Definição e conceito
O mutismo na Síndrome de Landau-Kleffner (SLK) é um sintoma nuclear que se caracteriza por uma perda adquirida da linguagem expressiva e receptiva, tipicamente precedida por um período de desenvolvimento normal da fala. Na semiologia psiquiátrica e neurológica, o mutismo é definido como a ausência de resposta verbal oral por parte de um paciente que está desperto e consciente, sem comprometimento motor periférico que justifique a incapacidade de falar. Na SLK, este mutismo é de natureza afásica, resultando de uma disfunção epileptogênica cortical que afeta especificamente as redes neurais da linguagem.
A SLK é classificada como uma epilepsia afásica, enquadrando-se dentro do espectro das encefalopatias epilépticas relacionadas com a idade. O termo "afasia epiléptica adquirida" ou "epilepsia afásica" descreve com precisão o fenômeno central: uma regressão aguda ou subaguda das habilidades linguísticas diretamente associada a atividade epileptiforme cerebral contínua, predominantemente durante o sono (descargas contínuas durante o sono lento – CSWS, do inglês Continuous Spikes and Waves during Slow Sleep). A terminologia técnica inclui:
- Mutismo afásico: Perda completa da fala devido a uma disfunção cortical específica das áreas da linguagem, distinguindo-se de mutismos psicogênicos, catatônicos ou por déficit motor.
- Agnosia verbal auditiva (AVA): Componente chave da SLK. Refere-se à perda da capacidade de compreender a linguagem falada, apesar da audição periférica intacta. O paciente ouve os sons, mas não os decodifica como palavras com significado. Esta é frequentemente a primeira manifestação, evoluindo para o comprometimento expressivo e, potencialmente, para o mutismo.
- Epilepsia Rolândica com Disfunção da Linguagem (ERDL): Conceito relacionado que descreve uma sobreposição de características entre a SLK e a epilepsia rolândica benigna, onde déficits de linguagem podem ocorrer.
Dados epidemiológicos indicam que a SLK é uma condição rara, com incidência estimada em cerca de 0,2% das epilepsias infantis. A idade de início típica situa-se entre os 3 e os 8 anos, com pico entre 5 e 7 anos. Há uma discreta predominância no sexo masculino (proporção aproximada de 1,5:1). O prognóstico da linguagem é variável, mas a maioria dos pacientes mantém algum grau de déficit residual na vida adulta, especialmente se o diagnóstico e intervenção forem tardios.
Apresentação clínica
A apresentação clínica é bifásica, iniciando-se com a perda das habilidades linguísticas previamente adquiridas, frequentemente precedida ou acompanhada por crises epilépticas.
Domínio Cognitivo/Linguístico:
- Fase Prodrômica: A criança, com desenvolvimento normal prévio, começa a apresentar dificuldade para compreender comandos verbais simples. Pais relatam que a criança "parece não ouvir" ou "está desatenta", levando a suspeitas iniciais de perda auditiva ou transtorno do processamento auditivo. Esta é a manifestação da agnosia verbal auditiva.
- Regressão da Linguagem Expressiva: Segue-se uma deterioração progressiva da fala espontânea. A linguagem torna-se não fluente, com frases curtas, agramáticas (perda de artigos, preposições, conjugações verbais), e erros parafásicos (substituição de palavras ou sílabas). A criança pode parar de falar espontaneamente, responder com monossílabos ou ecolalia (repetição automática do que foi ouvido).
- Mutismo Afásico: Em casos graves, evolui para o mutismo. A criança não inicia fala e não responde a estímulos verbais, embora possa manter contato visual e usar gestos ou sinais não verbais para se comunicar. Este mutismo é adquirido e seletivo para a modalidade verbal.
- Alterações da Prosódia: A fala residual pode apresentar aprosódia ou hipoprosódia (perda da melodia e entonação da fala), soando monótona e mecânica.
- Comprometimento da Leitura e Escrita (Alexia/Agraphia): Habilidades de literacia adquiridas podem regredir paralelamente.
