Transtorno factício autoimposto (CID-11: 6D50)

O que é?

Imagine que você conhece alguém que, repetidamente, inventa ou provoca doenças em si mesmo — não para ganhar dinheiro, fugir do trabalho ou evitar uma prova, mas simplesmente para ser cuidado, receber atenção médica ou ocupar o papel de “paciente”. Essa pessoa pode fingir desmaios, exagerar dores, manipular feridas para que infeccionem ou até injetar substâncias no próprio corpo para causar sintomas reais. Ela não faz isso por malandragem ou preguiça, mas porque, de alguma forma, precisa ser vista como doente para se sentir segura, amada ou importante.

Esse comportamento, quando se torna recorrente, compulsivo e fora de controle, é o que chamamos de transtorno factício autoimposto (código 6D50 na CID-11). É um transtorno psiquiátrico sério, em que a pessoa fabrica ou provoca sintomas físicos ou psicológicos de forma intencional, mas sem um motivo óbvio — como ganho financeiro ou benefícios externos. O que move esse comportamento é uma necessidade emocional profunda: a busca por cuidado, atenção e validação.

Como isso se diferencia de outras condições?

Muitas pessoas confundem o transtorno factício com simulação (quando alguém finge uma doença para obter algo concreto, como uma licença médica ou indenização) ou com transtornos somáticos (quando a pessoa realmente acredita estar doente, mas não há evidências médicas). A diferença está na intenção e no ganho:

  • Simulação: A pessoa mente sobre sintomas para conseguir algo específico (ex.: um atestado falso para faltar ao trabalho). Não há sofrimento emocional por trás — é uma escolha racional.
  • Transtorno de sintomas somáticos: A pessoa acredita sinceramente que está doente e sofre com isso, mesmo sem provas médicas. Não há fingimento.
  • Transtorno factício: A pessoa sabe que está inventando ou provocando os sintomas, mas não consegue parar. O “ganho” não é dinheiro ou vantagens, mas sim ser cuidada, receber atenção ou ocupar o papel de doente.

Outra confusão comum é com a síndrome de Munchausen, um subtipo mais grave do transtorno factício, em que a pessoa viaja de hospital em hospital, inventando histórias dramáticas e submetendo-se a procedimentos invasivos (como cirurgias desnecessárias) para manter o papel de paciente. Já no transtorno factício “comum”, os sintomas podem ser menos extremos, mas ainda assim causam sofrimento e prejuízos na vida da pessoa.

Quem é afetado?

Não há dados precisos sobre quantas pessoas no Brasil têm transtorno factício, mas estudos internacionais sugerem que:
1 a 3% da população geral pode apresentar algum grau desse comportamento.
Mulheres são mais diagnosticadas do que homens (cerca de 70% dos casos).
Profissionais da saúde (enfermeiros, técnicos de enfermagem, médicos) têm maior risco — estima-se que 57% dos casos ocorram nesse grupo. Isso acontece porque essas pessoas têm mais conhecimento sobre doenças e acesso a medicamentos ou instrumentos para provocar sintomas.
– O transtorno costuma começar no final da adolescência ou início da vida adulta (entre 20 e 30 anos), mas pode surgir em qualquer idade.
– Pessoas solteiras, com histórico de abuso ou negligência na infância ou que tiveram doenças crônicas na infância têm maior predisposição.

No Brasil, o transtorno factício ainda é pouco discutido, mas é mais comum do que se imagina. Muitos casos passam despercebidos porque os pacientes são muito convincentes — alguns chegam a ser internados várias vezes antes de o diagnóstico ser feito.

Um pouco de história

O termo “síndrome de Munchausen” foi cunhado em 1951 pelo médico britânico Richard Asher, inspirado no barão Karl Friedrich Hieronymus von Münchhausen, um nobre alemão do século XVIII conhecido por contar histórias exageradas e fantasiosas sobre suas aventuras. Asher usou o nome para descrever pacientes que inventavam doenças de forma dramática e convincente.

Já o transtorno factício autoimposto foi reconhecido oficialmente como diagnóstico psiquiátrico apenas em 1980, com a publicação do DSM-III (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais). Antes disso, esses comportamentos eram vistos como “histeria” ou “fingimento puro”.

Hoje, sabe-se que o transtorno factício não é uma escolha consciente, mas sim um mecanismo de enfrentamento disfuncional — uma forma de a pessoa lidar com emoções difíceis, como solidão, abandono ou baixa autoestima.


Quais são os sintomas?

O transtorno factício autoimposto é definido por três características principais, segundo o DSM-5 e a CID-11:

  1. A pessoa inventa, exagera ou provoca sintomas físicos ou psicológicos de propósito.
  2. Ela faz isso para assumir o papel de doente (não para obter dinheiro, fugir de responsabilidades ou outros ganhos externos).
  3. Esse comportamento não é melhor explicado por outro transtorno mental (como psicose ou simulação).

Vamos detalhar cada um desses pontos com exemplos práticos para você entender como isso aparece no dia a dia.


1. Falsificação ou provocação de sintomas

A pessoa cria ou piora sintomas de forma intencional. Isso pode acontecer de várias maneiras:

a) Inventar sintomas (sem provocar nada no corpo)

  • Exemplo 1: Uma mulher vai ao pronto-socorro dizendo que está com dor abdominal insuportável, descrevendo os sintomas com riqueza de detalhes (localização, intensidade, horários). Os médicos fazem exames, mas não encontram nada. Ela insiste que a dor é real e pede analgésicos fortes.
  • Exemplo 2: Um homem diz ao psiquiatra que ouve vozes mandando ele se machucar. Ele descreve as vozes com precisão, mas não apresenta outros sinais de psicose (como desorganização do pensamento). Quando questionado, ele muda a história ou dá respostas vagas.
  • Como perceber: A pessoa descreve sintomas muito específicos, mas os exames não confirmam. Ela pode ficar irritada quando os médicos não encontram nada ou sugerem que “é psicológico”.

b) Provocar sintomas reais (autoagressão)

