Um guia completo para pacientes, familiares e cuidadores
O que é?
Imagine que alguém inventa ou provoca sintomas de uma doença — não por dinheiro, não para fugir do trabalho, não por nenhum benefício claro, mas simplesmente para ser visto como doente. Pode parecer estranho, mas para algumas pessoas, assumir o papel de paciente se torna uma necessidade tão forte que elas chegam a machucar a si mesmas ou a outras pessoas (como filhos ou idosos sob seus cuidados) para manter essa identidade.
Esse comportamento não é fingimento comum, nem uma simples mentira. É um transtorno mental reconhecido pela medicina, chamado de transtorno factício. Quando os sintomas não se encaixam perfeitamente nos critérios de outros tipos específicos desse transtorno (como o transtorno factício autoimposto ou imposto a outro), ele recebe o nome de transtorno factício não especificado (6D5Z).
Como isso é diferente de outras condições?
Muitas pessoas confundem o transtorno factício com:
– Simulação: Quando alguém finge uma doença para obter algo concreto, como dinheiro, licença médica ou até mesmo escapar da prisão. No transtorno factício, não há ganho externo óbvio — a pessoa faz isso por uma necessidade psicológica interna, como atenção, cuidado ou até mesmo para se sentir especial.
– Transtorno de sintomas somáticos: Aqui, a pessoa acredita de verdade que está doente e sofre com sintomas físicos reais, mesmo que os exames não mostrem nada. No transtorno factício, há uma produção intencional dos sintomas, mesmo que a pessoa não admita.
– Hipocondria (transtorno de ansiedade por doença): A pessoa tem medo excessivo de estar doente, mas não inventa ou provoca sintomas. No transtorno factício, há uma ação deliberada para criar ou exagerar sinais de doença.
Quem é afetado?
Os dados sobre transtornos factícios são limitados porque muitas pessoas escondem seus comportamentos, mas algumas informações ajudam a entender melhor:
– Prevalência: Estima-se que afete cerca de 1% da população geral, mas em hospitais e clínicas, a taxa pode chegar a 5% dos pacientes (especialmente em casos de doenças crônicas ou inexplicáveis).
– Gênero: Mulheres são mais diagnosticadas do que homens (cerca de 70% dos casos), mas isso pode refletir um viés — homens podem ser menos identificados por estereótipos de gênero (“homens não choram” ou “homens não buscam ajuda”).
– Idade: O transtorno costuma começar na adolescência ou início da vida adulta (entre 18 e 30 anos), mas pode aparecer em qualquer idade.
– Profissionais da saúde: Curiosamente, 57% das pessoas com transtorno factício trabalham ou já trabalharam na área da saúde (enfermeiros, técnicos de laboratório, médicos). Isso acontece porque elas têm conhecimento técnico para simular doenças de forma convincente.
– No Brasil: Não há estudos nacionais robustos, mas relatos clínicos sugerem que o perfil é semelhante ao de outros países. O Sistema Único de Saúde (SUS) atende muitos casos de síndrome de Münchhausen (uma forma grave do transtorno factício), especialmente em hospitais universitários.
Um pouco de história
O termo síndrome de Münchhausen foi cunhado em 1951 pelo médico britânico Richard Asher, inspirado no barão Karl Friedrich Hieronymus von Münchhausen, um nobre alemão do século XVIII conhecido por contar histórias exageradas e fantasiosas. Asher usou o nome para descrever pacientes que inventavam doenças dramáticas e buscavam tratamentos desnecessários.
Com o tempo, a psiquiatria percebeu que o transtorno ia além de “mentiras” — havia uma necessidade psicológica profunda por trás desse comportamento. Hoje, o termo Münchhausen é usado apenas para casos graves, enquanto o transtorno factício abrange um espectro mais amplo.
Quais são os sintomas?
O transtorno factício não especificado (6D5Z) é diagnosticado quando uma pessoa produz, finge ou exagera sintomas físicos ou psicológicos de forma recorrente, mas não se encaixa perfeitamente em outros subtipos do transtorno (como o autoimposto ou imposto a outro). Os critérios principais são:
1. Produção intencional de sintomas
O que isso significa na prática?
A pessoa cria ou provoca sinais de doença de propósito, mesmo que não admita. Isso pode incluir:
– Falsificar exames: Colocar sangue na urina para simular uma infecção, ou adicionar açúcar para fingir diabetes.
– Automutilação: Causar feridas, infecções ou hematomas para justificar consultas médicas.
– Exagerar sintomas reais: Uma dor de cabeça leve se torna uma “enxaqueca insuportável” para chamar atenção.
– Induzir doenças: Injetar bactérias em si mesmo para desenvolver uma infecção, ou tomar medicamentos que causam efeitos colaterais (como laxantes para simular diarreia).
Exemplos do dia a dia:
– Maria, 28 anos, vai ao pronto-socorro várias vezes por mês com “crises convulsivas”. Os médicos nunca encontram nada nos exames, mas ela insiste que está doente. Mais tarde, descobre-se que ela aprendeu a simular convulsões assistindo vídeos na internet.
– João, 35 anos, é internado com “febre de origem desconhecida”. Após investigação, os médicos percebem que ele esquentava o termômetro com a mão antes de medir a temperatura.
– Ana, 40 anos, leva o filho de 5 anos repetidamente ao pediatra com “dores abdominais”. Os exames são normais, mas ela insiste em novos testes. Um dia, o médico descobre que ela dava laxantes ao filho para provocar os sintomas.
O que é normal vs. o que é sintoma?
– Normal: Todo mundo já exagerou um pouco um sintoma para justificar uma falta no trabalho ou ganhar um pouco mais de atenção. Isso não é transtorno factício.
