O que é esse grupo de condições?
Imagine que você está dirigindo um carro à noite em uma estrada deserta. De repente, o volante começa a puxar sozinho para a esquerda, como se tivesse vontade própria. Você tenta corrigir, mas a força é mais forte que você. Mesmo sabendo que pode sair da pista ou bater em algo, não consegue evitar que o carro vire. Essa sensação de perder o controle sobre seus próprios movimentos — mesmo quando você sabe que deveria frear — é o que melhor descreve o cerne dos transtornos do controle de impulsos.
Essas condições são agrupadas porque todas compartilham uma característica central: a incapacidade repetida de resistir a um impulso, desejo ou tentação de realizar um ato que, no fundo, a pessoa sabe que vai trazer problemas. Não é uma escolha consciente, nem falta de caráter. É como se o cérebro tivesse um “curto-circuito” entre a parte que avalia consequências (o “freio”) e a parte que busca alívio ou prazer imediato (o “acelerador”). O resultado? Comportamentos que trazem alívio momentâneo, mas prejuízos duradouros — para a própria pessoa, para a família e até para desconhecidos.
No nível cerebral, estudos mostram que essas condições envolvem alterações em circuitos que conectam áreas como o córtex pré-frontal (responsável pelo planejamento e controle) e o sistema de recompensa (que nos faz buscar prazer). É como se o cérebro estivesse “viciado” em liberar dopamina — um neurotransmissor ligado à sensação de prazer — sempre que a pessoa cede ao impulso, reforçando o ciclo. Além disso, há evidências de que pessoas com esses transtornos têm menor atividade em áreas que normalmente inibem comportamentos arriscados.
A faixa etária mais afetada costuma ser o final da infância e o início da vida adulta, com muitos casos começando na adolescência. Alguns transtornos, como o transtorno explosivo intermitente, são mais comuns em homens, enquanto outros, como a cleptomania, aparecem mais em mulheres. A prevalência varia muito: por exemplo, o transtorno do jogo afeta cerca de 1% da população, enquanto a tricotilomania (arrancar cabelos compulsivamente) pode chegar a 3%. O que todos têm em comum é o impacto devastador na vida da pessoa: dívidas, problemas legais, isolamento social, vergonha e, em casos extremos, até suicídio.
Historicamente, esses comportamentos eram vistos como “falta de força de vontade” ou “mau caráter”. No século XIX, por exemplo, a cleptomania era considerada um “distúrbio feminino” ligado à histeria. Foi só no século XX, com o avanço da psiquiatria, que esses padrões começaram a ser entendidos como condições médicas reais, com bases biológicas e psicológicas. Hoje, a CID-11 (Classificação Internacional de Doenças, usada no Brasil) os agrupa sob o nome de transtornos do controle de impulsos, reconhecendo que são problemas de saúde mental legítimos — e não falhas morais.
Quais condições fazem parte deste grupo?
Transtorno Explosivo Intermitente (TEI)
Imagine que você está em um engarrafamento, estressado depois de um dia longo de trabalho. De repente, o motorista ao lado buzina sem motivo. Em uma fração de segundo, você sente uma onda de raiva tão intensa que parece que vai explodir. Você grita, xinga, bate no volante — e depois se arrepende, envergonhado. Agora imagine que isso acontece várias vezes por semana, por motivos banais: alguém esbarra em você na rua, seu filho derruba um copo, seu chefe faz um comentário neutro. Essa é a realidade de quem tem Transtorno Explosivo Intermitente.
O TEI se caracteriza por episódios súbitos de agressividade desproporcional à situação, que podem incluir gritos, quebrar objetos, agressões físicas ou verbais. A pessoa sente uma tensão crescente antes do episódio, seguida de alívio imediato — mas logo vem a culpa e o arrependimento. Diferente de alguém que é “mal-educado” ou “grosso”, quem tem TEI não consegue controlar esses surtos, mesmo sabendo que vão prejudicar sua vida. Estudos sugerem que afeta cerca de 7% da população em algum momento da vida, sendo mais comum em homens jovens.
Cleptomania
Você já viu aqueles vídeos em que alguém rouba um batom ou um chocolate no supermercado, mesmo tendo dinheiro para pagar? Agora imagine que essa pessoa não consegue evitar esse impulso, mesmo sabendo que pode ser presa. Ela não rouba por necessidade, nem por ganho material — na verdade, muitas vezes joga fora ou devolve o que pegou depois. Esse é o padrão da cleptomania: um impulso irresistível de furtar objetos que, na maioria das vezes, não têm valor para a pessoa.
O que diferencia a cleptomania de um furto comum é a tensão antes do ato e o alívio depois, seguido de vergonha. A pessoa pode passar anos escondendo o problema, acumulando objetos roubados em gavetas ou até devolvendo-os anonimamente. Estima-se que afete cerca de 0,6% da população, sendo mais comum em mulheres (três vezes mais que em homens). Muitas vezes, está associada a outros transtornos, como depressão ou transtornos alimentares.
Piromania
Acender fósforos pode ser fascinante para qualquer criança, mas para alguém com piromania, o impulso de provocar incêndios vai muito além da curiosidade. É uma necessidade irresistível de ver chamas, sentir o cheiro de fumaça, observar o caos que um incêndio causa. A pessoa pode passar horas planejando como atear fogo em um terreno baldio, uma lixeira ou até em uma casa — não por vingança ou ganho financeiro, mas pelo prazer e alívio que o ato proporciona.
Diferente de um incendiário criminoso, quem tem piromania não busca lucro ou destruição específica — o que move é a excitação do fogo em si. É um transtorno raro (menos de 1% da população), mas extremamente perigoso, tanto para a pessoa quanto para a sociedade. Muitas vezes, começa na infância ou adolescência e está associado a outros problemas, como transtorno de conduta ou abuso de substâncias.
Tricotilomania (Transtorno de Arrancar Cabelos)
Imagine que você está assistindo TV ou lendo um livro, distraído. Sem perceber, seus dedos começam a puxar um fio de cabelo. Você sente uma leve tensão, arranca o fio — e de repente, sente um alívio imediato. No começo, é só um ou dois fios. Mas com o tempo, você passa a arrancar mechas inteiras, até criar áreas calvas no couro cabeludo, sobrancelhas ou cílios. Você tenta parar, mas não consegue. Essa é a tricotilomania, um transtorno em que a pessoa arranca cabelos ou pelos do próprio corpo de forma compulsiva.
O que diferencia esse comportamento de um “tique” ou mania passageira é a incapacidade de controlar o impulso, mesmo quando causa sofrimento visível (como vergonha de sair de casa ou evitar relacionamentos íntimos). Estima-se que afete entre 1% e 3% da população, sendo mais comum em mulheres. Muitas pessoas escondem o problema usando perucas, maquiagem ou evitando situações em que os outros possam notar.
