Definição e conceito
A síndrome de deleção 1p36 é uma condição genética rara, classificada como um transtorno do neurodesenvolvimento, caracterizada pela perda (deleção) de material genético na região terminal do braço curto do cromossomo 1. A apresentação clínica cardinal inclui microcefalia (cabeça pequena), hipotonia muscular (fraqueza muscular generalizada) e déficit intelectual grave. O termo "demência", neste contexto específico, não se aplica conforme sua definição psicopatológica clássica, que requer um declínio adquirido e progressivo das funções cognitivas após um nível de desenvolvimento normal ou prévio. Conforme Cheniaux (2021), a demência é caracterizada pela "desintegração progressiva do intelecto, memória e personalidade", com prejuízo adquirido tardiamente após o desenvolvimento normal. O diagnóstico diferencial entre demência e retardo mental (ou Deficiência Intelectual, conforme terminologia atual) é fundamentado na história clínica: na demência, o déficit é adquirido; no retardo mental, é precoce e constitucional.
Portanto, na síndrome de 1p36, o comprometimento cognitivo é uma característica primária e constitucional da síndrome, não um processo de declínio progressivo adquirido. O uso do termo "demência" para descrever o estado cognitivo desses indivíduos é, portanto, um equívoco semiológico. A condição correta é uma Deficiência Intelectual (DI) Grave, de origem genética e presente desde os primeiros anos de vida. O fenômeno psicopatológico central é o transtorno do neurodesenvolvimento, com déficits cognitivos e comportamentais que se manifestam na infância e persistem ao longo da vida.
A terminologia técnica correta inclui: Síndrome de Deleção 1p36 (1p36 deletion syndrome), Deficiência Intelectual Grave (Severe Intellectual Disability), Transtorno do Neurodesenvolvimento (Neurodevelopmental Disorder). A microcefalia é tipicamente congênita ou de instalação muito precoce. Dados epidemiológicos precisos são limitados devido à raridade da condição; estima-se que sua prevalência seja de aproximadamente 1 em 5.000 a 10.000 nascimentos, sendo considerada uma das deleções subteloméricas mais comuns.
Apresentação clínica
A apresentação clínica da síndrome de 1p36 é multidimensional, envolvendo domínios somático, cognitivo, comportamental e afetivo. A descrição abaixo é organizada por esses domínios, utilizando como referência o padrão de descrição de síndromes genéticas com DI apresentado por Dalgalarrondo (2018).
Domínio Somático/Fenotípico:
- Microcefalia: Crânio pequeno, uma das características mais consistentes. A microcefalia pode ser evidente no nascimento ou desenvolver-se nos primeiros meses.
- Hipotonia: Fraqueza muscular generalizada, que pode ser grave. A hipotonia contribui para dificuldades na alimentação (com risco de aspiração), infecções respiratórias e um desenvolvimento motor globalmente retardado.
- Características Faciais: Podem incluir face plana ou com características distintivas, como olhos profundos, ponte nasal aplanada, e orelhas de implantação baixa ou malformadas. Não há um padrão único, mas um conjunto de características que podem sugerir a síndrome.
- Outras Anomalias: São comuns anomalias congênitas em outros sistemas: cardiopatias (como defeitos septais), anomalias oculares (estrabismo, catarata), anomalias genitourinárias, e problemas ortopédicos (como pés tortos).
Domínio Cognitivo:
- Deficiência Intelectual Grave: O nível de funcionamento intelectual é tipicamente classificado como grave. Embora os dados técnicos fornecidos não citem especificamente a síndrome de 1p36, a descrição de síndromes com deleções genéticas similares (e.g., Prader-Willi, Angelman) sugere um espectro que pode incluir DI grave. Na síndrome de 1p36, a literatura especializada reporta que a maioria dos indivíduos apresenta DI grave ou profunda, com habilidades de comunicação extremamente limitadas.
- Linguagem: A linguagem expressiva é mínima ou ausente. A maioria dos indivíduos não desenvolve linguagem verbal funcional. A comunicação pode ocorrer através de gestos simples, expressões faciais ou vocalizações não verbais.
- Memória e Aprendizagem: Há uma capacidade muito limitada para aprendizagem de novas informações e habilidades. O desenvolvimento segue um curso extremamente retardado, com platôs prolongados, em contraste com o declínio constante e progressivo visto na demência.
- Funções Executivas: Capacidades como planejamento, sequenciamento e resolução de problemas são inexistentes ou rudimentares.