Domínio Comportamental e Afetivo:
- Hiperatividade e Desatenção: Comportamentos de TDAH são comuns, provavelmente secundários à frustração da não compreensão e ao próprio processo epiléptico.
- Sintomas do Espectro Autista: Isolamento social, estereotipias motoras e irritabilidade podem emergir, configurando um diagnóstico diferencial complexo. Estas características são consideradas secundárias à privação linguística e à desorganização cerebral.
- Ansiedade e Frustração: A criança torna-se ansiosa, especialmente em situações onde se espera comunicação. A ansiedade relacionada ao ato de falar é um componente significativo, podendo exacerbar o mutismo funcionalmente.
- Sintomas Psicóticos Transitórios: Em raras ocasiões, alucinações ou ideias delirantes podem ocorrer, possivelmente relacionadas à atividade epileptiforme límbica.
Domínio Somático/Neurológico:
- Crises Epilépticas: Ocorrem em aproximadamente 70-80% dos casos. São tipicamente crises focais motoras noturnas (envolvendo a face ou membros), crises tônico-clônicas generalizadas ou crises atípicas de ausência. É crucial notar que as crises podem ser pouco frequentes ou mesmo ausentes em cerca de 20-30% dos casos, mas o EEG é sempre anormal.
- Exame Neurológico: Geralmente normal. Não há paralisias ou déficits motores grosseiros que expliquem o mutismo.
Exemplo Clínico Conciso:
Menino de 6 anos, com desenvolvimento típico prévio e vocabulário adequado para a idade. Nos últimos 4 meses, os pais notam que ele não atende quando chamado pelo nome, parece "desligado" e começou a falar menos. Sua fala, antes fluente, reduziu-se a frases de 2-3 palavras ("quer água", "caiu bola"). Há duas semanas, após um episódio de "ausência" durante o dia, parou de falar completamente. Não responde a perguntas verbais, mas puxa a mãe até a geladeira quando tem sede e brinca adequadamente com quebra-cabeças. O exame neurológico é normal. O EEG de 24 horas revela descargas epileptiformes contínuas nas regiões temporais e parietais bilaterais durante mais de 85% do sono de ondas lentas.
Neurobiologia e fisiopatologia
A fisiopatologia da SLK centra-se na interferência de atividade epileptiforme contínua nas redes de plasticidade sináptica das áreas corticais responsáveis pela aquisição e manutenção da linguagem.
Localização e Circuitos:
As evidências apontam para um envolvimento bilateral das regiões perisilvianas (áreas em torno da fissura de Sylvius), com predomínio ou envolvimento crítico dos giros temporais superiores (onde se localiza a área de Wernicke, fundamental para a compreensão). A atividade epileptiforme, manifestada como ponta-onda contínua durante o sono lento, atua como um "ruído elétrico" que interrompe os processos de consolidação neural que ocorrem predominantemente durante o sono. Esta interferência é particularmente deletéria em cérebros em desenvolvimento, onde a plasticidade para a linguagem é máxima.
Mecanismos Neurofisiológicos:
- Inibição da Plasticidade Sináptica: As descargas contínuas impedem o fenômeno de potenciação de longo prazo (LTP), essencial para a aprendizagem e fixação de memórias, incluindo as memórias lexicais e semânticas.
- Ativação Patológica de Mecanismos de Depotenciação: Pode haver uma indução anormal de depressão de longo prazo (LTD), levando ao "apagamento" de conexões sinápticas previamente estabelecidas para a linguagem.
- Disfunção das Oscilações Neurais Fisiológicas: O sono de ondas lentas e os fusos de sono, cruciais para a consolidação da memória declarativa, são substituídos por padrões epileptiformes patológicos.
- Conectividade Funcional Anormal: Estudos de neuroimagem funcional (fMRI, PET) mostram hipometabolismo e redução do fluxo sanguíneo nas regiões temporais e parietais, bem como uma desorganização das redes de conectividade entre essas áreas e o lobo frontal (incluindo a área de Broca).