Transtorno de Escoriação (Skin-Picking)
Você já ficou tão estressado que começou a cutucar uma espinha ou uma casquinha até sangrar? Agora imagine que isso acontece todos os dias, por horas, mesmo quando sua pele já está ferida. Você tenta parar, mas seus dedos parecem ter vida própria, procurando imperfeições para cutucar. Isso é o transtorno de escoriação, em que a pessoa compulsivamente cutuca, espreme ou arranha a própria pele, causando lesões, cicatrizes e até infecções.
Diferente de quem cutuca uma espinha ocasionalmente, quem tem esse transtorno não consegue parar, mesmo quando a pele está em carne viva. A pessoa pode passar horas na frente do espelho, usando unhas, pinças ou até objetos pontiagudos. Estima-se que afete cerca de 1,4% da população, sendo mais comum em mulheres. Muitas vezes, está associado a ansiedade, TOC ou tricotilomania.
Outros Transtornos do Controle de Impulsos (Não Especificados)
Além dos transtornos mais conhecidos, existem outros padrões de comportamento impulsivo que não se encaixam perfeitamente em nenhuma categoria, mas causam sofrimento significativo. Alguns exemplos:
– Oniomania (Compras Compulsivas): Impulso irresistível de comprar coisas, mesmo sem necessidade ou condição financeira. A pessoa pode acumular dívidas, esconder compras ou sentir culpa depois, mas não consegue parar.
– Dependência de Jogos Eletrônicos: Não é só “gostar de jogar”. É quando a pessoa não consegue parar, mesmo quando o jogo prejudica trabalho, estudos ou relacionamentos. Pode levar a noites em claro, isolamento social e até problemas de saúde.
– Comportamentos Sexuais Compulsivos: Não se trata de ter uma libido alta, mas de não conseguir controlar impulsos sexuais, mesmo quando isso traz consequências negativas (como trair um parceiro, gastar dinheiro com prostituição ou se expor a riscos).
Como essas condições se manifestam no dia a dia?
Na infância
Para pais e professores, alguns sinais podem ser confundidos com “birra”, “falta de educação” ou “fase difícil”. Mas quando esses comportamentos são intensos, frequentes e prejudicam a vida da criança, é hora de prestar atenção. Alguns exemplos:
- Transtorno Explosivo Intermitente: A criança tem acessos de raiva desproporcionais — joga objetos, quebra brinquedos, agride colegas ou professores por motivos banais (como não ganhar um jogo). Depois, chora e pede desculpas, mas não consegue evitar os surtos.
- Tricotilomania: A criança arranca cabelos, cílios ou sobrancelhas de forma repetida, criando áreas sem pelos. Pode fazer isso enquanto assiste TV, faz lição de casa ou até dormindo. Muitas vezes, esconde as áreas calvas com bonés ou maquiagem.
- Piromania: A criança mostra fascínio excessivo por fogo, acende fósforos escondido, provoca pequenos incêndios em lixeiras ou brinquedos. Pode até guardar objetos inflamáveis (como álcool ou isqueiros) sem motivo aparente.
- Comportamentos de risco: Rouba pequenos objetos (canetas, doces) sem necessidade, mente compulsivamente ou se envolve em brigas frequentes.
O que diferencia uma “fase” de um transtorno?
– Frequência: Acontece várias vezes por semana (ou até por dia).
– Intensidade: A criança não consegue se acalmar sozinha, mesmo com broncas ou castigos.
– Prejuízo: Afeta a escola, amizades ou vida familiar (ex.: a criança é suspensa por brigas, ou os pais evitam levá-la a lugares públicos por vergonha).
– Culpa: Depois do episódio, a criança se arrepende e promete que não vai acontecer de novo — mas acontece.
Na adolescência
A adolescência já é uma fase de impulsividade natural (por causa das mudanças cerebrais), mas em quem tem um transtorno do controle de impulsos, os comportamentos se tornam extremos e destrutivos. Alguns sinais:
- Transtorno Explosivo Intermitente: O adolescente tem explosões de raiva violentas, quebra objetos em casa, agride pais ou irmãos. Pode até ameaçar se machucar ou machucar os outros. Depois, fica deprimido e isolado.
- Cleptomania: Rouba objetos em lojas, mesmo sem necessidade (ex.: um tênis caro que não vai usar, ou um livro que já tem). Esconde os itens roubados ou até os devolve depois, envergonhado.
- Oniomania (Compras Compulsivas): Gasta todo o dinheiro do mês em roupas, jogos ou eletrônicos, mesmo sabendo que vai faltar para contas básicas. Mente sobre os gastos ou pede dinheiro emprestado frequentemente.
- Dependência de Jogos Eletrônicos: Passa noites em claro jogando, falta à escola, abandona hobbies e amizades. Quando os pais tentam limitar o tempo, reage com agressividade ou choro.
- Comportamentos Sexuais de Risco: Envia fotos íntimas para desconhecidos, faz sexo sem proteção ou se expõe a situações perigosas (como encontros com pessoas da internet).
Como os pais podem ajudar?
– Não minimizar: Frases como “é só uma fase” ou “todo adolescente é assim” podem atrasar o diagnóstico.
– Observar padrões: Se o comportamento acontece sempre em situações específicas (ex.: quando está estressado, entediado ou sozinho), pode ser um sinal de transtorno.
– Buscar ajuda profissional: Um psicólogo ou psiquiatra pode avaliar se é um problema passageiro ou algo que precisa de tratamento.
Na vida adulta
Na vida adulta, os transtornos do controle de impulsos podem destruir relacionamentos, carreiras e finanças. Alguns exemplos de como se manifestam:
- No trabalho:
- Transtorno Explosivo Intermitente: O profissional grita com colegas ou clientes, é demitido por “falta de controle emocional” ou vive em conflito com chefes.
- Cleptomania: Rouba materiais do trabalho (canetas, papel, até dinheiro da caixa) e é pego, perdendo o emprego.
- Oniomania: Gasta o salário em compras desnecessárias e não consegue pagar as contas, acumulando dívidas.
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Dependência de Jogos: Joga durante o expediente, falta a reuniões importantes ou é demitido por baixo desempenho.
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Nos relacionamentos:
- Comportamentos Sexuais Compulsivos: Trai o parceiro repetidamente, mesmo amando a pessoa. Ou gasta dinheiro com prostituição, colocando o relacionamento em risco.
- Transtorno Explosivo Intermitente: Discussões violentas por motivos banais (ex.: parceiro esqueceu de comprar leite) levam a separações.
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Tricotilomania/Transtorno de Escoriação: O parceiro evita intimidade por vergonha das lesões ou áreas sem cabelo.
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Na saúde física e mental:
- Estresse crônico: A pessoa vive em um ciclo de culpa e arrependimento, desenvolvendo ansiedade ou depressão.
- Problemas de pele: Quem tem transtorno de escoriação pode ter infecções recorrentes por cutucar feridas.
- Dívidas e problemas legais: Cleptomania, oniomania ou jogo patológico podem levar a processos judiciais ou falência.
