Ecolalia na Esquizofrenia Catatônica

Definição e conceito

A ecolalia é um fenômeno psicopatológico da linguagem caracterizado pela repetição automática, involuntária e não proposital de palavras ou frases proferidas por outra pessoa. Na semiologia psiquiátrica, é classificada como um sintoma psicótico, especificamente um distúrbio formal do pensamento e da linguagem, com forte associação a síndromes catatônicas. O termo deriva do grego echo (eco) e lalia (fala), descrevendo literalmente uma "fala em eco". Em inglês, o termo correspondente é echolalia.

O fenômeno é automático, ocorrendo sem planejamento ou controle voluntário por parte do paciente. Pode ser classificado em dois subtipos temporais: ecolalia imediata, quando a repetição ocorre logo após a emissão do estímulo verbal, e ecolalia tardia (delayed echolalia), quando a repetição acontece minutos ou até horas após o paciente ter ouvido a palavra ou frase. A ecolalia se distingue de outros fenômenos de repetição verbal:

  • Palilalia: Repetição involuntária das últimas palavras ou frases que o próprio paciente acabou de proferir. Descrita por Souques em 1908, é comum em quadros demenciais.
  • Logoclonia: Repetição involuntária apenas das últimas sílabas de uma palavra que o próprio paciente falou, também típica de demências.
  • Estereotipia Verbal (Verbigeração): Repetição monótona, inadequada e sem sentido comunicativo de palavras ou frases, observada na síndrome catatônica e na demência.
  • Coprolalia: Emissão involuntária e repetitiva de palavras obscenas ou vulgares, presente em cerca de 25% dos casos de Transtorno de Tourette e, de forma ictal, em algumas epilepsias do lobo temporal ou orbitofrontal.

Epidemiologicamente, a ecolalia não é um sintoma de alta prevalência na esquizofrenia de forma geral, mas sua ocorrência é significativamente mais comum quando há presença de sintomas catatônicos. É um marcador de gravidade e cronicidade, frequentemente associado a pior funcionamento global. Sua prevalência exata é difícil de estabelecer devido à sua natureza episódica e sua associação a estados catatônicos agudos, que podem ser subdiagnosticados. É encontrada também em outras condições: Transtornos do Espectro Autista (TEA), transtornos neurocognitivos maiores (demências), deficiências intelectuais graves e, de forma transitória, como parte do desenvolvimento típico da linguagem em crianças pequenas.

Apresentação clínica

A manifestação da ecolalia no contexto da esquizofrenia catatônica é um dos componentes de um quadro psicomotor complexo e frequentemente grave. Sua apresentação não é isolada, mas integrada a uma constelação de sinais catatônicos.

Domínio Cognitivo e da Linguagem:
A ecolalia representa uma profunda desorganização do processamento linguístico e do controle executivo sobre a fala. O paciente perde a capacidade de gerar um discurso intencional e contextualizado, respondendo a estímulos verbais externos com uma repetição passiva. O ato de repetir é involuntário, sem mediação do pensamento ou da vontade. A prosódia (entoação, ritmo) da fala original costuma ser preservada na repetição, o que pode dar uma falsa impressão de engajamento. O conteúdo repetido pode ser uma palavra isolada, uma frase completa ou fragmentos do que foi ouvido. Em conjunto, frequentemente observa-se alogia (empobrecimento da produção linguística), mussitação (fala sussurrada, monótona e incompreensível dirigida a si mesmo) e estereotipia verbal.

Domínio Comportamental e Psicomotor:
A ecolalia ocorre tipicamente em um cenário de alterações psicomotoras catatônicas marcantes. O paciente pode apresentá-la em estados de:

  • Estupor Catatônico: Com acentuada redução da atividade psicomotora, mutismo e negativismo. A ecolalia pode surgir de forma esparsa, como uma das poucas produções verbais.
  • Excitação Catatônica: Com atividade motora excessiva, sem propósito e influenciada por estímulos externos. Nesse estado, a ecolalia pode ser mais frequente e acompanhada de ecopraxia (repetição de movimentos alheios) e ecomimia (repetição de expressões faciais).
  • Flexibilidade Cerea (Waxy Flexibility): Onde o paciente mantém posturas impostas por terceiros. A ecolalia, neste contexto, reflete uma análoga "flexibilidade verbal".
    Comportamentos negativistas (oposição ativa ou passiva a instruções) ou obediencia automática podem estar presentes, e a ecolalia pode ser um componente dessa resposta automática.