Neurotransmissão:
Embora não totalmente elucidada, a desregulação do equilíbrio excitatório/inibitório (E/I) é central. Há evidências de envolvimento do sistema GABAérgico (principal inibitório), com uma possível falha na inibição surround que permitiria a propagação das descargas. Drogas que modulam os receptores GABA-A, como os benzodiazepínicos, são terapêuticas, corroborando esta hipótese. O sistema glutamatérgico (excitatório) também está implicado, com uma possível hiperatividade que sustentaria a atividade epileptiforme.
Evidências de Neuroimagem:
A ressonância magnética estrutural é frequentemente normal, o que é um dado crucial para o diagnóstico diferencial. Achismos incidentais não são raros, mas não são necessários para o diagnóstico. A ressonância magnética funcional (fMRI) e a tomografia por emissão de pósitrons (PET) podem mostrar:
- Hipometabolismo (redução do consumo de glicose) nas regiões temporais superiores e córtex auditivo primário bilateral.
- Ativação anômala de áreas alternativas durante tarefas de linguagem (e.g., ativação do hemisfério direito ou de áreas frontais não usuais), refletindo tentativas de reorganização neural.
Modelo Explicativo Integrado:
O modelo atual propõe que uma pré-disposição genética (poligênica, com possíveis mutações em genes como GRIN2A) leve a uma vulnerabilidade do córtex auditivo e de linguagem. Um fator desencadeante (e.g., infecção, febre, estresse) inicia uma cascata epiléptica focal. As descargas, ao se propagarem bilateralmente durante o estado de máxima plasticidade sináptica (o sono), inibem competitivamente o funcionamento normal dessas áreas. A linguagem, uma função de alta complexidade e dependente de redes sincronizadas precisas, é a mais vulnerável a esta desorganização elétrica, resultando em agnosia verbal e, subsequentemente, em mutismo afásico.
Avaliação clínica e diagnóstico diferencial
Achados ao Exame do Estado Mental:
- Aparência e Comportamento: Criança desperta, com contato ocular preservado, mas apática ou irritável. Pode haver maneirismos ou estereotipias.
- Fala e Linguagem:
- Mutismo: Ausência de fala espontânea ou em resposta a perguntas.
- Teste de Compreensão: Falha grave em seguir comandos verbais simples ("pegue a bola", "aponte para a luz"), apesar de responder a gestos ou sons não verbais (bater palmas). Confirma a agnosia verbal.
- Nomeação: Incapacidade de nomear objetos comuns.
- Repetição: Incapacidade de repetir palavras ou frases.
- Leitura e Escrita: Comprometidas de acordo com o nível de aquisição prévio.
- Prosódia: Aprosódia na fala residual.
- Pensamento: Inacessível devido ao mutismo. Em crianças que recuperam parcialmente a fala, pode-se observar pobreza ideativa.
- Cognição: Funções não verbais (raciocínio visuoespacial, memória para faces) podem estar relativamente preservadas, mas testes formais são difíceis.
- Insight: Ausente para o déficit de linguagem.
Instrumentos e Escalas de Avaliação Padronizadas:
- EEG Prolongado com Sono (Padrão-Ouro): Deve incluir ciclo completo de sono-vigília, preferencialmente com vídeo. O achudo diagnóstico é a atividade epileptiforme contínua durante o sono lento (CSWS), definida como descargas de ponta-onda ocupando >85% do traço de sono de ondas lentas. As descargas são tipicamente bilaterais, independentes ou síncronas, com máxima amplitude nas regiões temporoparietais.
- Avaliação Audiológica Completa: Para excluir perda auditiva periférica como causa da não-responsividade verbal.
- Avaliação Neuropsicológica: Para quantificar o déficit de linguagem (receptiva e expressiva) e avaliar funções cognitivas não verbais. Escalas como a PLAI-2 (Preschool Language Assessment Instrument) ou a CELF-5 (Clinical Evaluation of Language Fundamentals) são úteis.
- Escalas Comportamentais: CBCL (Child Behavior Checklist) para rastrear sintomas de TDAH, ansiedade e traços do espectro autista.