  • Exemplo 1: Uma enfermeira faz pequenos cortes no braço e os infecta propositalmente com saliva ou sujeira para causar abscessos. Ela vai ao hospital dizendo que “não sabe o que aconteceu” e pede antibióticos.
  • Exemplo 2: Um homem toma insulina (sem ser diabético) para causar hipoglicemia e desmaiar. Ele é levado ao hospital em estado grave, e os médicos ficam perplexos porque não há explicação para a queda de açúcar no sangue.
  • Exemplo 3: Uma mulher toma laxantes em excesso para ter diarreia constante e perder peso, mas diz ao médico que “não sabe por que isso acontece”.
  • Como perceber: A pessoa tem lesões ou sintomas que não fazem sentido (ex.: feridas sempre no mesmo lugar, infecções recorrentes sem causa aparente). Ela pode evitar que familiares acompanhem as consultas para esconder a origem dos sintomas.

c) Exagerar ou prolongar sintomas reais

  • Exemplo 1: Uma pessoa com uma dor de cabeça comum diz que é uma “enxaqueca insuportável” e pede remédios intravenosos. Ela pode até recusar tratamentos que funcionariam para “provar” que está realmente doente.
  • Exemplo 2: Alguém que teve uma convulsão há anos começa a ter crises novamente, mas os exames mostram que não há atividade epiléptica. Ela pode estar simulando as crises para chamar atenção.
  • Como perceber: A pessoa minimiza melhoras ou insiste que os sintomas são piores do que realmente são. Ela pode rejeitar explicações médicas lógicas.

d) Mentir sobre histórico médico

  • Exemplo 1: Uma mulher diz ao médico que teve câncer na infância, mas quando os registros são verificados, descobre-se que nunca teve a doença.
  • Exemplo 2: Um homem afirma que é alérgico a vários medicamentos para evitar tratamentos que não quer fazer.
  • Como perceber: A pessoa dá informações contraditórias sobre seu histórico ou inventa doenças passadas. Ela pode ficar nervosa quando os médicos pedem prontuários antigos.

2. O objetivo é assumir o papel de doente

A pessoa não está fingindo para ganhar algo concreto (como dinheiro, uma aposentadoria ou uma licença médica). O que ela busca é:
Atenção e cuidado: Ser o centro das atenções, receber visitas no hospital, ter pessoas preocupadas com ela.
Validação: Sentir que sua dor é “real” e que os outros reconhecem seu sofrimento.
Controle: Em alguns casos, a pessoa sente que só tem poder sobre sua vida quando está doente (ex.: “Se eu estiver no hospital, minha família não vai me abandonar”).
Fuga de problemas: Evitar responsabilidades (trabalho, família, relacionamentos) sem ter que admitir que não quer enfrentá-las.

Exemplos do dia a dia:

  • No hospital: A pessoa pede para ser internada mesmo sem necessidade, gosta de receber visitas e fica triste quando os médicos dizem que ela pode ir para casa.
  • Em casa: Ela reclama constantemente de dores, pede ajuda para tarefas simples (como tomar banho) e fica chateada se os familiares não dão atenção.
  • Nas redes sociais: Pode postar fotos no hospital com legendas dramáticas (“Lutando pela vida mais uma vez”) para receber mensagens de apoio.

3. O comportamento não é explicado por outro transtorno

O transtorno factício não é:
Simulação: Se a pessoa está fingindo uma doença para ganhar algo (ex.: um atestado falso), não é transtorno factício.
Transtorno de sintomas somáticos: Se ela acredita sinceramente que está doente (mesmo sem provas), é outra condição.
Psicose: Se ela ouve vozes ou tem delírios sem perceber que são irreais, não é transtorno factício.
Automutilação comum: Se a pessoa se corta para aliviar ansiedade (como no transtorno de personalidade borderline), mas não busca tratamento médico, não é transtorno factício.


Quando os sintomas viram um transtorno?

Ter um ou dois comportamentos isolados (como exagerar uma dor de cabeça uma vez) não significa que a pessoa tem transtorno factício. Para o diagnóstico, é preciso que:
Os sintomas sejam recorrentes (acontecem várias vezes, não só uma).
A pessoa não consiga controlar o comportamento (ela sabe que está errado, mas não consegue parar).
Haja prejuízo na vida (ela perde empregos, gasta muito dinheiro com médicos, afasta familiares).
Não haja outro transtorno que explique melhor (como simulação ou psicose).


Como se manifesta no dia a dia?

O transtorno factício afeta todas as áreas da vida da pessoa — trabalho, relacionamentos, saúde física e emocional. Vamos ver como isso aparece na prática.


No trabalho ou na escola

  • Faltas frequentes: A pessoa inventa doenças para faltar ao trabalho ou à escola. Pode apresentar atestados falsos ou exagerar sintomas para justificar ausências.
  • Dificuldade em manter empregos: Ela pode ser demitida por faltas excessivas ou por criar conflitos com colegas e chefes (ex.: acusar alguém de “não acreditar na sua doença”).
  • Profissionais da saúde: Enfermeiros, técnicos ou médicos com transtorno factício podem provocar sintomas em si mesmos para serem internados ou receberem atenção dos colegas. Alguns chegam a sabotar tratamentos de pacientes para parecerem heróis ao “salvá-los”.
  • Estudantes: Podem fingir doenças para não fazer provas ou trabalhos. Em casos graves, podem até provocar lesões para serem dispensados de atividades físicas.

Nos relacionamentos

  • Família:
  • A pessoa pode manipular os familiares para que cuidem dela, usando frases como: “Se você me amasse, ficaria comigo no hospital” ou “Ninguém acredita em mim, só você”.
  • Em casos extremos, ela pode provocar doenças em filhos ou parceiros (transtorno factício imposto a outro, um subtipo ainda mais grave).
  • Os familiares podem se sentir culpados, exaustos ou desconfiados, levando a brigas e afastamento.
  • Amigos:
  • A pessoa pode monopolizar conversas falando apenas sobre suas doenças.
  • Amigos podem se afastar por acharem que ela está “dramatizando” ou “procurando atenção”.
  • Relacionamentos amorosos:
  • O parceiro pode se sentir sobrecarregado por ter que cuidar da pessoa constantemente.
  • A pessoa com transtorno factício pode testar o amor do parceiro inventando doenças para ver se ele “realmente se importa”.
  • Em alguns casos, o relacionamento se torna tóxico, com o parceiro sendo manipulado para dar atenção constante.