Domínio Afetivo:
O afeto é classicamente embotado ou incongruente. Durante os episódios de ecolalia, o paciente geralmente não demonstra reação emocional apropriada ao conteúdo repetido. A expressão facial pode ser fixa, vazia ou desconectada, evidenciando a dissociação entre o ato motor da fala e a experiência emocional subjetiva.

Exemplos Clínicos Concisos:

  1. Entrevista em Estupor: O psiquiatra se aproxima do leito e pergunta: "Bom dia, qual é o seu nome?". O paciente, imóvel e de olhos fixos no teto, após uma latência de vários segundos, sussurra monótonamente: "Bom dia, qual é o seu nome?". Perguntas subsequentes como "Você está se sentindo bem?" são respondidas com "Se sentindo bem… se sentindo bem".
  2. Enfermaria com Excitação: Um paciente deambula agitadamente pelo corredor. Uma enfermeira diz a um colega: "Preciso da chave do armário". O paciente, sem olhar para elas, repete em um tom alto e sem variação: "Chave do armário, chave do armário", continuando sua deambulação.
  3. Ecolalia Tardia: Durante a visita, a irmã do paciente comenta: "O almoço hoje está atrasado". O paciente não reage. Duas horas depois, em um momento de aparente desconexão, ele começa a murmurar repetidamente: "Atrasado, atrasado, atrasado".

Neurobiologia e fisiopatologia

A ecolalia, enquanto fenômeno de desconexão entre a percepção da linguagem e a produção de fala intencional, sugere uma ruptura em circuitos cerebrais específicos. As fontes indicam que sua fisiopatologia envolve disfunções em redes corticais e subcorticais que integram funções linguísticas, motoras e de controle inibitório.

Mecanismos Neuroanatômicos:
Baseando-se na revisão de Berthier et al. (2017) citada por Dalgalarrondo, a ecolalia tem sido associada a:

  1. Disfunção no Hemisfério Esquerdo: Especificamente em áreas não perissilvianas do córtex temporoparietal. Esta região é crucial para a compreensão semântica e a integração da linguagem. Uma lesão ou disfunção aqui poderia prejudicar o processamento do significado, levando a uma resposta "em eco" como um padrão de falha compensatória.
  2. Lesões nas Regiões Mesiais do Córtex Frontal Bilateral e no Córtex do Cíngulo Anterior: Estas áreas são componentes centrais da rede de controle executivo e inibitório. O córtex do cíngulo anterior, em particular, está envolvido no monitoramento de conflitos, detecção de erros e no controle da ação. Uma disfunção neste sistema poderia levar à falha na inibição de respostas verbais automáticas (a repetição) em detrimento de respostas geradas internamente.
  3. Ação Vicariante (Compensatória) do Hemisfério Direito: Na tentativa de compensar a disfunção do hemisfério esquerdo (dominante para a linguagem na maioria), o hemisfério direito, menos especializado para o processamento linguístico complexo, poderia assumir funções, resultando em padrões de fala mais primitivos e repetitivos, como a ecolalia.

Sistemas de Neurotransmissores:
Na esquizofrenia catatônica, a ecolalia insere-se em um modelo fisiopatológico mais amplo que envolve desequilíbrios nos sistemas dopaminérgico, GABAérgico e glutamatérgico.

  • Dopamina: A hipótese dopaminérgica da esquizofrenia, com hiperatividade mesolímbica, pode contribuir para a desorganização do pensamento e a perda de filtros sensoriais, facilitando respostas automáticas a estímulos.
  • GABA: A catatonia tem sido fortemente vinculada a uma disfunção do sistema GABAérgico, principal neurotransmissor inibitório do SNC. A redução da inibição GABAérgica no córtex orbitofrontal e no córtex motor poderia explicar tanto os sintomas motores (estupor, excitação) quanto a liberação de padrões verbais automáticos e não inibidos, como a ecolalia.
  • Glutamato: A hipofunção do sistema glutamatérgico, via receptores NMDA, é outra hipótese central para a esquizofrenia. Disfunções neste sistema podem prejudicar a integração de informações entre diferentes regiões cerebrais, incluindo aquelas necessárias para transformar a compreensão auditiva em fala proposital.