Diagnóstico Diferencial Estruturado:
| Condição | Mecanismo do Mutismo/Déficit de Linguagem | Achados Diferenciais Chave |
|---|---|---|
| Transtorno do Espectro Autista (TEA) | Déficit neurodesenvolvimental primário da comunicação social. Mutismo seletivo ou atraso global. | Prejuízo social recíproco desde a primeira infância. Padrões restritos/repetitivos. EEG geralmente normal ou com achados inespecíficos. |
| Mutismo Seletivo | Transtorno de ansiedade. Incapacidade de falar em contextos sociais específicos. | Fala normal em ambientes familiares (e.g., em casa). Compreensão preservada. Ausência de regressão. EEG normal. |
| Afasia Global por AVC/Trauma | Lesão estrutural extensa das áreas de linguagem perisilvianas esquerdas. | Início abrupto. Frequente associação com hemiparesia direita. Ressonância magnética mostra lesão aguda. |
| Esquizofrenia de Início Precoce com Sintomas Catatônicos | Psicose. Mutismo catatônico como parte de um espectro de sintomas motores. | Presença de outros sintomas psicóticos (alucinações, delírios). Estupor, flexibilidade cérea, negativismo. EEG não mostra padrão CSWS. |
| Transtorno Conversivo (Mutismo Dissociativo) | Mecanismo psicogênico. Perda da função sem base orgânica. | História de estressor psicológico. Incongruência nos exames. Preservação da fala em situações não observadas (e.g., sono). EEG normal. |
| Encefalite Autoimune (e.g., anti-NMDAR) | Inflamação cerebral com envolvimento límbico e cortical. | Sintomas psiquiátricos proeminentes (agitação, psicose), discinesias, instabilidade autonômica. LCR com pleocitose/autoanticorpos. |
| Demências Infantis (e.g., Doença de Batten) | Degeneração neuronal progressiva. | Regressão global (motora, cognitiva), não apenas linguística. Perda visual, convulsões mioclônicas. EEG com padrões degenerativos. |
Armadilhas Diagnósticas Comuns:
- Atribuir o Mutismo a "Autismo Regressivo": Esta é a principal armadilha. A SLK é uma condição adquirida com EEG específico. A regressão no autismo típico ocorre antes dos 3 anos e não é acompanhada de CSWS no EEG.
- Subvalorizar Crises Epilépticas Subtis: Ausências atípicas ou crises focais noturnas podem passar despercebidas. A história deve investigar minuciosamente "ausências", "sustos", "engasgos" noturnos ou movimentos rítmicos faciais.
- Concluir por "Surdez" após Audiometria Normal: A agnosia verbal auditiva é um déficit central, não periférico. O profissional deve saber diferenciar "não ouve" (surdez) de "ouve, mas não entende" (agnosia).
- Ignorar o EEG por Ausência de Crises Clínicas: Até 30% dos casos podem não ter crises motoras evidentes. O EEG com sono é mandatório em qualquer criança com regressão adquirida de linguagem.
Condições associadas
O mutismo na SLK é, por definição, associado a esta síndrome específica. No entanto, o sintoma "mutismo" isoladamente, conforme descrito nas fontes, ocorre em uma ampla gama de condições, o que fundamenta o diagnóstico diferencial:
- Epilepsias e Encefalopatias Epilépticas: Além da SLK, mutismo pode ocorrer em fases iniciais de afasias transitórias pós-ictais, no estado epiléptico não convulsivo e em outras encefalopatias epilépticas como a Síndrome de West ou Lennox-Gastaut.
- Afasias (de Acordo com Dalgalarrondo): Mutismo pode marcar o início de afasia transcortical motora (lesão da área motora suplementar) ou afasias subcorticais (lesões tálamo ou gânglios da base), evoluindo depois para fala lenta e hipofônica. Também ocorre nas fases iniciais da afemia/anartria.
- Esquizofrenia Catatônica (Cheniaux): O mutismo é um dos sintomas catatônicos clássicos, acompanhado de estupor, negativismo e maneirismos.
- Transtornos do Humor (Cheniaux): Na depressão grave, pode ocorrer oligolalia (fala muito reduzida) ou mutismo, associado a bradilalia, hipofonia e aumento da latência de resposta.
