Demência, outra causa especificada (CID-11: 6D8Y)

O que é?

Imagine que o cérebro é como um computador. Com o tempo, alguns programas começam a travar, arquivos importantes se perdem e tarefas que antes eram simples — como abrir um e-mail ou salvar um documento — se tornam difíceis ou até impossíveis. Agora, pense que esse “computador” não é feito de chips e fios, mas de bilhões de células que se comunicam entre si para nos ajudar a lembrar, raciocinar, tomar decisões e até mesmo reconhecer as pessoas que amamos.

A demência por outra causa especificada é um diagnóstico que os médicos usam quando uma pessoa apresenta sintomas claros de demência (ou seja, um declínio significativo na capacidade de pensar, lembrar e realizar atividades do dia a dia), mas a causa exata desse declínio não se encaixa perfeitamente nas demências mais conhecidas, como Alzheimer, demência vascular ou demência com corpos de Lewy. Em vez disso, ela é causada por outras condições médicas específicas que afetam o cérebro de maneira única.

Como isso se diferencia de outras demências ou do envelhecimento normal?

Todo mundo esquece onde deixou as chaves de vez em quando ou demora um pouco mais para lembrar o nome de um conhecido. Isso é normal, especialmente à medida que envelhecemos. O que não é normal é quando esses esquecimentos começam a atrapalhar a vida de verdade: esquecer como voltar para casa, não reconhecer um filho, perder a capacidade de se vestir sozinho ou não conseguir mais administrar as próprias finanças.

Nas demências mais comuns, como o Alzheimer, o problema costuma começar com a memória e evoluir de forma lenta e progressiva. Já na demência por outra causa especificada, os sintomas podem variar muito, dependendo do que está causando o problema. Por exemplo:
– Se a causa for uma doença autoimune (como a encefalite límbica), os sintomas podem incluir mudanças bruscas de humor, alucinações ou dificuldade para controlar os movimentos.
– Se for por falta de vitaminas (como a deficiência de B12), a pessoa pode sentir formigamento nas mãos, fraqueza nas pernas e confusão mental.
– Se for por traumas repetidos (como em ex-boxeadores), os sintomas podem se parecer mais com a doença de Parkinson: tremores, rigidez muscular e lentidão nos movimentos.

Outra diferença importante é que, em alguns casos, essa demência pode ser reversível — ou pelo menos estabilizada — se a causa for tratada a tempo. Por exemplo, se o problema for uma infecção no cérebro, um tumor ou até mesmo um efeito colateral de medicamentos, corrigir a causa pode melhorar ou até reverter os sintomas. Já em demências como o Alzheimer, o dano cerebral é progressivo e, até hoje, não tem cura.

Quem é afetado? Dados e realidade brasileira

A demência, de modo geral, afeta principalmente pessoas acima dos 65 anos, mas não é uma consequência normal do envelhecimento. No Brasil, estima-se que 1,7 milhão de pessoas vivam com algum tipo de demência, segundo dados da Associação Brasileira de Alzheimer (ABRAz). Dessas, uma parcela significativa pode se encaixar no diagnóstico de demência por outra causa especificada, especialmente quando a causa não é identificada de imediato.

Alguns grupos têm maior risco:
Pessoas com doenças crônicas não controladas, como diabetes, hipertensão ou colesterol alto, que podem levar a pequenos derrames cerebrais (AVCs) que danificam o cérebro aos poucos.
Pessoas com histórico de traumatismo craniano, como atletas de esportes de contato ou vítimas de acidentes.
Pessoas com doenças autoimunes, como lúpus ou esclerose múltipla, que podem atacar o cérebro.
Pessoas com deficiências nutricionais graves, como falta de vitamina B12 ou tiamina (comum em alcoolistas).
Pessoas com infecções crônicas, como HIV ou sífilis não tratada, que podem afetar o sistema nervoso.

No Brasil, o acesso ao diagnóstico ainda é um desafio. Muitas famílias demoram anos para perceber que algo está errado, e quando procuram ajuda, nem sempre encontram profissionais especializados em demências. Além disso, há um estigma enorme em torno do tema: muitas pessoas ainda acreditam que “esquecer as coisas é coisa de velho” e não buscam tratamento. Isso é perigoso, porque quanto mais cedo a demência for identificada, maiores são as chances de retardar sua progressão ou, em alguns casos, revertê-la.

Um pouco de história: como chegamos a esse diagnóstico?

O conceito de demência existe há séculos, mas só no século XX é que os médicos começaram a entender que ela não era uma única doença, mas sim um conjunto de sintomas causados por diferentes problemas no cérebro. Antes, qualquer pessoa que apresentasse perda de memória e confusão era diagnosticada com “senilidade” ou “arteriosclerose cerebral”, termos vagos que não ajudavam no tratamento.

Com o avanço da medicina, descobriu-se que:
– A doença de Alzheimer (descrita em 1906) era responsável por muitos casos de demência em idosos.
– A demência vascular (causada por derrames) era outra causa comum.
– Outras condições, como doença de Parkinson, doença de Huntington e demência frontotemporal, também podiam levar a sintomas semelhantes.

Mas ainda havia casos que não se encaixavam em nenhuma dessas categorias. Por exemplo:
– Uma pessoa jovem que desenvolvia demência após uma infecção grave.
– Um idoso com sintomas de Alzheimer, mas que também tinha sinais de derrames no cérebro.
– Alguém com sintomas de Parkinson, mas sem os tremores típicos.

Foi assim que surgiu a necessidade de um diagnóstico mais flexível: a demência por outra causa especificada. Ele permite que os médicos reconheçam que a pessoa tem demência, mesmo que a causa exata ainda não esteja clara ou não se encaixe nos diagnósticos tradicionais.


Quais são os sintomas?

Os sintomas da demência por outra causa especificada podem variar muito, dependendo do que está causando o problema. No entanto, todos os tipos de demência compartilham uma característica central: um declínio significativo na capacidade de pensar, lembrar, raciocinar ou realizar tarefas do dia a dia que antes eram fáceis.

Para entender melhor, vamos dividir os sintomas em quatro grandes áreas, com exemplos práticos de como eles aparecem no cotidiano.


1. Sintomas cognitivos (problemas de pensamento e memória)

Esses são os sintomas mais conhecidos da demência e incluem dificuldades com:
Memória (especialmente memória recente).
Atenção e concentração.
Linguagem (falar, entender, ler ou escrever).
Raciocínio e julgamento.
Capacidade de planejar e organizar.
Orientação no tempo e espaço.

Memória

O que é normal?
Esquecer onde deixou o celular, o nome de um conhecido ou uma reunião marcada há meses. Isso acontece com todo mundo, especialmente quando estamos estressados ou cansados.

O que é sintoma de demência?
Esquecer eventos recentes com frequência, como o que comeu no café da manhã ou uma conversa que teve há poucos minutos.
Exemplo: A pessoa conta a mesma história várias vezes em uma mesma conversa, sem perceber que já contou.
Exemplo: Esquece que um filho ou neto ligou há pouco tempo e pergunta: “Por que fulano não me visita?”.
Não reconhecer pessoas próximas ou confundir familiares.
Exemplo: Chamar o filho pelo nome do irmão ou não reconhecer o cônjuge após décadas de casamento.
Perder-se em lugares conhecidos.
Exemplo: Sair para comprar pão na padaria da esquina e não conseguir voltar para casa.
Exemplo: Não reconhecer a própria rua ou bairro.

Analogia:
Imagine que a memória é como uma estante de livros. Em uma pessoa saudável, os livros (lembranças) estão organizados, e é fácil pegar um quando precisa. Na demência, alguns livros começam a cair da estante, outros são colocados nos lugares errados, e alguns simplesmente desaparecem.


Atenção e concentração

O que é normal?
Se distrair facilmente em uma conversa longa ou ter dificuldade para se concentrar em uma tarefa chata.

O que é sintoma de demência?
Não conseguir acompanhar uma conversa simples.
Exemplo: A pessoa pergunta várias vezes “O que você disse?” em uma conversa de poucos minutos.
Exemplo: Não consegue seguir uma receita de bolo que sempre fez, pulando etapas ou repetindo passos.
Facilmente distraída por estímulos irrelevantes.
Exemplo: Enquanto assiste à TV, a pessoa se levanta porque ouviu um barulho na cozinha e esquece completamente do programa.
Dificuldade para fazer duas coisas ao mesmo tempo.
Exemplo: Não consegue falar ao telefone e anotar um recado ao mesmo tempo.

Analogia:
A atenção é como um holofote. Em uma pessoa saudável, o holofote ilumina o que é importante e ignora o resto. Na demência, o holofote fica piscando, iluminando coisas aleatórias, e é difícil mantê-lo focado no que realmente importa.


Linguagem

O que é normal?
Ter dificuldade para encontrar a palavra certa de vez em quando (“Como é mesmo o nome daquele ator?”).

O que é sintoma de demência?
Dificuldade para encontrar palavras comuns.
Exemplo: Chamar uma colher de “aquela coisa para comer” ou um relógio de “aquilo que marca as horas”.
Exemplo: Substituir palavras por gestos, como apontar para a geladeira em vez de dizer “Quero água”.
Falar frases sem sentido ou desconexas.
Exemplo: “Ontem eu fui lá na coisa com a Maria, sabe? Aquela que tem o negócio vermelho.” (sem conseguir explicar do que está falando).
Não entender o que os outros dizem.
Exemplo: Pedir para a pessoa repetir várias vezes a mesma pergunta, mesmo em um ambiente silencioso.
Exemplo: Responder algo completamente fora do contexto, como perguntar “Que horas são?” e receber a resposta “Minha mãe gostava de bolo de chocolate”.


Raciocínio e julgamento

O que é normal?
Tomar uma decisão ruim de vez em quando, como comprar algo por impulso.

O que é sintoma de demência?
Dificuldade para resolver problemas simples.
Exemplo: Não conseguir calcular o troco em uma compra de R$ 20,00 se o produto custa R$ 12,50.
Exemplo: Não saber o que fazer se a luz acabar em casa (ficar parada em vez de acender uma vela ou ligar para alguém).
Julgamentos perigosos ou inadequados.
Exemplo: Sair de casa de pijama em um dia frio.
Exemplo: Dar dinheiro para estranhos que ligam pedindo “ajuda para um parente doente”.
Exemplo: Tentar cozinhar e deixar o fogão ligado sem supervisão.
Dificuldade para planejar atividades.
Exemplo: Não conseguir organizar uma festa de aniversário, esquecendo de comprar bolo, convidar as pessoas ou preparar a casa.
Exemplo: Deixar de pagar contas porque não lembra como acessar o internet banking.

Analogia:
O raciocínio é como um GPS. Em uma pessoa saudável, o GPS calcula a melhor rota, evita engarrafamentos e recalcula se algo dá errado. Na demência, o GPS começa a dar direções aleatórias, ignora os obstáculos e, às vezes, simplesmente desliga.


Orientação no tempo e espaço

O que é normal?
Confundir o dia da semana de vez em quando ou demorar para se localizar em uma cidade nova.

O que é sintoma de demência?
Não saber em que dia, mês ou ano está.
Exemplo: Insistir que é 1995 quando já estamos em 2024.
Exemplo: Perguntar “Que dia é hoje?” várias vezes em uma hora.
Não reconhecer lugares familiares.
Exemplo: Entrar no próprio quarto e perguntar “Onde estou?”.
Exemplo: Não reconhecer a própria casa e tentar “voltar para casa” quando já está nela.
Perder a noção de tempo.
Exemplo: Dormir durante o dia e ficar acordada a noite toda, sem perceber a diferença.
Exemplo: Preparar o jantar às 10h da manhã porque acha que é noite.


2. Sintomas comportamentais e psicológicos

Além dos problemas de memória e raciocínio, a demência também pode causar mudanças no comportamento e na personalidade. Esses sintomas são muitas vezes os mais difíceis para as famílias lidarem, porque podem ser confusos, assustadores ou até mesmo agressivos.

Mudanças de humor e personalidade

O que é normal?
Ficar irritado depois de um dia ruim ou triste após uma perda.

O que é sintoma de demência?
Mudanças repentinas e extremas de humor.
Exemplo: Passar de calmo para agressivo em segundos, sem motivo aparente.
Exemplo: Chorar ou rir de forma descontrolada em situações que não justificam.
Perda de interesse em atividades que antes gostava.
Exemplo: Uma pessoa que adorava cozinhar agora não quer nem entrar na cozinha.
Exemplo: Alguém que sempre gostou de sair com os amigos agora prefere ficar sozinho o tempo todo.
Comportamentos socialmente inadequados.
Exemplo: Fazer comentários ofensivos ou constrangedores em público, sem perceber.
Exemplo: Tirar a roupa em lugares inapropriados, como no meio da rua.
Exemplo: Fazer piadas de mau gosto ou repetir a mesma história de forma inconveniente.

Analogia:
A personalidade é como uma música. Em uma pessoa saudável, a música tem ritmo, melodia e harmonia. Na demência, a música pode ficar desafinada, acelerar ou desacelerar sem motivo, ou até mesmo parar de repente.


Apatia (falta de motivação)

O que é normal?
Sentir preguiça de fazer algo chato, como limpar a casa.

O que é sintoma de demência?
Perda total de iniciativa.
Exemplo: Ficar o dia todo sentado no sofá, sem fazer nada, mesmo quando há coisas para fazer.
Exemplo: Não se levantar para comer, mesmo com fome, a menos que alguém insista.
Desinteresse por tudo.
Exemplo: Não querer mais ver os netos, mesmo que antes adorasse.
Exemplo: Não reagir a notícias boas ou ruins, como se nada importasse.


Agitação e agressividade

O que é normal?
Ficar bravo quando alguém corta a fila ou quando algo dá errado.

O que é sintoma de demência?
Agressividade física ou verbal sem motivo.
Exemplo: Bater, empurrar ou gritar com cuidadores ou familiares durante tarefas simples, como tomar banho.
Exemplo: Xingar ou acusar pessoas de roubo quando não encontra um objeto.
Inquietação constante.
Exemplo: Andar de um lado para o outro sem parar, como se estivesse procurando algo.
Exemplo: Mexer em tudo o que vê, como abrir e fechar gavetas repetidamente.
Resistência a cuidados básicos.
Exemplo: Recusar-se a tomar banho, trocar de roupa ou tomar remédios, mesmo quando é necessário.

Por que isso acontece?
Muitas vezes, a agressividade não é “maldade” da pessoa, mas sim uma reação de medo ou frustração. Imagine que você está em um lugar estranho, não entende o que está acontecendo e alguém tenta tirar sua roupa à força. Você provavelmente reagiria com raiva também. Na demência, o cérebro não consegue processar as informações direito, então situações simples podem parecer ameaçadoras.


Alucinações e delírios

O que é normal?
Ter um “branco” momentâneo e achar que viu algo que não estava lá (como um vulto no escuro).