Na família
Os familiares de quem tem um transtorno do controle de impulsos muitas vezes se sentem exaustos, confusos e culpados. Alguns sentimentos comuns:
- “É falta de educação”: Os pais podem achar que o filho é “mimado” ou “mal-criado”, sem entender que é um problema médico.
- “Por que ele não para?”: O parceiro pode se sentir traído ou frustrado, achando que a pessoa “não se esforça o suficiente”.
- “Eu sou um fracasso como pai/mãe”: Pais de crianças com TEI ou cleptomania podem se culpar, achando que falharam na educação.
- Isolamento social: A família evita convidar amigos para casa por vergonha dos comportamentos (ex.: filho que quebra objetos, parceiro que grita).
Como a família pode ajudar?
– Informar-se: Entender que não é “falta de caráter” ajuda a ter mais paciência.
– Evitar confrontos no calor do momento: Em um surto de raiva ou impulso, discutir só piora a situação. Espere a pessoa se acalmar para conversar.
– Buscar apoio: Grupos como o Pro-Amiti (para familiares de pessoas com transtornos mentais) ou terapia familiar podem ser úteis.
– Cuidar de si mesmo: Familiares também precisam de apoio psicológico para lidar com o estresse.
Um lembrete importante:
Ter um ou dois desses comportamentos não significa ter um transtorno. O que diferencia é:
1. Frequência: Acontece várias vezes por semana ou mês.
2. Intensidade: A pessoa não consegue controlar, mesmo querendo.
3. Prejuízo: Afeta trabalho, estudos, relacionamentos ou saúde.
4. Sofrimento: A pessoa se sente culpada, envergonhada ou deprimida depois.
Se você se identificou com vários desses pontos, não é motivo para pânico, mas pode ser um sinal de que é hora de buscar ajuda profissional.
O que pode causar essas condições?
Fatores genéticos: “Não é destino, é tendência”
Imagine que sua família tem histórico de diabetes. Isso não significa que você vai desenvolver a doença, mas que seu corpo tem uma predisposição — ou seja, precisa de menos “gatilhos” (como má alimentação) para que ela apareça. Com os transtornos do controle de impulsos, é parecido.
Estudos com gêmeos mostram que, se um deles tem cleptomania ou TEI, o outro tem 3 a 5 vezes mais chances de desenvolver o mesmo transtorno. Isso sugere que há uma base genética, mas não é uma sentença. É como herdar uma receita de bolo: você pode ter os ingredientes (genes), mas se nunca misturá-los (gatilhos ambientais), o bolo (transtorno) não vai assar.
Alguns genes que podem estar envolvidos:
– Gene do transportador de serotonina (5-HTTLPR): Pessoas com uma variação desse gene têm menos serotonina disponível no cérebro, o que está ligado a impulsividade e agressividade.
– Gene COMT: Afeta a dopamina, um neurotransmissor ligado à recompensa e ao prazer. Variações desse gene podem tornar a pessoa mais propensa a buscar sensações intensas (como jogar, roubar ou provocar incêndios).
Mas atenção: Ter esses genes não significa que você vai desenvolver um transtorno. É como ter uma tendência a engordar — se você se alimentar bem e se exercitar, pode nunca ter problemas de peso.
Fatores neurobiológicos: “O cérebro com curto-circuito”
Nosso cérebro tem um sistema de “freios e aceleradores”. Quando você está prestes a fazer algo arriscado (como atravessar a rua sem olhar), uma área chamada córtex pré-frontal (localizada na testa) aciona o freio: “Espere, pode ser perigoso!”. Já o sistema de recompensa (que envolve áreas como o núcleo accumbens) é o acelerador: “Vai, vai, vai! Isso vai ser divertido!”.
Em pessoas com transtornos do controle de impulsos, esse equilíbrio está desequilibrado. Alguns problemas comuns:
1. Freio fraco: O córtex pré-frontal não consegue inibir impulsos com a mesma eficiência. É como dirigir um carro com freios gastos — você até tenta parar, mas o carro demora a responder.
2. Acelerador hiperativo: O sistema de recompensa libera dopamina em excesso quando a pessoa cede ao impulso (ex.: roubar, jogar, arrancar cabelos). Isso reforça o comportamento, como se o cérebro dissesse: “Isso foi bom, faça de novo!”.
3. Comunicação falha entre áreas: Estudos de neuroimagem mostram que, em pessoas com TEI ou cleptomania, há menos conexão entre o córtex pré-frontal e áreas emocionais, como a amígdala. É como se o cérebro tivesse uma “ligação ruim” entre a parte que pensa e a parte que sente.
Neurotransmissores envolvidos:
– Serotonina: Baixos níveis estão ligados a impulsividade e agressividade. É por isso que alguns antidepressivos (como os ISRS) ajudam nesses transtornos.
– Dopamina: Altos níveis reforçam comportamentos de busca de prazer (como jogar ou roubar). É o mesmo neurotransmissor envolvido em vícios.
– Noradrenalina: Ligada à excitação e resposta ao estresse. Em excesso, pode deixar a pessoa “ligada no 220”, reagindo exageradamente a estímulos.
Fatores ambientais: “A vida como gatilho”
Ninguém nasce com um transtorno do controle de impulsos. Mesmo que haja uma predisposição genética, experiências de vida podem “acender a faísca”. Alguns gatilhos comuns:
- Traumas na infância:
- Abuso físico, sexual ou emocional.
- Negligência (pais ausentes, frios ou superprotetores).
- Bullying ou rejeição social.
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Exemplo: Uma criança que apanhava do pai pode desenvolver TEI na vida adulta, como uma forma de “repetir” a agressividade que sofreu.
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Estresse crônico:
- Problemas financeiros, desemprego, divórcio.
- Ambientes de trabalho tóxicos (chefes abusivos, pressão excessiva).
-
Exemplo: Uma pessoa com predisposição à oniomania pode começar a comprar compulsivamente depois de ser demitida.
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Modelos familiares:
- Pais com transtornos mentais (depressão, alcoolismo, TEI).
- Famílias onde a agressividade ou o descontrole são “normais”.
-
Exemplo: Uma criança que cresce vendo o pai quebrar objetos em acessos de raiva pode aprender que “explodir” é uma forma aceitável de lidar com frustração.
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Exposição precoce a comportamentos de risco:
- Crianças que crescem em ambientes onde roubar, jogar ou usar drogas é comum.
-
Exemplo: Um adolescente cujo pai é jogador compulsivo pode começar a apostar cedo, normalizando o comportamento.
-
Eventos estressantes recentes:
- Morte de um ente querido.
- Doença grave na família.
- Mudança de cidade ou país.
- Exemplo: Uma pessoa com predisposição à tricotilomania pode começar a arrancar cabelos depois de um divórcio.
Fatores da gestação e parto
Alguns estudos sugerem que problemas durante a gravidez ou parto podem aumentar o risco de transtornos do controle de impulsos. Alguns exemplos:
– Tabagismo, álcool ou drogas na gravidez: Podem afetar o desenvolvimento do cérebro do bebê, especialmente áreas ligadas ao controle de impulsos.