Domínio Comportamental e Afetivo:
- Problemas de Comportamento: Conforme o padrão observado em outras síndromes genéticas com DI (e.g., "problemas de comportamento tendem a surgir depois dos 4 ou 5 anos" na Síndrome de Angelman), indivíduos com 1p36 podem desenvolver comportamentos desafiantes com a idade. Isso inclui:
- Impulsividade e Irritabilidade: Reações abruptas e dificuldade em tolerar frustração.
- Comportamentos Obstinados e Repetitivos: Podem apresentar comportamentos estereotipados ou ritualizados.
- Automutilação: Comportamentos como bater a cabeça, morder-se ou puxar os cabelos podem ocorrer, especialmente em contextos de comunicação de desconforto ou frustração.
- Traço Afetivo: Nos primeiros anos, muitos crianças com síndromes genéticas complexas tendem a ser descritas como "alegres e afetivas" (como em Angelman). Este traço pode persistir ou modificar-se com o tempo, podendo surgir labilidade emocional ou episódios de irritabilidade.
- Alterações da Alimentação: Embora não seja descrito nos dados técnicos para 1p36, problemas alimentares são comuns. A hipotonia grave pode levar a dificuldades na sucção e deglutição. Não há relatos específicos de hiperfagia ou voracidade como na Síndrome de Prader-Willi.
Exemplos Clínicos Concisos:
- Cognitivo: Um adolescente de 14 anos com síndrome de 1p36 confirmada. Não desenvolveu linguagem verbal. Reconhece familiares próximos e responde ao nome com um olhar. Consegue indicar desejo de beber água apontando para o copo após repetida modelagem. Não consegue seguir comandos sequenciais simples (ex: "pegue o brinquedo e coloque aqui"). Este quadro é estável desde a infância, sem evidência de perda de habilidades anteriormente adquiridas.
- Comportamental: Uma criança de 7 anos, anteriormente descrita como tranquila, começa a apresentar episódios de gritos prolongados e bater a cabeça contra a parede quando uma atividade rotineira (ex: ordem de colocar os sapatos) é interrompida. Não há linguagem para expressar a frustração. Este surgimento de comportamento desafianto após os 4-5 anos segue o padrão descrito para outras síndromes genéticas.
- Somático: Um neonato é identificado com microcefalia congênita, hipotonia grave (necessitando alimentação por sonda), e um defeito cardíaco septal. A suspeita clínica direciona para investigação genética que confirma a deleção 1p36.
Neurobiologia e fisiopatologia
A fisiopatologia da síndrome de 1p36 é diretamente ligada à perda de material genético. A deleção terminal no braço curto do cromossomo 1 (região 1p36) resulta na haploinsuficiência (funcionamento inadequado devido à cópia única) de múltiplos genes críticos para o desenvolvimento cerebral e sistêmico. Não é uma deleção de um único gene, mas uma deleção contígua que pode variar em tamanho entre indivíduos, contribuindo para a heterogeneidade clínica.
Genes Candidatos e Funções: Diversos genes na região 1p36 têm sido implicados:
- SKI: Associado à regulação da via de sinalização TGF-β, crucial para desenvolvimento craniofacial e neuronal.
- PRDM16: Involvido na determinação do destino celular e desenvolvimento craniofacial.
- MMP23B: Relacionado a processos de remodelação tissular.
- GABRD: Gene relacionado ao receptor GABA-A, sugerindo uma possível disfunção no sistema GABAérgico, neurotransmissor fundamental para o equilíbrio excitatório/inibitório no cérebro. Esta pode ser uma base neurobiológica para a alta prevalência de epilepsia na síndrome.
A perda combinada desses genes disrupta múltiplos processos de desenvolvimento: neurogênese, migração neuronal, formação de estruturas craniofaciais e organização de circuitos cerebrais.
Neuroimagem: Embora não especificada nos dados técnicos, estudos de neuroimagem em síndrome de 1p36 frequentemente revelam:
- Microcefalia estrutural: Volume cerebral global reduzido.
- Anomalias da Morfologia Cerebral: Podem incluir malformações do córtex cerebral (como polimicrogria), anomalias da linha média (como hipoplasia do corpo caloso), e ventriculomegalia.
- Padrão de Desorganização: A imagem reflete o desenvolvimento cerebral desorganizado desde a gestação, não um processo degenerativo ou atrofia adquirida como visto nas demências.