Modelo Integrativo:
Um modelo atual propõe que a ecolalia na catatonia resulta de uma "síndrome de liberação" de circuitos subcorticais. A disfunção nos circuitos fronto-cíngulo-tálamo-estriatais, particularmente aqueles mediados por GABA, levaria a uma falha no controle inibitório cortical superior. Isso "liberaria" circuitos mais primitivos envolvidos na imitação e na repetição, localizados em regiões parietais e no sistema de neurônios-espelho, que passariam a responder automaticamente a estímulos verbais externos sem a modulação contextual normalmente fornecida pelo córtex pré-frontal e pelo cíngulo anterior.

Avaliação clínica e diagnóstico diferencial

Achados ao Exame do Estado Mental:

  • Aparência e Comportamento: Presença de outros sinais catatônicos (estupor, excitação, posturas bizarras, maneirismos, negativismo, flexibilidade cerea).
  • Fala e Linguagem: Observar a ocorrência de repetição literal de perguntas ou comentários do examinador. Avaliar se é imediata ou tardia. Notar a prosódia (geralmente preservada na repetição). Pesquisar outros distúrbios da linguagem: mutismo, mussitação, alogia, estereotipia verbal, neologismos.
  • Humor e Afeto: Afeto embotado, plano ou incongruente. Ausência de reação emocional apropriada ao conteúdo ecolálico.
  • Pensamento: O pensamento é tipicamente desorganizado, com bloqueios e pobreza de conteúdo. A ecolalia é um marcador dessa desorganização formal.
  • Percepção: Podem estar presentes alucinações auditivas, que podem, em raros casos, desencadear ecolalia (repetição do conteúdo alucinatório).
  • Insight: Gravemente prejudicado. O paciente geralmente não tem consciência do caráter anormal da ecolalia.

Instrumentos e Escalas de Avaliação Padronizadas:

  • Escala de Avaliação da Síndrome Catatônica de Bush-Francis (BFCRS): Instrumento padrão-ouro para avaliação e monitoramento da catatonia. A ecolalia é um dos 23 itens avaliados, pontuada de 0 (ausente) a 3 (presente na maioria das vezes). Sua utilização é recomendada na prática clínica brasileira, inclusive em serviços do SUS e CAPS, para objetivar o diagnóstico.
  • Exame do Estado Mental (EEM): A observação sistemática da linguagem durante o EEM é fundamental para detectar e documentar o fenômeno.
  • Escala de Avaliação Psiquiátrica Breve (BPRS) e Escala de Síndromes Positiva e Negativa (PANSS): Avaliam a psicopatologia global da esqu, mas não são específicas para a ecolalia.

Diagnóstico Diferencial Estruturado:
A ecolalia é um sintoma inespecífico. Seu significado clínico muda radicalmente de acordo com o contexto sindrômico.

Condição Contexto da Ecolalia Características Distintivas
Esquizofrenia Catatônica Parte de uma síndrome psicomotora complexa (estupor, excitação, negativismo, posturas). Presença de outros sintomas psicóticos (delírios, alucinações, desorganização). História de esquizofrenia. Resposta a benzodiazepínicos (teste de lorazepam) na catatonia.
Transtornos do Espectro Autista (TEA) Parte do desenvolvimento atípico da linguagem e da comunicação social. Pode ter função comunicativa (prática, pedido). Início na primeira infância. Déficits persistentes na comunicação social e interação. Padrões restritos e repetitivos de comportamento. Ausência de sintomas psicóticos típicos.
Demência (ex.: Doença de Alzheimer, DFT) Em estágios moderados a graves, associada a afasia e deterioração cognitiva global. História de declínio cognitivo progressivo. Presença de outros distúrbios da linguagem (afasia, palilalia, logoclonia). Comprometimento de memória e outras funções corticais.
Deficiência Intelectual Grave/Profunda Associada a atraso global do desenvolvimento e limitações na linguagem expressiva. Início no período do desenvolvimento. Quociente de inteligência (QI) significativamente abaixo da média. Limitações adaptativas.
Transtorno de Tourette Raramente como ecolalia pura; mais comum como coprolalia. Presença de múltiplos tiques motores e vocais. Início antes dos 18 anos. Os tiques variam em frequência e intensidade.
Epilepsia (Ictal/Pos-ictal) Muito rara, como automatismo verbal ictal (ecolalia ictal) ou em estado confusional pós-ictal. História de crises epilépticas. Associação temporal com o evento crítico. EEG pode mostrar atividade epileptiforme.