– Sintoma: Quando a pessoa faz isso repetidamente, mesmo sabendo que está mentindo, e sofre consequências (como internações desnecessárias, cirurgias arriscadas ou perda de relacionamentos).
2. Apresentação como doente para outras pessoas
O que isso significa na prática?
A pessoa não apenas inventa sintomas, mas age como se estivesse realmente doente, buscando tratamento médico, internações ou até mesmo cirurgias. Ela pode:
– Contar histórias dramáticas sobre sua “doença” para familiares, amigos e médicos.
– Procurar vários médicos (fenômeno chamado de doctor shopping), porque os profissionais anteriores “não entenderam” seu caso.
– Recusar alta hospitalar, mesmo quando os exames mostram que não há nada de errado.
– Usar acessórios médicos (como muletas, curativos ou até mesmo cadeira de rodas) sem necessidade real.
Exemplos do dia a dia:
– Carlos, 30 anos, é internado com “dor no peito”. Os exames mostram que seu coração está saudável, mas ele insiste em ficar no hospital, dizendo que “só se sente seguro ali”. Quando os médicos tentam dar alta, ele ameaça se matar se for mandado embora.
– Fernanda, 25 anos, posta nas redes sociais fotos de si mesma no hospital, com legendas como “Mais uma noite lutando pela vida”. Na verdade, ela foi internada por uma infecção que ela mesma provocou com uma agulha suja.
– Ricardo, 50 anos, leva a mãe idosa ao médico toda semana com “problemas de memória”. Os testes são normais, mas ele grava vídeos da mãe “confusa” para mostrar aos médicos. Mais tarde, descobre-se que ele dava remédios para dormir à mãe antes das consultas.
O que é normal vs. o que é sintoma?
– Normal: Às vezes, as pessoas buscam uma segunda opinião médica quando não se sentem seguras com um diagnóstico. Isso é comum e não é transtorno factício.
– Sintoma: Quando a pessoa sabe que não está doente, mas insiste em tratamentos invasivos (como cirurgias ou quimioterapia) e fica irritada quando os médicos não encontram nada.
3. Ausência de ganhos externos óbvios
O que isso significa na prática?
No transtorno factício, não há uma motivação clara como dinheiro, fuga de responsabilidades ou benefícios legais. A pessoa faz isso por necessidades psicológicas, como:
– Atenção e cuidado: Ser o centro das atenções, receber carinho e preocupação dos outros.
– Controle: Manipular situações para se sentir poderosa (ex.: decidir quando vai ao hospital, quando será internada).
– Identidade: Algumas pessoas se sentem vazias ou sem propósito quando não estão doentes. Assumir o papel de paciente dá um sentido à vida.
– Punição: Em alguns casos, a pessoa se machuca como forma de autopunição, por culpa ou vergonha de algo que fez no passado.
Exemplos do dia a dia:
– Luciana, 22 anos, é internada com “anemia grave”. Os médicos descobrem que ela tirava sangue de si mesma e jogava fora para manter os exames alterados. Quando perguntada por quê, ela diz: “Quando estou doente, minha mãe para de brigar comigo e fica do meu lado”.
– Pedro, 45 anos, é um ex-militar que simula dores crônicas para justificar não trabalhar. Ele não recebe benefício do INSS, mas diz que se sente “útil” quando os médicos o examinam.
– Cláudia, 30 anos, leva o filho de 3 anos ao hospital com “convulsões”. Os médicos não encontram nada, mas ela chora e diz que “precisa de ajuda”. Mais tarde, descobre-se que ela dava remédios ao filho para provocar os sintomas, porque se sentia sozinha e abandonada pelo marido.
O que é normal vs. o que é sintoma?
– Normal: Às vezes, as pessoas buscam atenção de forma saudável, como contando seus problemas para amigos ou buscando apoio emocional. Isso não é transtorno factício.
– Sintoma: Quando a pessoa precisa estar doente para se sentir amada, e muda seu comportamento drasticamente quando não recebe a atenção que deseja.
4. O comportamento não é explicado por outro transtorno mental
O que isso significa na prática?
O transtorno factício não é causado por outras condições, como:
– Transtorno psicótico (ex.: esquizofrenia): A pessoa não está alucinando ou delirando — ela sabe que está mentindo, mas não consegue parar.
– Transtorno de personalidade borderline: Embora algumas pessoas com borderline possam se automutilar, elas não fazem isso para fingir uma doença.
– Depressão ou ansiedade: A pessoa não está inventando sintomas por medo de estar doente (como na hipocondria), mas por uma necessidade psicológica.
Exemplo:
– Marcos, 28 anos, é internado com “paralisia nas pernas”. Os exames neurológicos são normais, mas ele insiste que não consegue andar. Os médicos descobrem que ele aprendeu a simular paralisia assistindo vídeos. Quando confrontado, ele admite que sabe que não está paralisado, mas diz que se sente “vazio” quando não está doente.
Por que isso é um problema?
Ter alguns desses comportamentos isoladamente não significa ter transtorno factício. O que define o diagnóstico é:
✅ Frequência: O comportamento acontece repetidamente, não é algo pontual.
✅ Intencionalidade: A pessoa sabe que está mentindo, mas não consegue parar.
✅ Impacto na vida: Causa sofrimento (para si ou para outros) e prejuízos (internações desnecessárias, cirurgias arriscadas, perda de emprego, conflitos familiares).
✅ Ausência de ganho externo: Não há benefício claro (como dinheiro ou fuga de responsabilidades).
Como se manifesta no dia a dia?
O transtorno factício afeta todas as áreas da vida da pessoa. Veja como isso aparece na prática:
No trabalho ou na escola
- Faltas frequentes: A pessoa inventa doenças para justificar ausências, o que pode levar a demissões ou reprovações.