Modelo Explanatório: O modelo atual compreende a síndrome como um Erro Inicial do Desenvolvimento Cerebral. A deleção genética causa uma desregulação fundamental nos programas de desenvolvimento neuronal e sistêmico durante a embriogênese e fetal. O resultado é um cérebro estruturalmente diferente e menor, com uma organização cortical e conectividade subcortical deficientes. Isso estabelece, desde o início, uma capacidade cognitiva máxima muito limitada. O funcionamento cognitivo e comportamental que se manifesta na infância é a expressão deste cérebro desenvolvido de forma alternativa, não o resultado de uma degeneração de um cérebro anteriormente normal. Portanto, o modelo fisiopatológico é de malformação e neurodesenvolvimento aberrantes, distinto do modelo de degeneração e declínio que caracteriza as demências.
Avaliação clínica e diagnóstico diferencial
Achados ao Exame do Estado Mental (ESM):
- Aparência e Comportamento Geral: Indivíduo com estatura frequentemente reduzida, microcefalia evidente, hipotonia que pode conferir uma postura "flácida". Comportamento pode variar desde passivo e afetuoso até agitado com estereotipias ou autoagressão.
- Linguagem e Pensamento: Linguagem expressiva ausente ou limitada a vocalizações. Pensamento não pode ser avaliado formalmente devido ao grave déficit intelectual. Não há produção discursiva ou narrativa.
- Atenção e Memória: Atenção muito limitada, facilmente dispersa. Memória para eventos rotineiros ou pessoas pode ser demonstrada por reações comportamentais (ex: sorrir para um cuidador familiar), mas testes formais de memória são impraticáveis.
- Afecto e Humor: O afeto pode ser lábil. Episódios de aparente alegria (risos não contextualizados) podem alternar com irritabilidade ou choro. Não há capacidade para reportar humor subjetivo.
- Insight e Juízo: Insight inexistente. Juízo sobre situações sociais ou perigos é extremamente deficiente, requerendo supervisão constante.
Instrumentos e Escalas de Avaliação Padronizadas:
A avaliação formal do funcionamento intelectual com testes de QI padrão (ex: WISC, WAIS) é geralmente impossível devido à severidade do déficit. A avaliação focará em:
- Escalas de Desenvolvimento: Para crianças, instrumentos como o Teste de Denver II ou Escala Bayley de Desenvolvimento Infantil podem quantificar marcos muito retardados.
- Escalas de Comportamento Adaptativo: Instrumentos como o Vineland Adaptive Behavior Scales são fundamentais. Eles medem habilidades práticas da vida diária (comunicação, habilidades diárias, socialização, habilidades motoras) e fornecem uma medida do nível de Deficiência Intelectual (Leve, Moderada, Grave, Profunda) baseada no funcionamento real, não no QI.
- Escalas de Comportamento: Para problemas comportamentais, escalas como a Escala de Comportamento Aberrante (ABC) ou inventários específicos para populações com DI são utilizados.
Diagnóstico Diferencial Estruturado:
A chave é diferenciar a Deficiência Intelectual constitucional (síndrome de 1p36) de condições que causam declínio cognitivo adquirido (demência).
| Condição | Natureza do Déficit Cognitivo | Curso Temporal | Achados Clínicos Distintivos | Exame/Investigação |
|---|---|---|---|---|
| Síndrome de 1p36 (DI Grave) | Déficit cognitivo constitucional, presente desde a infância. | Estático ou com ganhos muito lentos e limitados. Platôs prolongados. | Microcefalia congênita, hipotonia grave, fenótipo característico, epilepsia comum. | Genético: Confirmação por microarray ou FISH da deleção 1p36. |
| Demência (ex: Alzheimer) | Déficit cognitivo adquirido, após desenvolvimento normal. | Declínio progressivo e gradual, sem platôs prolongados. | Perda de memória episódica recente, desorientação, afasia, apraxia. | Neuroimagem: Atrofia hipocampal e cortical. História: Desenvolvimento normal prévio. |
| Demência em Indivíduo com DI prévia (ex: Alzheimer em Síndrome de Down) | Declínio adicional sobre um déficit cognitivo pré-existente. | Declínio significativo em relação ao nível funcional prévio do indivíduo. | Perda de habilidades adaptativas já conquistadas, nova apatia, mudança comportamental. | Comparação com funcionamento basal conhecido. Neuroimagem para confirmar processo degenerativo. |
| Depressão com Pseudodemência | Déficit cognitivo secundário à depressão. | Reversível com tratamento da depressão. Prejuízo na atenção, lentificação. | Humor depressivo, anedonia, ideação suicida. Cognição fluctuante. | Escalas de depressão. Resposta cognitiva após tratamento antidepressivo. |
| Delirium | Déficit cognitivo global e reversível. | Agudo, fluctuante, frequentemente associado à doença médica. | Confusão, desorientação, alterações do ciclo vigília-sono, possíveis ilusões. | Identificação da causa médica (infecção, metabólica). |
Armadilhas Diagnósticas Comuns:
- Confundir DI Grave com Demência: A maior armadilha é aplicar o rótulo "demência" a um indivíduo com síndrome de 1p36 adulto. O profissional deve rigorosamente avaliar a história de desenvolvimento: o déficit foi sempre presente ou houve um período de funcionamento normal seguido de declínio? Na 1p36, o déficit é lifelong.
