O que é?
Imagine que, de repente, você está em um lugar conhecido, mas não reconhece nada ao redor. As pessoas falam com você, mas suas vozes parecem vir de longe, como se estivessem atrás de um vidro grosso. Você tenta se mover, mas seu corpo não responde como deveria. Ou então, sente que algo — ou alguém — tomou conta de você, como se você fosse um passageiro no próprio corpo. Essas experiências, que podem durar minutos ou horas, são características do transtorno de transe.
O transtorno de transe é um tipo de transtorno dissociativo, um grupo de condições em que a mente parece “se desligar” ou “se dividir” de alguma forma. No caso do transe, a pessoa entra em um estado alterado de consciência, como se estivesse em um sonho acordado, mas sem controle sobre o que está acontecendo. É diferente de um devaneio comum, onde você pode “voltar” quando quiser. Aqui, a pessoa pode não se lembrar do que aconteceu durante o episódio ou sentir que algo — ou alguém — assumiu o controle.
Esse transtorno não é a mesma coisa que práticas culturais ou religiosas, como incorporações em religiões de matriz africana ou estados de transe em rituais indígenas. Nessas situações, o transe faz parte de uma tradição aceita e não causa sofrimento ou problemas na vida da pessoa. No transtorno de transe, porém, os episódios acontecem fora de contexto, sem relação com práticas culturais, e trazem angústia, confusão ou prejuízos no trabalho, nos relacionamentos ou na saúde.
Pouco se sabe sobre quantas pessoas têm esse transtorno no Brasil ou no mundo, porque ele é raro e muitas vezes confundido com outras condições, como epilepsia ou transtornos psicóticos. Estudos sugerem que os transtornos dissociativos como um todo afetam cerca de 1 a 3% da população geral, mas o transtorno de transe específico é ainda menos comum. Mulheres parecem ser mais afetadas do que homens, possivelmente porque estão mais expostas a traumas, como abuso sexual ou violência doméstica, que são fatores de risco para dissociação.
Historicamente, estados de transe foram interpretados de várias formas. Em algumas culturas antigas, eram vistos como possessões divinas ou demoníacas. Na Europa medieval, mulheres que entravam em transe eram muitas vezes acusadas de bruxaria. Foi só no século XIX que médicos começaram a estudar esses fenômenos como condições médicas, e não como algo sobrenatural. Hoje, sabemos que o transtorno de transe está ligado a traumas, estresse extremo ou até mesmo a predisposições genéticas, mas ainda há muito o que descobrir.
Quais são os sintomas?
O transtorno de transe se manifesta de formas que podem parecer assustadoras ou confusas, tanto para quem passa por isso quanto para quem está ao redor. Para entender melhor, vamos traduzir os critérios diagnósticos do CID-11 e do DSM-5 para uma linguagem do dia a dia, com exemplos concretos.
1. Estado de transe involuntário e recorrente
O que é?
A pessoa entra em um estado alterado de consciência sem querer e repetidamente. É como se ela “desligasse” por um tempo, mas não está dormindo. Durante esse estado, ela pode agir de forma estranha, falar coisas sem sentido ou não responder quando chamada.
Exemplos do dia a dia:
– No trabalho: Você está em uma reunião e, de repente, percebe que “acordou” sem saber o que aconteceu nos últimos 10 minutos. Seus colegas dizem que você ficou olhando para o nada, balançando o corpo levemente, mas não respondeu quando chamaram seu nome.
– Em casa: Sua mãe está cozinhando e, de repente, para o que está fazendo, fica com o olhar fixo e começa a murmurar palavras que não fazem sentido. Quando você pergunta o que está acontecendo, ela não responde e parece não te reconhecer por alguns segundos.
– Na rua: Você está caminhando para o ponto de ônibus e, de repente, se vê em um lugar diferente, sem lembrar como chegou lá. As pessoas ao redor olham para você com preocupação, e alguém pergunta se você está bem, mas você não sabe o que responder.
Normal vs. sintomático:
Todo mundo já teve momentos de “desligar” — por exemplo, quando está dirigindo e percebe que não lembra dos últimos quilômetros. Isso é normal e acontece porque o cérebro automatiza tarefas rotineiras. No transtorno de transe, porém, os episódios são mais intensos, frequentes e fora de controle. A pessoa não consegue “voltar” quando quer, e isso interfere na vida dela.
2. Perda parcial ou total da identidade pessoal
O que é?
Durante o transe, a pessoa pode sentir que não é ela mesma. Às vezes, ela age como se fosse outra pessoa, com gestos, voz ou personalidade diferentes. Em alguns casos, ela pode até acreditar que está possuída por um espírito ou entidade.
Exemplos do dia a dia:
– No consultório médico: Uma paciente começa a falar com uma voz infantil e diz que seu nome é “Mariazinha”, uma criança que ela não conhece. Quando o médico pergunta sua idade, ela responde “7 anos” e começa a chorar, dizendo que está com medo do escuro.
– Em uma festa: Seu amigo, que é tímido, de repente começa a dançar de forma exagerada, falando alto e chamando a atenção de todos. Quando alguém pergunta o que está acontecendo, ele diz que “não é ele” e que “alguém entrou no corpo dele”.
– Em casa: Sua irmã, que normalmente é calma, começa a gritar e quebrar objetos, dizendo que “o demônio está nela”. Quando você tenta acalmá-la, ela não te reconhece e diz que você é “um inimigo”.
Normal vs. sintomático:
É comum as pessoas mudarem de humor ou comportamento em situações diferentes — por exemplo, ficar mais sério no trabalho e mais descontraído com os amigos. No transtorno de transe, porém, a mudança é repentina, intensa e fora de contexto. A pessoa pode não se lembrar do que fez durante o episódio ou sentir que “alguém tomou conta” dela.
3. Amnésia durante ou após o episódio
O que é?
A pessoa não se lembra do que aconteceu durante o transe. Às vezes, ela até se lembra de partes, mas não do todo. Em outros casos, ela pode ter “brancos” na memória que duram horas ou até dias.
Exemplos do dia a dia:
– No trabalho: Você acorda de manhã e percebe que está com roupas diferentes das que usou no dia anterior. Seu colega de quarto diz que você chegou em casa tarde, falando coisas sem sentido, mas você não se lembra de nada.
– Na escola: Uma aluna falta a uma prova importante e, quando questionada, diz que não se lembra de ter faltado. Seus amigos contam que ela ficou “estranha” durante a aula, falando sozinha e depois saindo da sala sem explicação.
– Em um relacionamento: Seu parceiro some por algumas horas e, quando volta, não sabe explicar onde esteve. Ele diz que “perdeu a noção do tempo” e que não se lembra de nada.