O que é sintoma de demência?
Ver, ouvir ou sentir coisas que não existem (alucinações).
Exemplo: Ver crianças brincando na sala quando não há ninguém lá.
Exemplo: Ouvir vozes de pessoas que não estão presentes.
Exemplo: Sentir que há insetos andando na pele, mesmo sem nada.
Acreditar em coisas que não são verdadeiras (delírios).
Exemplo: Acreditar que o cônjuge está tendo um caso, mesmo sem provas.
Exemplo: Pensar que os vizinhos estão roubando suas coisas (quando na verdade ela mesma guardou em outro lugar).
Exemplo: Acreditar que familiares são impostores (síndrome de Capgras).

Analogia:
O cérebro é como uma televisão. Em uma pessoa saudável, a TV mostra imagens reais. Na demência, a TV pode começar a exibir canais que não existem, misturando memórias antigas com a realidade atual.


3. Sintomas físicos

Algumas causas de demência também afetam o corpo, causando sintomas como:
Dificuldade para andar ou se equilibrar (como na hidrocefalia de pressão normal).
Tremores ou rigidez muscular (como na demência por doença de Parkinson).
Fraqueza ou dormência em partes do corpo (como em casos de derrames ou esclerose múltipla).
Problemas de visão ou audição que pioram com o tempo.
Incontinência urinária ou fecal (perda do controle da bexiga ou intestino).


4. Sintomas emocionais

A demência também pode afetar profundamente as emoções, causando:
Ansiedade extrema, especialmente em situações novas ou confusas.
Depressão, com sentimentos de tristeza, desesperança ou culpa.
Medo constante, como se algo ruim fosse acontecer a qualquer momento.
Labilidade emocional, ou seja, chorar ou rir de forma exagerada e sem motivo.

Exemplo prático:
Uma pessoa que sempre foi calma pode começar a ter ataques de pânico ao entrar em um supermercado, porque as luzes, os sons e a quantidade de pessoas a deixam sobrecarregada.


Um aviso importante: nem todo esquecimento é demência

Ter um ou dois desses sintomas não significa que a pessoa tem demência. O que define o diagnóstico é:
1. O conjunto de sintomas (não apenas a memória, mas também raciocínio, linguagem, comportamento).
2. A intensidade (os sintomas atrapalham a vida diária?).
3. A duração (os sintomas persistem por meses, não são passageiros).
4. O impacto (a pessoa não consegue mais viver de forma independente?).

Por exemplo:
Estresse ou depressão podem causar esquecimentos e falta de concentração, mas melhoram com tratamento.
Deficiência de vitamina B12 pode causar confusão mental, mas é reversível com suplementação.
Efeitos colaterais de remédios (como alguns para pressão alta ou ansiedade) podem imitar demência, mas melhoram ao ajustar a medicação.

Sempre consulte um médico para avaliar. Muitas condições que parecem demência têm tratamento!


Como se manifesta no dia a dia?

Viver com demência — ou cuidar de alguém com demência — muda completamente a rotina. As dificuldades não aparecem só na memória, mas em todas as áreas da vida. Vamos ver como isso acontece na prática.


No trabalho ou na escola

Se a pessoa ainda está trabalhando ou estudando, os sintomas podem aparecer como:
Dificuldade para acompanhar reuniões ou aulas.
Exemplo: Não conseguir anotar os pontos principais de uma reunião ou esquecer o que foi combinado.
Exemplo: Pedir para o professor repetir a mesma explicação várias vezes.
Erros frequentes em tarefas rotineiras.
Exemplo: Um contador que sempre foi excelente começa a errar cálculos simples.
Exemplo: Um professor que não consegue mais preparar suas aulas ou se perde no meio da explicação.
Problemas para lidar com tecnologia.
Exemplo: Não conseguir mais usar o computador ou o celular, mesmo para funções básicas.
Exemplo: Esquecer senhas ou como acessar e-mails.
Dificuldade para tomar decisões.
Exemplo: Um gerente que antes tomava decisões rápidas agora fica paralisado diante de escolhas simples.
Exemplo: Um estudante que não consegue decidir qual curso fazer na faculdade, mesmo tendo todas as informações.

O que pode ajudar?
Adaptações no ambiente de trabalho, como:
– Reduzir distrações (barulho, muitas pessoas falando ao mesmo tempo).
– Usar lembretes visuais (post-its, agendas coloridas).
– Dividir tarefas complexas em etapas menores.
Conversar com o empregador sobre a possibilidade de reduzir a carga horária ou mudar de função.
Buscar apoio psicológico para lidar com a frustração e a ansiedade.


Nos relacionamentos

A demência afeta profundamente os relacionamentos, porque muda a forma como a pessoa se comunica, expressa afeto e interage com os outros.

Com a família

  • Filhos e netos podem se sentir rejeitados.
  • Exemplo: A pessoa não reconhece mais os netos ou não demonstra afeto como antes.
  • Exemplo: Um filho adulto pode se sentir magoado porque o pai não lembra mais de sua formatura.
  • Conflitos por causa de esquecimentos.
  • Exemplo: A pessoa acusa o cônjuge de esconder suas coisas (quando na verdade ela mesma guardou em outro lugar).
  • Exemplo: Brigas porque a pessoa esqueceu um compromisso importante, como um aniversário.
  • Mudanças nos papéis familiares.
  • Exemplo: Um pai que sempre foi o provedor da família agora precisa que o filho cuide de suas finanças.
  • Exemplo: Uma mãe que sempre cozinhou para todos agora não consegue mais preparar nem um café.

Como lidar?
Não levar os esquecimentos para o lado pessoal. A pessoa não está fazendo de propósito.
Usar lembretes afetuosos, como fotos com nomes dos familiares ou álbuns de memórias.
Manter rotinas simples e previsíveis para reduzir a ansiedade.
Buscar grupos de apoio para familiares (como os oferecidos pela ABRAz).

Com amigos

  • Isolamento social.
  • Exemplo: A pessoa para de atender o telefone ou recusar convites para sair.
  • Exemplo: Amigos param de visitar porque não sabem como lidar com as mudanças.
  • Dificuldade para manter conversas.
  • Exemplo: Repetir a mesma história várias vezes sem perceber.
  • Exemplo: Não conseguir acompanhar uma conversa em grupo.
  • Comportamentos constrangedores.
  • Exemplo: Fazer comentários inapropriados em público.
  • Exemplo: Não reconhecer amigos antigos.

Como ajudar?
Manter o contato, mesmo que a pessoa não reconheça mais os amigos.
Simplificar as interações: conversas curtas, em ambientes calmos.
Incluir a pessoa em atividades simples, como um café em casa ou um passeio no parque.


Na rotina diária

As tarefas mais simples podem se tornar desafios enormes.

Sono

  • Inversão do ciclo sono-vigília.
  • Exemplo: Dormir durante o dia e ficar acordado a noite toda.
  • Exemplo: Cochilar várias vezes durante o dia e não conseguir dormir à noite.
  • Agitação noturna.
  • Exemplo: Levantar no meio da noite e tentar sair de casa, achando que é de manhã.
  • Exemplo: Ficar confuso e assustado ao acordar, sem saber onde está.

O que pode ajudar?
Manter uma rotina de sono: horários fixos para dormir e acordar.
Evitar cochilos longos durante o dia.
Criar um ambiente tranquilo para dormir: quarto escuro, sem barulhos, temperatura agradável.
Evitar cafeína e telas antes de dormir.

Alimentação

  • Esquecer de comer ou comer em excesso.
  • Exemplo: Não sentir fome e pular refeições.
  • Exemplo: Comer a mesma coisa várias vezes ao dia porque não lembra que já comeu.
  • Dificuldade para preparar refeições.
  • Exemplo: Não conseguir mais usar o fogão ou o micro-ondas.
  • Exemplo: Esquecer ingredientes ou etapas de uma receita.
  • Problemas para engolir.
  • Exemplo: Engasgar com frequência durante as refeições.
  • Exemplo: Preferir alimentos moles porque é difícil mastigar.

O que pode ajudar?
Oferecer refeições em horários fixos.
Preparar pratos simples e nutritivos.
Usar pratos coloridos para estimular o apetite.
Acompanhar a pessoa durante as refeições para evitar engasgos.

Autocuidado

  • Dificuldade para se vestir.
  • Exemplo: Colocar a roupa do avesso ou misturar peças de verão e inverno.
  • Exemplo: Não conseguir abotoar uma camisa ou amarrar os sapatos.
  • Esquecer de tomar banho ou escovar os dentes.
  • Exemplo: Ficar dias sem tomar banho porque não lembra ou não sente necessidade.
  • Exemplo: Escovar os dentes com pasta de dente, mas esquecer de enxaguar a boca.
  • Problemas com a higiene íntima.
  • Exemplo: Não perceber quando está sujo ou molhado (incontinência).
  • Exemplo: Não saber como se limpar após usar o banheiro.

O que pode ajudar?
Estabelecer uma rotina de higiene: banho sempre no mesmo horário, escovar os dentes após as refeições.
Usar roupas fáceis de vestir, como calças com elástico e camisas sem botões.
Dar instruções passo a passo, como: “Primeiro, tire a camisa. Agora, coloque o braço aqui…”.


Na saúde física

A demência não afeta só a mente, mas também o corpo. Alguns problemas comuns incluem:
Quedas frequentes, porque a pessoa perde o equilíbrio ou não enxerga bem os obstáculos.
Perda de peso, por esquecer de comer ou não sentir fome.
Infecções urinárias, porque a pessoa não esvazia a bexiga direito ou não se limpa corretamente.
Desidratação, porque a pessoa não sente sede ou esquece de beber água.
Dores crônicas, porque a pessoa não consegue comunicar onde está doendo.

O que fazer?
Manter consultas regulares com o médico para monitorar a saúde física.
Observar sinais de alerta, como febre, perda de peso ou dificuldade para andar.
Garantir uma alimentação balanceada e hidratação adequada.


O que causa essa condição?

A demência por outra causa especificada não é uma doença única, mas sim um conjunto de sintomas causados por diferentes problemas de saúde. Vamos entender as principais causas e como elas afetam o cérebro.


1. Doenças neurodegenerativas “atípicas”

Algumas doenças que causam degeneração do cérebro não se encaixam perfeitamente nos diagnósticos mais conhecidos, como Alzheimer ou Parkinson. Exemplos:

Degeneração lobar frontotemporal (DLFT)

  • O que é? Um grupo de doenças que afetam principalmente os lobos frontal e temporal do cérebro, responsáveis pelo comportamento, linguagem e personalidade.
  • Como afeta o cérebro? As células nervosas nessas regiões começam a morrer, levando a mudanças drásticas na forma como a pessoa age e se comunica.
  • Sintomas típicos:
  • Mudanças de personalidade: a pessoa pode se tornar apática, impulsiva ou socialmente inadequada.
  • Dificuldade com a linguagem: pode ter problemas para falar, entender ou ler.
  • Comportamentos repetitivos: como bater palmas sem motivo ou andar de um lado para o outro.
  • Exemplo: Um homem de 50 anos, antes calmo e educado, começa a fazer comentários grosseiros em público e a comer compulsivamente.

Doença com corpos de Lewy (DCL)

  • O que é? Uma doença em que depósitos anormais de uma proteína (corpos de Lewy) se acumulam no cérebro, afetando a cognição, o movimento e o comportamento.
  • Como afeta o cérebro? Os corpos de Lewy interrompem a comunicação entre as células nervosas, especialmente nas áreas responsáveis pela memória, movimento e sono.
  • Sintomas típicos:
  • Flutuações cognitivas: a pessoa pode ter dias bons e dias ruins, alternando entre lucidez e confusão.
  • Alucinações visuais: ver pessoas, animais ou objetos que não estão lá.
  • Sintomas parkinsonianos: tremores, rigidez muscular e lentidão nos movimentos.
  • Problemas de sono: agir os sonhos durante a noite (como chutar ou gritar).
  • Exemplo: Uma mulher de 70 anos começa a ver crianças brincando em sua sala e, em alguns dias, não reconhece o próprio marido.

2. Doenças vasculares (derrames e pequenos infartos cerebrais)

  • O que é? Quando os vasos sanguíneos do cérebro são danificados, partes do cérebro podem não receber oxigênio e nutrientes suficientes, levando à morte das células nervosas.
  • Como afeta o cérebro? Pode causar pequenos derrames (AVCs) que, aos poucos, vão “desligando” partes do cérebro.
  • Sintomas típicos:
  • Declínio em “degraus”: a pessoa piora de repente após um derrame e depois estabiliza, até ter outro episódio.
  • Dificuldade para andar ou se equilibrar.
  • Problemas de atenção e raciocínio, mais do que de memória.
  • Mudanças de humor, como depressão ou apatia.
  • Exemplo: Um homem de 65 anos, hipertenso, começa a ter dificuldade para andar e, após um pequeno derrame, passa a ter problemas para organizar suas finanças.

3. Doenças autoimunes (quando o corpo ataca o próprio cérebro)

  • O que é? O sistema imunológico, que deveria proteger o corpo, começa a atacar células saudáveis do cérebro.
  • Exemplos de doenças:
  • Encefalite límbica: inflamação em áreas do cérebro responsáveis pela memória e emoções.
  • Esclerose múltipla: pode afetar a cognição em estágios avançados.
  • Lúpus: em alguns casos, pode causar inflamação no cérebro.
  • Sintomas típicos:
  • Mudanças rápidas de comportamento, como agressividade ou paranoia.
  • Perda de memória recente.
  • Convulsões.
  • Alucinações ou delírios.
  • Exemplo: Uma mulher de 40 anos, diagnosticada com lúpus, começa a ter lapsos de memória e a acreditar que sua família está tentando envenená-la.

4. Infecções que afetam o cérebro

Algumas infecções podem causar danos permanentes ao cérebro, levando à demência.

HIV/AIDS

  • O que é? O vírus HIV pode afetar o cérebro, especialmente se não for tratado.
  • Sintomas típicos:
  • Lentidão de raciocínio.
  • Dificuldade para se concentrar.
  • Problemas de memória.
  • Mudanças de humor, como depressão ou apatia.
  • Exemplo: Um homem de 50 anos, com HIV não tratado, começa a ter dificuldade para trabalhar e esquece compromissos importantes.

Sífilis não tratada

  • O que é? A sífilis é uma infecção sexualmente transmissível que, se não tratada, pode afetar o cérebro décadas depois.
  • Sintomas típicos:
  • Dificuldade para andar ou se equilibrar.
  • Mudanças de personalidade.
  • Problemas de memória e raciocínio.
  • Alucinações ou delírios.
  • Exemplo: Um idoso começa a ter dificuldade para falar e acredita que está sendo perseguido, sem motivo aparente.

Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ)

  • O que é? Uma doença rara e fatal causada por proteínas anormais (príons) que danificam o cérebro.
  • Sintomas típicos:
  • Declínio cognitivo rápido (em meses, não anos).
  • Problemas de movimento, como rigidez ou tremores.
  • Alucinações e delírios.
  • Dificuldade para falar ou engolir.
  • Exemplo: Uma pessoa de 60 anos começa a ter lapsos de memória e, em poucos meses, não consegue mais andar ou falar.

5. Deficiências nutricionais

Algumas vitaminas são essenciais para o funcionamento do cérebro. A falta delas pode causar danos irreversíveis.

Deficiência de vitamina B12

  • O que é? A vitamina B12 é importante para a saúde dos nervos e do cérebro. Sua falta pode causar danos neurológicos.
  • Causas comuns:
  • Dieta pobre em alimentos de origem animal (comum em veganos sem suplementação).
  • Problemas de absorção no estômago ou intestino.
  • Sintomas típicos:
  • Formigamento nas mãos e pés.
  • Dificuldade para andar.
  • Confusão mental e perda de memória.
  • Mudanças de humor, como depressão ou irritabilidade.
  • Exemplo: Uma mulher de 70 anos, vegetariana, começa a sentir formigamento nas pernas e a esquecer compromissos.

Deficiência de tiamina (vitamina B1)

  • O que é? A tiamina é essencial para o metabolismo do cérebro. Sua falta é comum em alcoolistas.
  • Sintomas típicos:
  • Confusão mental.
  • Problemas de coordenação motora.
  • Problemas de visão.
  • Perda de memória.
  • Exemplo: Um homem de 50 anos, com histórico de alcoolismo, começa a ter dificuldade para andar e a não reconhecer familiares.

6. Traumas e lesões cerebrais

Golpes na cabeça podem causar danos permanentes ao cérebro, levando à demência.

Traumatismo cranioencefálico (TCE)

  • O que é? Lesões na cabeça causadas por acidentes, quedas ou esportes de contato.
  • Sintomas típicos:
  • Dificuldade para se concentrar.
  • Problemas de memória.
  • Mudanças de personalidade, como agressividade ou apatia.
  • Dores de cabeça frequentes.
  • Exemplo: Um ex-boxeador de 60 anos começa a ter lapsos de memória e dificuldade para controlar a raiva.

Hidrocefalia de pressão normal

  • O que é? Acúmulo de líquido no cérebro que pressiona as estruturas cerebrais.
  • Sintomas típicos:
  • Dificuldade para andar (passos curtos e arrastados).
  • Incontinência urinária.
  • Perda de memória e confusão mental.
  • Exemplo: Um idoso começa a ter dificuldade para andar e a esquecer onde deixou as coisas.

7. Efeitos colaterais de medicamentos

Alguns remédios podem causar sintomas semelhantes aos da demência, especialmente em idosos.

Medicamentos que podem causar confusão mental:

  • Benzodiazepínicos (usados para ansiedade e insônia, como diazepam e clonazepam).
  • Anticolinérgicos (usados para incontinência urinária, alergias e depressão).
  • Opioides (usados para dor, como codeína e morfina).
  • Corticoides (usados para inflamações, como prednisona).

Exemplo: Uma idosa toma vários remédios para pressão alta, ansiedade e insônia. Com o tempo, começa a ficar confusa e desorientada.


8. Tumores cerebrais

  • O que é? Tumores no cérebro podem pressionar áreas responsáveis pela memória, linguagem e movimento.
  • Sintomas típicos:
  • Dores de cabeça frequentes.
  • Convulsões.
  • Perda de memória ou confusão mental.
  • Dificuldade para falar ou entender.
  • Fraqueza em um lado do corpo.
  • Exemplo: Um homem de 50 anos começa a ter dificuldade para falar e a esquecer compromissos. Após exames, descobre-se um tumor no cérebro.

9. Doenças metabólicas e endócrinas

Problemas no metabolismo ou nas glândulas podem afetar o cérebro.

Hipotireoidismo não tratado

  • O que é? A tireoide produz menos hormônios do que o necessário, afetando o funcionamento do cérebro.
  • Sintomas típicos:
  • Lentidão de raciocínio.
  • Perda de memória.
  • Depressão ou apatia.
  • Ganho de peso e cansaço excessivo.
  • Exemplo: Uma mulher de 60 anos começa a esquecer compromissos e a se sentir sempre cansada. Após exames, descobre-se hipotireoidismo.

Diabetes não controlado

  • O que é? O excesso de açúcar no sangue pode danificar os vasos sanguíneos do cérebro.
  • Sintomas típicos:
  • Dificuldade para se concentrar.
  • Perda de memória.
  • Mudanças de humor.
  • Problemas de visão.
  • Exemplo: Um homem de 65 anos, diabético, começa a ter lapsos de memória e dificuldade para organizar suas finanças.

Mitos e verdades sobre as causas da demência

Mito: “Demência é coisa de velho, todo mundo vai ter.”
Verdade: Demência não é uma parte normal do envelhecimento. É causada por doenças que danificam o cérebro. Nem todo idoso desenvolve demência, e algumas causas podem ser prevenidas ou tratadas.

Mito: “Demência é causada por alumínio (panelas, desodorantes).”
Verdade: Não há evidências científicas de que o alumínio cause demência. Esse mito surgiu porque, no passado, encontraram traços de alumínio no cérebro de pessoas com Alzheimer, mas isso não significa que o alumínio seja a causa.

Mito: “Demência é hereditária. Se meus pais tiveram, eu também vou ter.”
Verdade: A maioria dos casos de demência não é hereditária. Apenas algumas formas raras (como a doença de Alzheimer familiar) têm um componente genético forte. Mesmo nesses casos, ter o gene não significa que a pessoa vai desenvolver a doença.

Mito: “Demência é causada por falta de atividade mental (como não ler ou não fazer palavras cruzadas).”
Verdade: Manter o cérebro ativo pode ajudar a retardar os sintomas, mas não previne a demência. É como dizer que fazer musculação previne um infarto: fortalece o corpo, mas não elimina o risco.

Mito: “Demência é contagiosa.”
Verdade: Demência não é contagiosa. Você não “pega” demência de alguém, assim como não pega diabetes ou pressão alta.


Como é feito o diagnóstico?

Receber um diagnóstico de demência pode ser assustador, mas é o primeiro passo para entender o que está acontecendo e buscar o melhor tratamento. Vamos explicar como funciona o processo de diagnóstico, o que esperar nas consultas e como diferenciar essa condição de outros problemas de saúde.


Passo 1: Reconhecendo os primeiros sinais

O diagnóstico geralmente começa quando a própria pessoa, um familiar ou um amigo percebe que algo não está certo. Alguns sinais de alerta incluem:
– Esquecimentos frequentes que atrapalham a rotina (como esquecer compromissos importantes).
– Dificuldade para realizar tarefas que antes eram fáceis (como cozinhar ou administrar as finanças).
– Mudanças de humor ou personalidade (como ficar mais irritado ou apático).
– Dificuldade para encontrar palavras ou acompanhar conversas.
– Perder-se em lugares conhecidos.

O que fazer?
Se você ou alguém próximo apresentar esses sintomas, procure um médico o quanto antes. Muitas condições que parecem demência têm tratamento, e quanto mais cedo forem identificadas, melhores são as chances de controle.


Passo 2: A primeira consulta

O diagnóstico de demência não é feito em uma única consulta. Geralmente, é um processo que envolve várias etapas e profissionais.

Quem pode diagnosticar?

  • Clínico geral ou geriatra: são os primeiros profissionais a serem procurados. Eles podem fazer uma avaliação inicial e encaminhar para especialistas.
  • Neurologista: médico especializado em doenças do cérebro e do sistema nervoso.
  • Psiquiatra: especialmente importante se houver sintomas de depressão, ansiedade ou psicose.
  • Geriatra: especializado no cuidado de idosos e pode ajudar a diferenciar demência de outras condições comuns na terceira idade.
  • Neuropsicólogo: profissional que aplica testes específicos para avaliar a memória, atenção, linguagem e outras funções cognitivas.

O que esperar na primeira consulta?

  1. Histórico médico e familiar:
  2. O médico vai perguntar sobre:

    • Os sintomas (quando começaram, como evoluíram).
    • Histórico de doenças (diabetes, hipertensão, colesterol alto, AVCs, traumas na cabeça).
    • Histórico familiar de demência ou outras doenças neurológicas.
    • Medicamentos que a pessoa toma (alguns podem causar confusão mental).
    • Hábitos de vida (álcool, tabaco, alimentação, exercícios).
  3. Entrevista com um familiar ou cuidador:

  4. Como a demência afeta a memória, muitas vezes a pessoa não consegue relatar seus próprios sintomas com precisão. Por isso, o médico vai conversar com alguém próximo para entender melhor o que está acontecendo.

  5. Exame físico e neurológico:

  6. O médico vai verificar:
    • Pressão arterial, frequência cardíaca e outros sinais vitais.
    • Reflexos, força muscular e coordenação.
    • Sinais de doenças que podem afetar o cérebro, como Parkinson ou AVC.

Passo 3: Testes cognitivos

Para avaliar a memória, o raciocínio e outras funções cerebrais, o médico ou neuropsicólogo pode aplicar testes simples, como:

Mini Exame do Estado Mental (MEEM)

  • É um teste rápido (leva cerca de 10 minutos) que avalia:
  • Orientação no tempo e espaço (saber o dia, mês, ano e onde está).
  • Memória imediata (repetir três palavras).
  • Atenção e cálculo (contar de trás para frente ou soletrar uma palavra ao contrário).
  • Linguagem (nomear objetos, repetir uma frase, seguir comandos).
  • Capacidade de desenhar (copiar uma figura geométrica).
  • Pontuação:
  • 24-30 pontos: normal.
  • 19-23 pontos: comprometimento leve.
  • 10-18 pontos: comprometimento moderado.
  • Abaixo de 10: comprometimento grave.

Exemplo de pergunta do MEEM:
“Eu vou dizer três palavras e quero que você repita depois de mim: bola, carro, livro. Agora, tente se lembrar delas daqui a alguns minutos.”

Teste do Relógio

  • A pessoa é solicitada a desenhar um relógio com os ponteiros marcando uma hora específica (por exemplo, 2h45).
  • O que avalia?
  • Capacidade de planejamento.
  • Noção de espaço.
  • Memória visual.
  • Sinais de alerta:
  • Desenhar os números fora de ordem ou fora do círculo.
  • Não conseguir posicionar os ponteiros corretamente.

Teste de Fluência Verbal

  • A pessoa é solicitada a dizer o maior número possível de palavras que começam com uma determinada letra (por exemplo, “F”) em um minuto.
  • O que avalia?
  • Capacidade de organização do pensamento.
  • Memória semântica (conhecimento sobre palavras).
  • Sinais de alerta:
  • Dizer menos de 10 palavras em um minuto.
  • Repetir palavras ou dizer palavras que não começam com a letra solicitada.

Passo 4: Exames laboratoriais e de imagem

Para descartar outras causas de confusão mental e identificar possíveis causas da demência, o médico pode solicitar:

Exames de sangue

  • Hemograma completo: para verificar anemia ou infecções.
  • Glicemia: para descartar diabetes não controlado.
  • Função tireoidiana: para verificar hipotireoidismo ou hipertireoidismo.
  • Vitamina B12 e ácido fólico: deficiências podem causar sintomas semelhantes aos da demência.
  • Função renal e hepática: problemas nesses órgãos podem afetar o cérebro.
  • Sorologia para sífilis e HIV: infecções podem causar demência.
  • Marcadores inflamatórios: para verificar doenças autoimunes.

Exames de imagem

  • Tomografia computadorizada (TC) ou ressonância magnética (RM) do cérebro:
  • O que mostram?
    • Atrofia cerebral (perda de volume do cérebro, comum em Alzheimer).
    • Derrames (AVCs) ou microinfartos (comuns em demência vascular).
    • Tumores ou hidrocefalia (acúmulo de líquido no cérebro).
    • Lesões causadas por traumas ou infecções.
  • Diferença entre TC e RM:

    • A TC é mais rápida e acessível, mas menos detalhada.
    • A RM é mais precisa e consegue detectar alterações sutis, mas é mais cara e demorada.
  • Tomografia por emissão de pósitrons (PET scan):

  • O que é? Um exame que mostra como o cérebro está funcionando, não apenas sua estrutura.
  • Quando é usado?
    • Para diferenciar Alzheimer de outras demências.
    • Para detectar depósitos anormais de proteínas (como amiloide, presente no Alzheimer).

Outros exames

  • Eletroencefalograma (EEG): avalia a atividade elétrica do cérebro e pode detectar convulsões ou outras anormalidades.
  • Punção lombar (líquor): em alguns casos, o médico pode coletar uma amostra do líquido que envolve o cérebro e a medula para verificar:
  • Marcadores de Alzheimer (proteínas beta-amiloide e tau).
  • Sinais de infecção ou inflamação.

Passo 5: Diagnóstico diferencial (o que pode ser confundido com demência?)

Muitas condições podem causar sintomas semelhantes aos da demência, mas têm tratamentos diferentes. O médico precisa descartar essas possibilidades antes de confirmar o diagnóstico.

1. Delirium

  • O que é? Um estado de confusão mental agudo e reversível, geralmente causado por:
  • Infecções (como infecção urinária ou pneumonia).
  • Efeitos colaterais de medicamentos.
  • Desidratação ou desnutrição.
  • Cirurgias ou internações hospitalares.
  • Como diferenciar?
  • O delirium começa de repente (em horas ou dias), enquanto a demência é gradual (meses ou anos).
  • No delirium, a pessoa pode ter flutuações (momentos de lucidez e momentos de confusão extrema).
  • O delirium melhora com o tratamento da causa (por exemplo, tratar a infecção).

Exemplo: Um idoso internado para uma cirurgia começa a ficar confuso e agitado. Após alguns dias, melhora completamente. Isso é delirium, não demência.

2. Depressão

  • O que é? Um transtorno de humor que pode causar esquecimentos, falta de concentração e apatia.
  • Como diferenciar?
  • Na depressão, a pessoa reclama muito dos esquecimentos (“Não consigo me lembrar de nada!”).
  • Na demência, a pessoa não percebe os esquecimentos ou minimiza o problema.
  • A depressão melhora com tratamento (terapia e/ou medicamentos), enquanto a demência é progressiva.

Exemplo: Uma mulher de 70 anos começa a esquecer compromissos e a se isolar. Ela diz: “Não sirvo para nada, não consigo fazer nada direito.” Após tratamento para depressão, os sintomas melhoram.

3. Efeitos colaterais de medicamentos

  • Medicamentos que podem causar confusão mental:
  • Benzodiazepínicos (diazepam, clonazepam).
  • Anticolinérgicos (usados para incontinência urinária, alergias, depressão).
  • Opioides (codeína, morfina).
  • Corticoides (prednisona).
  • Como diferenciar?
  • Os sintomas começam após o início do medicamento e melhoram ao suspendê-lo.