- Ignorar Comorbidades Psiquiátricas: Como em outras síndromes (e.g., Down, X Frágil), indivíduos com 1p36 podem desenvolver transtornos psiquiátricos comórbidos (ex: sintomas de TOC, irritabilidade marcada, episódios psicóticos no adulto). Não atribuir todos os comportamentos à DI base.
- Superestimar Ganhos Cognitivos: Expectativas de progressão cognitiva significativa são inadequadas. O plano terapêutico deve focar em estabilidade, qualidade de vida e manejo comportamental, não em "recuperação" cognitiva.
- Não Investigar a Base Genética: Em um indivíduo com DI grave, microcefalia e hipotonia sem causa clara, a investigação genética (microarray cromossômico) é mandatória para confirmar ou excluir síndrome de 1p36 e outras deleções.
Condições associadas
A síndrome de 1p36 é, por si, uma condição médica complexa associada a múltiplas comorbidades. O transtorno psicopatológico primário é a Deficiência Intelectual (DI) Grave, classificada no CID-11 sob o código 6A00.0 Deficiência intelectual grave e no DSM-5-TR como Transtorno do Desenvolvimento Intelectual (Intellectual Developmental Disorder) de severidade grave.
Comorbidades Psiquiátricas e do Neurodesenvolvimento: Conforme o padrão observado em síndromes genéticas similares descritas por Dalgalarrondo (2018), indivíduos com 1p36 têm alto risco para:
- Transtorno do Espectro Autista (TEA): Comportamentos repetitivos, dificuldades de interação social (mesmo dentro das limitações da DI) podem configurar um TEA comórbido.
- Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH): Sintomas de impulsividade, desatenção e hiperatividade podem estar presentes, embora difíceis de diferenciar da impulsividade base da DI.
- Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC): Comportamentos ritualizados e obstinados podem refletir sintomas obsessivo-compulsivos.
- Episódios Psicóticos: Dalgalarrondo menciona que "no adulto, pode ocorrer psicose" em referência à Síndrome de Angelman. Este risco pode se aplicar também à 1p36, especialmente em indivíduos com maior predisposição genética a desregulação neurobiológica.
- Transtornos do Humor: Labilidade afetiva, irritabilidade persistente podem ser características, e episódios depressivos podem ocorrer, embora sua identificação seja complexa sem linguagem verbal.
Comorbidades Médicas/Neurológicas:
- Epilepsia: Extremamente comum, frequentemente com início na infância e pode ser refratária.
- Cardiopatias Congênitas: Defeitos septais ventriculares ou atriais são frequentes.
- Distúrbios da Visão e Audição: Estrabismo, catarata, hipoplasia do nervo óptico; perda auditiva.
- Distúrbios Endocrinológicos e do Crescimento: Baixa estatura, dificuldades alimentares com impacto nutricional.
- Distúrbios do Sono: Padrões de sono fragmentados e irregulares.
Implicações terapêuticas
O manejo da síndrome de 1p36 é multidisciplinar, focando no suporte, prevenção de complicações e tratamento de comorbidades, não na reversão do déficit intelectual central.
Abordagens Farmacológicas: Não há medicamento para "tratar" a deleção genética ou a DI grave. A farmacoterapia é dirigida às comorbidades:
- Epilepsia: Uso de anticonvulsivantes conforme o tipo de crise. O manejo pode ser complexo devido à comorbidade e hipotonia.