Normal vs. sintomático:
Esquecer onde deixou as chaves ou o que comeu no café da manhã é normal. No transtorno de transe, a amnésia é mais profunda e está ligada aos episódios de transe. A pessoa pode não se lembrar de conversas importantes, compromissos ou até mesmo de ter feito coisas que não faria normalmente.
4. Sofrimento ou prejuízo na vida
O que é?
Os episódios de transe causam problemas na vida da pessoa. Ela pode se sentir envergonhada, ansiosa ou deprimida por causa deles. Também pode ter dificuldades no trabalho, nos estudos ou nos relacionamentos.
Exemplos do dia a dia:
– No trabalho: Você é demitido porque seus colegas e chefes não confiam mais em você depois de vários episódios em que “desligou” durante reuniões importantes.
– Na escola: Você é reprovado em uma matéria porque faltou a várias aulas durante episódios de transe e não conseguiu recuperar o conteúdo.
– Nos relacionamentos: Seu parceiro ameaça terminar o relacionamento porque não aguenta mais os episódios em que você “some” ou age de forma estranha, sem explicação.
Normal vs. sintomático:
Todo mundo tem dias ruins, mas no transtorno de transe os episódios interferem de forma significativa na vida da pessoa. Ela pode evitar situações sociais por medo de ter um episódio em público ou se sentir tão envergonhada que para de sair de casa.
5. Não é parte de uma prática cultural ou religiosa
O que é?
Os episódios de transe não acontecem durante rituais religiosos ou culturais em que esse tipo de experiência é esperado e aceito. Por exemplo, em algumas religiões de matriz africana, como o Candomblé ou a Umbanda, é comum que médiuns entrem em transe para incorporar entidades. Isso não é considerado um transtorno, porque faz parte da prática religiosa e não causa sofrimento.
Exemplos do dia a dia:
– Em um terreiro de Umbanda: Uma médium entra em transe durante uma gira e incorpora um espírito. Ela age de forma diferente, mas depois se lembra do que aconteceu e não sente angústia. Isso não é transtorno de transe.
– Em uma igreja evangélica: Um fiel começa a falar em línguas durante um culto. Ele acredita que está sendo “tocado pelo Espírito Santo” e não sente sofrimento. Isso não é transtorno de transe.
– No dia a dia: Uma pessoa que não segue nenhuma religião começa a ter episódios de transe em casa, no trabalho ou na rua, sem contexto. Ela não sabe o que está acontecendo e se sente assustada. Isso pode ser transtorno de transe.
Ter alguns sintomas não significa ter o diagnóstico
É importante lembrar que ter um ou dois sintomas isolados não significa que a pessoa tem transtorno de transe. Por exemplo:
– Todo mundo já teve um “branco” na memória ou se sentiu “desligado” em algum momento.
– Algumas pessoas têm mudanças de humor ou comportamento sem que isso seja um transtorno.
– Episódios de transe em contextos religiosos não são considerados patológicos.
O que define o transtorno é a combinação de sintomas, a intensidade, a frequência e, principalmente, o sofrimento ou prejuízo que eles causam na vida da pessoa. Se você ou alguém que você conhece está passando por algo parecido, o ideal é procurar um profissional de saúde mental para uma avaliação.
Como se manifesta no dia a dia?
O transtorno de transe não afeta só a mente — ele transforma a rotina, os relacionamentos e até a forma como a pessoa se vê. Vamos entender como isso acontece em diferentes áreas da vida.
No trabalho ou na escola
Imagine que você está em uma reunião importante e, de repente, “desliga”. Quando “volta”, seus colegas estão olhando para você com preocupação, e seu chefe pergunta se você está bem. Você não sabe o que responder, porque não se lembra do que aconteceu. Situações como essa podem se repetir várias vezes, fazendo com que as pessoas ao seu redor comecem a duvidar da sua capacidade.
Exemplos concretos:
– Falta de concentração: Você está lendo um relatório no trabalho, mas sua mente “viaja” e, quando percebe, já se passaram 20 minutos sem que você tenha absorvido nada. Seus colegas notam que você fica “ausente” com frequência.
– Erros repetidos: Você é caixa em um supermercado e, durante um episódio de transe, registra os produtos errados ou dá troco incorreto. Seu supervisor começa a questionar sua competência.
– Faltas e atrasos: Você acorda de manhã e percebe que já perdeu a primeira aula da faculdade. Quando pergunta para sua mãe, ela diz que você saiu de casa, mas voltou logo depois, dizendo que “não era a hora”. Você não se lembra de nada.
– Conflitos com colegas: Durante um episódio, você fala coisas sem sentido ou age de forma agressiva. Seus colegas começam a evitar você, e você se sente isolado.
Impacto a longo prazo:
– Demissões ou reprovações: A repetição dos episódios pode levar a demissões no trabalho ou reprovações na escola, mesmo que você seja competente.
– Perda de oportunidades: Você pode deixar de ser promovido ou de participar de projetos importantes por causa da desconfiança dos outros.
– Estresse e ansiedade: O medo de ter um episódio em público pode fazer com que você evite situações sociais ou profissionais, piorando ainda mais sua qualidade de vida.
Nos relacionamentos
Os episódios de transe podem confundir e magoar as pessoas ao redor, especialmente familiares e parceiros. Imagine que seu marido ou esposa some por algumas horas e, quando volta, não sabe explicar onde esteve. Ou que sua mãe, de repente, começa a falar com uma voz infantil e diz que não é ela. Essas situações geram medo, desconfiança e, muitas vezes, brigas.
Exemplos concretos:
– Desconfiança: Seu parceiro começa a questionar se você está mentindo quando diz que não se lembra de algo. Ele acha que você está escondendo algo ou traindo.
– Isolamento: Seus amigos param de te convidar para sair porque, nas últimas vezes, você “desligou” no meio da conversa ou agiu de forma estranha.
– Brigas familiares: Sua mãe grita com você porque, durante um episódio, você quebrou um vaso e não se lembra. Ela acha que você está fazendo de propósito.
– Dependência: Sua família começa a te tratar como uma criança, porque durante os episódios você age de forma infantil ou não consegue tomar decisões.
Impacto a longo prazo:
– Termino de relacionamentos: Parceiros podem não aguentar a incerteza e o estresse causados pelos episódios e decidir terminar a relação.
– Distanciamento dos filhos: Se você é pai ou mãe, seus filhos podem ficar confusos e assustados com seus episódios, evitando ficar perto de você.
– Culpa e vergonha: Você pode se sentir culpado por “prejudicar” as pessoas que ama e evitar contar o que está acontecendo, piorando ainda mais a situação.
Na rotina diária
Coisas simples, como tomar banho, comer ou sair de casa, podem se tornar desafiadoras quando se tem transtorno de transe. A pessoa pode se sentir perdida, cansada ou com medo de fazer atividades cotidianas.