- Desempenho ruim: Mesmo quando está presente, pode estar distraída ou cansada por causa das noites em hospitais ou das automutilações.
- Conflitos com colegas: Pode exagerar sintomas para ganhar atenção no trabalho, o que gera desconfiança e isolamento.
- Exemplo: Cláudia, 32 anos, é professora e falta muito por “enxaquecas”. Seus alunos começam a reclamar que ela não prepara as aulas, e a direção ameaça demiti-la. Na verdade, ela passa as noites em pronto-socorros, fingindo dores de cabeça para ser internada.
Nos relacionamentos
- Família:
- Parceiros: Podem se sentir traídos quando descobrem as mentiras, levando a separações.
- Filhos: Em casos de transtorno factício imposto a outro (quando a pessoa faz o filho ou idoso adoecer), há risco de abuso infantil (33% dos casos levam à morte da vítima).
- Pais: Podem se culpar (“O que eu fiz de errado?”) ou ficar exaustos de tanto levar o filho ao médico.
- Amigos:
- Isolamento: As pessoas se afastam porque não aguentam mais ouvir as mesmas histórias dramáticas.
- Desconfiança: Quando descobrem as mentiras, os amigos podem romper o contato.
- Exemplo: João, 25 anos, convence a namorada de que tem câncer. Ela larga o emprego para cuidar dele, mas descobre que ele comprava medicamentos de quimioterapia no mercado negro para fingir o tratamento. O relacionamento acaba, e ela desenvolve depressão.
Na rotina diária
- Sono:
- Insônia: A pessoa pode passar noites em claro planejando como fingir sintomas ou indo a hospitais.
- Sonolência diurna: Por causa das noites mal dormidas, pode ter dificuldade de concentração no trabalho ou na escola.
- Alimentação:
- Perda de apetite: Por causa do estresse de manter as mentiras.
- Dietas restritivas: Algumas pessoas deixam de comer para simular doenças como anorexia.
- Autocuidado:
- Negligência: A pessoa pode parar de tomar banho, escovar os dentes ou cuidar da aparência porque “está muito doente”.
- Automutilação: Cortes, queimaduras ou infecções autoinduzidas para justificar consultas médicas.
- Exemplo: Ana, 19 anos, para de comer para perder peso e fingir anorexia. Ela é internada em uma clínica psiquiátrica, mas recusa tratamento porque gosta da atenção que recebe. Quando os médicos tentam dar alta, ela corta os braços para ser mantida no hospital.
Na saúde física
O transtorno factício pode levar a problemas reais de saúde, como:
– Infecções: Por automutilação ou injeção de substâncias contaminadas.
– Cicatrizes: De cirurgias desnecessárias ou feridas autoinfligidas.
– Dependência de medicamentos: Algumas pessoas tomam remédios em excesso para simular doenças (como laxantes para diarreia ou insulina para hipoglicemia).
– Complicações de internações: Infecções hospitalares, trombose por ficar muito tempo deitada, efeitos colaterais de medicamentos.
– Exemplo: Pedro, 40 anos, toma laxantes todos os dias para simular doença inflamatória intestinal. Com o tempo, desenvolve desidratação grave e problemas renais, precisando ser internado de verdade.
O que causa essa condição?
Não existe uma única causa para o transtorno factício. Ele surge de uma combinação de fatores biológicos, psicológicos e sociais, como uma receita em que cada ingrediente contribui para o resultado final.
1. Fatores genéticos e biológicos
- Hereditariedade: Não há um “gene do transtorno factício”, mas estudos mostram que pessoas com histórico familiar de transtornos mentais (como depressão, ansiedade ou transtorno de personalidade borderline) têm maior risco.
- Analogia: Imagine que o cérebro é como um computador. Algumas pessoas nasceram com um “sistema operacional” mais vulnerável a bugs emocionais. Não é culpa delas, mas torna mais difícil lidar com estresse e emoções.
- Alterações no cérebro:
- Sistema límbico (responsável pelas emoções): Pode estar hiperativo, fazendo a pessoa buscar recompensas emocionais (como atenção) de forma exagerada.
- Córtex pré-frontal (responsável pelo controle de impulsos): Pode estar menos ativo, dificultando a capacidade de frear comportamentos prejudiciais.
- Exemplo: É como se o freio de mão do cérebro estivesse quebrado — a pessoa sabe que está mentindo, mas não consegue parar.
2. Fatores psicológicos
- Traumas na infância:
- Abuso físico, emocional ou sexual: Crianças que sofreram abuso podem aprender que “ser doente” é a única forma de receber cuidado.
- Negligência: Se os pais não davam atenção quando a criança estava saudável, ela pode associar doença a amor.
- Exemplo: Maria, 30 anos, foi criada por uma mãe alcoólatra que só a abraçava quando ela estava doente. Hoje, ela provoca infecções em si mesma para receber carinho.
- Baixa autoestima:
- Algumas pessoas não se sentem dignas de amor quando estão saudáveis. Ser paciente dá um sentido à vida.
- Exemplo: João, 25 anos, sempre se sentiu “invisível”. Quando finge ter câncer, as pessoas finalmente o notam — mesmo que seja por pena.
- Dificuldade em lidar com emoções:
- Para algumas pessoas, fingir uma doença é mais fácil do que enfrentar tristeza, raiva ou solidão.
- Exemplo: Ana, 20 anos, não sabe como lidar com a morte da mãe. Em vez de chorar, ela vai ao hospital toda semana com “dores no peito” e recebe apoio dos médicos.
3. Fatores sociais e ambientais
- Profissão na área da saúde:
- 57% das pessoas com transtorno factício trabalham ou já trabalharam na saúde. Isso acontece porque:
- Elas sabem como simular doenças de forma convincente.