Na rotina

  • Sono:
  • A pessoa pode fingir insônia ou tomar remédios para dormir em excesso para chamar atenção.
  • Em casos de autoagressão, ela pode acordar de madrugada para provocar sintomas (ex.: injetar insulina para ter uma crise de hipoglicemia).
  • Alimentação:
  • Pode recusar comida para perder peso e depois dizer que está “doente demais para comer”.
  • Em casos de transtorno factício com sintomas gastrointestinais, ela pode tomar laxantes ou vomitar para manter a diarreia ou a perda de peso.
  • Autocuidado:
  • A pessoa pode negligenciar a higiene para parecer mais doente (ex.: não tomar banho para “piorar” uma infecção de pele).
  • Ou, ao contrário, pode exagerar nos cuidados (ex.: passar pomadas em excesso para manter feridas abertas).
  • Lazer:
  • Ela pode evitar atividades prazerosas (como sair com amigos) para manter o papel de doente.
  • Em casos graves, pode abandonar hobbies porque “não tem energia” (mesmo sem uma doença real que justifique).

Na saúde física

O transtorno factício não é “frescura” — ele pode causar danos reais ao corpo, como:
Infecções: Por manipular feridas ou injetar substâncias contaminadas.
Cicatrizes e deformidades: Por cirurgias desnecessárias ou automutilação.
Problemas metabólicos: Por tomar medicamentos em excesso (ex.: insulina, laxantes, diuréticos).
Dependência de remédios: Por usar analgésicos ou sedativos sem necessidade.
Risco de morte: Em casos extremos, a pessoa pode provocar sintomas tão graves que coloca a vida em risco (ex.: tomar veneno para causar uma intoxicação).

Além disso, o estresse constante de manter a farsa pode levar a:
Ansiedade e depressão.
Síndrome de burnout (por viver em um ciclo de mentiras e manipulações).
Isolamento social (por medo de ser descoberta).


O que causa essa condição?

Não existe uma única causa para o transtorno factício. Ele surge de uma combinação de fatores biológicos, psicológicos e sociais, como uma receita em que cada ingrediente contribui para o resultado final.

Vamos entender cada um deles.


Fatores genéticos: “Será que isso vem de família?”

Não há um “gene do transtorno factício”, mas algumas pessoas podem ter uma predisposição genética para comportamentos compulsivos ou dificuldade em lidar com emoções. Por exemplo:
– Se alguém na família tem transtorno de personalidade borderline (que envolve automutilação e instabilidade emocional), há maior chance de desenvolver transtorno factício.
– Pessoas com histórico familiar de transtornos de ansiedade ou depressão podem ter mais dificuldade em regular emoções, o que aumenta o risco.

Analogia: Imagine que o cérebro é como um computador. Algumas pessoas nascem com um “sistema operacional” que processa emoções de forma mais intensa — como se o volume estivesse sempre no máximo. Quando algo dá errado (como uma rejeição ou abandono), o “computador” pode travar e buscar formas disfuncionais de alívio, como inventar doenças.


Fatores neurobiológicos: O que acontece no cérebro?

Estudos de neuroimagem (como ressonância magnética) mostram que pessoas com transtorno factício podem ter alterações em áreas do cérebro relacionadas a:
Tomada de decisão: O córtex pré-frontal (responsável por avaliar riscos e consequências) pode funcionar de forma diferente, fazendo a pessoa não perceber os perigos de seus atos (ex.: não se importar em se machucar para chamar atenção).
Controle de impulsos: O giro do cíngulo anterior (que ajuda a regular emoções) pode estar menos ativo, tornando mais difícil resistir ao impulso de provocar sintomas.
Recompensa: O sistema de recompensa (que nos faz sentir prazer com coisas boas, como comida ou elogios) pode estar hiperativo quando a pessoa recebe atenção médica, reforçando o comportamento.

Analogia: É como se o cérebro tivesse um “botão de pânico” que, quando pressionado, faz a pessoa buscar atenção a qualquer custo — mesmo que isso signifique se machucar. O problema é que, com o tempo, esse botão fica desregulado e dispara sozinho, sem controle.


Fatores ambientais: Experiências que moldam o comportamento

Muitas pessoas com transtorno factício tiveram experiências traumáticas na infância ou adolescência, como:
Abandono ou negligência: Se os pais não deram atenção suficiente, a pessoa pode aprender que só é amada quando está doente.
Abuso físico ou emocional: Crianças que sofreram abuso podem associar dor a cuidado (ex.: “Se eu chorar, minha mãe vem me ver”).
Doenças na infância: Se a pessoa foi muito doente quando criança e recebeu atenção extra, pode sentir falta desse cuidado na vida adulta e tentar reproduzi-lo.
Profissão na área da saúde: Enfermeiros, médicos e técnicos têm mais conhecimento e acesso a formas de provocar sintomas, além de estarem expostos ao estresse constante do ambiente hospitalar.

Exemplo real:

Uma mulher com transtorno factício contou em terapia que, quando criança, sua mãe só lhe dava atenção quando ela estava doente. Se ela tivesse febre, a mãe faltava ao trabalho para cuidar dela. Se estivesse saudável, era ignorada. Na vida adulta, ela passou a provocar febres (tomando remédios para aumentar a temperatura) para receber o mesmo cuidado.