- Transtornos Conversivos e Dissociativos (Cheniaux): O mutismo psicogênico é uma apresentação possível, assim como a afonia histérica (sussurro).
- Demências (Cheniaux, Dalgalarrondo): Em fases avançadas de demências como Alzheimer, o mutismo pode surgir no contexto de uma afasia global progressiva.
- Síndromes Neuropsiquiátricas (Dalgalarrondo): A síndrome apático-abúlica, encontrada na esquizofrenia e transtornos de personalidade esquizotípica/ esquizoide, pode apresentar mutismo como parte do embotamento afetivo e da abulia.
Correlações nos Manuais Diagnósticos:
- CID-11: A SLK é codificada em 8A62.0 Epilepsia e síndromes epilépticas de início na infância / 8A62.01 Síndrome de Landau-Kleffner. O mutismo seria um sintoma registrado sob o código do transtorno principal.
- DSM-5-TR: A SLK não tem um código específico. Enquadra-se sob Epilepsia como condição médica geral. Os déficits de linguagem e comportamentais podem ser codificados como Transtorno de Comunicação (Afasia) e/ou Transtorno de Sintomas Neurológicos Funcionais se houver forte componente conversivo, mas a etiologia epiléptica deve ser a principal.
Implicações terapêuticas
O tratamento da SLK é multimodal e urgente, visando suprimir a atividade epileptiforme para permitir a recuperação da plasticidade cerebral.
Abordagens Farmacológicas:
- Antiepilépticos (AE):
- Corticosteroides: Considerados a terapia de primeira linha para o componente de encefalopatia/epilepsia afásica. Prednisona ou metilprednisolona em altas doses (1-2 mg/kg/dia), frequentemente em pulsoterapia, têm maior evidência para melhorar a linguagem e suprimir o EEG. O uso é prolongado (meses) com desmame lento.
- Benzodiazepínicos: Clobazam e clonazepam são eficazes devido à ação no receptor GABA-A. Úteis como adjuvantes.
- Outros AE: Valproato de sódio, levetiracetam, lamotrigina e topiramato são comumente usados. A resposta é variável. Fenobarbital e fenitoína são geralmente menos eficazes e podem piorar a cognição.
- Imunomoduladores: Em casos corticorresistentes, imunoglobulinas intravenosas (IVIg) ou rituximabe podem ser considerados, baseados na hipótese de um componente autoimune em alguns casos.
- Tratamento de Comorbidades: Atomoxetina ou metilfenidato podem ser usados com cautela para sintomas graves de TDAH. ISRS (e.g., sertralina) para ansiedade.
Abordagens Não Farmacológicas:
- Terapia da Linguagem (Fonoaudiologia) Intensiva: Fundamental. Deve ser iniciada imediatamente, focando em comunicação alternativa e aumentativa (CAA) desde o início (e.g., pictogramas, tablets com software de comunicação). A reabilitação da linguagem oral segue paralelamente, explorando vias multimodais (visual, tátil).
- Intervenção Educacional Especializada: Adaptação do ambiente escolar, uso de suportes visuais, redução de demandas auditivas e ensino por vias não verbais.
- Psicoterapia de Suporte: Para a criança (abordagem lúdica, redução da ansiedade) e orientação familiar. A família precisa entender a natureza orgânica do problema, aprender estratégias de comunicação não verbal e manejar o estresse e as expectativas.
- Dieta Cetogênica: Pode ser uma opção em casos refratários aos medicamentos, com evidências de melhora tanto das crises quanto do EEG e da cognição em algumas encefalopatias epilépticas.
- Cirurgia (Raramente): A callosotomia ou a ressecção cortical multifocal são opções de último recurso em casos extremamente refratários e devastadores, com critérios rigorosos.
