progressiva Paralisia do olhar vertical, rigidez axial, quedas para trás precoces, síndrome disejecutiva proeminente. Degeneração fronto-subcortical e talâmica (taupatia 4R). Perda de controle inibitório frontal.
Doença de Parkinson com Demência Tremor de repouso, assimetria motora, resposta inicial boa à levodopa. Demência surge >1 ano após sintomas motores. Disfunção dopaminérgica e colinérgica. Pode ocorrer, mas menos proeminente.
Demência com Corpos de Lewy Flutuações cognitivas, alucinações visuais bem formadas, parkinsonismo, transtorno comportamental do sono REM. Confusão, incoerência e perseverações são mais comuns na conversação.
Afasia Não-Fluente/Progressiva Primária Déficit primário e progressivo da produção da fala, com agramantismo e esforço articulatório. Sem parkinsonismo inicial. Degeneração cortical perisilviana esquerda. A palilalia é rara; a fala é telegráfica e não repetitiva.
Síndrome de Tourette Início na infância/adolescência. Múltiplos tiques motores e vocais. Coprolalia em minoria. Desregulação dos circuitos córtico-estriato-tálamo-corticais. Tiques vocais são mais variados.
Estados Catatônicos Estupor, flexibilidade cerácea, negativismo, ecolalia, ecopraxia. Pode ser decorrente de esquizofrenia, humor ou condições médicas. Desconhecido, envolvendo circuitos GABAérgicos e glutamatérgicos. A ecolalia é mais típica.
Epilepsia do Lobo Frontal Crises parciais complexas breves, com automatismos bizarros, vocalizações. A palilalia pode ser um fenômeno ictal. Irritação cortical frontal esquerda durante a crise epiléptica.
Efeitos de Neurolépticos Parkinsonismo induzido, discinesia tardia (movimentos orofaciais involuntários). Bloqueio dopaminérgico. A palilalia não é típica; mais comum discinesia orofacial.

Armadilhas Diagnósticas Comuns:

  1. Confundir com Ecolalia: A ecolalia (repetição do outro) é mais comum no autismo, demências avançadas e catatonia. A palilalia é autorrepetição.
  2. Atribuir à Depressão: A depressão pode causar bradifrenia, bradilalia e redução da fluência, mas não a repetição estereotipada e involuntária de palavras.
  3. Ignorar o Contexto Motor: Isolar a palilalia sem considerar os sinais oculomotores e posturais pode levar a diagnósticos errôneos como "doença psiquiátrica funcional" ou "demência primária".
  4. Supervalorizar a Resposta à Levodopa: A PSP tem resposta pobre e transitória à levodopa. A ausência de melhora dramática não exclui o diagnóstico de parkinsonismo, mas o redefine como atípico.

Condições associadas

Conforme as fontes, a palilalia é um fenômeno que ocorre em diversas condições que afetam o sistema nervoso central, especialmente aquelas com comprometimento dos sistemas extrapiramidal e frontal:

  1. Parkinsonismos Atípicos (PSP, Degeneração Corticobasal, Atrofia de Múltiplos Sistemas): Compartilham a degeneração de circuitos fronto-subcorticais.
  2. Doenças do Sistema Extrapiramidal: Doença de Parkinson (especialmente em estágios avançados ou com demência), Doença de Huntington.
  3. Demências: Demência Frontotemporal (variante comportamental e afasia progressiva primária), Demência Vascular com lesões estratégicas, Doença de Alzheimer em fases moderadas/avançadas, Demência com Corpos de Lewy. Cheniaux (2021) lista a palilalia como um fenômeno encontrado na demência.
  4. Lesões Estruturais: Como citado em Dalgalarrondo (2018), infartos no tálamo medial, núcleos subtalâmicos e mesencéfalo.
  5. Condições Epilépticas: Epilepsia do lobo frontal esquerdo, onde a palilalia pode ser uma manifestação ictal.
  6. Síndromes Psiquiátricas: Embora menos comum, pode ocorrer em contextos de catatonia (esquizofrenia catatônica, catatonia por humor) e em transtornos do espectro do autismo (geralmente associada à ecolalia).

Na CID-11, a PSP está classificada em 8A00.0 Paralisia supranuclear progressiva, dentro dos Transtornos do Sistema Nervoso. A palilalia não tem um código próprio, sendo registrada como um sintoma associado. No DSM-5-TR, a PSP é mencionada no capítulo de Transtornos Neurocognitivos, sob "Transtorno Neurocognitivo Maior ou Leve Devido a Outra Condição Médica", sendo a PSP a condição médica especificada.