Exemplo: Um idoso começa a tomar um remédio para dormir e, em poucas semanas, fica confuso e desorientado. Ao parar o medicamento, os sintomas desaparecem.

4. Deficiências nutricionais

  • Deficiência de vitamina B12:
  • Causa: dieta pobre em alimentos de origem animal ou problemas de absorção.
  • Sintomas: formigamento nas mãos e pés, dificuldade para andar, confusão mental.
  • Tratamento: suplementação de B12.
  • Deficiência de tiamina (vitamina B1):
  • Causa: alcoolismo ou desnutrição grave.
  • Sintomas: confusão mental, problemas de coordenação, problemas de visão.
  • Tratamento: suplementação de tiamina.

Exemplo: Um homem de 60 anos, alcoolista, começa a ter dificuldade para andar e a não reconhecer familiares. Após suplementação de tiamina, os sintomas melhoram.

5. Doenças da tireoide

  • Hipotireoidismo:
  • Sintomas: lentidão de raciocínio, perda de memória, depressão, ganho de peso.
  • Tratamento: reposição hormonal.
  • Hipertireoidismo:
  • Sintomas: agitação, ansiedade, dificuldade para dormir, perda de peso.
  • Tratamento: medicamentos ou iodo radioativo.

Exemplo: Uma mulher de 65 anos começa a esquecer compromissos e a se sentir sempre cansada. Após exames, descobre-se hipotireoidismo. Com o tratamento, os sintomas melhoram.

6. Tumores cerebrais

  • Sintomas: dores de cabeça frequentes, convulsões, perda de memória, dificuldade para falar.
  • Diagnóstico: exames de imagem (TC ou RM).
  • Tratamento: cirurgia, radioterapia ou quimioterapia.

Exemplo: Um homem de 50 anos começa a ter dificuldade para falar e a esquecer compromissos. Após uma ressonância, descobre-se um tumor no cérebro.

7. Hidrocefalia de pressão normal

  • O que é? Acúmulo de líquido no cérebro que pressiona as estruturas cerebrais.
  • Sintomas:
  • Dificuldade para andar (passos curtos e arrastados).
  • Incontinência urinária.
  • Perda de memória e confusão mental.
  • Tratamento: cirurgia para drenar o excesso de líquido.

Exemplo: Um idoso começa a ter dificuldade para andar e a esquecer onde deixou as coisas. Após exames, descobre-se hidrocefalia. Com a cirurgia, os sintomas melhoram.


Passo 6: Chegando ao diagnóstico de demência por outra causa especificada

Se todos os exames descartarem outras causas e os sintomas persistirem, o médico pode chegar ao diagnóstico de demência por outra causa especificada (CID-11: 6D8Y). Isso acontece quando:
– A pessoa apresenta sintomas claros de demência (declínio cognitivo que interfere na vida diária).
– A causa não se encaixa perfeitamente em outros diagnósticos, como Alzheimer, demência vascular ou demência com corpos de Lewy.
– Há evidências de uma causa específica, mas que não é comum o suficiente para ter um diagnóstico próprio.

Exemplos de causas que podem levar a esse diagnóstico:
Doenças autoimunes (como encefalite límbica).
Infecções crônicas (como HIV ou sífilis não tratada).
Traumas repetidos na cabeça (como em ex-boxeadores).
Deficiências nutricionais graves (como falta de vitamina B12).
Efeitos colaterais de medicamentos (quando não é possível suspender o remédio).
Doenças metabólicas (como hipotireoidismo não controlado).


Quanto tempo leva para obter o diagnóstico?

O processo pode levar de algumas semanas a vários meses, dependendo de:
– A rapidez com que os exames são agendados e realizados.
– A complexidade do caso (se há várias causas possíveis).
– A disponibilidade de especialistas (neurologistas, neuropsicólogos).

Dica: Mantenha um diário dos sintomas, anotando:
– Quando os esquecimentos ou mudanças de comportamento começaram.
– Quais situações os pioram (estresse, cansaço, mudanças na rotina).
– Se há flutuações (dias bons e dias ruins).
Isso ajuda o médico a ter uma visão mais clara do quadro.


Diagnóstico no SUS vs. particular

No SUS

  • Vantagens:
  • Gratuito.
  • Acesso a medicamentos e tratamentos pelo programa Farmácia Popular.
  • Desafios:
  • Demora para agendar consultas e exames (pode levar meses).
  • Falta de especialistas em algumas regiões.
  • Dificuldade para acessar exames mais complexos, como PET scan.

O que fazer?
– Comece pela Unidade Básica de Saúde (UBS). O clínico geral pode fazer uma avaliação inicial e encaminhar para um especialista.
– Se houver demora, procure um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) ou um ambulatório de geriatria/neurologia.
– Em casos urgentes (como suspeita de tumor ou hidrocefalia), procure um pronto-socorro.

No particular

  • Vantagens:
  • Agilidade para agendar consultas e exames.
  • Acesso a uma gama maior de especialistas e exames.
  • Desafios:
  • Custo elevado (consultas, exames e medicamentos podem ser caros).
  • Nem todos os planos de saúde cobrem exames como PET scan ou punção lombar.

Dica: Se optar pelo particular, verifique se o médico é especializado em demências (neurologista ou geriatra com experiência na área).


Tratamento

Receber o diagnóstico de demência pode ser assustador, mas é importante lembrar que existem tratamentos e estratégias que podem melhorar a qualidade de vida, retardar a progressão dos sintomas e, em alguns casos, até reverter o quadro. O tratamento da demência por outra causa especificada depende da causa subjacente, mas geralmente envolve uma combinação de:
Medicamentos (para controlar sintomas ou tratar a causa).
Psicoterapia e reabilitação cognitiva (para estimular o cérebro e lidar com as emoções).
Mudanças no estilo de vida (alimentação, exercícios, sono).
Apoio familiar e social (para garantir segurança e bem-estar).

Vamos detalhar cada uma dessas abordagens.


Medicamentos

Os medicamentos usados no tratamento da demência têm dois objetivos principais:
1. Tratar a causa subjacente (quando possível).
2. Controlar os sintomas (como esquecimentos, agitação ou depressão).

1. Medicamentos para tratar a causa

Dependendo do que está causando a demência, o médico pode prescrever:

Causa Tratamento Exemplos de medicamentos
Doenças autoimunes Imunossupressores (para reduzir a inflamação no cérebro). Corticoides (prednisona), rituximabe.
Infecções Antibióticos ou antivirais (para tratar a infecção). Penicilina (sífilis), antirretrovirais (HIV).
Deficiência de B12 Suplementação de vitamina B12. Injeções ou comprimidos de B12.
Hipotireoidismo Reposição hormonal. Levotiroxina.
Tumores cerebrais Cirurgia, radioterapia ou quimioterapia.
Hidrocefalia Cirurgia para drenar o excesso de líquido.
Efeitos colaterais de medicamentos Suspensão ou ajuste da medicação.

Exemplo prático:
Uma pessoa com demência causada por encefalite límbica (uma doença autoimune) pode melhorar significativamente após tratamento com corticoides, que reduzem a inflamação no cérebro.


2. Medicamentos para controlar os sintomas

Mesmo quando a causa não pode ser curada, alguns remédios ajudam a melhorar a memória, reduzir a agitação ou controlar a depressão.

Inibidores da colinesterase
  • Para que servem? Melhorar a comunicação entre as células nervosas, ajudando na memória e no raciocínio.
  • Como funcionam? Aumentam os níveis de acetilcolina, um neurotransmissor importante para a memória.
  • Efeitos colaterais comuns:
  • Náusea, vômito ou diarreia (geralmente leves e passageiros).
  • Perda de apetite.
  • Tontura.
  • Insônia ou sonhos vívidos.
  • Exemplos:
  • Donepezila (Aricept®).
  • Rivastigmina (Exelon®).
  • Galantamina (Reminyl®).

Analogia:
Imagine que as células do cérebro são como telefones. A acetilcolina é o sinal que permite que eles “liguem” uns para os outros. Os inibidores da colinesterase são como amplificadores de sinal, ajudando as células a se comunicarem melhor.

Para quem são indicados?
– Pessoas com demência leve a moderada, especialmente em casos de Alzheimer ou demência com corpos de Lewy.
– Em alguns casos de demência vascular ou demência por outra causa especificada, se houver benefício.


Memantina
  • Para que serve? Proteger as células cerebrais do excesso de glutamato, uma substância que, em excesso, pode danificar os neurônios.
  • Como funciona? Bloqueia os receptores de glutamato, reduzindo seu efeito tóxico.
  • Efeitos colaterais comuns:
  • Tontura.
  • Dor de cabeça.
  • Constipação.
  • Confusão (em alguns casos).
  • Exemplo: Memantina (Ebix®, Namenda®).

Analogia:
O glutamato é como um incêndio no cérebro: em pequenas quantidades, é necessário, mas em excesso, pode destruir tudo. A memantina é como um extintor, controlando o fogo.

Para quem é indicada?
– Pessoas com demência moderada a grave.
– Pode ser usada sozinha ou em combinação com inibidores da colinesterase.


Antidepressivos
  • Para que servem? Tratar depressão, ansiedade ou apatia, comuns em pessoas com demência.
  • Exemplos:
  • Inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS): sertralina (Zoloft®), escitalopram (Lexapro®).
  • Inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina (IRSN): venlafaxina (Efexor®).
  • Efeitos colaterais comuns:
  • Náusea.
  • Sonolência ou insônia.
  • Boca seca.
  • Diminuição do apetite sexual.

Quando são indicados?
– Quando a pessoa apresenta sintomas de depressão ou ansiedade que atrapalham a qualidade de vida.
– Em alguns casos, para controlar a agitação (especialmente os ISRS).


Antipsicóticos
  • Para que servem? Controlar alucinações, delírios ou agressividade.
  • Exemplos:
  • Risperidona (Risperdal®).
  • Quetiapina (Seroquel®).
  • Haloperidol (Haldol®).
  • Efeitos colaterais comuns:
  • Sonolência.
  • Rigidez muscular ou tremores (semelhantes ao Parkinson).
  • Aumento do risco de quedas.
  • Aumento do risco de AVC em idosos (por isso, devem ser usados com cautela).

Quando são indicados?
Apenas em casos graves, quando a pessoa apresenta alucinações, delírios ou agressividade que colocam ela ou outras pessoas em risco.
Devem ser usados pelo menor tempo possível, pois podem piorar outros sintomas da demência.

Importante:
Os antipsicóticos não são a primeira opção para tratar agitação ou agressividade. O médico deve primeiro tentar ajustes no ambiente, terapia comportamental ou outros medicamentos.


Estabilizadores de humor
  • Para que servem? Controlar oscilações de humor ou agitação.
  • Exemplos:
  • Carbamazepina (Tegretol®).
  • Ácido valproico (Depakote®).
  • Efeitos colaterais comuns:
  • Sonolência.
  • Tontura.
  • Ganho de peso.

Quando são indicados?
– Quando a pessoa apresenta mudanças bruscas de humor ou agitação extrema.


Medicamentos para o sono
  • Para que servem? Melhorar a qualidade do sono, especialmente em casos de insônia ou inversão do ciclo sono-vigília.
  • Exemplos:
  • Melatonina (hormônio natural que regula o sono).
  • Trazodona (um antidepressivo com efeito sedativo).
  • Efeitos colaterais comuns:
  • Sonolência diurna.
  • Tontura.

Quando são indicados?
– Quando a pessoa tem dificuldade para dormir à noite ou fica acordada de madrugada.
Evitar benzodiazepínicos (como diazepam ou clonazepam), pois podem piorar a confusão mental.


Psicoterapia e reabilitação cognitiva

Os medicamentos ajudam a controlar os sintomas, mas não são a única forma de tratamento. A psicoterapia e a reabilitação cognitiva são fundamentais para:
Estimular o cérebro e retardar a progressão dos sintomas.
Ensinar estratégias para lidar com os esquecimentos e as dificuldades do dia a dia.
Ajudar a pessoa e a família a lidar com as emoções e os desafios do diagnóstico.

1. Reabilitação cognitiva

  • O que é? Um conjunto de técnicas para treinar o cérebro e melhorar funções como memória, atenção e linguagem.
  • Como funciona? Um neuropsicólogo ou terapeuta ocupacional trabalha com a pessoa em sessões individuais ou em grupo, usando:
  • Exercícios de memória: como lembrar listas de palavras ou sequências de números.
  • Jogos e quebra-cabeças: como sudoku, palavras cruzadas ou jogos de tabuleiro.
  • Técnicas de organização: como usar agendas, alarmes ou aplicativos de lembretes.
  • Treinamento de habilidades específicas: como cozinhar, se vestir ou usar o celular.

Exemplo prático:
Uma pessoa com dificuldade para lembrar compromissos pode aprender a usar um aplicativo de agenda com alarmes sonoros. O terapeuta ensina passo a passo como inserir os compromissos e como reagir ao alarme.

Analogia:
A reabilitação cognitiva é como fisioterapia para o cérebro. Assim como um fisioterapeuta ajuda a recuperar os movimentos após uma lesão, o neuropsicólogo ajuda a recuperar funções cognitivas.

Para quem é indicada?
– Pessoas com demência leve a moderada, que ainda têm capacidade de aprender novas estratégias.
– Pessoas que querem manter a independência por mais tempo.


2. Terapia ocupacional

  • O que é? Uma abordagem que ajuda a pessoa a manter suas atividades diárias da forma mais independente possível.
  • Como funciona? O terapeuta ocupacional:
  • Adapta o ambiente para facilitar as tarefas (por exemplo, colocar etiquetas nos armários para identificar o conteúdo).
  • Ensina técnicas para realizar atividades como se vestir, cozinhar ou tomar banho.
  • Recomenda dispositivos de auxílio, como andadores, bengalas ou talheres adaptados.

Exemplo prático:
Uma pessoa com dificuldade para se vestir pode aprender a:
– Colocar as roupas em ordem (de baixo para cima) em uma cadeira.
– Usar roupas com velcro em vez de botões.
– Ter um espelho grande no quarto para se orientar.

Para quem é indicada?
– Pessoas com dificuldade para realizar atividades do dia a dia, como se vestir, cozinhar ou tomar banho.
– Familiares que precisam de orientação para adaptar a casa às necessidades da pessoa.


3. Psicoterapia individual

  • O que é? Um espaço para a pessoa expressar seus sentimentos e aprender a lidar com as emoções relacionadas ao diagnóstico.
  • Abordagens mais usadas:
  • Terapia cognitivo-comportamental (TCC): ajuda a identificar e mudar pensamentos negativos (como “Não sirvo para nada”).
  • Terapia de aceitação e compromisso (ACT): ensina a pessoa a aceitar as limitações e focar no que ainda é possível fazer.
  • Terapia de reminiscência: usa fotos, músicas e objetos para estimular memórias antigas e fortalecer a identidade.