Armadilhas Diagnósticas Comuns:

  1. Confundir com Cooperatividade: A repetição literal da pergunta pode, superficialmente, parecer uma tentativa de ganhar tempo para responder ou uma falta de compreensão. A avaliação do contexto catatônico (mutismo, estupor, afeto embotado) e a natureza automática da resposta são diferenciais.
  2. Superdiagnosticar Autismo em Adultos: A ecolalia em um adulto que se apresenta com um primeiro episódio psicótico pode levar a um erro diagnóstico de TEA. A investigação cuidadosa da história de desenvolvimento, a presença de outros sintomas catatônicos agudos e psicóticos é crucial.
  3. Atribuir à "Teimosia" ou Manipulação: Familiares e profissionais não treinados podem interpretar a ecolalia como um comportamento voluntário de oposição ou manipulação, levando a abordagens confrontativas e inadequadas.
  4. Negligenciar a Catatonia Subjacente: Focar apenas na ecolalia como um distúrbio isolado da linguagem, sem buscar ativamente outros sinais catatônicos (como imobilidade, negativismo, posturas), resultando em falha no diagnóstico da síndrome catatônica, que tem implicações terapêuticas urgentes.

Condições associadas

A ecolalia é um sintoma transdiagnóstico. Sua associação mais clássica e estudada na psiquiatria de adultos é com a Síndrome Catatônica, que por sua vez é mais frequentemente observada no Subtipo Catatônico da Esquizofrenia (CID-11: 6A20.1; DSM-5-TR: 295.10). Neste contexto, ela é um dos distúrbios verbais característicos, ao lado do mutismo, da mussitação e da estereotipia verbal.

Outras condições psiquiátricas e neurológicas onde a ecolalia ocorre com importância clínica incluem:

  1. Transtornos do Espectro Autista (TEA) (CID-11: 6A02; DSM-5-TR: 299.00): A ecolalia, tanto imediata quanto tardia, é um fenômeno comum, especialmente em indivíduos com comprometimento significativo da linguagem. Faz parte dos padrões de comportamento, interesses ou atividades restritos e repetitivos. Diferentemente da catatonia, pode ter uma função no desenvolvimento da linguagem ou ser usada com propósito comunicativo (ex.: ecolalia funcional para fazer um pedido).
  2. Transtornos Neurocognitivos Maiores (Demências) (CID-11: 6D80-6D8Z): Particularmente na Doença de Alzheimer em estágios avançados e nas Demências Frontotemporais (variante comportamental e afasia progressiva primária). Nestes casos, a ecolalia está inserida em um quadro de afasia e deterioração cognitiva global, frequentemente acompanhada de palilalia e logoclonia.
  3. Deficiência Intelectual (CID-11: 6A00), Grave e Profunda: A ecolalia aparece como um reflexo do grave comprometimento no desenvolvimento da linguagem expressiva e das funções executivas.
  4. Outras Condições com Catatonia: A ecolalia pode ocorrer em síndromes catatônicas secundárias a outros transtornos, como Transtorno Bipolar (episódio maníaco ou depressivo com características catatônicas), condições médicas gerais (encefalites, doenças autoimunes, alterações metabólicas) ou induzidas por substâncias.

Implicações terapêuticas

O tratamento da ecolalia na esquizofrenia catatônica é o tratamento da síndrome catatônica subjacente e do transtorno psicótico base.

Abordagem Farmacológica:

  1. Benzodiazepínicos (BDZs) – Primeira Linha para a Catatonia Aguda: O teste de lorazepam (1-2 mg VO/IM/EV, com repetição em 30-60 min se necessário) é tanto uma ferramenta diagnóstica (melhora dos sintomas catatônicos, incluindo a ecolalia) quanto terapêutica. A resposta dramática, quando ocorre, confirma o diagnóstico. O tratamento de manutenção com BDZs (ex.: lorazepam 3-8 mg/dia) é eficaz para muitos pacientes, atuando pela potencialização do sistema GABAérgico, corrigindo a suposta disfunção central na catatonia.
  2. Antipsicóticos: São a base do tratamento da esquizofrenia. Em pacientes catatônicos, deve-se ter extremo cuidado com antipsicóticos típicos de alta potência (ex.: haloperidol), que podem piorar a sintomatologia catatônica e precipitar a Síndrome Neuroléptica Maligna (SNM), uma emergência médica. Antipsicóticos atípicos (ex.: olanzapina, risperidona, aripiprazol) são geralmente preferidos, iniciados em doses baixas e tituladas lentamente, muitas vezes após estabilização inicial com BDZs. A clozapina é particularmente eficaz para esquizofrenia refratária e tem mostrado utilidade em casos de catatonia crônica ou resistente.
  3. Terapia Eletroconvulsiva (TEC): É o tratamento mais eficaz para a catatonia grave, refratária ou com risco vital (ex.: estupor com recusa de alimentação/hidratação). A TEC também é altamente eficaz para os sintomas psicóticos positivos e negativos da esquizofrenia. A melhora da ecolalia e de outros sintomas catatônicos costuma ser rápida após o início da série de TEC. É um recurso disponível no SUS em centros de referência.
  4. Outros Fármacos: Em casos resistentes, relatos de caso e séries pequenas sugerem benefício com agonistas GABA-A (zolpidem), antagonistas NMDA (amantadina, memantina) e moduladores glutamatérgicos.