Exemplos concretos:
– Sono: Você acorda várias vezes durante a noite porque tem pesadelos ou episódios de transe. De manhã, se sente exausto, como se não tivesse dormido.
– Alimentação: Durante um episódio, você pode esquecer de comer ou, ao contrário, comer demais sem perceber. Isso pode levar a problemas de peso ou desnutrição.
– Autocuidado: Você deixa de tomar banho ou escovar os dentes porque, durante os episódios, não consegue se concentrar nessas tarefas.
– Lazer: Você para de fazer atividades que gosta, como ler ou assistir a filmes, porque não consegue se concentrar ou tem medo de ter um episódio em público.
Impacto a longo prazo:
– Problemas de saúde: A falta de sono e a má alimentação podem levar a problemas como anemia, obesidade ou doenças cardíacas.
– Depressão: O isolamento e a perda de prazer nas atividades cotidianas podem levar à depressão.
– Dependência: Você pode passar a depender de outras pessoas para tarefas simples, como ir ao mercado ou pagar contas.
Na saúde física
O transtorno de transe não afeta só a mente — ele também pode se manifestar no corpo. Durante os episódios, a pessoa pode ter sintomas físicos que confundem até mesmo os médicos.
Exemplos concretos:
– Dores de cabeça: Você sente dores de cabeça fortes depois dos episódios, como se tivesse levado uma pancada.
– Tremores: Suas mãos tremem ou seu corpo todo treme durante ou depois de um episódio.
– Convulsões: Em alguns casos, a pessoa pode ter movimentos involuntários que parecem convulsões, mas não são causados por epilepsia.
– Dor crônica: Você pode desenvolver dores no corpo que não têm causa física aparente, como fibromialgia.
Impacto a longo prazo:
– Exames desnecessários: Você pode passar por vários exames, como ressonâncias e eletroencefalogramas, sem que os médicos encontrem nada de errado.
– Diagnósticos errados: Você pode ser diagnosticado com epilepsia, enxaqueca ou outras condições neurológicas, mas os remédios não funcionam porque o problema é dissociativo.
– Fragilidade física: A falta de sono, a má alimentação e o estresse constante podem enfraquecer seu sistema imunológico, deixando você mais propenso a gripes e infecções.
O que causa essa condição?
Entender as causas do transtorno de transe é como montar um quebra-cabeça: não existe uma única peça responsável, mas sim uma combinação de fatores que, juntos, podem levar ao desenvolvimento da condição. Vamos explorar cada um deles de forma simples e clara.
Fatores genéticos: “A herança invisível”
Imagine que seu cérebro é como um computador. Alguns computadores vêm de fábrica com uma predisposição a dar problemas em determinadas situações — por exemplo, superaquecer quando estão rodando muitos programas ao mesmo tempo. No caso do transtorno de transe, algumas pessoas nascem com uma tendência genética a dissociar (ou seja, “desligar”) quando passam por situações de estresse extremo.
Como isso funciona na prática?
– Se seus pais ou avós tiveram transtornos dissociativos, transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) ou até mesmo depressão grave, você pode ter uma maior chance de desenvolver transtorno de transe.
– Isso não significa que você vai ter a condição, mas que seu cérebro pode reagir de forma mais intensa a traumas ou estresse.
– Estudos com gêmeos mostram que, se um gêmeo idêntico tem um transtorno dissociativo, o outro tem mais chances de desenvolver algo parecido do que se fossem gêmeos não idênticos. Isso sugere que os genes têm um papel importante.
Analogia:
Pense nos genes como um manual de instruções do seu cérebro. Em algumas pessoas, esse manual tem uma “falha de impressão” que faz com que, em situações de perigo ou estresse, o cérebro “trave” e entre em modo de transe, como um mecanismo de defesa.
Fatores neurobiológicos: “O curto-circuito no cérebro”
Nosso cérebro é uma rede complexa de comunicação, onde bilhões de neurônios “conversam” entre si o tempo todo. No transtorno de transe, essa comunicação não funciona como deveria em algumas áreas específicas.
O que acontece no cérebro?
1. Amígdala em alerta máximo:
– A amígdala é uma parte do cérebro responsável por detectar perigos e ativar o medo. Em pessoas com transtorno de transe, ela pode estar hiperativa, como um alarme que dispara sem motivo.
– Isso faz com que o cérebro interprete situações normais como ameaças, levando a episódios de transe.
- Córtex pré-frontal “desligado”:
- O córtex pré-frontal é a parte do cérebro que nos ajuda a tomar decisões, controlar impulsos e manter a atenção. Durante um episódio de transe, essa área pode ficar menos ativa, como se alguém tivesse desligado o “modo racional”.
-
É por isso que, durante os episódios, a pessoa pode agir de forma impulsiva, não se lembrar do que fez ou ter dificuldade para voltar ao normal.
-
Memória fragmentada:
- O hipocampo, responsável por armazenar memórias, pode funcionar de forma diferente em pessoas com transtorno de transe. Em vez de guardar as lembranças de forma organizada, ele as “quebra” em pedaços, como um quebra-cabeça sem a imagem de referência.
- Isso explica por que a pessoa pode não se lembrar do que aconteceu durante um episódio ou ter “brancos” na memória.
Analogia:
Imagine que seu cérebro é como uma orquestra. Em uma pessoa sem transtorno de transe, todos os instrumentos tocam em harmonia. No transtorno de transe, alguns instrumentos (como a amígdala) tocam alto demais, enquanto outros (como o córtex pré-frontal) ficam em silêncio. O resultado é uma música confusa, que não faz sentido.
Fatores ambientais: “As cicatrizes invisíveis”
Traumas e estresse extremo são os principais gatilhos para o transtorno de transe. Quando uma pessoa passa por situações muito dolorosas ou assustadoras, o cérebro pode “desligar” como uma forma de se proteger. Com o tempo, esse mecanismo de defesa pode se tornar um problema.
Quais situações podem desencadear o transtorno?
1. Abuso na infância:
– Crianças que sofrem abuso físico, sexual ou emocional têm um risco muito maior de desenvolver transtornos dissociativos, incluindo o transtorno de transe.
– Isso acontece porque, para uma criança, o abuso é tão avassalador que o cérebro “desliga” como uma forma de sobreviver. Com o tempo, esse “desligamento” pode se tornar um padrão.
- Violência doméstica:
- Mulheres que sofrem violência do parceiro têm mais chances de desenvolver transtorno de transe, especialmente se a violência é repetida e prolongada.
-
O cérebro entra em modo de transe para “fugir” da dor emocional, mesmo que o corpo continue ali.