Exemplo prático:
Uma pessoa com demência pode sentir raiva ou tristeza por não conseguir mais trabalhar. Na terapia, ela aprende a:
– Reconhecer esses sentimentos sem se culpar.
– Encontrar novas formas de se sentir útil (como ajudar em tarefas simples em casa).
– Focar nas coisas que ainda consegue fazer (como cuidar de um animal de estimação ou regar as plantas).

Para quem é indicada?
– Pessoas que estão lidando com depressão, ansiedade ou raiva por causa do diagnóstico.
– Pessoas que querem manter uma boa qualidade de vida apesar das limitações.


4. Terapia familiar

  • O que é? Um espaço para familiares e cuidadores aprenderem a lidar com os desafios da demência.
  • Temas abordados:
  • Como comunicar-se com a pessoa com demência (evitar perguntas complexas, usar frases curtas).
  • Como lidar com comportamentos difíceis (agitação, agressividade, alucinações).
  • Como cuidar de si mesmo para evitar o esgotamento (burnout do cuidador).
  • Como planejar o futuro (cuidados paliativos, decisões legais).

Exemplo prático:
Um filho que cuida do pai com demência pode aprender:
– A não corrigir o pai quando ele diz algo errado (por exemplo, se ele chama o filho pelo nome do irmão, em vez de corrigir, o filho pode dizer: “Sim, pai, estou aqui”).
– A simplificar as tarefas (por exemplo, em vez de pedir para o pai “preparar o jantar”, pedir para “lavar as batatas”).
– A reconhecer seus próprios limites e pedir ajuda quando necessário.

Para quem é indicada?
Familiares e cuidadores que se sentem sobrecarregados ou perdidos.
– Famílias que querem melhorar a comunicação e reduzir conflitos.


5. Grupos de apoio

  • O que são? Encontros com outras pessoas que estão passando pela mesma situação (pessoas com demência ou cuidadores).
  • Benefícios:
  • Reduzir o isolamento (“Não estou sozinho”).
  • Compartilhar experiências e aprender com os outros.
  • Receber apoio emocional e dicas práticas.
  • Onde encontrar?
  • ABRAz (Associação Brasileira de Alzheimer): oferece grupos de apoio em várias cidades.
  • CAPS (Centro de Atenção Psicossocial): alguns oferecem grupos para cuidadores.
  • Hospitais e clínicas: muitos têm grupos de apoio para demências.

Exemplo prático:
Em um grupo de apoio, uma cuidadora pode ouvir outra pessoa dizendo: “Meu marido também fica agressivo na hora do banho. Eu descobri que, se eu cantar uma música que ele gosta, ele fica mais calmo.” Isso pode ajudar a primeira cuidadora a experimentar a mesma estratégia.


Mudanças no dia a dia

Além dos medicamentos e da terapia, pequenas mudanças no estilo de vida podem fazer uma grande diferença na qualidade de vida da pessoa com demência e de seus cuidadores.

1. Exercício físico

  • Por que ajuda?
  • Melhora a circulação sanguínea no cérebro.
  • Reduz o estresse e a ansiedade.
  • Ajuda a manter a mobilidade e prevenir quedas.
  • Quais exercícios são recomendados?
  • Caminhada: 30 minutos por dia, em um ritmo confortável.
  • Tai chi ou yoga: ajudam no equilíbrio e na coordenação.
  • Dança: estimula a memória e a socialização.
  • Hidroginástica: ideal para quem tem dificuldade para andar.
  • Dicas:
  • Escolha atividades prazerosas para a pessoa.
  • Evite exercícios que exijam muita coordenação ou memória (como esportes complexos).
  • Sempre acompanhe a pessoa durante os exercícios para evitar quedas.

Exemplo prático:
Uma pessoa que gostava de dançar pode continuar frequentando aulas de dança adaptadas, onde os passos são simples e repetitivos.


2. Alimentação

  • O que comer?
  • Dieta mediterrânea: rica em peixes, azeite, frutas, verduras e grãos integrais. Estudos mostram que ela reduz o risco de demência e pode retardar sua progressão.
  • Alimentos ricos em ômega-3: peixes (salmão, sardinha), nozes e sementes de linhaça. O ômega-3 é importante para a saúde do cérebro.
  • Antioxidantes: frutas vermelhas, chocolate amargo (com moderação), chá verde. Protegem as células cerebrais.
  • Vitaminas do complexo B: ovos, carne, legumes. Importantes para a memória.
  • O que evitar?
  • Açúcar refinado: pode piorar a inflamação no cérebro.
  • Gorduras trans: presentes em alimentos industrializados (como salgadinhos e margarina).
  • Álcool em excesso: pode acelerar a perda de memória.
  • Dicas para refeições:
  • Ofereça refeições em horários fixos para criar uma rotina.
  • Use pratos coloridos para estimular o apetite.
  • Corte os alimentos em pedaços pequenos para facilitar a mastigação.
  • Evite distrações durante as refeições (como TV ou rádio).

Exemplo prático:
Em vez de oferecer um prato com vários alimentos misturados (o que pode confundir a pessoa), sirva um alimento de cada vez, em pratos separados.


3. Sono

  • Por que é importante?
  • O sono é essencial para a consolidação da memória.
  • A falta de sono pode piorar a confusão mental e a irritabilidade.
  • Dicas para uma boa noite de sono:
  • Mantenha uma rotina: dormir e acordar sempre no mesmo horário.
  • Evite cochilos longos durante o dia (máximo de 20-30 minutos).
  • Crie um ambiente tranquilo: quarto escuro, silencioso e com temperatura agradável.
  • Evite cafeína e álcool à noite.
  • Exponha-se à luz natural durante o dia para regular o relógio biológico.
  • O que fazer em casos de insônia ou agitação noturna?
  • Atividades relaxantes antes de dormir: ler um livro, ouvir música calma.
  • Banho morno antes de dormir.
  • Evitar telas (TV, celular, tablet) pelo menos 1 hora antes de dormir.
  • Se a pessoa acordar à noite, acalme-a com uma luz suave e uma voz tranquila. Evite discussões ou perguntas complexas.

Exemplo prático:
Se a pessoa costuma acordar confusa à noite, deixe uma luz noturna no quarto e um copo de água na mesinha de cabeceira para evitar que ela se levante.


4. Estimulação cognitiva

  • O que é? Atividades que exercitam o cérebro e ajudam a manter as funções cognitivas por mais tempo.
  • Exemplos de atividades:
  • Leitura: livros, jornais ou revistas com letras grandes.
  • Jogos: palavras cruzadas, sudoku, jogos de memória.
  • Música: ouvir músicas antigas ou tocar instrumentos simples (como um pandeiro).
  • Artesanato: pintura, tricô, crochê.
  • Culinária: preparar receitas simples (como um bolo ou um sanduíche).
  • Jardinagem: cuidar de plantas ou de uma horta.
  • Dicas:
  • Escolha atividades que a pessoa gostava antes do diagnóstico.
  • Adapte as atividades ao nível de dificuldade da pessoa (por exemplo, palavras cruzadas mais fáceis).
  • Faça junto com a pessoa para estimular a interação social.

Exemplo prático:
Uma pessoa que gostava de cozinhar pode continuar ajudando na cozinha, mas com tarefas mais simples, como lavar os legumes ou mexer a panela.


5. Tecnologia assistiva

  • O que é? Dispositivos e aplicativos que ajudam a pessoa a manter a independência e a segurança.
  • Exemplos:
  • GPS para idosos: pulseiras ou relógios com GPS que permitem localizar a pessoa em caso de ela se perder.
  • Aplicativos de lembretes: como o Google Keep ou Medisafe (para lembrar de tomar remédios).
  • Telefones com teclas grandes: facilitam as ligações.
  • Sensores de movimento: alertam o cuidador se a pessoa se levantar à noite.
  • Assistentes virtuais: como Alexa ou Google Assistant, que podem responder a perguntas simples (“Que dia é hoje?”) ou tocar músicas.
  • Dicas:
  • Ensine a pessoa a usar a tecnologia passo a passo.
  • Comece com dispositivos simples e vá aumentando a complexidade conforme a necessidade.

Exemplo prático:
Um relógio com GPS pode ser programado para enviar um alerta para o celular do cuidador se a pessoa sair de casa sem avisar.


Convivendo com o diagnóstico

Receber o diagnóstico de demência — seja para si mesmo ou para um ente querido — é um momento de muitas emoções: medo, tristeza, raiva, negação. É normal se sentir perdido e sem saber o que fazer. Nesta seção, vamos falar sobre como lidar com o diagnóstico, tanto para a pessoa com demência quanto para seus familiares e amigos.


Para a pessoa com o diagnóstico

Descobrir que se tem demência pode ser assustador e confuso. Você pode se perguntar:
– “Vou esquecer quem eu sou?”
– “Vou me tornar um fardo para minha família?”
– “Quanto tempo ainda tenho?”
– “O que vai acontecer comigo?”

Essas são perguntas naturais, mas é importante lembrar que:
Você não está sozinho. Milhões de pessoas no mundo vivem com demência e levam uma vida significativa.
Você ainda é você. A demência não apaga sua história, suas habilidades ou sua personalidade.
Há muito que você ainda pode fazer. Mesmo com limitações, você pode continuar desfrutando de atividades que gosta e mantendo relacionamentos importantes.
Você tem direitos. No Brasil, a Lei 10.216 garante que você seja tratado com dignidade e tenha acesso a cuidados de saúde.

Vamos falar sobre como viver bem com demência, mesmo com os desafios.


1. Aceitando o diagnóstico

Aceitar o diagnóstico não significa desistir, mas sim reconhecer a realidade para poder planejar o futuro. Algumas dicas:

  • Dê tempo a si mesmo. É normal sentir raiva, tristeza ou negação. Não se cobre para “aceitar tudo de uma vez”.
  • Fale sobre seus sentimentos. Converse com um psicólogo, um amigo de confiança ou um grupo de apoio. Guardar tudo para si só aumenta a angústia.
  • Informe-se sobre a doença. Quanto mais você souber, mais preparado estará para lidar com os sintomas. Mas cuidado: nem tudo que você lê na internet é confiável. Procure fontes seguras, como a ABRAz ou o Ministério da Saúde.
  • Foque no que você ainda pode fazer. Em vez de pensar “Não consigo mais fazer isso”, pense “O que eu ainda consigo fazer?”.

Exemplo prático:
Se você sempre gostou de cozinhar, mas agora tem dificuldade para seguir receitas complexas, experimente:
– Cozinhar pratos mais simples.
– Pedir ajuda para alguém cortar os ingredientes.
– Usar um livro de receitas com fotos passo a passo.


2. Mantendo a independência

É natural querer manter o controle sobre sua vida o máximo possível. Algumas estratégias:

  • Use lembretes. Anote compromissos em uma agenda, use alarmes no celular ou coloque post-its em lugares visíveis.
  • Simplifique as tarefas. Divida atividades complexas em etapas menores. Por exemplo:
  • Em vez de “preparar o jantar”, pense: “1. Lavar os legumes. 2. Cortar os legumes. 3. Colocar na panela.”
  • Peça ajuda quando precisar. Não há vergonha em pedir ajuda para tarefas que se tornaram difíceis. Isso não significa que você é incapaz, mas sim que está cuidando de si mesmo.
  • Adapte sua casa. Pequenas mudanças podem facilitar sua rotina:
  • Coloque etiquetas nos armários para identificar o conteúdo.
  • Use tapetes antiderrapantes no banheiro.
  • Instale barras de apoio no box e ao lado do vaso sanitário.
  • Mantenha uma rotina. Ter horários fixos para dormir, comer e realizar atividades ajuda a reduzir a confusão mental.

Exemplo prático:
Se você tem dificuldade para se vestir, experimente:
– Deixar as roupas separadas na ordem em que devem ser vestidas (de baixo para cima).
– Usar roupas com velcro em vez de botões.
– Pedir para alguém ajudar a escolher as roupas, mas se vestir sozinho.


3. Lidando com os esquecimentos

Esquecer coisas pode ser frustrante, mas há maneiras de minimizar o impacto:

  • Não se culpe. Os esquecimentos não são culpa sua. A demência é uma doença, não um fracasso pessoal.
  • Use truques de memória:
  • Associações: relacione uma informação nova a algo que você já sabe. Por exemplo, para lembrar o nome de alguém, associe-o a uma característica física (“Maria tem cabelo cacheado”).
  • Histórias: transforme uma lista de compras em uma história. Por exemplo: “Preciso comprar leite, pão e ovos. O leite é branco como a neve, o pão é dourado como o sol, e os ovos são redondos como a lua.”
  • Música: cante uma música que ajude a lembrar de algo. Por exemplo, para lembrar de tomar os remédios, cante uma música que você gosta na hora de tomá-los.
  • Aceite ajuda para coisas importantes. Por exemplo:
  • Peça para alguém verificar se você tomou os remédios.
  • Use um dispensador de medicamentos com alarmes.
  • Deixe as chaves e a carteira sempre no mesmo lugar.

Exemplo prático:
Se você costuma esquecer onde estacionou o carro, experimente:
– Tirar uma foto do local onde estacionou.
– Anotar o número da vaga ou do andar em um papel e guardar no bolso.
– Usar um aplicativo de localização no celular.


4. Mantendo relacionamentos

A demência pode mudar a forma como você se relaciona com as pessoas, mas não precisa acabar com seus relacionamentos. Algumas dicas:

  • Seja honesto sobre suas dificuldades. Diga às pessoas próximas: “Às vezes eu esqueço as coisas, mas isso não significa que eu não me importe com você.”
  • Peça paciência. Explique que você pode precisar de mais tempo para responder ou que pode repetir a mesma pergunta várias vezes.
  • Mantenha contato com amigos e familiares. Mesmo que você não consiga mais sair de casa com frequência, convide as pessoas para visitá-lo ou faça chamadas de vídeo.
  • Participe de grupos de apoio. Conhecer outras pessoas com demência pode ajudar você a se sentir menos sozinho e a aprender estratégias para lidar com os sintomas.

Exemplo prático:
Se você tem dificuldade para acompanhar conversas em grupo, experimente:
– Pedir para as pessoas falarem uma de cada vez.
– Fazer perguntas simples para manter o foco.
– Se perder o fio da meada, peça para alguém resumir o que foi dito.


5. Planejando o futuro

Pensar no futuro pode ser assustador, mas planejar com antecedência garante que suas vontades sejam respeitadas e que você receba os cuidados que deseja. Algumas coisas para considerar:

  • Diretivas antecipadas de vontade (testamento vital): um documento onde você registra suas vontades sobre tratamentos médicos caso não possa mais decidir por si mesmo. Por exemplo:
  • Se você quer ou não ser reanimado em caso de parada cardíaca.
  • Se você quer ou não ser alimentado por sonda.
  • Se você prefere ficar em casa ou em uma instituição de longa permanência.
  • Procuração duradoura: um documento que autoriza uma pessoa de confiança a tomar decisões em seu nome (financeiras, médicas, etc.) caso você não possa mais fazê-lo.
  • Testamento: para garantir que seus bens sejam distribuídos conforme sua vontade.
  • Cuidados paliativos: converse com seu médico sobre como garantir qualidade de vida nos estágios mais avançados da doença. Os cuidados paliativos não são apenas para o fim da vida, mas sim para aliviar o sofrimento em qualquer fase da doença.