Abordagens Psicossociais e de Reabilitação:

  • Psicoeducação: Fundamental para familiares, explicando a ecolalia como um sintoma médico involuntário, não como teimosia ou manipulação.
  • Ambiente Terapêutico: Um ambiente de baixa estimulação, previsível e calmo é essencial para reduzir a ansiedade e a sobrecarga sensorial que podem exacerbar sintomas catatônicos e a ecolalia.
  • Terapia Ocupacional e Fonoaudiologia: Após a resolução da fase aguda, intervenções focadas na reabilitação psicossocial, treino de habilidades sociais e comunicação podem ajudar o paciente a desenvolver estratégias alternativas de comunicação e reduzir a dependência de padrões verbais automáticos.
  • Acompanhamento em CAPS: Os Centros de Atenção Psicossocial são a porta de entrada e o local de acompanhamento longitudinal no SUS, oferecendo suporte multiprofissional essencial para o manejo da esquizofrenia com características catatônicas.

Impacto Prognóstico e na Resposta:
A presença de ecolalia e de síndrome catatônica na esquizofrenia é geralmente um indicador de maior gravidade e pior prognóstico funcional a longo prazo. No entanto, a catatonia aguda costuma ser altamente responsiva ao tratamento correto (BDZs, TEC). A persistência da ecolalia após a resolução da fase aguda catatônica pode sinalizar maior cronicidade, déficits cognitivos mais profundos ou esquizofrenia refratária, exigindo estratégias terapê.uticas mais intensivas e de longo prazo.

Perspectiva do paciente e comunicação clínica

Vivenciando a Ecolalia:
Para o paciente, a experiência da ecolalia é frequentemente descrita como uma desconexão entre a intenção e a ação. Relatos retrospectivos, após melhora do episódio agudo, podem mencionar:

  • Sensação de Automatismo: "As palavras saíam sozinhas, como um eco. Eu ouvia e minha boca repetia, sem que eu quisesse."
  • Frustração e Angústia: Apesar da aparente falta de afeto durante o episódio, muitos pacientes relatam posteriormente sentimentos de frustração por não conseguirem se comunicar como desejam.
  • Despersonalização: A experiência pode contribuir para uma sensação de estranheza em relação ao próprio self e ao próprio controle corporal.
  • Incompreensão do Ambiente: O paciente pode estar ciente de que sua fala é inadequada, mas é incapaz de modulá-la, levando a um maior isolamento.

Orientação para Comunicação Clínica e Familiar:

  1. Evite Perguntas Diretas que Provocam Eco: Em vez de "Como você está se sentindo?", que pode gerar a resposta "Se sentindo", use frases afirmativas ou ofereça escolhas limitadas: "Vejo que você está quieto hoje" ou "Você prefere água ou suco?".
  2. Fale de Forma Clara e Calma: Use frases curtas e simples. Dê tempo prolongado para resposta (30-60 segundos), pois a latência de resposta está aumentada.
  3. Não Confronte ou Ridicularize: Nunca diga "Pare de repetir o que eu falo" ou imite o paciente. Isso aumenta a ansiedade e pode piorar o negativismo.
  4. Foque na Comunicação Não-Verbal: A comunicação pode ser mais eficaz através de gestos, expressões faciais calmas e toque terapêutico (se tolerado). Observe sinais mínimos de resposta (movimento ocular, pequeno gesto).
  5. Eduque a Família: Explique que a ecolalia é um sintoma da doença, como uma febre é um sintoma de uma infecção. Encoraje a família a adotar as mesmas estratégias de comunicação calma e não confrontativa.
  6. Monitore Necessidades Básicas: Em estados de estupor com ecolalia, o paciente pode não conseguir expressar fome, sede ou dor. A equipe e a família devem monitorar ativamente esses aspectos.