Fatores psicológicos: A necessidade de ser cuidada

Por trás do transtorno factício, há necessidades emocionais não atendidas, como:
Medo de abandono: A pessoa pode acreditar que, se não estiver doente, será esquecida ou rejeitada.
Baixa autoestima: Ela pode sentir que só tem valor quando está doente, porque assim as pessoas a veem como frágil e digna de cuidado.
Dificuldade em lidar com emoções: Algumas pessoas não sabem expressar tristeza, raiva ou solidão de forma saudável, então transformam esses sentimentos em sintomas físicos.
Necessidade de controle: Em um mundo que parece caótico, ser paciente dá uma sensação de ordem (ex.: “No hospital, as pessoas seguem minhas regras”).

Analogia: Imagine que você está em um barco no meio do oceano, sem remos. Você se sente perdido e com medo. De repente, vê um farol e começa a gritar por ajuda. O transtorno factício é como se a pessoa acendesse o farol sozinha, mesmo sabendo que não há perigo real, só para ter alguém que a resgate.


Mitos e verdades sobre as causas

Mito 1: “É só frescura, a pessoa faz isso porque quer.”
Verdade: Não é uma escolha consciente. A pessoa sabe que está mentindo, mas não consegue parar porque o comportamento é compulsivo — como um vício. Ela sofre com isso, mas não consegue se controlar.

Mito 2: “Só pessoas fracas ou mimadas têm isso.”
Verdade: O transtorno factício está ligado a traumas, abandono e dificuldades emocionais, não a fraqueza. Muitas pessoas com esse diagnóstico tiveram infâncias difíceis e aprenderam que a única forma de receber amor era estando doente.

Mito 3: “É culpa dos pais, que deram muita atenção quando a pessoa era criança.”
Verdade: Não é só uma questão de “atenção demais”. O problema é quando a criança aprende que só é amada quando está doente — ou seja, o amor é condicional. Pais que dão atenção tanto quando a criança está doente quanto quando está saudável não contribuem para o transtorno.

Mito 4: “Quem tem transtorno factício é egoísta e manipulador.”
Verdade: A pessoa não age por maldade, mas por uma necessidade emocional desesperada. Ela pode até sentir culpa depois, mas o impulso de buscar atenção é mais forte. É como alguém com transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) que lava as mãos 50 vezes por dia: ela sabe que é exagerado, mas não consegue parar.


Como é feito o diagnóstico?

Diagnosticar o transtorno factício não é simples. Muitas vezes, a pessoa passa anos indo de médico em médico antes de receber o diagnóstico correto. Isso acontece porque:
– Ela é muito convincente e pode enganar até profissionais experientes.
– Os sintomas imitam doenças reais, então os médicos primeiro investigam causas orgânicas.
– A pessoa resiste ao diagnóstico e pode ficar agressiva ou negar quando confrontada.

Vamos entender como funciona o processo.


Passo a passo da avaliação

  1. Primeira consulta: O médico desconfia
  2. O profissional percebe que os sintomas não batem com os exames (ex.: a pessoa diz que tem dor no peito, mas o eletrocardiograma está normal).
  3. Ela pode ter histórico de muitas internações em hospitais diferentes (para evitar que os médicos comparem prontuários).
  4. Os sintomas melhoram quando ela não está sendo observada (ex.: a febre some quando ninguém está medindo a temperatura).

  5. Exames e investigação

  6. O médico pede exames detalhados para descartar doenças reais.
  7. Em alguns casos, câmeras de vigilância em hospitais podem flagrar a pessoa provocando sintomas (ex.: injetando algo na própria veia).
  8. A equipe pode comparar prontuários antigos e descobrir que a pessoa já teve os mesmos sintomas em outros lugares.

  9. Avaliação psiquiátrica

  10. Um psiquiatra é chamado para avaliar se há outros transtornos (como depressão, ansiedade ou transtorno de personalidade).
  11. O profissional faz perguntas como:
    • “Você já fingiu ou exagerou sintomas para receber atenção?”
    • “Como você se sente quando os médicos não encontram nada de errado?”
    • “Você já se machucou de propósito para ir ao hospital?”
  12. A pessoa pode negar tudo, mas o psiquiatra observa padrões de comportamento (ex.: sempre que alguém importante visita, os sintomas pioram).

  13. Diagnóstico diferencial: O que não é transtorno factício?
    O médico precisa descartar outras condições que podem parecer semelhantes:

  14. Simulação: Se a pessoa está mentindo para ganhar algo (ex.: um atestado falso), não é transtorno factício.
  15. Transtorno de sintomas somáticos: Se ela acredita sinceramente que está doente (mesmo sem provas), é outra condição.
  16. Transtorno conversivo: Se os sintomas são involuntários (ex.: paralisia sem causa neurológica), não é transtorno factício.
  17. Psicose: Se a pessoa ouve vozes ou tem delírios sem perceber que são irreais, não é transtorno factício.

  18. Confrontação (ou não)

  19. Alguns médicos confrontam a pessoa diretamente: “Nós sabemos que você está provocando esses sintomas. Vamos conversar sobre isso?”
  20. Outros preferem não confrontar, porque a pessoa pode ficar agressiva ou fugir do tratamento. Nesse caso, o foco é tratar as causas emocionais por trás do comportamento.
  21. Em casos graves (como autoagressão com risco de vida), a internação psiquiátrica pode ser necessária.

Quanto tempo leva para ser diagnosticado?

Não há um prazo exato, mas estudos mostram que:
Em média, leva 1 ano desde os primeiros sintomas até o diagnóstico.
– Em casos graves (como síndrome de Munchausen), pode levar 5 anos ou mais, porque a pessoa muda de hospital constantemente para evitar ser descoberta.
Profissionais da saúde são diagnosticados mais rápido, porque os colegas desconfiam quando alguém da equipe sempre “adoece” de forma suspeita.


Quem pode diagnosticar?

  • Psiquiatra: É o profissional mais indicado, porque entende os aspectos psicológicos do transtorno.
  • Psicólogo clínico: Pode suspeitar do diagnóstico e encaminhar para um psiquiatra.
  • Médicos de outras especialidades (clínicos, cirurgiões, pediatras): Podem desconfiar e pedir uma avaliação psiquiátrica.