Onde fazer esses documentos?
Diretivas antecipadas e procuração: podem ser feitas com um advogado ou em cartórios.
Testamento: deve ser feito com um advogado ou em cartório.

Exemplo prático:
Se você tem medo de perder a capacidade de decidir sobre seu tratamento, converse com seu médico e com sua família sobre suas vontades. Por exemplo:
– “Eu não quero ser mantido vivo por aparelhos se não houver chance de recuperação.”
– “Eu prefiro ficar em casa com cuidadores do que ir para uma instituição.”


6. Cuidando da saúde emocional

Viver com demência pode ser emocionalmente desgastante. É importante cuidar da sua saúde mental:

  • Permita-se sentir. É normal sentir tristeza, raiva ou medo. Não tente ignorar essas emoções.
  • Pratique atividades que lhe dão prazer. Mesmo que você não consiga mais fazer tudo o que fazia antes, ainda há muitas coisas que podem trazer alegria:
  • Ouvir música.
  • Pintar ou desenhar.
  • Cuidar de plantas ou animais.
  • Receber visitas de amigos ou familiares.
  • Mantenha-se ativo socialmente. O isolamento pode piorar os sintomas da demência. Mesmo que você não consiga mais sair de casa, mantenha contato com as pessoas por telefone ou vídeo.
  • Busque ajuda profissional. Um psicólogo pode ajudá-lo a lidar com as emoções e a encontrar estratégias para viver bem com a demência.

Exemplo prático:
Se você se sente triste ou ansioso, experimente:
– Escrever em um diário sobre seus sentimentos.
– Fazer meditação ou exercícios de respiração.
– Conversar com um psicólogo ou participar de um grupo de apoio.


Para familiares e amigos

Cuidar de alguém com demência é um desafio enorme. Você pode se sentir sobrecarregado, frustrado, culpado ou até mesmo ressentido. Tudo isso é normal. Nesta seção, vamos falar sobre como ajudar seu ente querido sem se esquecer de si mesmo.


1. Entendendo a doença

O primeiro passo para ajudar é entender o que está acontecendo. A demência não é apenas “esquecimento”, mas sim uma doença que afeta o cérebro de várias maneiras. Algumas coisas importantes para lembrar:

  • A pessoa não está fazendo de propósito. Quando ela esquece algo, repete a mesma pergunta ou fica agressiva, não é por mal. É a doença agindo.
  • Os sintomas podem variar de um dia para o outro. Alguns dias serão melhores, outros serão mais difíceis. Não leve as oscilações para o lado pessoal.
  • A pessoa ainda é a mesma. Mesmo com as limitações, ela ainda tem sentimentos, memórias e preferências. Trate-a com respeito e dignidade.
  • Você não está sozinho. Muitas famílias passam pelo mesmo desafio. Busque apoio em grupos de cuidadores ou com profissionais.

2. Como ajudar no dia a dia

Pequenas mudanças na rotina podem fazer uma grande diferença na qualidade de vida da pessoa com demência.

Comunicação
  • Use frases curtas e simples. Em vez de “Você quer tomar café agora ou prefere esperar um pouco?”, diga “Vamos tomar café?”.
  • Faça uma pergunta de cada vez. Evite perguntas complexas ou que exijam memória recente. Por exemplo, em vez de “O que você fez ontem?”, pergunte “Você gostaria de dar uma volta no parque hoje?”.
  • Dê tempo para a pessoa responder. Não a apresse. Se ela demorar para responder, seja paciente.
  • Use gestos e expressões faciais. Às vezes, um sorriso ou um toque no braço pode transmitir mais do que palavras.
  • Evite corrigir ou contradizer. Se a pessoa disser algo errado, não a corrija. Em vez disso, valide seus sentimentos. Por exemplo:
  • Pessoa: “Eu quero ir para casa.” (mesmo estando em casa)
  • Cuidador: “Eu entendo que você esteja com saudade de casa. Vamos sentar um pouco e depois podemos dar uma volta.”
  • Use lembretes visuais. Coloque calendários, relógios e fotos em lugares visíveis para ajudar a pessoa a se orientar.

Exemplo prático:
Se a pessoa perguntar várias vezes “Que horas são?”, em vez de responder a mesma coisa repetidamente, experimente:
– Colocar um relógio grande em um lugar visível.
– Dizer: “São 10h da manhã. Vamos tomar café daqui a pouco.”


Atividades diárias
  • Mantenha uma rotina. Ter horários fixos para dormir, comer e realizar atividades ajuda a reduzir a confusão mental.
  • Divida as tarefas em etapas simples. Por exemplo, para ajudar a pessoa a se vestir:
  • “Pegue a camisa.”
  • “Coloque o braço esquerdo na manga.”
  • “Agora o braço direito.”
  • Use roupas e calçados fáceis de vestir. Prefira roupas com velcro ou elástico em vez de botões e zíperes.
  • Adapte a casa para evitar acidentes:
  • Retire tapetes escorregadios.
  • Instale barras de apoio no banheiro.
  • Use luzes noturnas para evitar quedas.
  • Guarde objetos perigosos (facas, remédios, produtos de limpeza) em lugares seguros.
  • Estimule a independência. Deixe a pessoa fazer o que ainda consegue, mesmo que demore mais. Por exemplo:
  • Se ela consegue se alimentar sozinha, mas demora, seja paciente.
  • Se ela consegue se vestir, mas escolhe roupas estranhas, não corrija (a menos que seja necessário).

Exemplo prático:
Se a pessoa tem dificuldade para tomar banho, experimente:
– Deixar tudo preparado (toalha, sabonete, roupas limpas).
– Usar um banco no box para evitar quedas.
– Colocar uma música relaxante para tornar o momento mais agradável.


Alimentação
  • Ofereça refeições em horários fixos.
  • Use pratos coloridos para estimular o apetite.
  • Corte os alimentos em pedaços pequenos para facilitar a mastigação.
  • Evite distrações durante as refeições (como TV ou rádio).
  • Ofereça líquidos regularmente para evitar desidratação.

Exemplo prático:
Se a pessoa se recusa a comer, experimente:
– Oferecer alimentos que ela sempre gostou.
– Servir porções pequenas e frequentes.
– Usar talheres adaptados (com cabos grossos, por exemplo).


Sono
  • Mantenha uma rotina de sono: dormir e acordar sempre no mesmo horário.
  • Evite cochilos longos durante o dia.
  • Crie um ambiente tranquilo para dormir: quarto escuro, silencioso e com temperatura agradável.
  • Evite cafeína e álcool à noite.
  • Se a pessoa acordar à noite, acalme-a com uma luz suave e uma voz tranquila. Evite discussões ou perguntas complexas.

Exemplo prático:
Se a pessoa costuma acordar confusa à noite, experimente:
– Deixar uma luz noturna no quarto.
– Colocar um copinho de água na mesinha de cabeceira.
– Dizer: “Está tudo bem. É de madrugada, mas logo vai amanhecer.”


3. Lidando com comportamentos difíceis

A demência pode causar comportamentos desafiadores, como agitação, agressividade, alucinações ou resistência a cuidados. É importante lembrar que a pessoa não está fazendo de propósito. Esses comportamentos são sintomas da doença, não um ataque pessoal.

Agitação e agressividade
  • Causas comuns:
  • Dor ou desconforto físico (por exemplo, infecção urinária, prisão de ventre).
  • Fome, sede ou cansaço.
  • Mudanças na rotina ou no ambiente.
  • Frustração por não conseguir se comunicar.
  • O que fazer?
  • Mantenha a calma. Não discuta ou force a pessoa a fazer algo. Isso pode piorar a situação.
  • Identifique a causa. Pergunte-se: “Ela está com fome? Com dor? Cansada?”.
  • Redirecione a atenção. Ofereça uma atividade que a pessoa goste, como ouvir música ou dar uma volta.
  • Simplifique o ambiente. Reduza barulhos, luzes fortes e distrações.
  • Use uma voz tranquila e um tom amigável. Diga: “Eu estou aqui para ajudar. Vamos fazer isso juntos.”
  • Evite confrontos. Se a pessoa se recusar a tomar banho, por exemplo, tente novamente mais tarde.

Exemplo prático:
Se a pessoa ficar agressiva na hora de tomar banho, experimente:
– Dizer: “Vamos tomar um banho rápido e depois tomar um café gostoso.”
– Usar um banho de esponja em vez de chuveiro, se ela estiver muito resistente.
– Tentar novamente mais tarde, quando ela estiver mais calma.


Alucinações e delírios
  • O que são?
  • Alucinações: ver, ouvir ou sentir coisas que não existem (por exemplo, ver pessoas na sala que não estão lá).
  • Delírios: acreditar em coisas que não são verdadeiras (por exemplo, achar que alguém está roubando suas coisas).
  • O que fazer?
  • Não discuta. Dizer “Não tem ninguém aqui!” pode deixar a pessoa mais confusa ou assustada.
  • Valide os sentimentos. Diga: “Eu entendo que isso deve ser assustador para você.”
  • Redirecione a atenção. Ofereça uma atividade ou mude de ambiente.
  • Verifique se há uma causa física. Às vezes, alucinações podem ser causadas por infecções, desidratação ou efeitos colaterais de medicamentos.
  • Consulte o médico. Se as alucinações ou delírios forem frequentes ou perturbadores, o médico pode ajustar a medicação.

Exemplo prático:
Se a pessoa disser que está vendo crianças brincando na sala, experimente:
– Dizer: “Eu não estou vendo as crianças, mas elas parecem estar se divertindo. Vamos ver se elas gostariam de um suco?”
– Oferecer um copo de água ou um lanche para distraí-la.
– Ligar uma música que ela goste.


Vaguear (andar sem rumo)
  • Por que acontece?
  • A pessoa pode estar procurando algo ou alguém.
  • Pode estar confusa sobre onde está.
  • Pode estar entediada ou inquieta.
  • O que fazer?
  • Garanta a segurança. Instale fechaduras altas (fora do alcance da pessoa) ou alarmes nas portas.
  • Identifique a pessoa. Use uma pulseira ou colar com informações de contato.
  • Mantenha uma rotina. O vaguear pode ser um sinal de que a pessoa está entediada ou inquieta.
  • Ofereça atividades. Caminhadas supervisionadas, jardinagem ou ouvir música podem ajudar.
  • Use tecnologia. Dispositivos com GPS podem ajudar a localizar a pessoa caso ela saia de casa.

Exemplo prático:
Se a pessoa costuma sair de casa sem rumo, experimente:
– Colocar um aviso na porta: “Antes de sair, avise alguém.”
– Instalar um alarme na porta que toque quando ela for aberta.
– Oferecer uma atividade que a distraia, como regar as plantas ou dobrar roupas.


4. Cuidando de si mesmo

Cuidar de alguém com demência é fisicamente e emocionalmente desgastante. Muitos cuidadores acabam negligenciando sua própria saúde, o que pode levar a:
Esgotamento (burnout).
Depressão e ansiedade.
Problemas de saúde física (pressão alta, insônia, dores crônicas).

É fundamental que você também se cuide. Algumas dicas:

Peça ajuda
  • Não tente fazer tudo sozinho. Peça ajuda a outros familiares, amigos ou vizinhos.
  • Contrate um cuidador profissional, mesmo que por algumas horas por semana, para ter um tempo para si.
  • Use serviços de apoio, como:
  • Centros-dia: locais onde a pessoa com demência pode passar o dia fazendo atividades supervisionadas.
  • Instituições de longa permanência: em casos mais avançados, pode ser necessário considerar essa opção.
  • Grupos de apoio para cuidadores: como os oferecidos pela ABRAz.

Exemplo prático:
Se você está se sentindo sobrecarregado, experimente:
– Pedir para um familiar ficar com a pessoa uma tarde por semana para você sair.
– Contratar um cuidador por algumas horas para você ir ao médico ou ao salão de beleza.
– Participar de um grupo de apoio para cuidadores.


Mantenha sua saúde física
  • Durma bem. A falta de sono piora o estresse e a irritabilidade.
  • Alimente-se bem. Evite pular refeições ou comer “qualquer coisa”.
  • Faça exercícios físicos. Mesmo uma caminhada de 20 minutos por dia pode ajudar a reduzir o estresse.
  • Vá ao médico regularmente. Não negligencie suas próprias consultas e exames.

Cuide da sua saúde mental
  • Permita-se sentir. É normal sentir raiva, tristeza ou culpa. Não se cobre para ser “forte o tempo todo”.
  • Fale sobre seus sentimentos. Converse com um amigo, um psicólogo ou um grupo de apoio.
  • Tire um tempo para si. Mesmo que sejam apenas 15 minutos por dia, faça algo que lhe dê prazer:
  • Ler um livro.
  • Ouvir música.
  • Tomar um banho relaxante.
  • Fazer uma caminhada.
  • Pratique técnicas de relaxamento, como:
  • Meditação.
  • Exercícios de respiração.
  • Yoga.

Exemplo prático:
Se você está se sentindo estressado, experimente:
– Fazer uma respiração profunda: inspire pelo nariz contando até 4, segure o ar por 4 segundos e expire pela boca contando até 6.
– Escrever em um diário sobre seus sentimentos.
– Assistir a um filme ou série que você goste.


Estabeleça limites
  • Não se sinta culpado por dizer “não”. Você não precisa fazer tudo sozinho.
  • Defina prioridades. Nem tudo precisa ser feito perfeitamente. Foque no que é realmente importante.
  • Aceite que você não pode controlar tudo. A demência é uma doença progressiva, e alguns sintomas vão piorar com o tempo. Isso não é culpa sua.

Exemplo prático:
Se você está exausto e um familiar critica a forma como você está cuidando da pessoa, experimente dizer:
– “Eu estou fazendo o meu melhor, e preciso de ajuda.”
– “Eu entendo sua preocupação, mas também preciso cuidar de mim.”


5. Planejando o futuro

Cuidar de alguém com demência é uma maratona, não uma corrida. É importante planejar o futuro para garantir que a pessoa receba os cuidados de que precisa e que você não se esgote.

Questões legais e financeiras
  • Procuração duradoura: um documento que autoriza você (ou outra pessoa de confiança) a tomar decisões em nome da pessoa com demência.
  • Testamento: para garantir que os bens da pessoa sejam distribuídos conforme sua vontade.
  • Diretivas antecipadas de vontade (testamento vital): um documento onde a pessoa registra suas vontades sobre tratamentos médicos caso não possa mais decidir por si mesma.
  • Benefícios previdenciários: verifique se a pessoa tem direito a aposentadoria por invalidez ou benefício de prestação continuada (BPC).

