Definição e conceito
Dores psicogênicas, também denominadas algias psicossomáticas, somatoformes ou funcionais, referem-se a síndromes álgicas clinicamente significativas que ocorrem na ausência de um substrato orgânico identificável ou cuja intensidade e impacto são desproporcionais a qualquer patologia física encontrada. Na psicopatologia das síndromes depressivas, essas dores constituem um sintoma somático atípico, porém frequente, que expressa o sofrimento psíquico através de uma via corporal. O termo "psicogênico" não implica que a dor seja "imaginária" ou "menos real". Pelo contrário, a experiência dolorosa é genuína e mediada por complexos mecanismos neurofisiológicos, cuja disfunção primária está enraizada no transtorno afetivo.
Na semiologia psiquiátrica, essas dores se enquadram no espectro dos sintomas neurovegetativos e somáticos da depressão, ao lado de fadiga, alterações do sono e do apetite. Distinguem-se, contudo, por sua apresentação proeminente e localizada, muitas vezes desviando a atenção clínica inicial para investigações somáticas. O conceito se aproxima, mas não se sobrepõe completamente, ao de "depressão mascarada" (ou equivalente somático), onde os sintomas afetivos clássicos (tristeza, anedonia) ficam em segundo plano, sendo a queixa álgica o principal motivo de consulta. Também se relaciona com os sintomas psicóticos congruentes com o humor, especificamente os delírios hipocondríacos ou de negação de órgãos (Dalgalarrondo, 2018, p.619), embora neste caso a crença na doença seja fixa e delirante, enquanto na dor psicogênica típica a convicção pode ser menos rígida, ainda que angustiante.
A terminologia técnica inclui:
- Dor somatoforme (CID-10): Enfatiza a apresentação somática sem causa orgânica.
- Sintomas somáticos com perturbação psicológica significativa (CID-11): Reflete uma visão mais integrada mente-corpo.
- Transtorno de sintomas somáticos (DSM-5): Define a presença de sintomas somáticos angustiantes e excessivos, com pensamentos, sentimentos e comportamentos desproporcionais.
- Somatic Symptom Disorder (SSD) (DSM-5, em inglês).
- Algia psicogênica: Termo descritivo direto.
Epidemiologicamente, a comorbidade entre dor crônica e depressão é elevada, com taxas de prevalência que variam de 30% a 60%, dependendo da população estudada e do tipo de dor. A presença de dor é um fator de pior prognóstico na depressão, associando-se a maior gravidade do episódio, maior resistência ao tratamento e maior prejuízo funcional.
Apresentação clínica
A apresentação clínica das dores psicogênicas na depressão é heterogênea, mas segue padrões reconhecíveis que permeiam múltiplos domínios da experiência do paciente.
Domínio Somático/Sensoperceptivo:
A dor é tipicamente poliálgica (múltiplos locais) e migratória. Os locais mais comuns incluem cefaleia tensional ou difusa, dorsalgia e lombalgia inespecíficas, dor articular difusa, dor abdominal ou pélvica crônica e dor torácica atípica. A qualidade da dor é frequentemente descrita como "pesada", "profunda", "queimação" ou "pressão". Um achado semiológico clássico, mencionado por Dalgalarrondo (2018, p.618) no contexto da depressão atípica, é a "sensação de corpo, braços ou pernas muito pesados (paralisia ‘de chumbo’)". Esta descrição metaforiza bem a experiência somato-sensorial da depressão: uma inércia dolorosa, uma carga física que acompanha a carga psíquica. Pode haver hipoestesia (embotamento sensorial geral) ou, paradoxalmente, hiperalgesia (aumento da sensibilidade à dor).