-
Acidentes ou desastres:
- Pessoas que passam por acidentes graves, como desabamentos, incêndios ou assaltos, podem desenvolver transtorno de transe como uma reação ao trauma.
-
Durante o evento traumático, o cérebro “congela” para não sentir a dor, e esse congelamento pode persistir mesmo depois que o perigo passou.
-
Negligência emocional:
- Crianças que crescem em lares onde são ignoradas, humilhadas ou não recebem afeto podem desenvolver transtorno de transe como uma forma de “se desligar” da realidade dolorosa.
- É como se o cérebro dissesse: “Se ninguém me vê, eu também não preciso me ver”.
Analogia:
Pense no cérebro como um cobertor de segurança. Quando uma criança se sente ameaçada, ela se enrola no cobertor para se proteger. No transtorno de transe, o cérebro faz algo parecido: ele se “enrola” em um estado de transe para não sentir a dor. O problema é que, com o tempo, o cobertor fica tão apertado que a pessoa não consegue mais sair dele.
Fatores da gestação e desenvolvimento: “As raízes do problema”
Alguns estudos sugerem que o que acontece durante a gravidez e os primeiros anos de vida pode influenciar o desenvolvimento de transtornos dissociativos. Isso não significa que a mãe tenha culpa, mas que o cérebro do bebê pode ser afetado por situações de estresse extremo.
O que pode influenciar?
1. Estresse durante a gravidez:
– Se a mãe passa por situações muito estressantes durante a gestação, como violência doméstica ou perda de um ente querido, o bebê pode nascer com um sistema de resposta ao estresse mais sensível.
– Isso não causa o transtorno diretamente, mas pode aumentar as chances de a criança desenvolver problemas dissociativos se passar por traumas mais tarde.
- Parto traumático:
- Bebês que passam por partos muito difíceis, com falta de oxigênio ou intervenções médicas invasivas, podem ter um risco maior de desenvolver transtornos dissociativos.
-
Isso acontece porque o cérebro do bebê pode “aprender” que o mundo é um lugar perigoso desde o nascimento.
-
Separação precoce:
- Bebês que são separados dos pais logo após o nascimento, por exemplo, por internação em UTI neonatal, podem desenvolver problemas de apego que aumentam o risco de dissociação mais tarde.
Analogia:
Imagine que o cérebro do bebê é como uma planta em crescimento. Se a planta recebe água e sol na medida certa, ela cresce forte e saudável. Mas se, nos primeiros meses, ela passa por tempestades (como estresse na gravidez ou parto traumático), suas raízes podem ficar mais frágeis. Isso não significa que a planta vai morrer, mas que ela pode ter mais dificuldade para lidar com outras tempestades no futuro.
Modelo biopsicossocial: “A receita do bolo”
O transtorno de transe não é causado por um único fator, mas pela combinação de genes, cérebro e ambiente. É como uma receita de bolo: se você misturar farinha, ovos e açúcar, mas esquecer o fermento, o bolo não cresce. Da mesma forma, uma pessoa pode ter uma predisposição genética, mas só desenvolver o transtorno se passar por um trauma ou estresse extremo.
Exemplo prático:
– Genética: Uma mulher nasce com uma predisposição a dissociar (por exemplo, porque sua mãe teve depressão grave).
– Neurobiologia: Seu cérebro tem uma amígdala hiperativa e um córtex pré-frontal menos ativo.
– Ambiente: Quando criança, ela sofre abuso sexual do padrasto.
– Resultado: Na adolescência, ela começa a ter episódios de transe sempre que se sente ameaçada ou estressada.
Analogia:
Pense no transtorno de transe como um incêndio. Para que o fogo comece, você precisa de três coisas: combustível (predisposição genética), oxigênio (fatores neurobiológicos) e faísca (trauma ou estresse). Se faltar um desses elementos, o incêndio pode não acontecer. Mas se os três estiverem presentes, o fogo se espalha.
Mitos e verdades sobre as causas
❌ Mito: “Transtorno de transe é coisa de gente fraca ou que não sabe lidar com a vida.”
✅ Verdade: O transtorno de transe é uma condição médica, assim como diabetes ou hipertensão. Ele não tem nada a ver com fraqueza ou falta de força de vontade. Pessoas com esse transtorno muitas vezes passaram por situações tão dolorosas que o cérebro “desligou” como uma forma de proteção.
❌ Mito: “Só quem sofreu abuso na infância desenvolve transtorno de transe.”
✅ Verdade: Embora o abuso na infância seja um fator de risco importante, não é a única causa. Pessoas que passaram por acidentes, desastres naturais, guerras ou negligência emocional também podem desenvolver o transtorno. Além disso, algumas pessoas têm uma predisposição genética que as torna mais vulneráveis.
❌ Mito: “Transtorno de transe é possessão espiritual.”
✅ Verdade: Estados de transe fazem parte de muitas culturas e religiões, como o Candomblé, a Umbanda ou o Espiritismo. Nessas situações, o transe é voluntário, controlado e não causa sofrimento. No transtorno de transe, os episódios são involuntários, causam angústia e interferem na vida da pessoa. É uma condição médica, não espiritual.
❌ Mito: “Se a pessoa não se lembra do que aconteceu, é porque está mentindo.”
✅ Verdade: A amnésia durante os episódios é real. O cérebro “desliga” a memória como uma forma de proteção, assim como desliga a dor quando você se machuca. Não é fingimento, nem mentira — é um mecanismo de defesa que saiu do controle.
❌ Mito: “Transtorno de transe não tem cura.”
✅ Verdade: Embora não exista uma “cura mágica”, o transtorno de transe pode ser tratado. Com terapia, medicamentos (quando necessário) e mudanças no estilo de vida, muitas pessoas conseguem controlar os episódios e levar uma vida normal. O importante é procurar ajuda o quanto antes.
Como é feito o diagnóstico?
Receber um diagnóstico de transtorno de transe pode ser um alívio — afinal, dá um nome ao que você ou seu familiar está passando. Mas também pode gerar dúvidas: como os médicos chegam a essa conclusão? Vamos entender o processo passo a passo, desde os primeiros sintomas até o diagnóstico final.
O caminho até o diagnóstico
O diagnóstico de transtorno de transe não acontece de uma hora para outra. Geralmente, é um processo que leva meses ou até anos, porque os sintomas podem ser confundidos com outras condições, como epilepsia, transtornos de ansiedade ou até esquizofrenia. Além disso, muitas pessoas têm vergonha de contar o que estão passando, o que atrasa a busca por ajuda.
Etapas comuns:
1. Primeiros sinais:
– Você ou alguém próximo percebe que está tendo episódios em que “desliga”, age de forma estranha ou não se lembra do que aconteceu.