– Complicações no parto: Falta de oxigênio (hipóxia) ou parto prematuro podem estar ligados a problemas de regulação emocional.
– Infecções na gravidez: Algumas infecções virais (como rubéola) podem aumentar o risco de transtornos mentais.
Mas atenção: Esses fatores não são causas diretas, mas podem aumentar a vulnerabilidade. Muitas pessoas com esses históricos nunca desenvolvem transtornos.
Interação entre fatores: “A receita do bolo”
Nenhum fator sozinho causa um transtorno do controle de impulsos. É sempre uma combinação de:
– Genética (os ingredientes).
– Ambiente (como você mistura os ingredientes).
– Experiências de vida (o forno que assa o bolo).
Por exemplo:
– Uma pessoa pode ter genes que a tornam mais impulsiva.
– Durante a infância, sofreu bullying e desenvolveu baixa autoestima.
– Na adolescência, começou a jogar para aliviar o estresse.
– Na vida adulta, perdeu o emprego e o jogo se tornou uma compulsão.
É por isso que duas pessoas com a mesma predisposição genética podem ter destinos diferentes: uma desenvolve um transtorno, a outra não.
Mitos comuns
❌ Mito 1: “Transtorno do controle de impulsos é falta de força de vontade.”
✅ Verdade: É um problema médico, como diabetes ou hipertensão. Ninguém escolhe ter TEI ou cleptomania — assim como ninguém escolhe ter uma crise de asma.
❌ Mito 2: “Só acontece em pessoas fracas ou mimadas.”
✅ Verdade: Muitas pessoas com esses transtornos são inteligentes, bem-sucedidas e batalhadoras. O problema não é falta de caráter, mas um desequilíbrio cerebral.
❌ Mito 3: “É só uma fase, vai passar sozinho.”
✅ Verdade: Alguns comportamentos impulsivos na infância ou adolescência podem ser passageiros, mas transtornos do controle de impulsos não desaparecem sem tratamento. Pelo contrário, tendem a piorar com o tempo.
❌ Mito 4: “Se a pessoa quisesse, parava.”
✅ Verdade: Quem tem um desses transtornos quer parar, mas não consegue. É como pedir para alguém com depressão “se animar” — não funciona assim.
❌ Mito 5: “Só acontece em quem teve uma infância ruim.”
✅ Verdade: Muitas pessoas com esses transtornos tiveram infâncias felizes. O que importa é a combinação de fatores (genética + ambiente + experiências de vida).
Como é feito o diagnóstico?
Receber um diagnóstico de transtorno do controle de impulsos pode ser um alívio — afinal, dá um nome ao sofrimento e abre caminho para o tratamento. Mas também pode gerar dúvidas: “Como o médico vai saber?”, “Vai ter exame de sangue?”, “E se for só uma fase?”. Vamos desmistificar o processo.
Não existe exame de sangue ou de imagem
Diferente de uma diabetes (que se diagnostica com exame de glicose) ou uma pneumonia (com raio-X), os transtornos mentais não aparecem em exames laboratoriais. Isso não significa que são “menos reais” — só significa que o diagnóstico é feito de outra forma.
O que os médicos usam:
1. Entrevista clínica: Uma conversa detalhada sobre seus sintomas, histórico de vida e comportamentos.
2. Questionários: Testes padronizados que ajudam a avaliar a gravidade dos sintomas.
3. Observação: Como você se comporta durante a consulta (ex.: se está inquieto, evita contato visual).
4. Relatos de familiares: Às vezes, quem convive com você percebe padrões que você não nota.
Passo a passo da avaliação
- Primeiro contato:
- Você marca uma consulta com um psiquiatra (médico especializado em saúde mental) ou psicólogo clínico (que pode encaminhar para um psiquiatra se necessário).
- No SUS, você pode procurar uma UBS (Unidade Básica de Saúde), onde um clínico geral pode fazer uma avaliação inicial e encaminhar para um CAPS (Centro de Atenção Psicossocial).
-
No particular, você pode buscar um psiquiatra diretamente (verifique se ele tem experiência com transtornos do controle de impulsos).
-
A primeira consulta:
- Duração: Geralmente 40 a 60 minutos.
- O que o médico vai perguntar:
- “Quando esses comportamentos começaram?”
- “Com que frequência eles acontecem?”
- “O que você sente antes, durante e depois?” (ex.: tensão → alívio → culpa).
- “Esses comportamentos já te causaram problemas?” (no trabalho, relacionamentos, finanças).
- “Você já tentou parar? Como foi?”
- “Tem histórico de transtornos mentais na família?”
- “Usa álcool, drogas ou medicamentos?”
-
O que você pode perguntar:
- “O que você acha que está acontecendo?”
- “Quais são as opções de tratamento?”
- “Vai precisar de remédios?”
- “Quanto tempo leva para melhorar?”
-
Exames complementares (quando necessários):
- Exames de sangue: Para descartar outras condições que podem causar impulsividade (ex.: hipertireoidismo, deficiência de vitaminas).
- Eletroencefalograma (EEG): Em casos raros, para descartar epilepsia ou outras condições neurológicas.
- Tomografia ou ressonância: Só se houver suspeita de lesão cerebral (ex.: após um traumatismo craniano).
-
Avaliação neuropsicológica: Testes que medem atenção, memória e controle de impulsos (usados em casos complexos).
-
Critérios diagnósticos:
O médico vai comparar seus sintomas com os critérios da CID-11 (usada no Brasil) ou do DSM-5 (manual americano). Por exemplo, para diagnosticar cleptomania, a pessoa precisa: - Ter impulsos recorrentes de roubar objetos que não são necessários.
- Sentir tensão crescente antes do furto.
- Sentir prazer ou alívio ao roubar.
- Não roubar por raiva, vingança ou necessidade financeira.
-
Os furtos não serem explicados por outro transtorno (ex.: transtorno de conduta).
-
Diagnóstico diferencial:
Às vezes, sintomas de impulsividade podem ser confundidos com outros transtornos. Por exemplo: - TEI vs. Transtorno de Personalidade Borderline: No borderline, a raiva é mais constante e ligada a medo de abandono. No TEI, os surtos são súbitos e sem motivo claro.
- Cleptomania vs. Furto comum: No furto comum, a pessoa rouba por ganho material. Na cleptomania, rouba pelo impulso em si.
-
Tricotilomania vs. TOC: No TOC, a pessoa arranca cabelos por medo de contaminação ou pensamentos intrusivos. Na tricotilomania, é pelo alívio da tensão.
-
Quanto tempo leva?
- Primeira consulta: Pode ser suficiente para um diagnóstico inicial.
- Casos complexos: Podem exigir 2 a 3 consultas, especialmente se houver outros transtornos associados (ex.: depressão + cleptomania).
- Avaliação familiar: Em crianças e adolescentes, os pais são entrevistados separadamente.