Domínio Afetivo e de Humor:
A dor coexiste com o humor triste e o sentimento de melancolia característicos da síndrome depressiva (Dalgalarrondo, 2018, p.612). No entanto, em alguns casos, a queixa afetiva pode ser de apatia ("tanto faz") ou de uma irritabilidade difusa, mascarando a tristeza. A reatividade do humor pode estar alterada: na depressão melancólica, há falta de reatividade a estímulos prazerosos; na depressão atípica, pode haver uma reatividade aumentada, com piora marcante da dor em resposta a estressores psicossociais. A sensibilidade exacerbada a rejeição interpessoal, outro sintoma da depressão atípica (Dalgalarrondo, 2018, p.618), pode se manifestar como um aumento da percepção da dor ou da queixa em contextos de conflito ou percepção de abandono.
Domínio Cognitivo e Ideativo:
O pensamento fica dominado pela dor e pela doença. É comum a ruminação perseverante sobre as causas da dor, seu significado e seu prognóstico catastrófico. Podem surgir ideias hipocondríacas (medo excessivo de ter uma doença grave) que, em graus extremos, evoluem para delírios somáticos congruentes com o humor, como a crença inabalável de que um órgão está apodrecendo, parando de funcionar ou que o corpo está se deteriorando internamente (Dalgalarrondo, 2018, p.619; Psicopatologia – Uma Abordagem Integrada, p.252). A atenção fica rigidamente voltada para o corpo (hipoprosexia seguida de rigidez da atenção, conforme Cheniaux, p.251), com monitoramento constante de sensações internas. A memória pode apresentar hipomnésia para eventos gerais, mas hipermnésia seletiva para episódios anteriores de dor ou para informações médicas negativas.
Domínio Comportamental e Volitivo:
Há um desânimo profundo e uma apatia que se estendem às tentativas de lidar com a dor. O paciente pode apresentar negativismo em relação a propostas terapêuticas. A psicomotricidade está frequentemente alterada por lentificação (bradipsiquia e bradicinesia) ou, menos comumente, por agitação. A linguagem reflete esse estado: oligolalia (pouca fala), bradilalia (fala lenta), hipofonia (voz baixa) e hipoprosódia (fala monótona, sem entonação) são comuns (Cheniaux, p.251). O comportamento de busca por cuidados médicos é intenso ("doctor shopping"), mas frequentemente descrente e frustrado, após múltiplas investigações negativas.
Exemplos Clínicos Concisos:
- Paciente de 45 anos: "Doutor, minha cabeça pesa como se fosse de cimento. Tenho uma dor nas costas que não melhora com nada, parece que carrego o mundo nos ombros. Fiz todos os exames, tomografia, ressonância, tudo normal. Mas a dor é real, não é da minha cabeça." (Ilustra a "paralisia de chumbo" e a frustração com a falta de achados orgânicos).
- Paciente de 60 anos com depressão psicótica: "Sei que estou com câncer no estômago, está tudo necrosado por dentro. Os médicos não veem porque não querem me dizer. A dor que sinto é a prova." (Ilustra um delírio somático congruente com o humor depressivo).
- Paciente de 38 anos com depressão atípica: "Nos dias em que brigo com meu marido, a enxaqueca vem tão forte que tenho que ficar no escuro. Nos fins de semana, quando saio com as amigas, melhora um pouco, mas volta na segunda-feira." (Ilustra a reatividade do humor e a influência de fatores psicossociais na dor).
Neurobiologia e fisiopatologia
A fisiopatologia das dores psicogênicas na depressão sustenta-se na íntima conexão neuroanatômica e neuroquímica entre os circuitos do humor e os da dor. O modelo atual rejeita a dicotomia mente-corpo e propõe uma desregulação compartilhada.