Impacto Prognóstico e na Resposta ao Tratamento:
O prognóstico da linguagem é guardiado. Fatores de bom prognóstico incluem: início mais tardio (>5 anos), diagnóstico e tratamento precoces (antes de 1 ano do início dos sintomas), presença de crises clínicas (sugerindo menor resistência ao tratamento) e boa resposta inicial dos parâmetros do EEG à terapia. A recuperação é um processo lento (anos). Mesmo com controle das crises e normalização do EEG, déficits residuais de processamento auditivo, dificuldades de aprendizagem da leitura/escrita e problemas de articulação são comuns. O componente comportamental (TDAH, traços autísticos) tende a melhorar com a recuperação da linguagem e o controle da epilepsia, mas pode persistir.
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
Vivência do Paciente:
A criança vivencia um mundo que, subitamente, se torna incompreensível. As vozes dos pais e professores transformam-se em um ruído sem significado. A tentativa de falar resulta em frustração: as palavras não saem, ou saem erradas, gerando estranheza nos outros. A ansiedade é constante – uma sensação de estar preso, incapaz de expressar necessidades, dor ou medo. Com o tempo, pode desenvolver uma apatia comunicativa, desistindo de tentar interagir verbalmente. O uso de gestos ou sinais torna-se a única ponte para o mundo exterior. A criança pode sentir-se isolada e incompreendida, especialmente se diagnosticada erroneamente como "autista" ou "teimosa".
Orientações para Comunicação com Paciente e Família:
- Para a Família:
- Explicar a Doença: Use analogias como "um curto-circuito nas áreas do cérebro que processam a linguagem, que acontece principalmente durante o sono". Enfatize que não é uma doença psiquiátrica primária, nem falta de inteligência ou vontade.
- Estratégias Práticas: Ensine comunicação não verbal: use gestos, expressões faciais exageradas, pictogramas, fotos. Fale em frases curtas e claras, acompanhadas de gestos. Crie um ambiente calmo, com poucos estímulos auditivos competitivos.
- Manejo Comportamental: Compreender que birras e agressividade são frequentemente fruto da frustração comunicativa. Redirecionar para a comunicação alternativa.
- Rede de Apoio: Conectar-se a associações de pacientes (no Brasil, a ABE – Associação Brasileira de Epilepsia pode oferecer suporte). Buscar suporte psicológico para os cuidadores.
- Para a Equipe Clínica (Médico/Psicólogo):
- Consulta: Dirigir-se à criança diretamente, mantendo contato visual. Usar suportes visuais durante a anamnese (desenhos, bonecos). Falar com calma.
- Explicação para a Criança: Adaptar a explicação. "Seu cérebro está fazendo uma atividade elétrica muito forte enquanto você dorme, e isso atrapalha a parte que entende e produz as palavras. O remédio vai ajudar a acalmar essa atividade."
- Incluir a Criança nas Decisões: Mesmo não verbal, oferecer escolhas simples usando imagens (e.g., "qual remédio você prefere tomar? Esta seringa ou este copo?").
Impacto Funcional:
- Educação: A criança é frequentemente excluída do ensino regular sem suporte adequado. O aprendizado fica severamente comprometido sem adaptações.
- Relacionamentos: O isolamento social é profundo. A dificuldade em fazer amizades pode levar a problemas de autoestima e depressão.
- Qualidade de Vida Familiar: O estresse é intenso. Os pais podem viver um luto pela perda das habilidades do filho, além da sobrecarga de cuidados médicos e terapêuticos.
- Vida Adulta: Dependendo da recuperação, pode haver limitações na escolha profissional, necessidade de suporte para vida independente e vulnerabilidade a transtornos de humor e ansiedade.
Perguntas frequentes
1. Meu filho parou de falar do nada. Pode ser Landau-Kleffner?
Sim, é uma possibilidade que deve ser investigada com urgência, principalmente se a criança tinha entre 3 e 8 anos e um desenvolvimento normal prévio. O primeiro passo é uma avaliação neurológica com eletroencefalograma prolongado que inclua o sono. Não espere por crises convulsivas evidentes para buscar ajuda.