- Têm acesso a medicamentos e exames para falsificar resultados.
- Se sentem confortáveis no ambiente hospitalar (algumas até gostam do cheiro de hospital).
- Exemplo: Cláudia, enfermeira, sabe exatamente quais exames pedir para simular uma infecção. Ela adiciona sangue na urina e convence os médicos de que precisa de antibióticos.
- Redes sociais:
- Algumas pessoas postam histórias dramáticas sobre suas “doenças” para ganhar curtidas e comentários de apoio.
- Exemplo: Fernanda, 22 anos, finge ter esclerose múltipla e posta fotos de si mesma em cadeira de rodas. Ela recebe centenas de mensagens de apoio, o que reforça seu comportamento.
- Famílias disfuncionais:
- Em algumas famílias, só se dá atenção quando alguém está doente. Isso pode incentivar o transtorno factício.
- Exemplo: Ricardo, 15 anos, percebe que seus pais só param de brigar quando ele está doente. Então, ele começa a fingir dores de barriga para evitar conflitos em casa.
4. Modelo biopsicossocial: a combinação de tudo
O transtorno factício não é culpa da pessoa, mas também não é só “falta de caráter”. É como um quebra-cabeça, em que cada peça contribui para o quadro final:
– Biológico: Cérebro com dificuldade de controlar impulsos.
– Psicológico: Traumas, baixa autoestima, dificuldade em lidar com emoções.
– Social: Família que só dá atenção quando a pessoa está doente, profissão na saúde, influência das redes sociais.
Mitos e verdades sobre as causas
❌ Mito 1: “Isso é só frescura, a pessoa quer chamar atenção.”
✅ Verdade: Não é frescura. A pessoa sofre de verdade e não consegue parar, mesmo sabendo que está mentindo. É como um vício em atenção — ela sabe que é prejudicial, mas não consegue se controlar.
❌ Mito 2: “Só pessoas fracas ou mimadas desenvolvem isso.”
✅ Verdade: O transtorno factício não tem a ver com força de vontade. Pessoas fortes emocionalmente também podem desenvolvê-lo, especialmente se passaram por traumas ou negligência na infância.
❌ Mito 3: “Isso é coisa de mulher. Homem não faz isso.”
✅ Verdade: Embora 70% dos casos sejam em mulheres, homens também desenvolvem o transtorno. A diferença é que homens são menos diagnosticados porque a sociedade espera que eles sejam “fortes” e não busquem ajuda.
❌ Mito 4: “Quem tem transtorno factício é psicopata.”
✅ Verdade: Psicopatia é um transtorno de personalidade caracterizado por falta de empatia e manipulação fria. No transtorno factício, a pessoa não é fria — ela sofre e precisa de ajuda, mesmo que seus métodos sejam prejudiciais.
Como é feito o diagnóstico?
Diagnosticar o transtorno factício não é simples. Muitas vezes, a pessoa esconde suas mentiras e resiste a ser descoberta. O processo costuma envolver:
1. Suspeita inicial
Os médicos começam a desconfiar quando:
– Os sintomas não batem com os exames (ex.: a pessoa diz que tem câncer, mas a biópsia é normal).
– A pessoa insiste em tratamentos invasivos (como cirurgias) mesmo sem necessidade.
– Ela conta histórias muito dramáticas, mas não consegue dar detalhes consistentes.
– Muda de médico frequentemente (doctor shopping), porque os anteriores “não entenderam” seu caso.
– Recusa alta hospitalar, mesmo quando os exames mostram que está saudável.
2. Investigação médica
Antes de pensar em transtorno factício, os médicos precisam descartar doenças reais. Isso pode incluir:
– Exames de sangue, urina, imagem (raio-X, ressonância, tomografia).
– Consultas com especialistas (neurologista, cardiologista, psiquiatra).
– Revisão de prontuários antigos para ver se há padrões suspeitos (ex.: internações frequentes sem diagnóstico claro).
3. Avaliação psiquiátrica
Se os exames não mostrarem nada, o próximo passo é uma avaliação com psiquiatra. O profissional vai:
– Conversar com a pessoa para entender sua história de vida, traumas e padrões de comportamento.
– Observar como ela descreve os sintomas (se há inconsistências ou exageros).
– Falar com familiares (com autorização da pessoa) para checar se há mentiras ou manipulações.
– Avaliar se há outros transtornos mentais (como depressão, ansiedade ou transtorno de personalidade).
4. Diagnóstico diferencial
O psiquiatra precisa diferenciar o transtorno factício de outras condições, como:
| Condição | Diferença do transtorno factício |
|—————————-|————————————–|
| Simulação | A pessoa finge doença por ganho externo (dinheiro, fuga do trabalho). No transtorno factício, não há ganho óbvio. |
| Transtorno de sintomas somáticos | A pessoa acredita de verdade que está doente e sofre com os sintomas. No transtorno factício, ela sabe que está mentindo. |
| Hipocondria (ansiedade por doença) | A pessoa tem medo de estar doente, mas não inventa sintomas. No transtorno factício, há produção intencional de sintomas. |
| Transtorno de personalidade borderline | A pessoa pode se automutilar, mas não para fingir doença. No transtorno factício, a automutilação tem o objetivo de simular uma condição médica. |
| Transtorno psicótico | A pessoa acredita em delírios (ex.: “Estou sendo envenenado”). No transtorno factício, ela sabe que está mentindo. |
5. Tempo até o diagnóstico
- Média: Pode levar anos até que o transtorno seja identificado, porque:
- A pessoa muda de médico frequentemente.
- Os profissionais não querem acusar o paciente de mentir (por medo de errar ou ofender).