Circuitos Neurais Compartilhados:
Estruturas límbicas e para-límbicas, como o córtex pré-frontal (especialmente o córtex cingulado anterior e o córtex orbitofrontal), a amígdala, o hipotálamo e o núcleo accumbens, estão envolvidas tanto no processamento do afeto negativo (tristeza, ansiedade, anedonia) quanto na modulação da dor. A ínsula anterior é um nó crítico na interocepção – a percepção dos estados internos do corpo – e sua hiperatividade está associada tanto à hipersensibilidade à dor quanto à ruminação somática. Na depressão, há evidências de desregulação funcional nesses circuitos, com um padrão comum de hiper-reatividade a estímulos negativos (incluindo nociceptivos) e hipo-reatividade a estímulos recompensadores.
Sistemas de Neurotransmissão:
Os principais sistemas monoaminérgicos desregulados na depressão – serotoninérgico, noradrenérgico e dopaminérgico – são também moduladores centrais da via ascendente e descendente da dor.
- Serotonina (5-HT) e Noradrenalina (NA): Estas monoaminas são componentes cruciais do sistema inibitório descendente da dor, que se origina no tronco cerebral (como na substância cinzenta periaquedutal) e projeta-se para a medula espinhal, inibindo a transmissão de sinais dolorosos. A deficiência de 5-HT e NA, hipótese central da depressão, resulta em uma falha na inibição descendente, permitindo que estímulos nociceptivos periféricos sejam amplificados e percebidos como dor intensa. Esta é a base farmacológica racional para o uso de antidepressivos duais (inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina – ISRS/SNRIs) no tratamento da dor neuropática e psicogênica.
- Dopamina (DA): Envolvida na motivação e na experiência de recompensa (anedonia), a deficiência de DA no circuito mesolímbico pode contribuir para a experiência da dor como mais aversiva e insuportável, diminuindo a resiliência.
Sistema de Estresse (Eixo HPA):
A depressão está frequentemente associada à hiperatividade do eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA) e a níveis elevados de cortisol. O cortisol crônico pode ter efeitos pró-inflamatórios e promover uma sensibilização central, estado no qual os neurônios do corno dorsal da medula e do cérebro ficam hiper-responsivos, gerando dor mesmo na ausência de lesão periférica. A inflamação de baixo grau, com aumento de citocinas como IL-1β, IL-6 e TNF-α, é outro elo fisiopatológico comum entre depressão e dor, afetando tanto o humor quanto os limiares de dor.
Evidências de Neuroimagem:
Estudos de ressonância magnética funcional (fMRI) em pacientes com depressão e dor comórbida mostram padrões alterados de ativação nos circuitos mencionados. Há frequentemente uma ativação aumentada do córtex cingulado anterior (envolvido na dimensão afetiva-motivacional da dor) e da ínsula em resposta a estímulos dolorosos, correlacionando-se com a intensidade subjetiva da dor. Simultaneamente, pode haver diminuição da conectividade funcional entre o córtex pré-frontal (regulador) e essas estruturas límbicas, refletindo uma falha no controle cognitivo sobre a experiência dolorosa e emocional.
Avaliação clínica e diagnóstico diferencial
Achados ao Exame do Estado Mental:
- Aparência e Atitude: Aparência pode estar descuidada. Atitude frequentemente lamuriosa, queixosa, com foco persistente nos sintomas somáticos. Pode haver expressão facial de sofrimento.
- Humor e Afeto: Humor descrito como deprimido, "para baixo", ou irritável. Afeto pode ser deprimido, apático ou constrito. A avaliação deve investigar a anedonia (perda de prazer) e a reatividade do humor.
- Linguagem e Fluxo do Pensamento: Oligolalia, bradilalia, latência aumentada para responder. O fluxo do pensamento é lento e o conteúdo dominado por preocupações somáticas, ideias de ruína, culpa ou doença. É fundamental pesquisar a presença de ideias delirantes somáticas (e.g., convicção de doença grave e incurável apesar de evidências contrárias).
- Cognição: Atenção pode estar prejudicada, com fácil distração por sensações corporais. Memória pode queixar-se de "brancos", mas o teste formal pode mostrar apenas déficits leves relacionados à falta de atenção.