Implicações terapêuticas

O tratamento da palilalia na PSP é sintomático e de suporte, uma vez que não há terapia modificadora da doença. O manejo foca no quadro global.

Abordagens Farmacológicas:

  • Levodopa: Pode ser tentada em doses moderadas-altas. Uma resposta motora parcial e transitória ocorre em cerca de 30-40% dos pacientes, mas o impacto na palilalia é geralmente mínimo.
  • Anticolinesterásicos (Rivastigmina, Donepezil): Baseando-se no déficit colinérgico e na sobreposição sintomática com a demência fronto-subcortical, podem ser utilizados. Podem trazer discreta melhora na cognição e no comportamento, mas evidências para a palilalia são anedóticas. Monitorar efeitos colaterais gastrointestinais.
  • Antidepressivos ISRS: Úteis para sintomas depressivos e labilidade emocional, comuns na PSP. A melhora do humor pode indiretamente melhorar a comunicação.
  • Toxina Botulínica: Para blefarospasmo (fechamento involuntário das pálpebras), comum na PSP.
  • Medicações Sintomáticas: Para sialorreia (escopolamina, glicopirrolato tópico), disfagia (manejo por fonoaudiólogo), constipação.

Abordagens Não-Farmacológicas (Fundamentais):

  • Fonoaudiologia: É a intervenção mais direta. O fonoaudiólogo pode trabalhar técnicas para: 1) Consciência do fenômeno (usando gravações); 2) Estratégias de pausa e ritmo para quebrar o ciclo automático; 3) Treino de respiração e prosódia; 4) Manejo da disfagia e disartria.
  • Terapia Ocupacional: Adaptações ambientais para quedas, auxílios para comunicação (cartões, tablets).
  • Fisioterapia: Foco em equilíbrio, transferências e prevenção de quedas. Exercícios para alongamento da musculatura axial.
  • Suporte e Educação Familiar: Orientar a família a não interromper o paciente durante as repetições, a falar pausadamente, a usar comunicação não-verbal e a entender que o fenômeno é involuntário.

Impacto Prognóstico e na Resposta:
A presença de palilalia é um marcador de maior gravidade e progressão da doença, indicando envolvimento mais extenso dos circuitos frontais. O prognóstico da PSP é reservado, com sobrevida média de 5-9 anos após o diagnóstico. A palilalia, junto com a disfagia grave, contribui para o isolamento social e a redução da qualidade de vida. A resposta a qualquer tratamento é limitada, reforçando a necessidade de um manejo multidisciplinar paliativo e de suporte desde o diagnóstico.

Perspectiva do paciente e comunicação clínica

Vivenciando a Palilalia: Inicialmente, o paciente pode não perceber as repetições. Familiares são os primeiros a notar que ele "fica preso" nas palavras. Com a progressão, o paciente pode tomar consciência, gerando sentimentos de frustração, vergonha e impotência. A sensação é de perda de controle sobre a própria fala, como se a boca "repetisse sozinha". Isso leva a uma evitação de conversas, especialmente com estranhos, por medo do constrangimento. A fala monótona e a face inexpressiva podem ser erroneamente interpretadas como depressão ou desinteresse, agravando o isolamento.

Comunicação Clínica com o Paciente e Família:

  1. Validação e Normalização: Explicar que a palilalia é um sintoma neurológico da doença, como a rigidez ou a dificuldade de olhar, e não um "defeito" ou "frescura" do paciente. "Isso que o senhor descreve, de repetir as palavras, é algo que acontece por causa das alterações que a PSP causa no cérebro. É comum e involuntário."
  2. Educação Clara: Usar linguagem acessível para diferenciar palilalia de gagueira, ecolalia ou "esclerose". Enfatizar o caráter automático.
  3. Estratégias Práticas para o Familiar:
    • Paciência: Não apressar, não completar a frase, não dizer "pare de repetir".
    • Contato Visual e Calma: Manter contato visual (ajustando-se à limitação do paciente) e uma postura calma.
    • Confirmação Suave: Após a repetição, confirmar o entendimento com uma pergunta simples. "Então você foi ao banco. Conseguiu resolver o que precisava?"
    • Comunicação Não-Verbal: Incentivar o uso de gestos, anotações ou aplicativos de voz quando a fala estiver muito comprometida.
  4. Inclusão do Paciente: Mesmo com a fala comprometida, dirigir-se diretamente ao paciente durante as consultas, garantindo seu lugar como protagonista do cuidado.