O que esperar da primeira consulta?
- Não tenha vergonha: O médico já ouviu histórias parecidas e não vai te julgar.
- Seja honesto: Não minimize seus sintomas. Se você rouba, joga ou tem surtos de raiva, fale abertamente.
- Leve um acompanhante: Um familiar ou amigo pode ajudar a lembrar detalhes importantes.
- Anote suas dúvidas: É normal esquecer o que quer perguntar durante a consulta.
- Não espere um diagnóstico na hora: Às vezes, o médico precisa de mais informações antes de fechar o diagnóstico.
Diagnóstico pelo SUS vs. particular
| SUS | Particular |
|---|---|
| Vantagens: Gratuito, acessível, rede de apoio (CAPS, grupos de terapia). | Vantagens: Agilidade, escolha do profissional, mais tempo de consulta. |
| Desvantagens: Demora para agendar, filas de espera, menos tempo de consulta. | Desvantagens: Custo alto (consultas podem custar R$ 300–800). |
| Como acessar: UBS → encaminhamento para CAPS → avaliação com psiquiatra. | Como acessar: Buscar psiquiatra em clínicas particulares ou planos de saúde. |
| Tempo de espera: Pode levar meses para uma consulta com psiquiatra. | Tempo de espera: Geralmente dias ou semanas. |
Dica: Se você não pode pagar um psiquiatra particular, mas precisa de ajuda urgente, procure um CAPS III (que funciona 24 horas) ou uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) em casos de crise.
Quais são as opções de tratamento?
Descobrir que você ou alguém que ama tem um transtorno do controle de impulsos pode ser assustador. Mas a boa notícia é que essas condições têm tratamento — e quanto antes começar, melhores são os resultados. Não existe uma “cura mágica”, mas uma combinação de medicamentos, terapia, mudanças no estilo de vida e apoio familiar pode ajudar a pessoa a retomar o controle da própria vida.
Medicamentos: “Ajustando os freios do cérebro”
Os remédios não “curam” os transtornos do controle de impulsos, mas ajudam a reequilibrar os neurotransmissores e reduzir os sintomas. É como ajustar os freios de um carro: eles não impedem que você dirija, mas evitam que você perca o controle nas curvas.
Classes de medicamentos mais usadas
- Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRS)
- Para que servem: Aumentam os níveis de serotonina no cérebro, melhorando o controle de impulsos e reduzindo a ansiedade.
- Exemplos: Fluoxetina (Prozac), sertralina (Zoloft), escitalopram (Lexapro).
- Como agem: Imagine que a serotonina é como um “mensageiro da calma” no cérebro. Os ISRS impedem que esse mensageiro seja “reciclado” muito rápido, deixando mais disponível para transmitir a mensagem de “freio”.
- Efeitos colaterais comuns: Náusea, dor de cabeça, sonolência ou insônia, diminuição do desejo sexual.
- Tempo para fazer efeito: 2 a 6 semanas.
-
Usados em: Cleptomania, tricotilomania, transtorno de escoriação, TEI (quando associado a depressão ou ansiedade).
-
Estabilizadores de humor
- Para que servem: Reduzem a impulsividade e a agressividade, especialmente no TEI.
- Exemplos: Lítio, valproato (Depakote), carbamazepina (Tegretol).
- Como agem: Funcionam como um “regulador de voltagem” no cérebro, evitando picos de raiva ou excitação.
- Efeitos colaterais comuns: Ganho de peso, tremores, sonolência, problemas renais ou hepáticos (por isso exigem exames de sangue periódicos).
- Tempo para fazer efeito: 1 a 2 semanas.
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Usados em: TEI, comportamentos agressivos.
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Antipsicóticos atípicos
- Para que servem: Reduzem a impulsividade e a agressividade, especialmente quando outros remédios não funcionam.
- Exemplos: Risperidona (Risperdal), aripiprazol (Abilify), olanzapina (Zyprexa).
- Como agem: Bloqueiam receptores de dopamina (neurotransmissor ligado à recompensa), diminuindo a sensação de “prazer” ao ceder ao impulso.
- Efeitos colaterais comuns: Ganho de peso, sonolência, tremores, aumento do apetite.
- Tempo para fazer efeito: 1 a 2 semanas.
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Usados em: TEI grave, comportamentos agressivos, cleptomania resistente.
-
Naltrexona
- Para que serve: Reduz a sensação de prazer associada a comportamentos impulsivos (como jogar, roubar ou comer compulsivamente).
- Como age: Bloqueia receptores de opioides no cérebro, diminuindo a “recompensa” do impulso.
- Efeitos colaterais comuns: Náusea, dor de cabeça, fadiga.
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Usada em: Oniomania, cleptomania, transtorno do jogo.
-
Outros medicamentos
- Topiramato: Usado em alguns casos de TEI ou comportamentos agressivos. Pode causar sonolência e dificuldade de concentração.
- Bupropiona: Antidepressivo que também ajuda a reduzir impulsos (usado em tricotilomania e tabagismo).
Perguntas comuns sobre medicação
❓ “Vou ficar dependente?”
✅ Não. Os medicamentos usados nesses transtornos não causam dependência, ao contrário de remédios como os benzodiazepínicos (usados para ansiedade). Você pode parar quando o médico achar adequado, sempre com acompanhamento.
❓ “Vou virar um zumbi?”
✅ Não. Os remédios são ajustados para reduzir os sintomas sem tirar sua personalidade. Você vai continuar sendo você — só que com mais controle sobre seus impulsos.
❓ “Quanto tempo vou precisar tomar?”
✅ Depende. Alguns transtornos (como TEI) podem exigir medicação por anos. Outros (como tricotilomania) podem ser tratados por alguns meses e depois suspensos, com acompanhamento.
❓ “E se não funcionar?”
✅ Nem todo remédio funciona para todo mundo. Às vezes, é preciso testar 2 ou 3 opções até encontrar a certa. O importante é não desistir e manter o médico informado sobre os efeitos.
❓ “Posso tomar com álcool?”
✅ Não. Álcool pode anular o efeito dos remédios ou piorar os sintomas. Além disso, muitas pessoas com transtornos do controle de impulsos têm maior risco de desenvolver dependência de álcool.
Psicoterapia: “Reprogramando o cérebro”
Enquanto os medicamentos ajudam a “ajustar a química” do cérebro, a terapia trabalha os padrões de pensamento e comportamento. É como aprender a dirigir um carro com freios ruins: você precisa de técnicas para compensar.
Abordagens com mais evidência
- Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)
- O que é: Uma terapia prática, focada em identificar e mudar pensamentos e comportamentos disfuncionais.
- Como funciona:
- Identificação de gatilhos: O que faz você ter o impulso? Estresse? Tédio? Solidão?
- Técnicas de controle: Aprender a adiar o impulso (ex.: contar até 10 antes de agir) ou substituí-lo por um comportamento saudável (ex.: apertar uma bolinha antiestresse em vez de arrancar cabelos).