- Insight: Geralmente parcial. O paciente reconhece que sofre, mas pode atribuir exclusivamente a causas físicas, resistindo à ideia de um componente psiquiátrico. Em casos psicóticos, o insight está ausente.
Instrumentos e Escalas de Avaliação Padronizadas:
- Para Depressão: Escala de Depressão de Hamilton (HAM-D), Inventário de Depressão de Beck (BDI), PHQ-9 (útil na atenção primária).
- Para Dor: Escala Visual Analógica (EVA), Escala Numérica da Dor (0-10), Questionário de Dor de McGill (para qualificar a dor).
- Para Sintomas Somáticos: Escala de Sintomas Somáticos do PHQ (PHQ-15), Escala de Whiteley (para hipocondria).
- Avaliação Funcional: Escala de Avaliação da Incapacidade de Sheehan (SDS), para mensurar o impacto nas atividades.
Diagnóstico Diferencial Estruturado:
| Condição | Características Distintivas | Como Distinguir |
|---|---|---|
| Transtornos de Dor Primários (e.g., Fibromialgia, Cefaleia crônica) | A dor é o sintoma central; sintomas depressivos podem ser secundários. Critérios diagnósticos específicos para a síndrome álgica. | A cronologia (dor precedendo o humor deprimido) e o preenchimento de critérios para síndromes de dor específicas. A depressão é uma comorbidade frequente. |
| Transtorno de Sintomas Somáticos (DSM-5) | Foco nos pensamentos, sentimentos e comportamentos excessivos em relação aos sintomas somáticos. | O diagnóstico requer sofrimento/disrupção significativa associada a pensamentos desproporcionais/persistentes sobre a gravidade dos sintomas. Pode coexistir com depressão. |
| Transtorno de Ansiedade de Doença (Hipocondria) | Medo persistente de ter uma doença grave, baseado na interpretação errônea de sensações corporais. A dor é um dos sintomas temidos. | O foco não está na dor em si, mas no medo da doença subjacente que ela supostamente sinaliza. A depressão é comórbida comum. |
| Depressão com Sintomas Psicóticos | Presença de delírios (e.g., de ruína, hipocondríacos) ou alucinações congruentes com o humor. | A dor é parte de um sistema delirante (e.g., "sinto o câncer me consumindo"). A crença é fixa, bizarra e não responde a argumentação. |
| Condição Médica Causadora (e.g., Hipotireoidismo, Lupus, Def. de Vit. B12) | Doenças sistêmicas ou neurológicas que podem causar tanto dor quanto depressão (Dalgalarrondo, 2018, p.623). | Investigação clínica e laboratorial minuciosa. A depressão aqui é classificada como "Devido a outra condição médica". |
| Transtorno de Conversão | Sintomas neurológicos funcionais (e.g., fraqueza, paralisia, crises não epilépticas) sem base orgânica. A dor pode estar presente. | O sintoma principal envolve perda ou alteração da função motora ou sensorial voluntária, muitas vezes com uma qualidade simbólica ou dissociativa. |
Armadilhas Diagnósticas Comuns:
- Descartar a queixa: Rotular a dor como "somente psicológica" sem realizar uma avaliação somática adequada, arriscando-se a perder uma condição médica tratável.
- Superinvestigar: Ordenar repetidamente exames complementares caros e invasivos diante de uma clínica claramente psicogênica, reforçando a fixação do paciente no modelo orgânico e iatrogenizando.
- Ignorar a comorbidade: Não diagnosticar um transtorno depressivo maior subjacente porque a apresentação é predominantemente somática.
- Confrontação precoce e inadequada: Dizer ao paciente "isso é coisa da sua cabeça" no início da avaliação, quebrando a aliança terapêutica e invalidando sua experiência.