– Esses episódios podem ser interpretados como “estresse”, “cansaço” ou até “frescura” no começo.
- Busca por respostas:
- Você começa a pesquisar na internet e encontra informações sobre transtornos dissociativos. Ou então, um amigo ou familiar sugere que você procure um psicólogo ou psiquiatra.
-
Muitas pessoas passam por vários médicos antes de chegar ao diagnóstico certo. Neurologistas, clínicos gerais e até cardiologistas podem ser consultados, porque os sintomas podem se confundir com problemas físicos.
-
Primeira consulta:
- Você marca uma consulta com um psiquiatra (médico especializado em saúde mental) ou um psicólogo clínico (que pode encaminhar para um psiquiatra se necessário).
-
Na consulta, o profissional vai fazer muitas perguntas sobre seus sintomas, histórico de vida, traumas e como os episódios afetam seu dia a dia.
-
Exames e avaliações:
- O médico pode pedir exames físicos (como exames de sangue ou ressonância magnética) para descartar outras condições, como epilepsia ou tumores cerebrais.
-
Também pode ser aplicado um questionário específico para avaliar sintomas dissociativos, como a Escala de Experiências Dissociativas (DES).
-
Diagnóstico diferencial:
-
O profissional vai comparar seus sintomas com os de outras condições para ter certeza de que se trata de transtorno de transe. Por exemplo:
- Epilepsia: Os episódios de transe podem parecer convulsões, mas na epilepsia os exames neurológicos mostram alterações.
- Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT): No TEPT, a pessoa revive o trauma, mas não perde a noção da realidade como no transe.
- Esquizofrenia: Na esquizofrenia, a pessoa tem delírios e alucinações, mas não necessariamente episódios de transe.
- Transtorno bipolar: As mudanças de humor no bipolar são diferentes dos episódios de transe.
-
Diagnóstico final:
- Se os sintomas se encaixam nos critérios do CID-11 (6B62) e outras condições foram descartadas, o médico pode dar o diagnóstico de transtorno de transe.
- Nesse momento, é comum sentir alívio (por finalmente ter uma resposta) e medo (por não saber o que vem pela frente). O profissional vai explicar o que é o transtorno e quais são as opções de tratamento.
Quanto tempo leva para ser diagnosticado?
Não existe um prazo exato, mas estudos mostram que muitas pessoas levam anos para receber o diagnóstico correto. Isso acontece por vários motivos:
– Falta de informação: Muitos médicos não estão familiarizados com transtornos dissociativos, especialmente o transtorno de transe, que é raro.
– Estigma: Algumas pessoas têm vergonha de contar o que estão passando, com medo de serem julgadas ou consideradas “loucas”.
– Sintomas confundidos: Os episódios de transe podem ser interpretados como crises de ansiedade, ataques de pânico ou até problemas cardíacos.
Exemplo real:
Uma mulher de 30 anos começou a ter episódios de transe aos 15 anos. No começo, sua família achava que era “coisa da idade” ou “frescura”. Aos 20, ela procurou um neurologista, que diagnosticou epilepsia e receitou remédios que não funcionaram. Aos 25, ela foi a um psiquiatra, que suspeitou de transtorno bipolar, mas os medicamentos também não ajudaram. Só aos 28, depois de pesquisar na internet e insistir com os médicos, ela recebeu o diagnóstico de transtorno de transe.
Quem pode diagnosticar?
O diagnóstico de transtorno de transe só pode ser feito por um profissional de saúde mental, preferencialmente:
1. Psiquiatra: Médico especializado em transtornos mentais. Ele pode fazer o diagnóstico, pedir exames e receitar medicamentos.
2. Psicólogo clínico: Profissional que pode identificar os sintomas e encaminhar para um psiquiatra se necessário. Alguns psicólogos com formação em transtornos dissociativos também podem ajudar no diagnóstico.
Onde procurar ajuda?
– SUS (Sistema Único de Saúde):
– Você pode procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS) e pedir encaminhamento para um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) ou um psiquiatra do SUS.
– O CAPS é um serviço especializado em saúde mental que oferece atendimento gratuito, incluindo terapia e acompanhamento psiquiátrico.
– O problema é que, no SUS, a fila de espera pode ser longa, especialmente para psiquiatras.
- Particular:
- Você pode marcar uma consulta diretamente com um psiquiatra ou psicólogo particular.
- O valor da consulta varia muito (de R$ 200 a R$ 800), mas alguns profissionais oferecem descontos para pacientes de baixa renda ou atendem por convênios médicos.
-
Sites como o Doctoralia ou Psicologia Viva podem ajudar a encontrar profissionais na sua região.
-
Universidades:
- Algumas universidades com cursos de Psicologia ou Medicina oferecem atendimento gratuito ou de baixo custo em clínicas-escola.
- Os atendimentos são feitos por estudantes supervisionados por professores.
O que esperar da primeira consulta?
A primeira consulta pode ser intimidante, especialmente se você não sabe o que esperar. Mas não se preocupe: o profissional está ali para te ajudar, não para te julgar. Vamos entender como ela costuma acontecer.
1. Chegada e acolhimento:
– Você será recebido pela secretária ou pelo próprio profissional, que vai te explicar como funciona a consulta.
– Se for em um consultório particular, pode ser que você precise preencher um formulário com seus dados e histórico médico.
– Se for no SUS, pode ser que você passe por uma triagem antes de ser encaminhado para o psiquiatra ou psicólogo.
2. Conversa inicial:
– O profissional vai começar fazendo perguntas gerais sobre sua vida, como:
– “Como você está se sentindo hoje?”
– “O que te trouxe aqui?”
– “Há quanto tempo você está passando por isso?”
– Essa parte é importante para quebrar o gelo e entender seu contexto.
3. Histórico médico e familiar:
– O profissional vai perguntar sobre:
– Doenças físicas: Diabetes, hipertensão, problemas neurológicos, etc.
– Doenças mentais: Depressão, ansiedade, transtornos de personalidade, etc.
– Histórico familiar: Se alguém na sua família tem ou teve problemas de saúde mental.
– Medicamentos: Se você toma algum remédio, incluindo chás, suplementos ou drogas recreativas.
– Essas perguntas ajudam a descartar outras condições e entender se há fatores genéticos envolvidos.
4. Sintomas específicos:
– Aqui, o profissional vai fazer perguntas mais detalhadas sobre seus episódios de transe. Por exemplo:
– “Você já teve momentos em que ‘desligou’ e não se lembra do que aconteceu?”
– “Durante esses episódios, você age de forma diferente, como se fosse outra pessoa?”
– “Você sente que algo ou alguém toma conta do seu corpo?”
– “Esses episódios acontecem em situações específicas, como quando você está estressado?”