- Familiares e amigos demoram a perceber que algo está errado.
- Casos graves: Em situações de transtorno factício imposto a outro (quando a pessoa faz um filho ou idoso adoecer), o diagnóstico pode levar mais de um ano, com risco de morte da vítima.
Quem pode diagnosticar?
- Psiquiatra (médico especializado em saúde mental).
- Psicólogo clínico (pode suspeitar do transtorno e encaminhar para um psiquiatra).
- Médicos de outras especialidades (como clínicos gerais ou pediatras) podem desconfiar e encaminhar para avaliação psiquiátrica.
Diagnóstico no SUS vs. particular
| SUS | Particular |
|---|---|
| Vantagens: Gratuito, acessível em UBSs e CAPS. | Vantagens: Mais rápido, com profissionais especializados. |
| Desvantagens: Pode ter fila de espera para psiquiatra. | Desvantagens: Custo elevado (consultas podem custar R$ 300–R$ 800). |
| Como acessar: Agendar consulta na UBS ou CAPS mais próximo. | Como acessar: Procurar psiquiatra particular ou clínicas de saúde mental. |
| Dica: Se a pessoa resistir ao diagnóstico, o SUS pode ser menos intimidante do que um consultório particular. | Dica: Alguns planos de saúde cobrem psiquiatria. Verifique sua cobertura. |
O que esperar da primeira consulta?
- Ambiente: A consulta pode ser em um consultório, hospital ou CAPS (Centro de Atenção Psicossocial).
- Duração: Entre 40 minutos e 1 hora.
- Perguntas comuns:
- “Como você se sente quando está doente?”
- “Você já fingiu ou exagerou sintomas no passado?”
- “Como sua família reage quando você está doente?”
- “Você já se machucou de propósito para ir ao médico?”
- Atitude do médico:
- Não vai julgar (mesmo que a pessoa admita mentiras).
- Vai explicar que o transtorno factício tem tratamento.
- Pode pedir exames para descartar doenças reais.
- Dica: Seja honesto. Quanto mais a pessoa esconder informações, mais difícil será o diagnóstico e o tratamento.
Tratamento
O tratamento do transtorno factício não é fácil, porque a pessoa não quer admitir que está mentindo. Mas com paciência e abordagem correta, é possível melhorar. O ideal é uma combinação de medicamentos, psicoterapia e mudanças no estilo de vida.
1. Medicamentos
Não existe um remédio específico para o transtorno factício, mas alguns medicamentos podem ajudar a controlar sintomas associados, como depressão, ansiedade ou impulsividade.
| Classe de medicamento | Como ajuda | Exemplos | Efeitos colaterais comuns | Tempo para fazer efeito |
|---|---|---|---|---|
| Antidepressivos (ISRS) | Reduzem depressão e ansiedade, ajudando a pessoa a lidar melhor com emoções. | Fluoxetina, Sertralina, Escitalopram | Náusea, dor de cabeça, insônia, diminuição do desejo sexual | 2–6 semanas |
| Estabilizadores de humor | Controlam impulsos e oscilações de humor. | Ácido valproico, Lamotrigina | Sonolência, ganho de peso, tremores | 1–4 semanas |
| Antipsicóticos atípicos | Ajudam em casos de impulsividade grave ou quando há outros transtornos associados (como borderline). | Quetiapina, Risperidona | Ganho de peso, sedação, tremores | 1–2 semanas |
Importante sobre medicamentos:
✅ Não vicia: Os antidepressivos e estabilizadores de humor não causam dependência.
✅ Não muda a personalidade: Eles ajudam a pessoa a se sentir mais estável, não a transformam em outra pessoa.
✅ Efeitos colaterais: Alguns podem ser incômodos no início, mas costumam melhorar com o tempo.
❌ Não pare de tomar sem orientação: Interromper o remédio de repente pode piorar os sintomas.
2. Psicoterapia
A terapia é a parte mais importante do tratamento, porque ajuda a pessoa a:
– Entender por que ela precisa fingir doenças.
– Aprender formas saudáveis de buscar atenção e cuidado.
– Lidar com traumas do passado.
– Melhorar a autoestima.
Abordagens mais usadas
| Tipo de terapia | Como funciona | Por que ajuda | Duração |
|---|---|---|---|
| Terapia cognitivo-comportamental (TCC) | Identifica pensamentos distorcidos (ex.: “Só sou amada quando estou doente”) e ensina novas formas de pensar e agir. | Ajuda a pessoa a encontrar outras formas de receber atenção sem precisar fingir doenças. | 12–24 sessões (3–6 meses) |
| Terapia dialética comportamental (TDB) | Ensina habilidades para lidar com emoções intensas e reduzir comportamentos impulsivos. | Útil para quem se automutila ou tem dificuldade em controlar impulsos. | 6–12 meses |
| Psicanálise | Explora traumas da infância e como eles influenciam o comportamento atual. | Ajuda a pessoa a entender por que ela associa doença a amor. | Longo prazo (anos) |
| Terapia familiar | Envolve familiares no tratamento para melhorar a comunicação e reduzir dinâmicas disfuncionais. | Importante quando a família inconscientemente reforça o comportamento (ex.: só dá atenção quando a pessoa está doente). | 6–12 meses |
O que acontece em uma sessão de terapia?
- Primeiras sessões: O terapeuta constrói confiança e entende a história da pessoa.
- Sessões intermediárias: Trabalha-se pensamentos e comportamentos (ex.: “Por que você sente que precisa estar doente para ser amada?”).
- Sessões finais: A pessoa aprende a lidar com recaídas e mantém os ganhos do tratamento.