Impacto Funcional:

  • Relacionamentos: A comunicação é a base dos relacionamentos. A palilalia, somada à aprosódia e à hipomimia, dificulta a expressão emocional e o diálogo fluido, podendo levar a mal-entendidos e afastamento de amigos.
  • Trabalho: A capacidade laboral é comprometida muito cedo, não apenas pela palilalia, mas pelo conjunto de sintomas motores e cognitivos.
  • Qualidade de Vida: Há uma redução significativa na autonomia e no engajamento em atividades sociais e de lazer. O suporte fonoaudiológico e psicológico (para paciente e cuidador) é essencial para mitigar este impacto.

Perguntas frequentes

1. A palilalia é uma forma de gagueira?
Não. A gagueira do desenvolvimento é um distúrbio da fluência caracterizado por bloqueios, prolongamentos e repetições de sons ou sílabas no início das palavras, frequentemente com ansiedade antecipatória. A palilalia é a repetição involuntária de palavras ou frases completas no final da emissão, sem ansiedade associada, e é causada por uma doença neurológica adquirida.

2. Meu familiar com PSP repete o que eu digo (ecolalia) e também o que ele mesmo diz (palilalia). Isso é possível?
Sim. Embora a palilalia seja mais típica, alguns pacientes podem apresentar ecolalia, especialmente em estágios mais avançados ou quando há um componente significativo de disfunção frontal. Ambos os fenômenos compartilham a base fisiopatológica de perda do controle inibitório sobre os mecanismos de repetição da linguagem.

3. Existe remédio para fazer a palilalia parar?
Não existe um medicamento específico para eliminar a palilalia. O manejo é feito através do tratamento global da PSP, que pode incluir medicamentos para os sintomas motores e cognitivos, e, principalmente, através da terapia fonoaudiológica, que pode ajudar o paciente a desenvolver estratégias para minimizar as repetições.

4. A palilalia significa que a demência está piorando?
A palilalia é um indicador de que há um comprometimento significativo dos circuitos frontais e subcorticais. Sua aparição ou piora geralmente coincide com a progressão global da doença, incluindo a piora dos sintomas motores e cognitivos. Portanto, pode ser entendida como um marcador de estágio mais avançado.

5. Como devo agir quando meu pai começar a repetir as palavras durante uma conversa?
Aja com naturalidade e paciência. Espere ele terminar o ciclo de repetições. Não o interrompa nem termine a frase por ele. Assim que ele parar, faça um comentário ou pergunta que dê continuidade ao assunto, demonstrando que você o entendeu. Por exemplo: se ele diz "Fui ao mercado… mercado, mercado", você pode responder "Ótimo. Comprou frutas?".

6. A palilalia acontece em todos os casos de PSP?
Não. É um sintoma comum, mas não universal. Sua presença ou ausência não confirma nem exclui o diagnóstico, que é baseado no conjunto de sinais clínicos, principalmente a paralisia do olhar vertical e a rigidez axial.

7. Isso pode ser efeito colateral de algum remédio que ele toma?
A palilalia típica da PSP é um sintoma da doença neurodegenerativa. No entanto, alguns neurolépticos (antipsicóticos) podem causar parkinsonismo e, raramente, discinesias orofaciais que podem ser confundidas com distúrbios da fala. É fundamental que qualquer medicação seja revisada pelo neurologista ou psiquiatra assistente.

8. A palilalia tem alguma relação com a dificuldade de engolir (disfagia)?
Sim, mas não diretamente. Ambas – palilalia e disfagia – são sintomas que refletem o comprometimento dos circuitos que controlam a motricidade complexa. A palilalia afeta a motricidade da fala, a disfagia afeta a motricidade da deglutição. Ambas progridem com a doença e requerem acompanhamento especializado (fonoaudiologia).

Referências

  • Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018. (pp. 447, 449-450, 456).
  • Cheniaux, E. Manual de Psicopatologia. 6ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021. (pp. 122, 127).
  • American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). 5ª ed. texto revisado. Porto Alegre: Artmed, 2022.
  • Organização Mundial da Saúde. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-11). 2022.
  • Litvan, I., et al. "Clinical research criteria for the diagnosis of progressive supranuclear palsy (Steele-Richardson-Olszewski syndrome)." Neurology, vol. 47, no. 1, 1996, pp. 1-9.
  • Höglinger, G.U., et al. "Clinical diagnosis of progressive supranuclear palsy: The movement disorder society criteria." Movement Disorders, vol. 32, no. 6, 2017, pp. 853-864.
  • Boxer, A.L., et al. "Advances in progressive supranuclear palsy: new diagnostic criteria, biomarkers, and therapeutic approaches." The Lancet Neurology, vol. 16, no. 7, 2017, pp. 552-563.

Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.

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