Condições associadas
As dores psicogênicas são um fenômeno transdiagnóstico, mas são particularmente proeminentes e clinicamente significativas nas seguintes condições:
- Episódio Depressivo Maior (Unipolar ou Bipolar): Especialmente nos subtipos:
- Depressão com Características Atípicas (DSM-5): Onde sintomas como a "sensação de corpo pesado (paralisia de chumbo)" e a hipersonia são proeminentes (Dalgalarrondo, 2018, p.618).
- Depressão Melancólica: A anedonia e a falta de reatividade podem se expressar somaticamente como uma dor generalizada e imutável.
- Depressão Psicótica: Através de delírios hipocondríacos ou somáticos congruentes com o humor (Dalgalarrondo, 2018, p.619).
- Transtorno Depressivo Persistente (Distimia): A dor crônica pode se entrelaçar com o humor depressivo de baixo grau, tornando-se uma parte central da identidade do paciente.
- Transtorno de Sintomas Somáticos (DSM-5) / Sintomas Somáticos com Perturbação Psicológica Significativa (CID-11): A depressão é uma comorbidade extremamente frequente nestes transtornos.
- Transtornos de Ansiedade: Especialmente Transtorno de Pânico (dor torácica atípica) e Transtorno de Ansiedade Generalizada (tensão muscular e dor difusa). A comorbidade ansiedade-depressão-dor é a regra, não a exceção.
- Transtornos de Personalidade: Especialmente o Transtorno de Personalidade Borderline e o Transtorno de Personalidade Esquiva, onde a dor pode servir como uma forma de expressão de angústia ou de manipulação do ambiente.
Na prática clínica brasileira, é crucial considerar o contexto do Sistema Único de Saúde (SUS). Pacientes com dores psicogênicas frequentemente peregrinam por diversas especialidades (clínica geral, ortopedia, neurologia, gastroenterologia) antes de chegar a um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) ou a um psiquiatra. A fragmentação do cuidado e a dificuldade de acesso a serviços de saúde mental especializada podem cronificar o quadro. Os protocolos da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) para tratamento da depressão ressaltam a importância de avaliar e tratar sintomas somáticos, incluindo a dor.
Implicações terapêuticas
O manejo das dores psicogênicas na depressão exige uma abordagem integrada e simultânea, tratando o transtorno afetivo de base e modulando a percepção da dor.
Abordagem Farmacológica:
A escolha do antidepressivo deve considerar seu perfil analgésico.
- Primeira Linha: Antidepressivos Duais (SNRIs): Venlafaxina, duloxetina e milnaciprano possuem ação noradrenérgica e serotoninérgica, restaurando parcialmente o sistema inibitório descendente da dor. A duloxetina tem indicação formal para dor neuropática periférica e fibromialgia.
- Segunda Linha: Antidepressivos Tricíclicos (TCAs): Amitriptilina e nortriptilina são eficazes para várias síndromes de dor crônica (cefaleia tensional, dor neuropática) em doses geralmente mais baixas do que as necessárias para o efeito antidepressivo. Os efeitos anticolinérgicos e cardíacos limitam seu uso.
- Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (SSRIs): Fluoxetina, sertralina, escitalopram têm eficácia antidepressiva comprovada, mas seu efeito analgésico direto é mais modesto, atuando mais na modulação do afeto e da ansiedade associados à dor.
- Outros Agentes: Bupropiona (ação noradrenérgica-dopaminérgica) pode ser útil em pacientes com fadiga e anedonia proeminentes. Pregabalina e gabapentina, embora não sejam antidepressivos, são moduladores da dor neuropática e ansiolíticos, podendo ser adjuvantes úteis.
- Precaução: O uso de benzodiazepínicos e opioides deve ser extremamente cauteloso e limitado, devido aos altos riscos de dependência, tolerância e hiperalgesia induzida por opioides.
Abordagem Psicoterapêutica:
- Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC): É a psicoterapia com maior evidência. Foca em: 1) Reestruturação cognitiva dos pensamentos catastróficos sobre a dor e a doença; 2) Redução dos comportamentos de doença (evitação, busca excessiva por reafirmação); 3) Treinamento em habilidades de enfrentamento (relaxamento, distração, resolução de problemas); 4) Reativação comportamental gradual para quebrar o ciclo dor-imobilidade-depressão.
- Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT): Ajuda o paciente a aceitar a presença da dor como uma experiência, sem lutar contra ela, e a se comprometer com ações alinhadas aos seus valores, mesmo na presença do desconforto.
- Psicoterapias Dinâmicas Breves: Podem explorar significados inconscientes da dor, sua relação com conflitos emocionais não expressos e padrões relacionais.
Impacto Prognóstico e na Resposta ao Tratamento:
A presença de dor psicogênica é um fator de prognóstico reservado. Está associada a:
- Maior gravidade e cronicidade do episódio depressivo.
- Resposta mais lenta e menos completa aos antidepressivos.
- Maior taxa de recaídas.
- Prejuízo funcional acentuado, com maior absenteísmo e presenteísmo no trabalho.
- Maior utilização de serviços de saúde e custos.
O sucesso terapêutico depende da aderência a um plano integrado (farmacoterapia + psicoterapia) e da construção de uma aliança terapêutica sólida que valide o sofrimento do paciente enquanto o redireciona para um modelo biopsicossocial de compreensão.
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
Vivência do Paciente:
Para o paciente, a dor é uma experiência concreta, intrusiva e invalidante. Frases comuns são: "É uma dor que consome tudo", "Não tenho mais vida por causa disso", "As pessoas acham que estou inventando". Há um sentimento profundo de incompreensão e solidão. A jornada por múltiplos médicos e exames negativos gera frustração, raiva e descrença no sistema de saúde. O paciente pode se sentir culpado ("será que é psicológico mesmo?") ou, ao contrário, radicalizar na busca por um diagnóstico orgânico. A dor afeta a identidade: a pessoa deixa de ser "João" para ser "o paciente com dor crônica".
Orientações para Comunicação Clínica:
- Validar a Experiência: Inicie afirmando a realidade da dor. "Sei que a dor que você sente é muito real e debilitante. Meu objetivo é ajudá-la a entendê-la e manejá-la."
- Explicar o Modelo Integrado: Use linguagem acessível para explicar a conexão cérebro-corpo. "Na depressão, os mesmos sistemas químicos do cérebro que regulam o humor também regulam a forma como sentimos dor. Quando estão desregulados, o humor piora e a sensibilidade à dor aumenta. Não é ‘uma coisa ou outra’, são duas faces da mesma moeda."
- Evitar Conflito Binário: Não entre no debate "é físico ou é psicológico?". Apresente um modelo unificado: "Estamos diante de uma condição médica real, que tem bases no funcionamento do sistema nervoso, e que se manifesta tanto no seu estado de espírito quanto na sensação de dor no corpo."
- Envolver a Família: Educar a família é crucial. Explicar que a dor não é voluntária nem sinal de fraqueza. Encorajar suporte emocional e participação em atividades gradativas, sem superproteção nem cobranças excessivas.
- Estabelecer Metas Realistas: Mudar o foco da "cura" da dor para o "gerenciamento" e a "melhora da funcionalidade". "Vamos trabalhar para que a dor interfira menos nas coisas que são importantes para você."
Impacto Funcional:
O impacto é multidimensional:
- Trabalho: Absenteísmo, redução de produtividade, conflitos, risco de afastamento e demissão.
- Relacionamentos: Isolamento social, irritabilidade, dependência do parceiro/família, prejuízo da vida sexual (libido diminuída).
- Qualidade de Vida: Restrição de atividades de lazer, hobbies e autocuidado. A vida gira em torno da dor e das consultas médicas.
- Autoestima: Sentimentos de inutilidade, culpa e fracasso são exacerbados pela incapacidade funcional.