Terapia individual vs. grupo vs. familiar
| Tipo | Vantagens | Desvantagens |
|———-|————–|——————|
| Individual | Foco total na pessoa, mais privacidade. | Pode ser mais caro e demorar mais para ver resultados. |
| Grupo | A pessoa vê que não está sozinha, aprende com experiências de outros. | Pode ser desconfortável falar em grupo. |
| Familiar | Melhora a comunicação familiar e reduz dinâmicas tóxicas. | Alguns familiares podem resistir a participar. |
3. Mudanças no dia a dia
Além de medicamentos e terapia, pequenas mudanças na rotina podem fazer uma grande diferença.
Exercício físico
- Por que ajuda: Libera endorfinas (substâncias que melhoram o humor) e reduz ansiedade e depressão.
- Melhores tipos:
- Caminhada, natação, ioga: Menos intensos, ideais para quem está começando.
- Musculação: Ajuda a melhorar a autoestima e a sensação de controle.
- Frequência: 3–5 vezes por semana, 30–60 minutos.
- Dica: Comece devagar. Não precisa virar atleta — o importante é criar o hábito.
Sono
- Problema comum: Muitas pessoas com transtorno factício passam noites em claro planejando como fingir sintomas ou indo a hospitais.
- Dicas para melhorar o sono:
- Rotina: Deitar e acordar no mesmo horário todos os dias (mesmo nos fins de semana).
- Ambiente: Quarto escuro, silencioso e fresco (18–22°C).
- Evitar: Café, álcool e telas (celular, TV) 1 hora antes de dormir.
- Relaxamento: Meditação ou respiração profunda antes de dormir.
Alimentação
- Problema comum: Algumas pessoas deixam de comer para simular doenças como anorexia, ou comem mal por estresse.
- Dicas para uma alimentação saudável:
- Coma regularmente: 3 refeições principais + 2 lanches por dia.
- Evite dietas restritivas: Não corte grupos alimentares (carboidratos, gorduras) sem orientação médica.
- Hidratação: 2–3 litros de água por dia.
- Alimentos que ajudam o humor: Peixes (ômega-3), nozes, chocolate amargo (70% cacau), frutas e vegetais.
Rotina
- Problema comum: A vida da pessoa gira em torno de hospitais, médicos e sintomas. Isso reforça o transtorno.
- Como estruturar o dia:
- Manhã: Acordar cedo, tomar café da manhã, fazer algo prazeroso (ler, ouvir música).
- Tarde: Trabalho/estudo + atividade física.
- Noite: Jantar em família, tempo para hobbies, sono cedo.
- Dica: Agende atividades que deem prazer (pintura, dança, jardinagem) para substituir o tempo gasto em hospitais.
Técnicas de manejo para os sintomas
- Quando sentir vontade de fingir uma doença:
- Pare e respire: Faça 5 respirações profundas antes de agir.
- Pergunte-se: “O que eu realmente preciso agora? Atenção? Carinho? Alívio do estresse?”
- Busque alternativas saudáveis:
- Ligue para um amigo.
- Escreva em um diário.
- Faça uma atividade física.
- Assista a um filme engraçado.
- Se automutilar:
- Lave a ferida com água e sabão.
- Cubra com um curativo.
- Ligue para alguém de confiança ou para o CVV (188).
- Vá ao pronto-socorro se a ferida for grave.
Tecnologia assistiva
- Aplicativos úteis:
- Headspace ou Calm: Para meditação e controle da ansiedade.
- Daylio: Para registrar o humor e identificar padrões.
- Forest: Para evitar o uso excessivo do celular (e redes sociais, que podem reforçar o comportamento).
- Alarmes e lembretes:
- Agende horários para comer, dormir e tomar remédios.
- Use lembretes para atividades prazerosas (ex.: “Hoje às 18h: pintar”).
Convivendo com o diagnóstico
Receber o diagnóstico de transtorno factício pode ser um alívio (porque finalmente há uma explicação para o sofrimento), mas também pode gerar vergonha, culpa ou medo. Veja como lidar com essa fase.
Para a pessoa com o diagnóstico
Aceitação
- Não é sua culpa: O transtorno factício não é escolha, é uma condição de saúde mental.
- Você não é “louco”: Muitas pessoas têm vergonha de admitir que fingem doenças, mas isso não define quem você é.
- Dica: Escreva uma carta para si mesmo respondendo:
- “O que eu ganho fingindo doenças?”
- “O que eu perco com esse comportamento?”
- “Como eu gostaria de ser visto pelos outros?”
Tratamento
- Vá às consultas: Mesmo que seja difícil, cada sessão é um passo para a melhora.
- Tome os remédios: Se o médico prescreveu, siga as orientações.
- Seja honesto com o terapeuta: Quanto mais você falar a verdade, mais rápido o tratamento vai funcionar.
- Dica: Anote suas dúvidas entre as sessões e leve para o terapeuta.
Recaídas
- Elas acontecem: Mesmo com tratamento, você pode ter vontade de fingir uma doença em momentos de estresse.
- O que fazer:
- Não se culpe: Recaídas fazem parte do processo.
- Peça ajuda: Ligue para um amigo, familiar ou terapeuta.
- Volte ao tratamento: Se você parou, retome as consultas.
- Dica: Crie um “kit de emergência” com:
- Números de telefone de pessoas de confiança.
- Uma lista de atividades que te acalmam (ex.: ouvir música, desenhar).
- Um lembrete: “Eu mereço atenção sem precisar estar doente.”
Autoestima
- Você é mais do que sua doença: Você tem qualidades, talentos e sonhos que vão além do transtorno.
- Dica: Faça uma lista de coisas que você gosta em si mesmo (ex.: “Sou bom em cozinhar”, “Tenho senso de humor”).