No SUS:
– Você pode procurar uma UBS (Unidade Básica de Saúde) e pedir encaminhamento para um CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) ou psiquiatra.
– Em casos graves, pode ser necessário internação em hospital psiquiátrico.

Na rede particular:
– Você pode agendar diretamente com um psiquiatra ou psicólogo clínico.
– Alguns planos de saúde cobrem consultas com psiquiatra, mas é bom verificar antes.


O que esperar da primeira consulta?

Se você ou alguém que você conhece está buscando ajuda, saiba que:
O médico vai fazer muitas perguntas sobre histórico médico, sintomas e vida pessoal.
Pode ser desconfortável falar sobre mentiras ou autoagressão, mas é importante ser honesto.
O profissional não vai julgar, mas vai tentar entender por que esse comportamento começou.
Pode ser necessário fazer exames para descartar doenças reais.
O diagnóstico não é feito em uma consulta só — pode levar algumas semanas ou meses.

Dica: Se você está acompanhando alguém com suspeita de transtorno factício, não confronte a pessoa sozinho. Isso pode deixá-la agressiva ou fazer com que ela fuja do tratamento. Procure um profissional para orientação.


Tratamento

O transtorno factício não tem cura, mas tem tratamento. O objetivo é ajudar a pessoa a:
Entender as causas emocionais por trás do comportamento.
Desenvolver formas saudáveis de buscar atenção e cuidado.
Reduzir a autoagressão e os riscos à saúde.
Melhorar a qualidade de vida e os relacionamentos.

O tratamento geralmente combina psicoterapia, medicamentos (quando necessário) e mudanças no estilo de vida.


Medicamentos

Não existe um remédio específico para o transtorno factício, mas alguns medicamentos podem ajudar a controlar sintomas associados, como depressão, ansiedade ou impulsividade.

1. Antidepressivos (ISRS)

  • O que são: Inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ex.: fluoxetina, sertralina, escitalopram).
  • Como ajudam: Melhoram o humor, reduzem a ansiedade e podem diminuir a compulsão por buscar atenção.
  • Tempo para fazer efeito: 2 a 6 semanas.
  • Efeitos colaterais comuns: Náusea, dor de cabeça, sonolência ou insônia, diminuição do desejo sexual.
  • Importante: Os antidepressivos não “curam” o transtorno factício, mas podem ajudar a pessoa a se beneficiar mais da terapia.

2. Antipsicóticos atípicos

  • O que são: Medicamentos como olanzapina, aripiprazol ou quetiapina.
  • Como ajudam: Podem reduzir a impulsividade e a compulsão em alguns casos.
  • Quando são usados: Quando a pessoa tem comportamentos muito autodestrutivos ou sintomas psicóticos leves.
  • Efeitos colaterais: Ganho de peso, sonolência, tremores.

3. Estabilizadores de humor

  • O que são: Medicamentos como lítio ou ácido valproico.
  • Como ajudam: Podem ser úteis se a pessoa tem oscilações de humor ou dificuldade em controlar impulsos.
  • Efeitos colaterais: Tremores, sede excessiva, ganho de peso.

Desmistificando os medicamentos

Mito: “Remédio psiquiátrico vicia.”
Verdade: Os antidepressivos e antipsicóticos usados no transtorno factício não causam dependência. O que pode acontecer é a pessoa sentir que “precisa” do remédio para se sentir bem, mas isso não é vício — é como um diabético que precisa de insulina.

Mito: “Tomar remédio vai me transformar em outra pessoa.”
Verdade: Os medicamentos não mudam sua personalidade. Eles ajudam a controlar sintomas para que você consiga aproveitar melhor a terapia e a vida.

Mito: “Se eu tomar remédio, não preciso de terapia.”
Verdade: Os medicamentos ajudam a aliviar sintomas, mas a terapia é essencial para tratar as causas do transtorno.


Psicoterapia

A psicoterapia é a parte mais importante do tratamento. Ela ajuda a pessoa a:
Entender por que ela precisa inventar doenças.
Desenvolver formas saudáveis de buscar atenção e cuidado.
Lidar com emoções difíceis (como abandono, raiva ou solidão) sem precisar se machucar.

Vamos ver as abordagens mais usadas.


1. Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)

  • O que é: Um tipo de terapia que ajuda a identificar e mudar pensamentos e comportamentos disfuncionais.
  • Como funciona:
  • A pessoa aprende a reconhecer os gatilhos que a fazem buscar atenção através de doenças (ex.: solidão, estresse, brigas familiares).
  • Ela desenvolve estratégias alternativas para lidar com essas emoções (ex.: ligar para um amigo, escrever em um diário, praticar exercícios).
  • Trabalha-se a autoestima: A pessoa aprende que não precisa estar doente para ser amada.
  • Exemplo prático:

    Uma paciente com transtorno factício percebeu que sempre inventava doenças quando se sentia ignorada pelo marido. Na terapia, ela aprendeu a expressar suas necessidades de forma direta (“Preciso que você me escute”) em vez de recorrer a mentiras.


2. Terapia de Reversão de Hábitos

  • O que é: Uma técnica usada para quebrar comportamentos compulsivos, como provocar sintomas.
  • Como funciona:
  • A pessoa identifica o momento exato em que sente vontade de se machucar ou inventar uma doença.
  • Ela aprende a substituir esse comportamento por algo menos prejudicial (ex.: apertar uma bolinha antiestresse, respirar fundo, ligar para um amigo).
  • Com o tempo, o impulso diminui.
  • Exemplo prático:

    Um enfermeiro com transtorno factício tinha o hábito de injetar insulina para causar hipoglicemia. Na terapia, ele aprendeu a reconhecer o impulso e, em vez de se injetar, tomava um copo de suco de laranja (que aumenta a glicose) e ligava para sua terapeuta.