Perguntas frequentes
1. Se os exames são normais, a dor é psicológica?
Não necessariamente. "Normal" nos exames significa que não encontramos lesões estruturais como fraturas, tumores ou inflamações graves. No entanto, a dor pode ser gerada por uma disfunção no processamento das informações sensoriais pelo sistema nervoso central. É uma condição neurológica funcional, tão real quanto uma enxaqueca, e não um produto da imaginação.
2. Tomar antidepressivo para dor não vai mascarar ainda mais o problema?
Não. Os antidepressivos usados para dor (especialmente os duais e os tricíclicos) atuam corrigindo um desequilíbrio químico cerebral que está na raiz tanto da depressão quanto da amplificação da dor. Eles tratam a causa subjacente comum, não mascaram o sintoma.
3. O paciente está com dor para chamar atenção?
Essa é uma visão simplista e prejudicial. O comportamento de queixa excessiva é parte do transtorno, não uma manipulação consciente. É um sinal de sofrimento e de uma busca desesperada por alívio e validação. A abordagem terapêutica deve acolher esse sofrimento e redirecionar a expressão do mesmo para formas mais adaptativas.
4. A psicoterapia pode aliviar uma dor física?
Sim. A psicoterapia (especialmente a TCC e a ACT) não age sobre a lesão (que não existe), mas sobre os fatores que mantêm e amplificam a experiência dolorosa: os pensamentos catastróficos, a hipervigilância corporal, a evitação de atividades e o estresse. Modificando esses fatores, a percepção da dor pode diminuir significativamente.
5. Dores psicogênicas podem se tornar dores orgânicas com o tempo?
O termo "orgânico" é problemático. O que pode acontecer é a cronificação e a sensibilização central. A dor persistente leva a mudanças plásticas no sistema nervoso, tornando-o mais sensível. Além disso, comportamentos de evitação podem levar a atrofia muscular, contraturas e outras condições secundárias que geram dor por novos mecanismos.
6. Como posso, como familiar, ajudar sem piorar?
Evite frases como "pare de pensar nisso" ou "isso é coisa da sua cabeça". Ofereça suporte emocional: "Deve ser muito difícil. Estou aqui com você". Incentive gentilmente a adesão ao tratamento psiquiátrico/psicológico e a participação em atividades prazerosas e sociais de baixa demanda, sem forçar. Não assuma todas as tarefas da pessoa, pois isso pode reforçar a incapacidade.
7. A dor psicogênica é mais comum em mulheres?
Os dados epidemiológicos mostram uma maior prevalência de síndromes de dor crônica (como fibromialgia) e de depressão em mulheres. Fatores biológicos (hormonais), psicossociais (maior permissividade social para expressão de sintomas somáticos) e de viés diagnóstico podem contribuir para essa diferença.
8. Quando a dor é um delírio e não apenas um sintoma?
Quando há uma convicção inabalável e falsa sobre a natureza da dor ou da doença subjacente, que persiste apesar de evidências claras e contrárias, e que não é culturalmente aceita. Exemplo: acreditar que o intestino está obstruído por vermes de metal, apesar de colonoscopias normais. Isso caracteriza um delírio somático e indica uma depressão psicótica, exigindo tratamento com antipsicóticos além do antidepressivo.
Referências
- Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
- Cheniaux, E. Manual de Psicopatologia. 6ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021.
- Barlow, D.H.; Durand, V.M. Psicopatologia: Uma Abordagem Integrada. Tradução da edição original. São Paulo: Cengage Learning, (data da edição consultada).
- Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria: Ciência do Comportamento e Psiquiatria Clínica. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
- Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Diretrizes para o tratamento da depressão. Disponível em: https://www.abp.org.br. (Acesso baseado em diretrizes consagradas).
- American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fifth Edition, Text Revision (DSM-5-TR). Washington, DC: APA, 2022.
- World Health Organization. International Classification of Diseases, 11th Revision (ICD-11). Genebra: WHO, 2019/2021.
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.