- Exposição com prevenção de resposta: Em casos como cleptomania, a pessoa é exposta a situações que despertam o impulso (ex.: ir a uma loja), mas aprende a resistir.
- Reestruturação cognitiva: Mudar pensamentos como “Eu preciso fazer isso agora” para “Eu posso esperar e vai passar”.
- Duração: Geralmente 12 a 20 sessões, mas pode ser mais longa em casos graves.
-
Eficácia: É a terapia com mais evidências para transtornos do controle de impulsos.
-
Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT)
- O que é: Uma abordagem que ensina a aceitar os impulsos sem ceder a eles, focando em valores pessoais.
- Como funciona:
- Mindfulness: Aprender a observar os impulsos sem julgamento (ex.: “Estou sentindo vontade de roubar, mas não preciso agir”).
- Definição de valores: O que é realmente importante para você? Família? Carreira? Saúde? A terapia ajuda a alinhar as ações com esses valores.
- Compromisso com a mudança: Mesmo quando o impulso é forte, você escolhe agir de acordo com seus valores (ex.: “Eu quero ser honesto, então não vou roubar”).
- Duração: Geralmente 10 a 16 sessões.
-
Eficácia: Boa para pessoas que têm muita culpa ou vergonha dos impulsos.
-
Terapia Comportamental Dialética (DBT)
- O que é: Desenvolvida originalmente para borderline, mas útil para TEI e comportamentos impulsivos.
- Como funciona:
- Regulação emocional: Aprender a identificar e lidar com emoções intensas (como raiva ou ansiedade) antes que elas levem a um surto.
- Tolerância ao mal-estar: Técnicas para suportar a frustração sem ceder ao impulso (ex.: segurar gelo nas mãos para aliviar a tensão).
- Habilidades interpessoais: Melhorar a comunicação para evitar conflitos.
- Duração: Geralmente 6 meses a 1 ano.
-
Eficácia: Excelente para TEI e comportamentos autodestrutivos.
-
Terapia de Grupo
- O que é: Sessões com outras pessoas que têm o mesmo transtorno, mediadas por um terapeuta.
- Como funciona:
- Compartilhamento de experiências: Saber que não está sozinho reduz a vergonha.
- Aprendizado com os outros: Ver como outras pessoas lidam com os impulsos pode dar ideias novas.
- Feedback: O grupo pode apontar padrões que você não percebe.
- Duração: Geralmente 12 a 20 sessões.
-
Onde encontrar: CAPS, clínicas particulares, grupos como os Jogadores Anônimos (para transtorno do jogo).
-
Terapia Familiar
- O que é: Sessões com a família para melhorar a comunicação e reduzir conflitos.
- Como funciona:
- Psicoeducação: Ensinar a família sobre o transtorno (ex.: “Seu filho não está fazendo isso para te irritar”).
- Estratégias de manejo: Como reagir a um surto de raiva ou a um episódio de cleptomania sem piorar a situação.
- Melhorar o ambiente: Reduzir estressores que podem desencadear impulsos (ex.: brigas constantes em casa).
- Duração: Geralmente 8 a 12 sessões.
- Eficácia: Fundamental para crianças e adolescentes.
Mudanças no estilo de vida: “Ferramentas para o dia a dia”
Os medicamentos e a terapia são a base do tratamento, mas pequenas mudanças no cotidiano podem fazer uma diferença enorme. Pense nelas como “ferramentas” que você pode usar quando sentir o impulso chegando.
1. Exercício físico: “O antidepressivo natural”
- Por que ajuda: Libera endorfinas (substâncias que melhoram o humor) e reduz o estresse, que é um gatilho comum para impulsos.
- Melhores opções:
- Exercícios aeróbicos: Caminhada, corrida, natação, dança. 30 minutos por dia já fazem diferença.
- Yoga e tai chi: Melhoram a conexão mente-corpo e ensinam técnicas de respiração para controlar a ansiedade.
- Artes marciais: Judô, jiu-jitsu ou boxe ajudam a canalizar a agressividade de forma saudável.
- Dica: Escolha uma atividade que você goste. Se odiar correr, não adianta se forçar — dance, nade ou faça trilhas.
2. Higiene do sono: “O cérebro cansado é mais impulsivo”
- Por que ajuda: A falta de sono aumenta a impulsividade e reduz a capacidade de controlar emoções.
- Como melhorar:
- Rotina: Tente dormir e acordar no mesmo horário todos os dias, mesmo nos fins de semana.
- Ambiente: Quarto escuro, silencioso e fresco. Evite telas (celular, TV) 1 hora antes de dormir.
- Evite estimulantes: Café, refrigerante e álcool à noite podem atrapalhar o sono.
- Dica: Se tiver insônia, tente técnicas de relaxamento (ex.: meditação guiada) ou converse com seu médico sobre suplementos como melatonina.
3. Alimentação: “Você é o que você come”
- Por que ajuda: Alguns alimentos pioram a impulsividade, enquanto outros ajudam a regular o humor.
- Alimentos para evitar:
- Açúcar refinado: Causa picos de glicose, seguidos de queda brusca — o que aumenta a irritabilidade.
- Cafeína em excesso: Pode deixar você mais ansioso e impulsivo.
- Álcool: Reduz o controle inibitório, tornando mais fácil ceder a impulsos.
- Alimentos que ajudam:
- Ômega-3: Peixes (salmão, sardinha), nozes e linhaça. Melhora a função cerebral.
- Triptofano: Banana, ovos, chocolate amargo. Ajuda na produção de serotonina.
- Magnésio: Espinafre, abacate, amêndoas. Reduz a ansiedade.
- Dica: Faça refeições regulares. Ficar muito tempo sem comer pode aumentar a irritabilidade.
4. Técnicas de manejo do estresse
- Respiração diafragmática: Inspire profundamente pelo nariz (enchendo a barriga), segure por 3 segundos e expire lentamente pela boca. Repita 5 vezes.
- Grounding (ancoragem): Quando sentir o impulso chegando, concentre-se nos 5 sentidos:
- 5 coisas que você vê (ex.: uma planta, um quadro, seu sapato).
- 4 coisas que você toca (ex.: o tecido da sua roupa, a textura da mesa).
- 3 coisas que você ouve (ex.: o barulho do ventilador, sua respiração).
- 2 coisas que você cheira (ex.: café, perfume).
- 1 coisa que você saboreia (ex.: um chiclete, um gole d’água).
- Distração: Quando sentir vontade de arrancar cabelos ou roubar, faça algo com as mãos (ex.: desenhar, tricotar, apertar uma bolinha antiestresse).
5. Rede de apoio social
- Por que ajuda: O isolamento aumenta a impulsividade. Ter pessoas com quem contar reduz a sensação de solidão e desespero.
- Como construir:
- Grupos de apoio: Procure grupos como Jogadores Anônimos, Devedores Anônimos (para oniomania) ou Tricotilomania Brasil (para tricotilomania).