Impacto Funcional:

  • Relacionamentos: A ecolalia impede conversas significativas, levando ao isolamento social e ao estresse familiar.
  • Trabalho/Estudos: Incapacitante para qualquer atividade que exija comunicação verbal eficaz.
  • Qualidade de Vida: Reduz drasticamente a autonomia e a capacidade de expressar necessidades e desejos, contribuindo para uma pobre qualidade de vida.
  • Cuidados em Saúde: Dificulta a avaliação clínica e a adesão ao tratamento, pois o paciente não pode relatar sintomas ou efeitos colaterais de forma coerente.

Perguntas frequentes

1. A ecolalia é sempre um sinal de esquizofrenia?
Não. Embora seja um sintoma clássico da esquizofrenia catatônica, a ecolalia é um fenômeno inespecífico. É comum no autismo, em demências avançadas e em deficiências intelectuais graves. O diagnóstico depende do contexto clínico global, idade de início e presença de outros sintomas.

2. O paciente repete as palavras de propósito ou por "malandragem"?
Absolutamente não. A ecolalia é um sintoma involuntário e automático. Resulta de uma disfunção cerebral que prejudica o controle sobre a produção da fala. Interpretá-la como um comportamento voluntário é um erro grave que prejudica a relação terapêutica e o manejo adequado.

3. Meu filho com autismo tem ecolalia. Isso significa que ele vai desenvolver esquizofrenia?
Não há uma ligação direta. A ecolalia no autismo é parte do desenvolvimento atípico da linguagem e da comunicação, com características e funções próprias. O risco de desenvolver esquizofrenia em indivíduos com TEA é ligeiramente maior do que na população geral, mas a ecolalia em si não é um preditor disso. São condições distintas.

4. Existe algum remédio específico para parar a ecolalia?
Não existe um fármaco específico para a ecolalia isolada. O tratamento é dirigido à condição subjacente. Na esquizofrenia catatônica, benzodiazepínicos (como lorazepam) e a Terapia Eletroconvulsiva (TEC) são altamente eficazes para reverter o estado catatônico como um todo, o que inclui a resolução da ecolalia.

5. Como devo responder quando um paciente repete tudo o que eu falo?
Não entre no "jogo do eco". Evite fazer perguntas que geram respostas de uma só palavra. Use frases afirmativas, ofereça escolhas simples ("quer água?"), fale de forma calma e dê tempo para resposta. Foque em se comunicar através da linguagem corporal e do tom de voz tranquilizador.

6. A ecolalia tem cura?
Em condições como a esquizofrenia catatônica, a ecolalia aguda pode remitir completamente com o tratamento adequado da crise catatônica (com BDZs ou TEC). No entanto, em casos crônicos ou associados a condições neurodegenerativas (como demência), pode persistir como um sintoma residual ou progressivo. O objetivo do manejo é controlar a condição de base e melhorar a comunicação funcional.

7. A ecolalia tardia (que ocorre horas depois) é diferente da imediata?
Sim, no tempo de latência. A ecolalia tardia sugere um processamento ainda mais fragmentado e desorganizado, onde um fragmento verbal fica "preso" e é liberado posteriormente, fora de contexto. Ambas são involuntárias e têm significado clínico semelhante, indicando grave comprometimento do controle da linguagem.

8. O que é a "verbigeração" e como se diferencia da ecolalia?
A verbigeração ou estereotipia verbal é a repetição monótona e sem sentido de uma palavra ou frase gerada pelo próprio paciente (ex.: ficar repetindo "é uma coisa, é uma coisa"). A ecolalia é a repetição do que outra pessoa falou. Ambas podem ocorrer na síndrome catatônica e refletem uma profunda desorganização do pensamento e da linguagem.

Referências

  • Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
  • Cheniaux, E. Manual de Psiquiatria. 6ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021.
  • American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5-TR. 5ª ed. revisada. Porto Alegre: Artmed, 2022.
  • Organização Mundial da Saúde (OMS). Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID-11. 2022.
  • Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
  • Bush, G., Fink, M., Petrides, G., Dowling, F., & Francis, A. Catatonia. I. Rating scale and standardized examination. Acta Psychiatrica Scandinavica, 93(2), 129-136, 1996.
  • Berthier, M. L., et al. "Echolalia: A cognitive and neural model." Journal of Neurolinguistics, 41, 1-13, 2017. (Artigo de revisão citado por Dalgalarrondo).

Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.

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