3. Terapia Psicodinâmica

  • O que é: Um tipo de terapia que explora como experiências passadas (como infância, traumas, relacionamentos) influenciam o comportamento atual.
  • Como funciona:
  • A pessoa revive memórias de quando aprendeu que “só era amada quando estava doente”.
  • O terapeuta ajuda a ressignificar essas experiências (ex.: “Você não precisa mais repetir esse padrão”).
  • Trabalha-se a relação com o terapeuta como um modelo de vínculo saudável.
  • Exemplo prático:

    Uma mulher com transtorno factício descobriu na terapia que, quando criança, sua mãe só lhe dava atenção quando ela tinha febre. Ela aprendeu que não precisava mais “adoecer” para ser cuidada e começou a buscar relacionamentos baseados em confiança e afeto genuíno.


4. Terapia Familiar

  • O que é: A terapia envolve familiares e parceiros para melhorar a dinâmica do relacionamento.
  • Como funciona:
  • A família aprende a não reforçar o comportamento (ex.: não dar atenção extra quando a pessoa está “doente”).
  • Ensina-se formas saudáveis de demonstrar cuidado (ex.: elogiar conquistas, passar tempo juntos sem falar de doenças).
  • Trabalha-se a comunicação para evitar manipulações.
  • Exemplo prático:

    Os pais de uma adolescente com transtorno factício aprenderam a não cancelar planos quando ela dizia estar doente. Em vez disso, diziam: “Ficamos tristes que você não esteja bem, mas vamos sair mesmo assim. Quando você melhorar, vamos fazer algo legal juntos.”


Mudanças no dia a dia

Além da terapia e dos medicamentos, algumas mudanças práticas podem ajudar a pessoa a reduzir os comportamentos factícios e melhorar a qualidade de vida.


1. Exercício físico

  • Por que ajuda: O exercício libera endorfinas, que melhoram o humor e reduzem a ansiedade. Também ajuda a distrair a mente dos impulsos de autoagressão.
  • Quais tipos:
  • Caminhada, corrida ou natação: Atividades aeróbicas que aliviam o estresse.
  • Yoga ou pilates: Ajuda a controlar a respiração e reduzir a impulsividade.
  • Musculação: Pode aumentar a autoestima e dar uma sensação de controle sobre o corpo.
  • Dica: Comece com 10-15 minutos por dia e aumente gradualmente. O importante é criar o hábito, não se pressionar por resultados.

2. Sono

  • Por que é importante: A falta de sono aumenta a impulsividade e piora o humor, tornando mais difícil resistir aos comportamentos factícios.
  • Dicas para uma boa noite de sono:
  • Rotina: Tente dormir e acordar no mesmo horário todos os dias (mesmo nos fins de semana).
  • Ambiente: Mantenha o quarto escuro, silencioso e fresco.
  • Evite telas: Desligue celular, TV e computador 1 hora antes de dormir.
  • Relaxamento: Experimente meditação ou respiração profunda antes de deitar.
  • Sinal de alerta: Se você está dormindo muito mais ou muito menos do que o normal, pode ser um sinal de depressão ou ansiedade — converse com seu médico.

3. Alimentação

  • Por que é importante: Uma dieta equilibrada ajuda a regular o humor e dá energia para enfrentar os desafios do tratamento.
  • O que evitar:
  • Açúcar em excesso: Pode causar picos de energia seguidos de queda de humor.
  • Café e energéticos: Podem aumentar a ansiedade.
  • Álcool e drogas: Podem piorar a impulsividade e levar a comportamentos de risco.
  • O que incluir:
  • Proteínas (carnes magras, ovos, leguminosas): Ajudam na produção de neurotransmissores como a serotonina.
  • Ômega-3 (peixes, nozes, linhaça): Melhora o funcionamento do cérebro.
  • Frutas e vegetais: Ricos em vitaminas que ajudam no humor.
  • Dica: Não faça dietas restritivas sem orientação médica. O foco deve ser equilíbrio, não perfeição.

4. Rotina

  • Por que é importante: Uma rotina estruturada reduz a ansiedade e dá uma sensação de controle.
  • Como organizar o dia:
  • Acordar e dormir no mesmo horário.
  • Reservar horários para atividades prazerosas (ler, assistir a um filme, sair com amigos).
  • Incluir momentos de relaxamento (meditação, banho quente, música).
  • Evitar o tédio: Muitas pessoas com transtorno factício provocam sintomas quando estão entediadas. Ter uma rotina ocupada ajuda a distrair a mente.
  • Exemplo de rotina:
    | Horário | Atividade |
    |—————|————————————|
    | 7:00 | Acordar e tomar café da manhã |
    | 8:00 – 12:00 | Trabalho/estudo |
    | 12:00 – 13:00 | Almoço + caminhada de 15 minutos |
    | 13:00 – 17:00 | Trabalho/estudo |
    | 17:30 – 18:30 | Academia ou yoga |
    | 19:00 – 20:00 | Jantar + conversar com a família |
    | 20:30 – 21:30 | Leitura ou série |
    | 22:00 | Dormir |

5. Técnicas de manejo para os sintomas

Algumas estratégias podem ajudar a controlar os impulsos de inventar ou provocar doenças:

  • Distração: Quando sentir vontade de se machucar, faça algo que ocupe as mãos e a mente (desenhar, cozinhar, tocar um instrumento).
  • Respiração 4-7-8: Inspire por 4 segundos, segure por 7, expire por 8. Repita 4 vezes. Isso acalma o sistema nervoso.
  • Lista de contatos: Tenha uma lista de pessoas para ligar quando sentir o impulso (amigos, terapeuta, familiar).
  • Diário emocional: Anote o que você sentiu antes de ter o impulso (ex.: “Me senti sozinho depois que meu namorado saiu”). Isso ajuda a identificar gatilhos.
  • Alternativas inofensivas: Se o impulso é se machucar, experimente apertar gelo na mão ou morder um limão (sensações fortes que não causam danos).

Convivendo com o diagnóstico

Receber o diagnóstico de transtorno factício pode ser assustador e confuso. A pessoa pode se sentir envergonhada, culpada ou com medo de ser julgada. Os familiares também podem ficar perdidos sobre como ajudar.

Vamos ver como lidar com isso.