- Amigos e família: Converse com pessoas de confiança sobre o que está passando. Peça ajuda quando precisar.
- Atividades em grupo: Cursos, voluntariado ou esportes coletivos ajudam a se sentir parte de algo maior.
Suporte familiar e social: “Ninguém se recupera sozinho”
Se você é familiar de alguém com um transtorno do controle de impulsos, saiba que seu apoio faz toda a diferença. Mas também é importante cuidar de si mesmo — afinal, lidar com esses comportamentos pode ser exaustivo.
Como a família pode ajudar
- Informe-se sobre o transtorno:
- Leia sobre o assunto (este artigo é um bom começo!).
- Participe de grupos de apoio para familiares (ex.: Pro-Amiti).
-
Pergunte ao médico ou terapeuta como você pode ajudar.
-
Evite julgamentos:
- Frases como “Isso é falta de vergonha na cara” ou “Você não tem força de vontade” só pioram a situação.
-
Em vez disso, diga: “Eu sei que é difícil, mas estou aqui para te ajudar”.
-
Estabeleça limites saudáveis:
- Não cubra as consequências dos impulsos (ex.: pagar dívidas de jogo, esconder furtos).
-
Ao mesmo tempo, não abandone a pessoa. O equilíbrio é difícil, mas necessário.
-
Ajude a criar um ambiente seguro:
- Se a pessoa tem TEI, evite discussões acaloradas. Se tem cleptomania, não deixe objetos de valor à vista.
-
Se tem tricotilomania, incentive o uso de luvas ou faça atividades que ocupem as mãos.
-
Incentive o tratamento:
- Ofereça-se para acompanhar nas consultas.
- Lembre a pessoa de tomar os remédios (sem ser invasivo).
-
Celebre as pequenas vitórias (ex.: “Fico feliz que você conseguiu resistir ao impulso hoje”).
-
Cuide de si mesmo:
- Terapia familiar pode ajudar a lidar com o estresse.
- Grupos de apoio para familiares são essenciais.
- Não negligencie sua própria saúde física e mental.
Direitos da pessoa com transtorno mental no Brasil
A Lei 10.216/2001 garante direitos importantes para pessoas com transtornos mentais, incluindo:
– Tratamento humanizado: Sem internações arbitrárias ou tratamentos desnecessários.
– Acesso ao SUS: Todo brasileiro tem direito a tratamento gratuito pelo SUS, incluindo medicamentos e terapia.
– Proteção contra discriminação: É ilegal demitir ou negar emprego por causa de um transtorno mental.
– Internação involuntária: Só pode acontecer em casos extremos, com laudo médico e autorização judicial.
Onde buscar ajuda:
– CAPS (Centro de Atenção Psicossocial): Oferece atendimento gratuito para transtornos mentais.
– CVV (Centro de Valorização da Vida): Apoio emocional pelo telefone 188.
– Jogadores Anônimos: Grupos de apoio para transtorno do jogo (www.jogadoresanonimos.org.br).
– Tricotilomania Brasil: Grupo de apoio para tricotilomania (www.tricotilomania.com.br).
Quando procurar ajuda?
Saber quando e como buscar ajuda pode ser a diferença entre uma vida de sofrimento e uma vida com controle e bem-estar. Muitas pessoas adiam a busca por tratamento por vergonha, medo ou porque acham que “vai passar”. Mas quanto antes você agir, melhores são as chances de recuperação.
Sinais de alerta: “É hora de procurar ajuda”
Preocupante (busque ajuda profissional)
- Você ou alguém próximo não consegue controlar impulsos que causam sofrimento (ex.: surtos de raiva, furtos, arrancar cabelos).
- Os comportamentos estão prejudicando sua vida (ex.: dívidas, problemas no trabalho, brigas constantes).
- Você se arrepende depois de ceder ao impulso, mas não consegue evitar.
- Os impulsos estão aumentando em frequência ou intensidade.
- Você evita situações sociais por vergonha dos comportamentos (ex.: não vai a lojas por medo de roubar, não sai de casa por vergonha de lesões na pele).
Urgente (procure ajuda nas próximas semanas)
- Os comportamentos estão colocando você ou outros em risco (ex.: agressões físicas, incêndios, dívidas que levam a ameaças).
- Você perdeu o emprego, foi preso ou teve problemas legais por causa dos impulsos.
- Os sintomas estão causando depressão ou pensamentos suicidas.
- Você usa álcool ou drogas para tentar controlar os impulsos.
- Familiares ou amigos já expressaram preocupação várias vezes.
Emergência (procure ajuda IMEDIATA)
- Você tem pensamentos de se machucar ou machucar os outros.
- Perdeu o controle e fez algo que colocou sua vida ou a de outros em risco (ex.: provocou um incêndio, agrediu alguém gravemente).
- Está tão deprimido ou desesperado que não vê saída.
- Fez uma tentativa de suicídio ou tem planos concretos para isso.
Como buscar atendimento
Pelo SUS (Sistema Único de Saúde)
- UBS (Unidade Básica de Saúde):
- O primeiro passo é marcar uma consulta com um clínico geral ou médico de família.
- Leve um relato por escrito dos seus sintomas (isso ajuda o médico a entender melhor).
-
O médico pode encaminhar para um CAPS ou psiquiatra.
-
CAPS (Centro de Atenção Psicossocial):
- Existem diferentes tipos de CAPS:
- CAPS I: Para municípios pequenos (até 20 mil habitantes).
- CAPS II: Para municípios médios (20 mil a 70 mil habitantes).
- CAPS III: Funciona 24 horas, para casos graves.
- CAPSi: Para crianças e adolescentes.
- CAPS AD: Para dependência de álcool e drogas.
- No CAPS, você terá acesso a psiquiatra, psicólogo, terapia em grupo e atividades terapêuticas.
-
O atendimento é gratuito e não precisa de encaminhamento (você pode ir diretamente).
-
Hospitais e UPAs (Unidades de Pronto Atendimento):
- Em casos de crise aguda (ex.: surto de raiva, tentativa de suicídio), procure uma UPA ou hospital.
- O SAMU (192) pode ser acionado em emergências.
Dica: Se você não sabe onde fica o CAPS mais próximo, ligue para o Disque Saúde (136) ou acesse o site do Ministério da Saúde.
Pelo particular ou plano de saúde
- Psicólogo:
- Procure um psicólogo clínico (verifique se ele tem experiência com transtornos do controle de impulsos).
- A primeira consulta geralmente é uma avaliação inicial.
-
O psicólogo pode encaminhar para um psiquiatra se achar necessário.
-
Psiquiatra:
- É o profissional que pode prescrever medicamentos.
- Procure um psiquiatra com experiência em transtornos do controle de impulsos.
-
Em algumas cidades, existem clínicas especializadas em impulsividade.
-
Clínicas de saúde mental:
- Algumas clínicas oferecem atendimento multidisciplinar (psiquiatra + psicólogo + terapeuta ocupacional).