– “Você já se machucou ou machucou alguém durante um episódio?”
– “Como esses episódios afetam sua vida no trabalho, na escola ou nos relacionamentos?”
– Se você tiver vergonha de responder, lembre-se: o profissional já ouviu histórias parecidas antes e está ali para te ajudar, não para te julgar.
5. Exames físicos (se necessário):
– Em alguns casos, o psiquiatra pode pedir exames físicos para descartar outras condições. Por exemplo:
– Exame de sangue: Para verificar se há deficiências nutricionais ou problemas hormonais.
– Eletroencefalograma (EEG): Para descartar epilepsia.
– Ressonância magnética: Para descartar tumores ou lesões cerebrais.
– Esses exames não são dolorosos e são feitos em clínicas ou hospitais.
6. Questionários:
– O profissional pode pedir para você preencher questionários específicos sobre sintomas dissociativos. Um dos mais usados é a Escala de Experiências Dissociativas (DES), que avalia:
– Amnésia (esquecer coisas importantes).
– Despersonalização (sentir que não é você mesmo).
– Desrealização (sentir que o mundo não é real).
– Confusão de identidade (sentir que é outra pessoa).
– Esses questionários ajudam a medir a gravidade dos sintomas e acompanhar a evolução do tratamento.
7. Diagnóstico preliminar:
– Depois de todas essas etapas, o profissional pode dar um diagnóstico preliminar e explicar o que ele significa.
– Ele também vai conversar com você sobre opções de tratamento, como terapia, medicamentos ou mudanças no estilo de vida.
– Se o profissional não tiver certeza do diagnóstico, pode pedir para você voltar em algumas semanas para acompanhar os sintomas ou encaminhar para outro especialista.
8. Encaminhamentos:
– Dependendo do caso, o profissional pode encaminhar você para:
– Psicoterapia: Para trabalhar traumas, aprender a lidar com os episódios e melhorar a qualidade de vida.
– Neurologista: Se houver suspeita de epilepsia ou outros problemas neurológicos.
– Outros especialistas: Como endocrinologista (para problemas hormonais) ou nutricionista (para deficiências nutricionais).
Diagnóstico diferencial: “O que não é transtorno de transe?”
Muitos sintomas do transtorno de transe podem ser confundidos com os de outras condições. Por isso, o profissional precisa fazer um diagnóstico diferencial, ou seja, descartar outras possibilidades antes de confirmar o transtorno de transe. Vamos entender as principais condições que podem ser confundidas e como elas são diferenciadas.
1. Epilepsia
O que é?
A epilepsia é um distúrbio neurológico em que a pessoa tem crises convulsivas causadas por atividade elétrica anormal no cérebro.
Como se diferencia do transtorno de transe?
– Exames neurológicos: Na epilepsia, o eletroencefalograma (EEG) mostra alterações durante as crises. No transtorno de transe, o EEG é normal.
– Tipo de crise: Na epilepsia, as crises são mais físicas (convulsões, salivação, perda de controle da bexiga). No transtorno de transe, a pessoa pode ficar “paralisada”, falar coisas sem sentido ou agir como outra pessoa, mas não tem convulsões.
– Memória: Na epilepsia, a pessoa pode não se lembrar da crise, mas não tem amnésia prolongada como no transtorno de transe.
– Gatilhos: As crises epilépticas podem acontecer sem motivo aparente, enquanto os episódios de transe geralmente são desencadeados por estresse, traumas ou situações específicas.
Exemplo:
Uma mulher de 25 anos começa a ter episódios em que cai no chão, treme e não responde quando chamada. Seu médico pede um EEG, que mostra alterações típicas de epilepsia. Ela é diagnosticada com epilepsia e começa a tomar medicamentos anticonvulsivantes, que controlam as crises.
2. Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT)
O que é?
O TEPT é um transtorno que surge depois que a pessoa passa por um evento traumático, como um assalto, abuso ou acidente. Os sintomas incluem reviver o trauma (através de pesadelos ou flashbacks), evitar situações que lembrem o evento e sentir-se constantemente em alerta.
Como se diferencia do transtorno de transe?
– Flashbacks vs. transe: No TEPT, a pessoa revive o trauma de forma vívida, mas sabe que está no presente. No transtorno de transe, ela perde a noção da realidade e pode agir como se estivesse em outro lugar ou época.
– Amnésia: No TEPT, a pessoa pode ter dificuldade para lembrar detalhes do trauma, mas não tem amnésia generalizada como no transtorno de transe.
– Gatilhos: No TEPT, os sintomas são desencadeados por lembranças do trauma. No transtorno de transe, os episódios podem acontecer sem motivo aparente ou em situações de estresse geral.
Exemplo:
Um homem de 30 anos foi assaltado na rua e, desde então, tem pesadelos com o assalto e evita passar pelo local onde aconteceu. Ele também fica muito ansioso quando ouve barulhos altos. Seu psicólogo diagnostica TEPT e recomenda terapia.
3. Esquizofrenia
O que é?
A esquizofrenia é um transtorno psicótico em que a pessoa tem delírios (crenças falsas, como achar que está sendo perseguida) e alucinações (ouvir vozes ou ver coisas que não existem).
Como se diferencia do transtorno de transe?
– Delírios e alucinações: Na esquizofrenia, a pessoa acredita em coisas que não são reais (como achar que é Jesus Cristo) ou ouve vozes que não existem. No transtorno de transe, a pessoa pode agir como outra pessoa, mas não tem delírios ou alucinações.
– Consciência da realidade: Na esquizofrenia, a pessoa não tem noção de que seus delírios são irreais. No transtorno de transe, ela pode perceber que algo está errado depois do episódio.
– Memória: Na esquizofrenia, a pessoa não perde a memória dos episódios. No transtorno de transe, a amnésia é comum.
Exemplo:
Uma jovem de 22 anos começa a ouvir vozes que dizem que ela é uma espiã do governo. Ela também acredita que seus vizinhos estão planejando matá-la. Seu psiquiatra diagnostica esquizofrenia e recomenda medicamentos antipsicóticos.
4. Transtorno bipolar
O que é?
O transtorno bipolar é caracterizado por mudanças extremas de humor, que vão desde episódios de mania (euforia, agitação, impulsividade) até episódios de depressão (tristeza profunda, falta de energia).
Como se diferencia do transtorno de transe?
– Mudanças de humor vs. transe: No transtorno bipolar, as mudanças de humor duram dias ou semanas. No transtorno de transe, os episódios são curtos (minutos ou horas) e envolvem perda de identidade ou amnésia.
– Consciência: Durante um episódio maníaco, a pessoa sabe quem é e o que está fazendo, mesmo que esteja agindo de forma impulsiva. No transtorno de transe, ela pode não se reconhecer ou agir como outra pessoa.