- Comportamentos Desafiantes/Autoagressão: Em casos de severa irritabilidade, impulsividade ou automutilação que comprometem a segurança, pode-se considerar:
- Antipsicóticos de segunda geração (ex: risperidona, aripiprazol): Para agitação, irritabilidade e sintomas psicóticos. A risperidona tem evidência para manejo de comportamento em DI.
- Antidepressivos (ex: SSRIs): Para sintomas de ansiedade, compulsividade ou humor depressivo (inferido).
- Agentes sedativos/hipotônicos (ex: clonidina): Para hiperatividade e desregulação emocional.
- Nota: A prescrição deve ser extremamente cautelosa, com monitorização rigorosa de efeitos adversos (sedação excessiva, ganho de peso, efeitos extrapiramidais), especialmente em indivíduos com comunicação limitada.
- Problemas do Sono: Melatonina pode ser considerada para regulação do ciclo.
Abordagens Psicoterapêuticas e de Suporte: A psicoterapia individual tradicional não é aplicável. As intervenções são comportamentais e de suporte:
- Terapia Comportamental: Aplicada principalmente através de cuidadores e educadores. Foco em:
- Análise Comportamental Aplicada (ABA): Para reduzir comportamentos autoagressivos ou disruptivos e aumentar habilidades adaptativas simples.
- Treino de Comunicação: Uso de sistemas alternativos (ex: pictogramas, comunicação gestual básica) para expressar necessidades.
- Estruturação de Ambiente: Rotinas previsíveis, ambientes simplificados e seguros para reduzir ansiedade e comportamentos desafiantes.
- Suporte Familiar: Orientação e psicoterapia de suporte para familiares são cruciais. Foco no manejo do estresse, entendimento da síndrome, planejamento de cuidados de longo prazo e prevenção de burnout.
- Intervenções Educacionais e de Reabilitação: Programas de educação especial intensiva, focada em habilidades de vida prática (alimentação, higiene básica) e comunicação não-verbal. Fisioterapia para hipotonia e terapia ocupacional para adaptações.
Impacto Prognóstico e na Resposta ao Tratamento: O prognóstico geral é de dependência vitalícia para todas as atividades da vida diária. A expectativa de vida pode ser reduzida devido às comorbidades médicas (cardiopatias, epilepsia). A resposta às intervenções comportamentais e farmacológicas para problemas comportamentais é variável, mas geralmente limitada pela severidade do quadro base. O objetivo terapêutico não é a independência, mas a maximização da qualidade de vida, segurança e minimização do sofrimento do indivíduo e da família. No contexto brasileiro, o acesso a essas intervenções multidisciplinares via SUS (Centros de Atenção Psicossocial – CAPS, ambulatórios de genética, neurologia, reabilitação) e a articulação com Associações de Apoio são fundamentais.
Perspectiva do paciente e comunicação clínica
Como o Paciente Vivencia: O indivíduo com síndrome de 1p36 vive em um mundo de experiências sensoriais e emocionais básicas, com capacidade mínima de simbolização, narrativa interna ou planejamento futuro. A vivência é dominada por necessidades físicas imediatas (alimentação, conforto, dor), reações emocionais primárias (alegria, frustração, medo) e a relação com cuidadores familiares. A falta de linguagem verbal cria um estado de dependência total para a comunicação de necessidades e desconfortos, que muitas vezes se expressa através de comportamento (choro, agitação, autoagressão). A experiência de "demência" (perda de si mesmo) não existe, pois o self nunca se desenvolveu em um nível complexo.
Comunicação com a Família: A comunicação clínica com familiares é um dos aspectos mais críticos do manejo.
- Clareza sobre o Diagnóstico e Prognóstico: Explicar que a condição é uma malformação cerebral genética congênita, não uma doença degenerativa como Alzheimer. Usar termos precisos: "deficiência intelectual grave de origem genética". Evitar o termo "demência".
- Expectativas Realistas: Esclarecer que o desenvolvimento cognitivo será extremamente limitado. O foco dos cuidados será em saúde física, segurança, bem-estar emocional básico e qualidade de vida, não em progressos educacionais significativos.
- Manejo de Comportamentos: Educar a família que comportamentos desafiantes (autoagressão, gritos) são frequentemente a única forma de comunicação disponível. Treinar estratégias de prevenção (rotinas, ambiente seguro) e resposta não-punitiva.
- Planejamento de Longo Prazo: Discutir necessidades de cuidado permanente, suporte legal (curatela), acesso a serviços de reabilitação e suporte social (benefícios).