- Celebre pequenas vitórias: Cada dia sem fingir uma doença é uma conquista.
Para familiares e amigos
Como ajudar (sem reforçar o transtorno)
✅ O que fazer:
– Seja empático: Diga coisas como “Eu sei que você está sofrendo, e estou aqui para te ajudar”.
– Incentive o tratamento: Ofereça-se para acompanhar nas consultas ou lembrar dos remédios.
– Dê atenção quando a pessoa estiver saudável: Elogie quando ela fizer algo positivo (ex.: “Fiquei feliz que você saiu com a gente hoje!”).
– Estabeleça limites: Se a pessoa exagerar sintomas, diga “Eu te amo, mas não posso te levar ao hospital toda semana. Vamos conversar com seu terapeuta sobre isso.”
– Cuide de si mesmo: Você não pode “consertar” a pessoa, mas pode apoiá-la no tratamento.
❌ O que NÃO fazer:
– Não dê atenção apenas quando a pessoa estiver “doente”: Isso reforça o comportamento.
– Não minimize o sofrimento: Frases como “Isso é frescura” só aumentam a vergonha.
– Não assuma o papel de “salvador”: Você não é médico, psicólogo ou enfermeiro. Incentive a pessoa a buscar ajuda profissional.
– Não ignore sinais de perigo: Se a pessoa estiver se automutilando ou colocando a vida em risco, procure ajuda médica imediatamente.
Como cuidar de si mesmo
- Você também precisa de apoio: Converse com amigos, faça terapia ou participe de grupos de apoio para familiares (como o Al-Anon, que ajuda familiares de pessoas com transtornos mentais).
- Estabeleça limites: Não deixe que o transtorno da pessoa domine sua vida. Reserve tempo para seus hobbies, trabalho e descanso.
- Não se culpe: Você não causou o transtorno, e não pode curá-lo sozinho.
- Dica: Anote seus sentimentos em um diário. Isso ajuda a organizar os pensamentos e reduzir o estresse.
Como explicar para outras pessoas
- Para crianças:
- “O [nome] está doente, mas não é uma doença que a gente vê. Ele está aprendendo a se sentir melhor com a ajuda de médicos e terapeutas.”
- Para amigos e colegas:
- “O [nome] tem um transtorno mental chamado transtorno factício. Isso significa que ele às vezes finge estar doente, mas não é por mal. Ele está em tratamento.”
- Para a família:
- “Isso não é frescura. É uma condição real, e precisamos apoiá-lo sem julgar. Vamos aprender juntos como ajudar.”
Quando os sintomas podem piorar?
Algumas situações podem desencadear recaídas ou piorar os sintomas:
– Estresse: Problemas no trabalho, fim de relacionamento, morte de um ente querido.
– Solidão: Quando a pessoa se sente isolada ou abandonada.
– Mudanças na rotina: Viagens, mudança de cidade, nascimento de um filho.
– Exposição a gatilhos: Ver notícias sobre doenças, conversar com pessoas que também têm transtorno factício (pode reforçar o comportamento).
– Interrupção do tratamento: Parar de tomar remédios ou faltar às sessões de terapia.
O que fazer nesses casos?
– Aumente o apoio: Se a pessoa estiver passando por um momento difícil, esteja mais presente.
– Retome o tratamento: Se ela parou, incentive-a a voltar.
– Evite confrontos: Em vez de dizer “Você está mentindo de novo!”, diga “Eu percebi que você está sofrendo. Vamos conversar com seu terapeuta?”
Perguntas frequentes
1. “O transtorno factício tem cura?”
Não existe uma “cura” no sentido tradicional, mas o tratamento pode levar a uma vida normal e feliz. Muitas pessoas deixam de fingir doenças e aprendem a buscar atenção e cuidado de formas saudáveis. O importante é manter o tratamento e trabalhar as causas do transtorno (como traumas ou baixa autoestima).
2. “Como convencer alguém a buscar ajuda?”
Essa é uma das partes mais difíceis, porque a pessoa pode negar que tem um problema. Algumas estratégias:
– Escolha o momento certo: Converse quando ela estiver calma, não no meio de uma crise.
– Use exemplos concretos: “Eu percebi que você foi ao hospital 5 vezes este mês, e os médicos não encontraram nada. Isso te preocupa?”
– Ofereça apoio: “Eu te amo e quero te ajudar. Vamos juntos procurar um psiquiatra?”
– Evite julgamentos: Frases como “Você é mentiroso” só vão aumentar a resistência.
– Se ela recusar: Não force, mas não desista. Continue oferecendo apoio e busque orientação de um profissional (muitos terapeutas dão dicas de como abordar o assunto).
3. “O que fazer se a pessoa estiver colocando a vida em risco?”
Se a pessoa estiver se automutilando, tomando remédios em excesso ou colocando a vida de outra pessoa em risco (como um filho ou idoso), procure ajuda médica imediatamente. Você pode:
– Levá-la a um pronto-socorro.
– Ligar para o SAMU (192) ou Corpo de Bombeiros (193).
– Entrar em contato com o CVV (188) para orientação.
– Denunciar casos de abuso (como transtorno factício imposto a outro) ao Disque 100 (Direitos Humanos).
4. “Como lidar com a vergonha de ter esse diagnóstico?”
É normal sentir vergonha, mas lembre-se:
– Você não escolheu ter esse transtorno.
– Muitas pessoas têm condições de saúde mental — você não está sozinho.
– O tratamento funciona, e você pode ter uma vida plena.
– Dica: Converse com outras pessoas que têm o mesmo diagnóstico (em grupos de apoio ou fóruns online). Isso ajuda a reduzir o estigma.
5. “O transtorno factício pode levar à prisão?”