Para a pessoa com o diagnóstico

1. Aceitar o diagnóstico

  • Não é sua culpa: O transtorno factício não é uma escolha. Você desenvolveu esse comportamento como uma forma de lidar com emoções difíceis.
  • Não é “frescura”: Muitas pessoas minimizam o transtorno, mas ele é real e causa sofrimento.
  • Você não está sozinho: Muitas pessoas passam pelo mesmo e conseguem melhorar com tratamento.

2. Lidar com a vergonha e a culpa

  • É normal se sentir assim: Muitas pessoas com transtorno factício sentem vergonha por terem mentido ou se machucado.
  • Não se isole: Converse com seu terapeuta, familiares ou amigos de confiança sobre o que está sentindo.
  • Perdoe-se: Você não fez isso por maldade. Agora, o importante é aprender novas formas de lidar com as emoções.

3. Construir uma nova identidade

  • Você não é só “a pessoa doente”: O transtorno factício pode ter tomado muito espaço na sua vida, mas você é muito mais do que isso.
  • Descubra novos interesses: Experimente hobbies, cursos ou atividades que não estejam ligados à doença.
  • Celebre pequenas vitórias: Cada vez que você resiste ao impulso de inventar uma doença, é um passo à frente.

4. Lidar com recaídas

  • Recaídas fazem parte do processo: Não desista se você tiver um deslize. O importante é aprender com o que aconteceu e seguir em frente.
  • Analise o que desencadeou: O que estava acontecendo antes da recaída? Estresse? Solidão? Brigas?
  • Peça ajuda: Converse com seu terapeuta ou alguém de confiança sobre o que aconteceu.

Para familiares e amigos

1. Como ajudar (sem reforçar o comportamento)

  • Não dê atenção extra quando a pessoa estiver “doente”: Isso pode reforçar o comportamento. Em vez disso, diga: “Ficamos preocupados, mas sabemos que você é forte e vai superar isso.”
  • Elogie conquistas não relacionadas à doença: “Fiquei feliz que você conseguiu ir ao trabalho hoje!” em vez de “Como você está se sentindo?”
  • Incentive atividades saudáveis: Convide a pessoa para passeios, exercícios ou hobbies que não envolvam hospitais ou médicos.
  • Seja paciente: A mudança leva tempo. Não espere que a pessoa melhore da noite para o dia.

2. O que NÃO fazer

  • ❌ Não confronte a pessoa de forma agressiva: Dizer “Você está mentindo!” pode fazer com que ela se feche ou fuja do tratamento.
  • ❌ Não minimize o sofrimento: Mesmo que os sintomas sejam inventados, a dor emocional é real. Não diga “Isso é frescura”.
  • ❌ Não assuma o papel de “salvador”: Cuidar demais pode reforçar a dependência. Incentive a autonomia.
  • ❌ Não guarde segredos: Se a pessoa está se machucando, converse com um profissional. Não prometa guardar segredos que podem colocar a vida dela em risco.

3. Como cuidar de si mesmo

  • Você não é responsável pela recuperação da pessoa: Seu papel é apoiar, não consertar.
  • Busque apoio: Grupos de familiares de pessoas com transtornos mentais (como o NAMI ou CVV) podem ajudar.
  • Cuide da sua saúde mental: Se você está se sentindo sobrecarregado, procure terapia.
  • Estabeleça limites: Não deixe que o transtorno da pessoa tome conta da sua vida. Reserve tempo para suas próprias necessidades.

Quando os sintomas podem piorar?

Algumas situações podem desencadear ou piorar os comportamentos factícios. Fique atento a:
Estresse intenso (problemas no trabalho, fim de relacionamento, luto).
Solidão ou abandono (quando a pessoa se sente ignorada ou rejeitada).
Mudanças na rotina (férias, mudança de cidade, desemprego).
Exposição a gatilhos (visitas ao hospital, conversas sobre doenças, notícias sobre saúde).
Recaídas no tratamento (parar a terapia ou os medicamentos).

O que fazer nesses casos?
Aumente o suporte: Se a pessoa está passando por um momento difícil, ofereça mais apoio emocional (sem reforçar o comportamento de doença).
Reavalie o tratamento: Converse com o terapeuta ou psiquiatra sobre ajustar a terapia ou a medicação.
Evite confrontos: Em momentos de crise, não discuta sobre o transtorno. Foque em acalmar a pessoa e buscar ajuda profissional.


Perguntas frequentes

1. “O transtorno factício tem cura?”

Não existe uma “cura” no sentido de eliminar completamente o transtorno, mas é possível controlar os sintomas e ter uma vida plena. Com tratamento, muitas pessoas reduzem drasticamente os comportamentos factícios e aprendem a buscar atenção e cuidado de formas saudáveis.

O objetivo não é nunca mais pensar em doenças, mas sim não precisar mais inventá-las para se sentir amado ou seguro.


2. “Como convencer alguém a buscar tratamento?”

Convencer uma pessoa com transtorno factício a buscar ajuda pode ser muito difícil, porque ela pode negar o problema ou ficar defensiva. Algumas estratégias:
Abordagem empática: Em vez de dizer “Você está mentindo!”, diga “Percebo que você está sofrendo. Vamos procurar ajuda para entender o que está acontecendo?”
Foque nos benefícios: “A terapia pode te ajudar a se sentir melhor e ter relacionamentos mais saudáveis.”
Evite confrontos diretos: Se a pessoa se sentir acusada, pode fugir do tratamento.
Busque apoio profissional: Um psiquiatra ou psicólogo pode ajudar a abordar a pessoa de forma mais eficaz.


3. “É possível ter transtorno factício e outra doença mental ao mesmo tempo?”

Sim! Muitas pessoas com transtorno factício têm comorbidades, ou seja, outros transtornos mentais ao mesmo tempo, como:
Depressão (por se sentir culpada ou envergonhada).
Transtorno de ansiedade (por medo de ser descoberta).
Transtorno de personalidade borderline (que envolve instabilidade emocional e automutilação).
Transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) (por pensamentos intrusivos sobre doenças).