- Suporte Emocional à Família: Validar o enorme desafio e estresse. Direcionar a família a grupos de apoio, psicoterapia de suporte e serviços do CAPS para famílias.
Impacto Funcional: O impacto funcional é total e permanente.
- Trabalho/Atividade Produtiva: Independência laboral é impossível. Atividades ocupacionais podem ser muito simples e supervisionadas.
- Relacionamentos: Relacionamentos são quase exclusivamente com cuidadores familiares e profissionais. A socialização com pares é muito limitada.
- Qualidade de Vida: A qualidade de vida depende diretamente da qualidade dos cuidados: ambiente seguro, cuidado médico adequado das comorbidades, manejo eficaz de comportamentos disruptivos, e uma rede de suporte familiar e social robusta.
Perguntas frequentes
1. A síndrome de 1p36 é uma forma de demência?
Não. Demência é um declínio adquirido e progressivo das funções cognitivas após um desenvolvimento normal. A síndrome de 1p36 é um transtorno do neurodesenvolvimento onde o déficit intelectual grave é constitucional, presente desde a infância. O cérebro se desenvolve de forma diferente desde o início, não degenera de um estado anterior normal.
2. Meu filho com 1p36 vai aprender a falar?
A maioria dos indivíduos com síndrome de 1p36 não desenvolve linguagem verbal funcional. A comunicação será principalmente não-verbal (gestos, expressões, uso possível de pictogramas). As intervenções devem focar em desenvolver esses sistemas alternativos de comunicação.
3. O comportamento autoagressivo é comum? Como manejar?
É relativamente comum, especialmente quando a criança cresce e a frustração aumenta sem capacidade de comunicação verbal. O manejo inclui: 1) Identificar e evitar triggers (situações que precipitam o comportamento); 2) Oferecer alternativas de comunicação para expressar necessidade/desconforto; 3) Garantir ambiente seguro (proteger de lesões graves); 4) Em casos severos, avaliação médica para possível uso de medicação para reduzir impulsividade/irritabilidade.
4. Há risco de desenvolver psicose ou depressão na adolescência/adultez?
Conforme observado em outras síndromes genéticas com DI grave, há risco aumentado para episódios psicóticos e alterações do humor. Sinais podem incluir mudança abrupta no padrão comportamental, aumento de agitação, aparência de "alucinações" (fixar o olhar em nada, reagir a estímulos não presentes), ou retraimento e apatia marcada. Qualquer mudança súbita deve motivar avaliação psiquiátrica.
5. Qual é a expectativa de vida?
A expectativa de vida pode ser reduzida devido às comorbidades, especialmente cardiopatias congênitas e epilepsia refratária. Com cuidados médicos adequados e prevenção de complicações (ex: aspiração por hipotonia), muitos indivíduos podem atingir a adultez.
6. Existe tratamento específico ou cura?
Não há cura ou tratamento que reverta a deleção genética. O tratamento é de suporte: manejo das comorbidades médicas (cardiologia, neurologia), intervenções para desenvolvimento máximo das habilidades adaptativas (educação especial, terapia ocupacional), e tratamento de problemas psiquiátricos e comportamentais comórbidos.
7. Como o SUS pode ajudar?
O SUS oferece: diagnóstico genético via ambulatórios especializados; acompanhamento médico (neurologia, cardiologia) em ambulatórios; reabilitação (fisioterapia, terapia ocupacional) em centros de reabilitação; suporte psiquiátrico e psicológico para o indivíduo e família nos CAPS; e acesso a benefícios sociais. A articulação entre esses serviços é fundamental.
8. O que significa "deleção terminal"?
Significa que a porção perdida do material genético está no final (terminal) do braço curto do cromossomo 1. É uma deleção contígua, podendo variar em tamanho, o que explica por que alguns indivíduos têm características mais severas que outros. O diagnóstico é confirmado por teste genético específico (como microarray cromossômico).
Referências
- Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
- Cheniaux, E. Manual de Psicopatologia. 6ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021.
- Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5-TR. 5ª ed. texto revisado. Porto Alegre: Artmed, 2022.
- Organização Mundial da Saúde. CID-11 – Classificação Internacional de Doenças. 2022.
- Battaglia, A., et al. "The 1p36 deletion syndrome: A newly emerging clinical entity." Brain & Development. 2008.
- Gajecka, M., et al. "Genetics of 1p36 deletion syndrome." Current Genomics. 2007.
Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.