- Verifique se o local é credenciado pelo CRM (Conselho Regional de Medicina).
Dica: Se você tem plano de saúde, verifique a cobertura para psiquiatria e psicologia. Alguns planos limitam o número de sessões.
Em casos de emergência
- SAMU (192): Para crises agudas (ex.: surto de raiva, tentativa de suicídio).
- Bombeiros (193): Em casos de incêndios ou agressões.
- CVV (188): Para apoio emocional imediato (atende 24 horas).
- CAPS III: Alguns CAPS funcionam 24 horas e podem atender emergências.
O que fazer enquanto espera pela consulta?
- Anote seus sintomas: Quando os impulsos acontecem? O que você sente antes, durante e depois?
- Evite situações de risco: Se você tem cleptomania, evite lojas. Se tem TEI, evite discussões acaloradas.
- Pratique técnicas de relaxamento: Respiração diafragmática, meditação ou exercícios físicos.
- Converse com alguém de confiança: Não guarde tudo para você. Falar sobre o que está sentindo já alivia.
- Evite álcool e drogas: Eles pioram a impulsividade e podem levar a comportamentos perigosos.
Uma mensagem final
Se você chegou até aqui, é porque se importa — seja consigo mesmo ou com alguém que ama. Isso já é um grande passo. Muitas pessoas com transtornos do controle de impulsos sofrem em silêncio, achando que são “fracas” ou “sem solução”. Mas a verdade é que essas condições têm tratamento, e quanto antes você buscar ajuda, mais rápido poderá retomar o controle da sua vida.
Não espere chegar ao fundo do poço para pedir ajuda. Você merece viver bem, e isso é possível.
Perguntas frequentes
1. “Essas condições têm cura?”
Não existe uma “cura” no sentido de eliminar o transtorno para sempre, mas muitas pessoas conseguem controlar os sintomas completamente com tratamento. É como diabetes: você não “cura”, mas pode viver normalmente com medicação, terapia e mudanças no estilo de vida.
Algumas pessoas conseguem suspender os medicamentos depois de um tempo, enquanto outras precisam mantê-los por anos. O importante é que, com o tratamento certo, os impulsos deixam de controlar sua vida.
2. “É culpa dos pais?”
Não. Os transtornos do controle de impulsos são causados por uma combinação de fatores (genética, ambiente, experiências de vida). Pais podem, sem querer, contribuir para o problema (ex.: sendo muito permissivos ou muito rígidos), mas não são culpados.
O que os pais podem fazer é buscar ajuda profissional e aprender estratégias para lidar com os comportamentos. Culpa não ajuda ninguém — apoio e informação, sim.
3. “Pode piorar com o tempo?”
Sim, se não for tratado. Os transtornos do controle de impulsos tendem a se agravar com o tempo, especialmente se a pessoa:
– Não busca tratamento.
– Usa álcool ou drogas.
– Vive em um ambiente estressante.
– Não tem rede de apoio.
Por outro lado, com tratamento, muitas pessoas melhoram significativamente e conseguem levar uma vida normal.
4. “Meus filhos podem ter também?”
Há um componente genético, então filhos de pessoas com transtornos do controle de impulsos têm maior risco de desenvolvê-los. Mas isso não é uma sentença — muitos fatores ambientais podem proteger a criança (ex.: um ambiente estável, terapia preventiva).
Se você tem um desses transtornos, fique atento a sinais precoces nos seus filhos (ex.: acessos de raiva frequentes, furtos, arrancar cabelos) e busque ajuda profissional se necessário.
5. “Posso fazer algo em casa para ajudar?”
Sim! Além do tratamento profissional, algumas estratégias podem ajudar:
– Identifique gatilhos: O que faz você ter o impulso? Estresse? Tédio? Solidão? Anote em um diário.
– Substitua o comportamento: Se você arranca cabelos, tente apertar uma bolinha antiestresse. Se tem surtos de raiva, saia da situação e respire fundo.
– Pratique mindfulness: Apps como Headspace ou Lojong podem ajudar a controlar a ansiedade.
– Exercite-se: Caminhadas, yoga ou dança ajudam a reduzir a impulsividade.
– Evite álcool e drogas: Eles pioram os sintomas.
6. “E se eu não tiver dinheiro para tratamento?”
O SUS oferece tratamento gratuito para transtornos mentais, incluindo:
– Consultas com psiquiatra e psicólogo.
– Medicamentos (alguns são fornecidos gratuitamente).
– Terapia em grupo e atividades terapêuticas no CAPS.
Se você não sabe por onde começar, procure uma UBS ou ligue para o Disque Saúde (136).
7. “Como convencer alguém a buscar ajuda?”
Muitas pessoas resistem a buscar tratamento por vergonha ou medo. Algumas dicas:
– Escolha o momento certo: Não converse no meio de uma crise. Espere a pessoa se acalmar.
– Use exemplos concretos: “Eu notei que você tem ficado muito triste depois de jogar. Será que não seria bom conversar com alguém?”
– Ofereça apoio: “Eu posso ir com você na consulta, se quiser”.
– Evite julgamentos: Frases como “Você precisa se controlar” só aumentam a resistência.
– Mostre que não está sozinho: “Muitas pessoas passam por isso e melhoram com tratamento”.
Se a pessoa recusar ajuda, respeite o tempo dela, mas não desista. Às vezes, é preciso várias conversas até que ela aceite.
8. “Posso trabalhar normalmente com um desses transtornos?”
Sim, muitas pessoas com transtornos do controle de impulsos trabalham normalmente, especialmente com tratamento. Alguns ajustes podem ajudar:
– Comunique seu médico: Ele pode sugerir adaptações no trabalho (ex.: horários flexíveis, ambiente menos estressante).
– Evite gatilhos: Se você tem cleptomania, evite trabalhar em lojas. Se tem TEI, evite profissões com muito estresse.
– Use técnicas de manejo do estresse: Respiração, pausas durante o dia, exercícios físicos.
– Converse com seu chefe (se possível): Em alguns casos, é possível fazer ajustes no trabalho para reduzir o estresse.
Se o transtorno estiver prejudicando seu desempenho, converse com um médico sobre afastamento temporário (pelo INSS) ou readaptação profissional.
Referências
- Organização Mundial da Saúde. Classificação Internacional de Doenças (CID-11). 2022.
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). 5ª ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023.
- Associação Brasileira de Psiquiatria. Tratado de Psiquiatria da ABP. 2022.
- Ministério da Saúde. Linhas de Cuidado em Saúde Mental. Brasília, 2023.
- Tavares, H. et al. Impulsividade e transtornos do controle do impulso. In: Tratado de Psiquiatria da Associação Brasileira de Psiquiatria. 2022.
- Fontenelle, L. F. Transtornos do controle de impulsos. In: Clínica Psiquiátrica da USP. 2ª ed. Volume 2. Porto Alegre: Artmed, 2014.
Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação profissional. Em caso de sofrimento psíquico, procure um profissional de saúde mental.