Sim, em casos graves. Por exemplo:
– Transtorno factício imposto a outro: Se a pessoa faz um filho ou idoso adoecer de propósito, pode ser processada por abuso e perder a guarda da criança.
– Fraude contra planos de saúde: Se a pessoa finge doenças para receber tratamentos caros, pode ser processada por estelionato.
– No Brasil: A Lei 10.216 (Lei da Reforma Psiquiátrica) garante que pessoas com transtornos mentais não sejam criminalizadas, mas crimes cometidos (como abuso ou fraude) podem ser punidos.
6. “Como diferenciar transtorno factício de simulação?”
| Transtorno factício | Simulação |
|---|---|
| Não há ganho externo óbvio (a pessoa não recebe dinheiro, não foge do trabalho). | Há um ganho claro (ex.: receber benefício do INSS, evitar prisão). |
| A pessoa sofre com o comportamento, mas não consegue parar. | A pessoa finge de propósito, sem sofrimento psicológico. |
| É um transtorno mental reconhecido pela medicina. | Não é um transtorno mental, é uma escolha consciente. |
7. “O que fazer se eu suspeitar que alguém está fingindo uma doença?”
- Não confronte a pessoa diretamente: Isso pode aumentar a resistência e piorar o comportamento.
- Documente os fatos: Anote datas, sintomas relatados e exames realizados.
- Converse com um profissional: Um médico ou psiquiatra pode ajudar a avaliar a situação.
- Proteja possíveis vítimas: Se a pessoa estiver fazendo um filho ou idoso adoecer, denuncie ao Disque 100.
- Ofereça apoio: Diga “Eu percebi que você está sofrendo. Posso te ajudar a buscar ajuda?”
8. “O transtorno factício pode ser confundido com outros transtornos?”
Sim! Alguns transtornos têm sintomas parecidos, mas o tratamento é diferente. Por isso, é importante fazer uma avaliação psiquiátrica completa. Os principais confundidos são:
– Transtorno de sintomas somáticos: A pessoa acredita de verdade que está doente, mesmo sem exames que comprovem.
– Hipocondria (ansiedade por doença): A pessoa tem medo de estar doente, mas não inventa sintomas.
– Transtorno de personalidade borderline: A pessoa pode se automutilar, mas não para fingir uma doença.
– Depressão: A pessoa pode negligenciar a saúde, mas não inventa sintomas.
9. “Como é o tratamento no SUS?”
O SUS oferece tratamento gratuito para transtorno factício, mas pode ter fila de espera. Veja como acessar:
1. Procure uma UBS (Unidade Básica de Saúde): Agende uma consulta com um clínico geral ou médico de família.
2. Peça encaminhamento para um CAPS (Centro de Atenção Psicossocial): Lá, você terá acesso a psiquiatras, psicólogos e grupos de apoio.
3. Se precisar de internação: Em casos graves, o SUS oferece internação psiquiátrica em hospitais públicos.
4. Medicamentos: Alguns remédios são fornecidos gratuitamente pelo SUS (como fluoxetina e ácido valproico).
Dica: Se a fila estiver muito longa, procure um CAPS de referência na sua cidade. Eles podem acelerar o atendimento em casos urgentes.
10. “O que fazer se o tratamento não estiver funcionando?”
- Converse com o médico: Às vezes, ajustar a medicação ou mudar de terapeuta pode ajudar.
- Experimente outra abordagem: Se a TCC não estiver funcionando, a terapia dialética ou psicanálise podem ser opções.
- Busque uma segunda opinião: Outro psiquiatra pode ver o caso de um ângulo diferente.
- Não desista: O tratamento do transtorno factício pode ser longo, mas vale a pena.
Quando procurar ajuda urgente
Alguns sinais indicam que a situação está fora de controle e precisa de intervenção imediata:
Sinais de alerta (procure ajuda médica)
- Automutilação grave: Cortes profundos, queimaduras ou feridas que precisam de pontos.
- Overdose de medicamentos: Tomar mais remédios do que o prescrito para simular doenças.
- Ideias suicidas: Falar em se matar ou não ver sentido na vida.
- Comportamento violento: Ameaçar se machucar ou machucar outras pessoas (como filhos ou idosos).
Sinais de emergência (vá ao pronto-socorro ou ligue para o SAMU)
- Perda de consciência.
- Convulsões (se não forem fingidas).
- Dor no peito ou falta de ar (pode ser um ataque de pânico ou algo mais grave).
- Feridas infectadas (por automutilação).
Onde buscar ajuda
| Situação | O que fazer | Contato |
|---|---|---|
| Crise emocional | Ligue para o CVV (Centro de Valorização da Vida). | 188 (gratuito, 24h) |
| Emergência médica | Ligue para o SAMU. | 192 |
| Denúncia de abuso | Disque Direitos Humanos. | 100 |
| Ajuda psicológica gratuita | Procure um CAPS ou UBS. | Verifique o mais próximo na sua cidade. |
Referências
- Organização Mundial da Saúde. Classificação Internacional de Doenças (CID-11). 2022.
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). 5ª ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023.
- Associação Brasileira de Psiquiatria. Tratado de Psiquiatria da ABP. 2022.
- Ministério da Saúde. Linhas de Cuidado para Atenção às Pessoas com Transtornos Mentais. Brasília, 2021.
- Feldman, M. D. Playing Sick? Untangling the Web of Munchausen Syndrome, Munchausen by Proxy, Malingering, and Factitious Disorder. Routledge, 2004.
- Yates, G. P., & Feldman, M. D. Factitious Disorder: A Systematic Review of 455 Cases in the Professional Literature. Psychosomatics, 2016.
Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação profissional. Em caso de sofrimento psíquico, procure um profissional de saúde mental.