Por isso, é importante que o diagnóstico seja feito por um profissional, que vai avaliar se há outros transtornos presentes.


4. “O que fazer se a pessoa está se machucando de forma grave?”

Se a pessoa está provocando sintomas que colocam sua vida em risco (ex.: injetando substâncias perigosas, tomando veneno, causando infecções graves), procure ajuda médica imediatamente. Em alguns casos, pode ser necessária internação psiquiátrica para protegê-la.

Não tente resolver sozinho. Converse com um psiquiatra ou equipe de saúde mental sobre as melhores opções.


5. “Como explicar o transtorno para outras pessoas?”

Muitas pessoas não entendem o transtorno factício e podem julgar ou minimizar o sofrimento da pessoa. Algumas formas de explicar:
Para amigos e familiares:

“É um transtorno mental em que a pessoa inventa ou provoca doenças para buscar atenção e cuidado. Não é frescura, é uma forma disfuncional de lidar com emoções difíceis, como solidão ou abandono.”
Para crianças:
“Às vezes, quando alguém se sente muito sozinho ou triste, pode fazer coisas que não são boas para o corpo, como fingir que está doente. Mas isso não é saudável, e essa pessoa precisa de ajuda para aprender a se sentir amada de outras formas.”
Para colegas de trabalho:
“É um transtorno psiquiátrico em que a pessoa tem dificuldade em lidar com emoções e acaba buscando atenção através de doenças. Não é algo que ela controla, e o tratamento ajuda a melhorar.”


6. “O transtorno factício pode levar ao suicídio?”

Sim, em casos graves, o transtorno factício pode aumentar o risco de suicídio, especialmente se a pessoa:
Se sente desesperançada por não conseguir controlar os comportamentos.
Tem depressão ou outros transtornos mentais associados.
Provoca sintomas tão graves que coloca sua vida em risco (ex.: overdose de medicamentos).

Sinais de alerta para suicídio:
– Falar sobre morte ou querer “desaparecer”.
– Isolamento extremo.
– Despedidas emocionais (ex.: dar objetos pessoais para outras pessoas).
– Comportamentos de risco (ex.: dirigir em alta velocidade, abusar de álcool/drogas).

O que fazer:
Não deixe a pessoa sozinha.
Procure ajuda profissional imediatamente (psiquiatra, CAPS, CVV 188).
Remova objetos perigosos (remédios, armas, facas).


7. “Como é o tratamento no SUS?”

No Sistema Único de Saúde (SUS), o tratamento para transtorno factício pode incluir:
Consulta com psiquiatra: Nas UBS (Unidades Básicas de Saúde) ou CAPS (Centros de Atenção Psicossocial).
Psicoterapia: Oferecida nos CAPS ou por psicólogos da rede pública.
Internação psiquiátrica: Em casos graves, em hospitais psiquiátricos ou enfermarias de saúde mental.
Grupos de apoio: Alguns CAPS oferecem grupos para familiares e pacientes.

Como acessar:
1. Procure uma UBS e peça encaminhamento para um psiquiatra ou CAPS.
2. Se a situação for urgente, vá a um pronto-socorro psiquiátrico ou ligue para o CVV (188).
3. Em casos de risco de suicídio, procure um hospital geral com enfermaria psiquiátrica.


8. “Quanto tempo dura o tratamento?”

Não há um prazo exato, mas o tratamento costuma ser longo, porque envolve:
Mudanças profundas na forma como a pessoa lida com emoções.
Reconstrução da autoestima e dos relacionamentos.
Aprendizado de novos hábitos para substituir os comportamentos factícios.

Algumas pessoas melhoram em alguns meses, enquanto outras precisam de anos de terapia. O importante é não desistir e seguir as orientações do profissional.


Quando procurar ajuda urgente

Alguns sinais indicam que a situação exige atenção imediata. Procure ajuda no mesmo dia se a pessoa:

Sinais de alerta vermelho (risco de vida)

🚨 Provocou sintomas graves (ex.: ingeriu veneno, causou uma infecção generalizada, tomou overdose de medicamentos).
🚨 Fala em suicídio ou faz planos para se matar.
🚨 Apresenta comportamento psicótico (delírios, alucinações, paranoia).
🚨 Recusa tratamento e está colocando a vida em risco.

O que fazer:
Ligue para o SAMU (192) ou leve a pessoa a um pronto-socorro.
Não a deixe sozinha.
Remova objetos perigosos (remédios, armas, facas).

Sinais de alerta amarelo (necessidade de ajuste no tratamento)

⚠️ Recaídas frequentes (volta a inventar ou provocar doenças).
⚠️ Piora dos sintomas de depressão ou ansiedade.
⚠️ Isolamento social extremo.
⚠️ Dificuldade em seguir o tratamento (não toma os remédios, falta às terapias).

O que fazer:
Converse com o psiquiatra ou terapeuta para ajustar o tratamento.
Aumente o suporte familiar.
Considere internação se a pessoa não estiver respondendo ao tratamento ambulatorial.


Referências

  • Organização Mundial da Saúde (OMS). Classificação Internacional de Doenças (CID-11). 2022.
  • American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). 5ª ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023.
  • Associação Brasileira de Psiquiatria. Tratado de Psiquiatria da ABP. 2022.
  • Ministério da Saúde. Linhas de Cuidado para Atenção às Pessoas com Transtornos Mentais. Brasília, 2021.
  • Catalina, M. L., Macias, V. G., & Cos, A. de. Prevalence of factitious disorder with psychological symptoms in hospitalized patients. Actas Esp Psiquiatr. 2008;36(6):345-9.
  • Yates, G. P., & Feldman, M. D. Factitious disorder: a systematic review of 455 cases in the professional literature. Gen Hosp Psychiatry. 2016;41:20-8.
  • McClure, R. J., et al. Epidemiology of Munchausen syndrome by proxy, non-accidental poisoning, and non-accidental suffocation. Arch Dis Child. 1996;75(1):57-61.

Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação profissional. Em caso de sofrimento psíquico, procure um profissional de saúde mental.

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