– Gatilhos: No transtorno bipolar, os episódios podem acontecer sem motivo aparente. No transtorno de transe, eles geralmente são desencadeados por estresse ou traumas.
Exemplo:
Um homem de 35 anos passa uma semana sem dormir, gastando dinheiro de forma impulsiva e falando sem parar. Depois, entra em uma fase de depressão profunda, em que não consegue sair da cama. Seu psiquiatra diagnostica transtorno bipolar e recomenda estabilizadores de humor.
5. Transtorno de despersonalização/desrealização
O que é?
Nesse transtorno, a pessoa sente que não é ela mesma (despersonalização) ou que o mundo não é real (desrealização). É como se ela estivesse assistindo à própria vida de fora do corpo.
Como se diferencia do transtorno de transe?
– Consciência da realidade: No transtorno de despersonalização, a pessoa sabe que está tendo uma experiência estranha, mas não consegue controlar. No transtorno de transe, ela pode perder completamente a noção da realidade.
– Amnésia: No transtorno de despersonalização, a pessoa não perde a memória. No transtorno de transe, a amnésia é comum.
– Identidade: No transtorno de despersonalização, a pessoa não age como outra pessoa. No transtorno de transe, ela pode assumir uma identidade diferente durante os episódios.
Exemplo:
Uma mulher de 28 anos sente que está “fora do corpo” desde que sofreu um acidente de carro. Ela descreve a sensação como “assistir a um filme sobre a própria vida”. Seu psicólogo diagnostica transtorno de despersonalização e recomenda terapia.
6. Transtorno de sintomas somáticos
O que é?
Nesse transtorno, a pessoa tem sintomas físicos (como dores, tonturas ou fadiga) que não têm causa médica aparente. Ela fica muito preocupada com esses sintomas e pode passar por vários exames sem encontrar nada de errado.
Como se diferencia do transtorno de transe?
– Sintomas físicos vs. dissociação: No transtorno de sintomas somáticos, a pessoa se queixa de dores ou desconfortos físicos. No transtorno de transe, os sintomas são mentais (amnésia, perda de identidade).
– Consciência: No transtorno de sintomas somáticos, a pessoa sabe que está com dor ou desconforto, mas não encontra uma causa. No transtorno de transe, ela pode não se lembrar do que aconteceu durante os episódios.
Exemplo:
Um homem de 40 anos sente dores no peito e falta de ar há meses. Ele passa por vários exames cardíacos, que não mostram nada de errado. Seu médico encaminha para um psiquiatra, que diagnostica transtorno de sintomas somáticos e recomenda terapia.
7. Intoxicação por substâncias
O que é?
Algumas drogas, como álcool, maconha, LSD ou cocaína, podem causar sintomas dissociativos, como despersonalização, desrealização ou alucinações.
Como se diferencia do transtorno de transe?
– Histórico de uso de substâncias: Se os episódios de transe acontecem apenas quando a pessoa usa drogas, é provável que sejam causados pela substância, não por um transtorno.
– Exames toxicológicos: Um exame de sangue ou urina pode mostrar se a pessoa usou drogas recentemente.
– Duração: Os efeitos das drogas são temporários e desaparecem quando a substância sai do organismo. No transtorno de transe, os episódios acontecem mesmo sem o uso de drogas.
Exemplo:
Um jovem de 19 anos começa a ter episódios de despersonalização depois de fumar maconha. Quando para de usar a droga, os episódios desaparecem. Seu psiquiatra conclui que os sintomas eram causados pela maconha, não por um transtorno dissociativo.
O que fazer se você acha que tem transtorno de transe?
Se você se identificou com os sintomas descritos aqui, o primeiro passo é procurar ajuda profissional. Aqui estão algumas dicas para tornar esse processo mais fácil:
- Não tenha vergonha:
- Transtorno de transe não é frescura, nem loucura. É uma condição médica, como diabetes ou hipertensão, e merece tratamento.
-
Lembre-se: você não está sozinho. Muitas pessoas passam por isso e conseguem melhorar com o tratamento certo.
-
Anote seus sintomas:
- Antes da consulta, faça uma lista dos seus episódios de transe, incluindo:
- Quando eles acontecem (data e hora).
- O que você estava fazendo antes do episódio.
- Como você se sentiu durante e depois.
- Se alguém presenciou o episódio, peça para essa pessoa descrever o que viu.
-
Isso vai ajudar o profissional a entender melhor o que está acontecendo.
-
Procure um profissional especializado:
- Nem todos os psiquiatras ou psicólogos têm experiência com transtornos dissociativos. Se possível, procure alguém que já tenha tratado casos parecidos.
-
Você pode pedir indicações para amigos, familiares ou grupos de apoio (como o Instituto de Psicologia e Controle do Stress ou a Associação Brasileira de Psiquiatria).
-
Seja honesto:
- Durante a consulta, não omita informações, mesmo que sejam constrangedoras. Lembre-se: o profissional está ali para te ajudar, não para te julgar.
-
Se você tem vergonha de falar sobre traumas ou uso de drogas, escreva em um papel e entregue para o médico.
-
Não desista:
- Pode ser que o primeiro profissional que você procure não seja o certo para o seu caso. Se isso acontecer, não desista. Procure outra pessoa até encontrar alguém que te entenda e te ajude.
-
Lembre-se: o diagnóstico certo é o primeiro passo para o tratamento certo.
-
Envolva sua família:
- Se você se sentir à vontade, converse com sua família ou amigos próximos sobre o que está passando. Eles podem te apoiar durante o tratamento e ajudar a identificar episódios de transe.
- Se você não se sentir à vontade, tudo bem. O importante é que você não passe por isso sozinho.
Tratamento
Receber o diagnóstico de transtorno de transe pode ser um alívio — afinal, agora você sabe o que está acontecendo. Mas também pode gerar dúvidas: como é o tratamento? Vai demorar para melhorar? Vou precisar tomar remédios para sempre? Vamos entender, de forma detalhada, as opções de tratamento disponíveis, como elas funcionam e o que você pode esperar.
Medicamentos
Os medicamentos não são a primeira linha de tratamento para o transtorno de transe, mas podem ajudar a controlar sintomas associados, como ansiedade, depressão ou insônia. É importante lembrar que não existe um remédio específico para o transe, mas alguns podem reduzir a frequência ou a intensidade dos episódios.
1. Antidepressivos (ISRS e IRSN)
O que são?
Os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) e os inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina (IRSN) são medicamentos usados principalmente para tratar depressão e ansiedade. Eles ajudam a regular os neurotransmissores (substâncias químicas do cérebro) que estão desequilibrados em pessoas com transtornos dissociativos.
Como funcionam?