Onde fazer esses documentos?
Advogado ou cartório.


Cuidados paliativos

Os cuidados paliativos não são apenas para o fim da vida, mas sim para melhorar a qualidade de vida em qualquer fase da doença. Eles incluem:
Controle da dor e de outros sintomas.
Apoio emocional para a pessoa e a família.
Orientação sobre os cuidados (como alimentação, higiene e mobilidade).

Como acessar?
SUS: procure um Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF) ou um serviço de cuidados paliativos em hospitais.
Particular: procure um médico especializado em cuidados paliativos.


Instituições de longa permanência

Em alguns casos, pode ser necessário considerar a internação em uma instituição de longa permanência (como um asilo ou uma clínica especializada). Isso não significa que você está “abandonando” a pessoa, mas sim que está garantindo que ela receba os cuidados de que precisa.

Como escolher uma instituição?
Visite o local e converse com a equipe.
Verifique se a instituição é especializada em demências.
Pergunte sobre a rotina (atividades, alimentação, cuidados médicos).
Converse com outros familiares que tenham entes queridos na instituição.

Exemplo prático:
Se você está considerando uma instituição, experimente:
– Visitar o local mais de uma vez, em horários diferentes.
– Perguntar: “Como vocês lidam com comportamentos difíceis, como agitação ou agressividade?”
– Observar se os residentes parecem bem cuidados e felizes.


Perguntas frequentes

Nesta seção, respondemos às perguntas mais comuns que pacientes e familiares fazem sobre a demência por outra causa especificada.


1. Demência tem cura?

Resposta:
Depende da causa. Algumas demências podem ser revertidas ou estabilizadas se a causa for tratada a tempo. Por exemplo:
Demência por deficiência de vitamina B12: pode melhorar com suplementação.
Demência por hipotireoidismo: pode melhorar com reposição hormonal.
Demência por hidrocefalia: pode melhorar com cirurgia.
Demência por efeitos colaterais de medicamentos: pode melhorar ao suspender o remédio.

No entanto, a maioria das demências não tem cura, mas tem tratamento. Os medicamentos e as terapias podem:
Retardar a progressão dos sintomas.
Melhorar a qualidade de vida.
Controlar sintomas como agitação, depressão ou alucinações.

O que você pode fazer?
Busque tratamento o quanto antes. Quanto mais cedo a demência for diagnosticada, melhores são as chances de controle.
Siga as orientações médicas. Tome os medicamentos conforme prescrito e participe das terapias recomendadas.
Adapte o estilo de vida. Uma alimentação saudável, exercícios físicos e estimulação cognitiva podem fazer diferença.


2. Como diferenciar demência de esquecimento normal?

Resposta:
Todo mundo esquece coisas de vez em quando, especialmente com o envelhecimento. A diferença está no impacto que os esquecimentos têm na vida diária. Vamos comparar:

Esquecimento normal Sintoma de demência
Esquecer onde deixou as chaves. Esquecer como usar as chaves ou para que servem.
Esquecer o nome de um conhecido. Não reconhecer um familiar próximo.
Demorar para lembrar uma palavra. Não conseguir formar frases ou entender o que os outros dizem.
Esquecer um compromisso ocasionalmente. Esquecer compromissos importantes com frequência.
Perder-se em uma cidade nova. Perder-se em lugares conhecidos, como o próprio bairro.
Ter dificuldade para aprender algo novo. Não conseguir realizar tarefas rotineiras, como cozinhar ou se vestir.

Outros sinais de alerta:
Mudanças de personalidade: a pessoa fica mais irritada, apática ou socialmente inadequada.
Dificuldade para tomar decisões: não consegue mais administrar as finanças ou planejar atividades.
Problemas de linguagem: dificuldade para encontrar palavras ou acompanhar conversas.
Comportamentos repetitivos: fazer a mesma pergunta várias vezes ou andar de um lado para o outro sem motivo.

O que fazer?
Se você ou alguém próximo apresentar vários desses sinais, procure um médico para uma avaliação. Muitas condições que parecem demência têm tratamento!


3. Demência é hereditária?

Resposta:
Na maioria dos casos, não. Apenas algumas formas raras de demência têm um componente genético forte, como:
Doença de Alzheimer familiar: causada por mutações em genes específicos (como o gene da presenilina). Representa menos de 1% dos casos de Alzheimer.
Doença de Huntington: uma doença genética que causa demência e problemas de movimento.

Para a maioria das pessoas, a demência não é hereditária. No entanto, ter um parente de primeiro grau (pai, mãe ou irmão) com demência aumenta levemente o risco, porque compartilhamos fatores de risco como:
Genética (alguns genes podem aumentar a predisposição).
Estilo de vida (alimentação, exercícios, tabagismo).
Doenças crônicas (diabetes, hipertensão).

O que você pode fazer?
Adote um estilo de vida saudável: alimentação balanceada, exercícios físicos, controle do estresse.
Controle doenças crônicas: diabetes, hipertensão e colesterol alto aumentam o risco de demência.
Estimule o cérebro: leitura, jogos, aprendizado de novas habilidades.
Não fume e evite o consumo excessivo de álcool.

Lembre-se: Ter um parente com demência não significa que você vai desenvolver a doença. Muitos fatores influenciam, e você pode reduzir seus riscos com hábitos saudáveis.


4. Quais são os estágios da demência?

Resposta:
A demência é uma doença progressiva, ou seja, os sintomas pioram com o tempo. Os estágios variam de acordo com a causa, mas, de modo geral, podemos dividi-los em três fases:


Estágio leve (inicial)

  • Sintomas:
  • Esquecimentos frequentes (nomes, compromissos, onde deixou objetos).
  • Dificuldade para encontrar palavras ou acompanhar conversas.
  • Problemas para organizar tarefas (como pagar contas ou seguir uma receita).
  • Mudanças sutis de humor (irritabilidade, apatia).
  • Perder-se em lugares conhecidos ocasionalmente.
  • O que a pessoa ainda consegue fazer?
  • Viver de forma independente, com algumas adaptações (lembretes, ajuda para tarefas complexas).
  • Reconhecer familiares e amigos.
  • Realizar atividades simples do dia a dia (se vestir, tomar banho, comer).
  • Como ajudar?
  • Estimule a independência: deixe a pessoa fazer o que ainda consegue, mesmo que demore mais.
  • Use lembretes: agendas, alarmes, post-its.
  • Simplifique as tarefas: divida atividades complexas em etapas menores.
  • Mantenha uma rotina: horários fixos para dormir, comer e realizar atividades.

Estágio moderado (intermediário)

  • Sintomas:
  • Esquecimentos mais graves (não reconhecer familiares, esquecer eventos recentes).
  • Dificuldade para realizar tarefas do dia a dia (se vestir, tomar banho, cozinhar).
  • Problemas de linguagem (dificuldade para falar, entender ou ler).
  • Comportamentos repetitivos (fazer a mesma pergunta várias vezes, andar de um lado para o outro).
  • Mudanças de personalidade (agressividade, apatia, alucinações).
  • Dificuldade para se orientar no tempo e no espaço (não saber o dia, mês ou onde está).
  • O que a pessoa ainda consegue fazer?
  • Reconhecer pessoas muito próximas (cônjuge, filhos).
  • Realizar atividades simples com supervisão (comer, se vestir com ajuda).
  • Lembrar de eventos muito antigos (infância, juventude).
  • Como ajudar?
  • Adapte o ambiente: retire tapetes escorregadios, instale barras de apoio no banheiro.
  • Use comunicação simples: frases curtas, gestos, expressões faciais.
  • Mantenha a rotina: horários fixos para dormir, comer e realizar atividades.
  • Ofereça atividades prazerosas: ouvir música, olhar álbuns de fotos, fazer artesanato.
  • Garanta a segurança: use dispositivos com GPS, instale alarmes nas portas.

Estágio grave (avançado)

  • Sintomas:
  • Perda total da capacidade de se comunicar (pode não falar ou entender).
  • Dependência total para atividades básicas (comer, se vestir, tomar banho).
  • Dificuldade para andar ou se equilibrar (risco de quedas).
  • Incontinência urinária e fecal.
  • Dificuldade para engolir (risco de desnutrição e pneumonia).
  • Perda de reconhecimento de familiares e de si mesmo.
  • O que a pessoa ainda consegue fazer?
  • Responder a estímulos sensoriais (toque, música, cheiros).
  • Demonstrar emoções (sorrir, chorar, ficar agitada).
  • Como ajudar?
  • Garanta conforto e dignidade: cuidados com a higiene, alimentação e hidratação.
  • Estimule os sentidos: toque suave, música calma, cheiros agradáveis.
  • Ofereça alimentos fáceis de engolir: papinhas, sopas, alimentos amassados.
  • Previna infecções: cuidados com a higiene bucal e corporal.
  • Cuide da saúde emocional: converse com a pessoa, mesmo que ela não responda. O toque e a voz familiar podem trazer conforto.

5. Como lidar com a agressividade?

Resposta:
A agressividade é um dos comportamentos mais desafiadores da demência, mas é importante lembrar que a pessoa não está fazendo de propósito. Ela está frustrada, assustada ou com dor, e não sabe como expressar isso.

Causas comuns de agressividade:
Dor ou desconforto físico (infecção urinária, prisão de ventre, dor de dente).
Fome, sede ou cansaço.
Mudanças na rotina ou no ambiente.
Frustração por não conseguir se comunicar.
Alucinações ou delírios (achar que está sendo ameaçada).
Efeitos colaterais de medicamentos.

O que fazer?
1. Mantenha a calma. Não discuta ou force a pessoa a fazer algo. Isso pode piorar a situação.
2. Identifique a causa. Pergunte-se: “Ela está com fome? Com dor? Cansada?”.
3. Redirecione a atenção. Ofereça uma atividade que a pessoa goste, como ouvir música ou dar uma volta.
4. Simplifique o ambiente. Reduza barulhos, luzes fortes e distrações.
5. Use uma voz tranquila e um tom amigável. Diga: “Eu estou aqui para ajudar. Vamos fazer isso juntos.”
6. Evite confrontos. Se a pessoa se recusar a tomar banho, por exemplo, tente novamente mais tarde.
7. Garanta sua segurança. Se a agressividade colocar você ou a pessoa em risco, afaste-se e peça ajuda.

Exemplo prático:
Se a pessoa ficar agressiva na hora de tomar banho, experimente:
– Dizer: “Vamos tomar um banho rápido e depois tomar um café gostoso.”
– Usar um banho de esponja em vez de chuveiro, se ela estiver muito resistente.
– Tentar novamente mais tarde, quando ela estiver mais calma.

Quando procurar ajuda médica?
– Se a agressividade for frequente ou intensa.
– Se a pessoa colocar a si mesma ou outras pessoas em risco.
– Se houver suspeita de dor ou desconforto físico (como uma infecção).

O médico pode:
– Ajustar a medicação.
– Investigar causas físicas (como infecções).
– Recomendar terapias comportamentais.


6. Como explicar a demência para crianças?

Resposta:
Explicar a demência para crianças pode ser desafiador, mas é importante que elas entendam o que está acontecendo para não se sentirem confusas ou assustadas. Algumas dicas:

Adapte a explicação à idade da criança

  • Crianças pequenas (3-6 anos):
  • Use linguagem simples e exemplos concretos.
  • Diga: “O vovô está doente. Às vezes ele esquece as coisas, como onde deixou o brinquedo dele. Não é culpa sua, e ele ainda te ama muito.”
  • Compare com algo que a criança entenda: “É como se o cérebro dele estivesse meio confuso, como quando você tenta lembrar de um sonho e não consegue.”
  • Crianças em idade escolar (7-12 anos):
  • Explique que a demência é uma doença do cérebro que faz a pessoa esquecer coisas e mudar de comportamento.
  • Diga: “A vovó não está brava com você. É a doença que está deixando ela confusa.”
  • Encoraje a criança a fazer perguntas e expressar seus sentimentos.
  • Adolescentes (13 anos ou mais):
  • Explique de forma mais detalhada, mas ainda simples.
  • Diga: “A demência é uma doença que danifica as células do cérebro. Por isso, o vovô pode esquecer coisas, ficar confuso ou até mesmo não reconhecer as pessoas.”
  • Converse sobre como a doença progride e o que esperar no futuro.

O que evitar?

  • Mentiras: não diga que “a vovó está só cansada” se ela não reconhece mais a criança. Isso pode gerar confusão e frustração.
  • Detalhes assustadores: não diga que “a pessoa vai morrer logo” ou que “vai esquecer todo mundo”. Foque no presente.
  • Culpar a criança: não diga “Se você fosse mais legal, ela não ficaria assim”. A demência não é culpa de ninguém.

Como envolver a criança?

  • Dê pequenas tarefas: “Você pode ajudar a vovó a escolher a roupa dela hoje?” ou “Vamos cantar uma música para o vovô?”.
  • Mantenha rotinas: crianças se sentem mais seguras quando sabem o que esperar. Por exemplo: “Toda terça-feira, nós vamos visitar a vovó e levar um desenho para ela.”
  • Valide os sentimentos da criança: é normal que ela se sinta triste, confusa ou até com raiva. Diga: “Eu entendo que você esteja triste. Eu também estou.”
  • Use livros e histórias: existem livros infantis sobre demência que podem ajudar a explicar a doença. Alguns exemplos:
  • “Vovô não é mais o mesmo” (de Ana Claudia Quintana Arantes).
  • “O vovô esqueceu de mim?” (de Fabiana Gutierrez).

Exemplo prático:
Se a criança perguntar “Por que a vovó não me reconhece mais?”, você pode dizer:
“O cérebro da vovó está doente, e isso faz com que ela esqueça algumas coisas. Mas ela ainda te ama muito, mesmo que não consiga dizer isso. Vamos fazer um desenho para ela? Assim ela vai se lembrar de como você é especial.”


7. Quais são os direitos da pessoa com demência no Brasil?

Resposta:
No Brasil, a pessoa com demência tem direitos garantidos por lei, que visam proteger sua dignidade, autonomia e acesso a cuidados de saúde. Alguns dos principais direitos são:

1. Direito à saúde

  • Acesso ao SUS: a pessoa com demência tem direito a consultas, exames, medicamentos e tratamentos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
  • Medicamentos gratuitos: alguns medicamentos para demência (como donepezila e memantina) são distribuídos gratuitamente pelo programa Farmácia Popular.
  • Cuidados paliativos: direito a tratamentos que aliviem o sofrimento e melhorem a qualidade de vida, em qualquer fase da doença.

Onde buscar?
Unidade Básica de Saúde (UBS): para consultas e encaminhamentos.
CAPS (Centro de Atenção Psicossocial): para apoio psicológico e grupos de cuidadores.
Hospitais: para exames e tratamentos mais complexos.