2. O mutismo na SLK é igual ao mutismo seletivo?
Não. No mutismo seletivo, a criança escolhe não falar em certas situações (como na escola), mas fala normalmente em ambientes onde se sente segura (em casa). É um transtorno de ansiedade. Na SLK, o mutismo é involuntário e global, decorrente de uma disfunção cerebral que impede fisicamente a compreensão e produção da fala. A criança não fala em nenhum ambiente.
3. Se o EEG normalizar com o tratamento, a linguagem volta ao normal?
Nem sempre, e raramente de forma completa. A normalização do EEG é o objetivo primário e cria as condições para a recuperação. No entanto, a plasticidade cerebral tem um período crítico. Quanto mais tempo o cérebro ficou sob o efeito das descargas, maior o "prejuízo" nas conexões da linguagem. A recuperação exige terapia fonoaudiológica intensiva e prolongada, e mesmo assim, déficits sutis ou não tão sutis (dificuldade com linguagem complexa, leitura, escrita) são frequentes.
4. A SLK é uma forma de autismo?
Não. A SLK é uma encefalopatia epiléptica. Muitas crianças com SLK desenvolvem sintomas que mimetizam o autismo (isolamento, estereotipias, irritabilidade) secundariamente à privação linguística e à desorganização cerebral. Quando a atividade epiléptica é controlada e a linguagem se recupera, esses sintomas comportamentais frequentemente melhoram ou desaparecem, o que não acontece no autismo típico. O diagnóstico diferencial é crucial.
5. O tratamento com corticoide é perigoso para uma criança?
Os corticoides em altas doses e por longos períodos têm efeitos colaterais significativos: ganho de peso, alteração de humor, hipertensão, risco aumentado de infecções, osteoporose, catarata. No entanto, na SLK, o risco de dano cerebral permanente pela atividade epiléptica contínua é considerado maior. O uso é feito sob rigoroso monitoramento médico, com tentativa de reduzir a dose à mínima eficaz no menor tempo possível. Os benefícios no controle da epilepsia e na recuperação da linguagem geralmente superam os riscos.
6. Adultos podem ter SLK?
A SLK é uma síndrome de início na infância. No entanto, adultos podem ser diagnosticados tardiamente se a condição não foi reconhecida na infância. O mais comum é que adultos que tiveram SLK na infância carreguem sequelas na vida adulta, como dificuldades de linguagem, problemas de aprendizagem ou epilepsia residual, e necessitem de acompanhamento neurológico e psiquiátrico.
7. Como a escola deve lidar com uma criança com SLK em mutismo?
A escola deve receber orientação da equipe médica e fonoaudiológica. É essencial: 1) Usar comunicação alternativa (pranchas com figuras, aplicativos no tablet); 2) Priorizar o ensino visual e prático; 3) Reduzir o ruído de fundo na sala; 4) Dar tempo prolongado para respostas (que serão não verbais); 5) Incluir a criança em todas as atividades, adaptando as expectativas; 6) Educar os colegas sobre a condição (de forma simples) para promover inclusão.
8. Há cura para a Síndrome de Landau-Kleffner?
A SLK tem um curso ativo que geralmente dura alguns anos (2-6 anos), após o qual a atividade epiléptica tende a cessar espontaneamente na adolescência. Portanto, o componente epiléptico "cessa". No entanto, o termo "cura" é enganoso, pois as sequelas neurológicas (déficits de linguagem, cognitivos e comportamentais) podem ser permanentes. O objetivo do tratamento é minimizar ao máximo essas sequelas, permitindo que a criança desenvolva seu potencial máximo.
Referências
- Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018. (Fontes das páginas 432, 434, 437, 444, 445, 447).
- Cheniaux, E. Manual de Psicopatologia. 6ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021. (Fontes das páginas 119, 127, 255, 289).
- Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
- Kanner, A.M. Psiquiatria de Epilepsia. 1ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2019.
- Comission on Classification and Terminology of the International League Against Epilepsy. "A practical clinical definition of epilepsy." Epilepsia. 2014.
- Brasil. Ministério da Saúde. Diretrizes de Atenção à Reabilitação da Pessoa com Epilepsia. 2014.
- Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Projeto Diretrizes: Epilepsia e Psiquiatria. 2012.
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.