2. Direito à assistência social

  • Benefício de Prestação Continuada (BPC): um salário mínimo mensal para pessoas com deficiência (incluindo demência) de baixa renda.
  • Requisitos:
    • Renda familiar per capita inferior a 1/4 do salário mínimo.
    • Laudo médico comprovando a demência.
  • Onde solicitar? No INSS ou em um CRAS (Centro de Referência de Assistência Social).
  • Isenção de impostos: pessoas com demência podem ter direito a isenção de IPTU, IPVA e imposto de renda, dependendo da legislação do município ou estado.

3. Direito à acessibilidade

  • Prioridade no atendimento: em bancos, supermercados, hospitais e outros estabelecimentos.
  • Acesso a transporte público gratuito ou com desconto: em muitas cidades, idosos e pessoas com deficiência têm direito a passe livre no transporte público.
  • Adaptações na casa: algumas prefeituras oferecem programas de adaptação de moradias para pessoas com deficiência (como instalação de barras de apoio).

4. Direitos legais

  • Curatela: se a pessoa com demência não puder mais tomar decisões, um familiar pode solicitar a curatela (um processo judicial que autoriza alguém a tomar decisões em nome da pessoa).
  • Onde solicitar? Na Justiça (com auxílio de um advogado).
  • Diretivas antecipadas de vontade (testamento vital): um documento onde a pessoa registra suas vontades sobre tratamentos médicos caso não possa mais decidir por si mesma.
  • Onde fazer? Com um advogado ou em cartório.
  • Procuração duradoura: um documento que autoriza uma pessoa de confiança a tomar decisões (financeiras, médicas, etc.) em nome da pessoa com demência.
  • Onde fazer? Com um advogado ou em cartório.

5. Direito ao trabalho

  • Aposentadoria por invalidez: se a demência impedir a pessoa de trabalhar, ela pode solicitar a aposentadoria por invalidez.
  • Onde solicitar? No INSS.
  • Estabilidade no emprego: se a pessoa ainda estiver trabalhando, ela não pode ser demitida por causa da demência.

6. Direito à dignidade e ao respeito

  • Lei 10.216 (Lei da Reforma Psiquiátrica): garante que a pessoa com demência seja tratada com dignidade e respeito, sem isolamento ou contenção desnecessária.
  • Proteção contra abusos: a pessoa com demência está protegida contra violência, negligência e exploração financeira.
  • Onde denunciar? No Disque 100 (Disque Direitos Humanos) ou na Delegacia de Proteção ao Idoso.

8. Como é o processo de luto na demência?

Resposta:
O luto na demência é diferente do luto por morte, porque é um processo gradual. A pessoa com demência ainda está fisicamente presente, mas vai mudando aos poucos, até que a personalidade e as memórias se perdem. Esse tipo de luto é chamado de “luto antecipatório” e pode ser muito doloroso para familiares e cuidadores.

Fases do luto na demência

  1. Negação:
  2. “Isso não pode estar acontecendo.”
  3. “Ela só está cansada, vai melhorar.”
  4. Como lidar? Busque informações sobre a doença e converse com um médico ou psicólogo.
  5. Raiva:
  6. “Por que isso está acontecendo comigo?”
  7. “Ela não merece isso!”
  8. Como lidar? Permita-se sentir raiva, mas não descarregue nos outros. Converse com um amigo ou terapeuta.
  9. Barganha:
  10. “Se eu cuidar melhor dela, ela vai melhorar.”
  11. “Deus, me ajude a encontrar uma cura.”
  12. Como lidar? Aceite que algumas coisas estão fora do seu controle. Foque no que você pode fazer (como garantir conforto e dignidade).
  13. Tristeza:
  14. “Eu sinto tanta falta dela, mesmo ela estando aqui.”
  15. “Nada mais faz sentido.”
  16. Como lidar? Permita-se sentir tristeza. Busque apoio em grupos de cuidadores ou terapia.
  17. Aceitação:
  18. “Eu não posso mudar o que está acontecendo, mas posso tornar esse momento o mais tranquilo possível.”
  19. “Eu vou aproveitar o tempo que ainda temos juntos.”
  20. Como lidar? Foque no presente e nas pequenas coisas que ainda trazem alegria.

Como lidar com o luto?

  • Permita-se sentir. É normal sentir tristeza, raiva, culpa ou alívio. Não se cobre para “ser forte”.
  • Fale sobre seus sentimentos. Converse com amigos, familiares ou um psicólogo.
  • Cuide de si mesmo. Durma bem, alimente-se bem e faça atividades que lhe dão prazer.
  • Busque apoio. Grupos de cuidadores (como os da ABRAz) podem ajudar você a se sentir menos sozinho.
  • Celebre as pequenas vitórias. Mesmo nos estágios avançados, ainda há momentos de conexão (um sorriso, um toque, uma música que ela gosta).
  • Planeje o futuro. Converse com a família sobre cuidados paliativos e diretivas antecipadas de vontade.

Exemplo prático:
Se você está se sentindo sobrecarregado pelo luto, experimente:
– Escrever uma carta para a pessoa com demência, dizendo tudo o que você sente.
– Criar um álbum de memórias com fotos e histórias da pessoa.
– Participar de um grupo de apoio para cuidadores.


9. Quando considerar uma instituição de longa permanência?

Resposta:
Colocar um ente querido em uma instituição de longa permanência (como um asilo ou uma clínica especializada) é uma decisão difícil e pessoal. Muitos cuidadores se sentem culpados por considerar essa opção, mas é importante lembrar que não é um fracasso. Às vezes, é a melhor forma de garantir que a pessoa receba os cuidados de que precisa.

Sinais de que pode ser hora de considerar uma instituição

  • A pessoa precisa de cuidados 24 horas por dia, e você não consegue mais dar conta sozinho.
  • Sua saúde física ou mental está sendo afetada pelo estresse de cuidar.
  • A pessoa apresenta comportamentos de risco, como:
  • Vaguear (sair de casa e se perder).
  • Agitação ou agressividade frequente.
  • Quedas ou acidentes domésticos.
  • A pessoa não reconhece mais os familiares e precisa de ajuda para todas as atividades básicas (comer, tomar banho, se vestir).
  • Você não tem mais apoio de outros familiares ou cuidadores.

Como escolher uma instituição?

  1. Visite o local pessoalmente. Converse com a equipe e observe como os residentes são tratados.
  2. Verifique se a instituição é especializada em demências. Pergunte:
  3. “Vocês têm experiência com demência?”
  4. “Como vocês lidam com comportamentos difíceis, como agitação ou agressividade?”
  5. “Quais atividades são oferecidas para os residentes?”
  6. Observe o ambiente:
  7. O local é limpo e seguro?
  8. Os residentes parecem bem cuidados e felizes?
  9. espaços ao ar livre para caminhadas?
  10. Converse com outros familiares. Pergunte sobre suas experiências com a instituição.
  11. Verifique a localização. É importante que a instituição seja próxima da família, para facilitar as visitas.

Como lidar com a culpa?

  • Lembre-se: você não está “abandonando” a pessoa. Você está garantindo que ela receba os cuidados de que precisa.
  • Visite com frequência. Mesmo em uma instituição, a pessoa ainda precisa de carinho e conexão.
  • Converse com outros cuidadores. Muitos já passaram pela mesma situação e podem oferecer apoio.
  • Busque ajuda profissional. Um psicólogo pode ajudá-lo a lidar com os sentimentos de culpa.

Exemplo prático:
Se você está considerando uma instituição, experimente:
– Visitar mais de uma vez, em horários diferentes.
– Levar a pessoa para uma visita de teste (algumas instituições permitem que o residente passe um dia lá antes de se mudar).
– Conversar com o médico da pessoa para saber sua opinião.


10. O que fazer quando a pessoa não reconhece mais os familiares?

Resposta:
Um dos momentos mais dolorosos da demência é quando a pessoa não reconhece mais os familiares. Isso pode acontecer nos estágios moderado a grave da doença. É normal se sentir triste, frustrado ou até rejeitado, mas é importante lembrar que a pessoa ainda sente amor e conexão, mesmo que não consiga expressar isso.

O que está acontecendo?

  • A demência danifica as áreas do cérebro responsáveis pelo reconhecimento de faces e memórias.
  • A pessoa pode confundir os familiares com outras pessoas (por exemplo, chamar o filho pelo nome do irmão).
  • Em alguns casos, ela pode não reconhecer ninguém, nem mesmo a si mesma no espelho.

Como lidar?

  1. Não leve para o lado pessoal. A pessoa não está rejeitando você. É a doença agindo.
  2. Apresente-se sempre. Mesmo que ela não reconheça você, diga: “Oi, eu sou a Maria, sua filha. Estou aqui para te visitar.”
  3. Use o toque e a voz. Mesmo que a pessoa não reconheça seu rosto, ela pode reconhecer sua voz, seu cheiro ou seu toque.
  4. Fale sobre o passado. Mesmo que ela não reconheça você no presente, pode se lembrar de eventos antigos. Por exemplo: “Lembra quando a gente ia à praia todo verão? Você adorava tomar sorvete de coco.”
  5. Use fotos e objetos. Mostre fotos antigas ou objetos que tenham significado para ela (como um colar, um livro ou um instrumento musical).
  6. Não force o reconhecimento. Se ela insistir que você é outra pessoa, não discuta. Em vez disso, valide seus sentimentos: “Eu entendo que você esteja confusa. Eu estou aqui para te ajudar.”
  7. Foque no presente. Mesmo que ela não reconheça você, ainda pode sentir alegria, conforto ou segurança na sua presença. Cante uma música, conte uma história ou simplesmente sente ao lado dela em silêncio.

Exemplo prático:
Se a pessoa não reconhece você, experimente:
– Segurar sua mão e dizer: “Eu sou a Maria. Eu te amo muito.”
– Mostrar uma foto antiga e dizer: “Olha, essa é a gente no seu aniversário de 50 anos. Você estava tão feliz!”
– Colocar uma música que ela gostava e cantar junto.


Quando procurar ajuda urgente

Alguns sintomas da demência exigem atenção médica imediata, pois podem indicar complicações graves ou outras condições de saúde. Fique atento aos seguintes sinais de alerta:


Sinais de emergência (procure um pronto-socorro imediatamente)

⚠️ Mudanças repentinas no estado mental:
– Confusão extrema ou desorientação que começa de repente (em horas ou dias).
– Sonolência excessiva ou dificuldade para acordar.
Delirium (flutuações entre lucidez e confusão, alucinações, agitação).

Possíveis causas:
– Infecção (como pneumonia ou infecção urinária).
– Desidratação ou desnutrição.
– Efeitos colaterais de medicamentos.
– Derrame (AVC) ou sangramento no cérebro.


⚠️ Dificuldade para andar ou fraqueza súbita:
– Não conseguir se levantar ou andar.
– Fraqueza em um lado do corpo.
– Dificuldade para falar ou entender.

Possíveis causas:
– Derrame (AVC).
– Queda ou trauma na cabeça.
– Infecção grave.


⚠️ Convulsões:
– Movimentos involuntários e repetitivos.
– Perda de consciência.
– Salivação excessiva ou mordida na língua.

Possíveis causas:
– Doença avançada.
– Tumores cerebrais.
– Infecções no cérebro.


⚠️ Dificuldade para engolir ou engasgos frequentes:
– Tosse ou engasgo durante as refeições.
– Recusa em comer ou beber.
– Perda de peso rápida.

Possíveis causas:
– Pneumonia por aspiração (quando alimentos ou líquidos vão para o pulmão).
– Desnutrição ou desidratação.


⚠️ Comportamentos violentos ou autolesivos:
– Agressividade física (bater, chutar, morder).
– Tentativas de se machucar (como bater a cabeça na parede).
– Gritar ou chorar de forma descontrolada.

Possíveis causas:
– Dor ou desconforto físico.
– Alucinações ou delírios.
– Efeitos colaterais de medicamentos.


Sinais de alerta (procure o médico o quanto antes)

🚨 Piora rápida dos sintomas:
– Esquecimentos que pioram em semanas, não em meses.
– Dificuldade para realizar tarefas que antes eram fáceis.

Possíveis causas:
– Progressão da doença.
– Outra condição de saúde (como infecção ou desidratação).


🚨 Quedas frequentes:
– Quedas sem motivo aparente.
– Dificuldade para se equilibrar.

Possíveis causas:
– Problemas de visão ou audição.
– Efeitos colaterais de medicamentos.
– Doença de Parkinson ou hidrocefalia.


🚨 Incontinência urinária ou fecal:
– Perda do controle da bexiga ou do intestino.

Possíveis causas:
– Infecção urinária.
– Progressão da demência.
– Efeitos colaterais de medicamentos.


🚨 Alucinações ou delírios frequentes:
– Ver ou ouvir coisas que não existem.
– Acreditar em coisas que não são verdadeiras (como achar que está sendo roubado).

Possíveis causas:
– Progressão da demência.
– Efeitos colaterais de medicamentos.
– Infecções ou desidratação.


🚨 Recusa em comer ou beber:
– Perda de apetite.
– Dificuldade para engolir.

Possíveis causas:
– Depressão.
– Dor ou desconforto (como dor de dente).
– Progressão da demência.


O que fazer em caso de emergência?

  1. Ligue para o SAMU (192) ou leve a pessoa para o pronto-socorro mais próximo.
  2. Informe os sintomas e o histórico médico da pessoa (doenças, medicamentos, alergias).
  3. Leve os medicamentos que a pessoa está tomando.
  4. Mantenha a calma e acompanhe a pessoa durante o atendimento.

Referências

  • Organização Mundial da Saúde (OMS). Classificação Internacional de Doenças (CID-11). 2022. Disponível em: https://icd.who.int/
  • American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). 5ª ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023.
  • Associação Brasileira de Psiquiatria. Tratado de Psiquiatria da ABP. 2022.
  • Ministério da Saúde. Linhas de Cuidado para Atenção às Pessoas com Transtornos Mentais. Brasília, 2021. Disponível em: https://www.gov.br/saude/
  • Associação Brasileira de Alzheimer (ABRAz). Demência: Guia para Familiares e Cuidadores. Disponível em: https://abraz.org.br/
  • Alzheimer’s Association. 2023 Alzheimer’s Disease Facts and Figures. Disponível em: https://www.alz.org/
  • Petersen, R. C. Mild Cognitive Impairment. New England Journal of Medicine, 2011.
  • Albert, M. S. et al. The Diagnosis of Mild Cognitive Impairment due to Alzheimer’s Disease: Recommendations from the National Institute on Aging-Alzheimer’s Association Workgroups. Alzheimer’s & Dementia, 2011.
  • Forlenza, O. V. Tratamento farmacológico da doença de Alzheimer. Revista Brasileira de Psiquiatria, 2005.
  • Nitrini, R. *Dem
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