– Serotonina e noradrenalina são neurotransmissores que ajudam a regular o humor, o sono e a resposta ao estresse.
– Em pessoas com transtorno de transe, esses neurotransmissores podem estar desequilibrados, especialmente se houver traumas ou estresse crônico.
– Os antidepressivos aumentam a quantidade de serotonina e noradrenalina no cérebro, ajudando a reduzir a ansiedade, a depressão e, indiretamente, os episódios de transe.
Exemplos de medicamentos:
– ISRS: Fluoxetina (Prozac), Sertralina (Zoloft), Escitalopram (Lexapro), Paroxetina (Aropax).
– IRSN: Venlafaxina (Efexor), Duloxetina (Cymbalta).
Efeitos colaterais comuns:
– No começo do tratamento: Náusea, dor de cabeça, insônia ou sonolência, boca seca, tontura.
– A longo prazo: Ganho de peso, disfunção sexual (como diminuição da libido), sudorese excessiva.
– Importante: Os efeitos colaterais geralmente melhoram depois de algumas semanas. Se forem muito intensos, o médico pode ajustar a dose ou trocar o medicamento.
Quanto tempo para fazer efeito?
– Os antidepressivos não fazem efeito imediatamente. Geralmente, leva 2 a 6 semanas para que a pessoa comece a sentir melhora.
– É importante não desistir nos primeiros dias, mesmo que os efeitos colaterais sejam incômodos.
Desmistificando:
❌ Mito: “Antidepressivos vão me deixar dopado ou mudar minha personalidade.”
✅ Verdade: Os antidepressivos não mudam quem você é. Eles ajudam a regular o humor e a ansiedade, permitindo que você se sinta mais estável e no controle. Muitas pessoas dizem que, depois do tratamento, se sentem “elas mesmas de novo”, só que sem os sintomas que as incomodavam.
2. Estabilizadores de humor
O que são?
Os estabilizadores de humor são medicamentos usados principalmente para tratar transtorno bipolar, mas também podem ajudar em casos de transtorno de transe, especialmente se houver mudanças bruscas de humor ou impulsividade.
Como funcionam?
– Eles ajudam a estabilizar a atividade elétrica do cérebro, reduzindo oscilações de humor e impulsividade.
– Em pessoas com transtorno de transe, podem ajudar a reduzir a frequência dos episódios, especialmente se eles forem desencadeados por estresse ou emoções intensas.
Exemplos de medicamentos:
– Lítio (Carbolitium).
– Ácido valproico (Depakote).
– Lamotrigina (Lamictal).
– Carbamazepina (Tegretol).
Efeitos colaterais comuns:
– Lítio: Sede excessiva, tremores, ganho de peso, problemas renais (por isso, é necessário fazer exames de sangue regularmente).
– Ácido valproico: Sonolência, ganho de peso, tremores, problemas no fígado.
– Lamotrigina: Dor de cabeça, tontura, erupções cutâneas (em casos raros, pode causar uma reação grave chamada síndrome de Stevens-Johnson).
– Carbamazepina: Sonolência, tontura, problemas no fígado.
Quanto tempo para fazer efeito?
– O lítio e o ácido valproico começam a fazer efeito em 1 a 2 semanas.
– A lamotrigina pode levar várias semanas para atingir a dose terapêutica.
Desmistificando:
❌ Mito: “Estabilizadores de humor são só para pessoas com transtorno bipolar.”
✅ Verdade: Embora sejam usados principalmente para bipolaridade, esses medicamentos também podem ajudar em outros transtornos, como o de transe, especialmente se houver impulsividade ou oscilações de humor.
3. Ansiolíticos (benzodiazepínicos)
O que são?
Os ansiolíticos, especialmente os benzodiazepínicos, são medicamentos usados para reduzir a ansiedade e a agitação. Eles agem rapidamente, mas não são recomendados para uso prolongado por causa do risco de dependência.
Como funcionam?
– Eles aumentam a ação do GABA, um neurotransmissor que “acalma” o cérebro.
– Em pessoas com transtorno de transe, podem ajudar a reduzir a ansiedade que desencadeia os episódios.
Exemplos de medicamentos:
– Diazepam (Valium).
– Clonazepam (Rivotril).
– Alprazolam (Frontal).
– Lorazepam (Lorax).
Efeitos colaterais comuns:
– Sonolência, tontura, confusão, perda de memória (especialmente em idosos).
– Risco de dependência: Se usados por muito tempo, o corpo pode se acostumar com o medicamento, e a pessoa pode precisar de doses cada vez maiores para obter o mesmo efeito.
– Síndrome de abstinência: Parar de tomar benzodiazepínicos de repente pode causar ansiedade intensa, tremores, convulsões e até alucinações.
Quanto tempo para fazer efeito?
– Os benzodiazepínicos fazem efeito em minutos ou horas, por isso são usados em situações de crise aguda (como um ataque de pânico).
Desmistificando:
❌ Mito: “Benzodiazepínicos são a solução para a ansiedade.”
✅ Verdade: Os benzodiazepínicos são úteis em crises, mas não devem ser usados por muito tempo por causa do risco de dependência. O ideal é usá-los apenas enquanto outros tratamentos (como terapia e antidepressivos) começam a fazer efeito.
4. Antipsicóticos atípicos
O que são?
Os antipsicóticos atípicos são medicamentos usados principalmente para tratar esquizofrenia e transtorno bipolar, mas também podem ajudar em casos de transtorno de transe, especialmente se houver sintomas psicóticos (como ouvir vozes ou ter delírios) ou agitação intensa.
Como funcionam?
– Eles ajudam a regular a dopamina e a serotonina, neurotransmissores que estão envolvidos em sintomas como alucinações, delírios e agitação.
– Em pessoas com transtorno de transe, podem ajudar a reduzir a intensidade dos episódios ou a agitação que os acompanha.
Exemplos de medicamentos:
– Quetiapina (Seroquel).
– Olanzapina (Zyprexa).
– Risperidona (Risperdal).
– Aripiprazol (Abilify).
Efeitos colaterais comuns:
– Ganho de peso, sonolência, tontura, boca seca, constipação.
– Risco de diabetes e colesterol alto: Alguns antipsicóticos podem aumentar o risco de desenvolver diabetes ou problemas cardíacos.
– Síndrome metabólica: Combinação de ganho de peso, pressão alta e colesterol alto.
Quanto tempo para fazer efeito?
– Alguns efeitos (como sonolência) aparecem em poucos dias, mas os benefícios terapêuticos podem levar várias semanas.
Desmistificando:
❌ Mito: “Antipsicóticos são só para pessoas com esquizofrenia.”
✅ Verdade: Embora sejam usados principalmente para esquizofrenia, os antipsicóticos atípicos também podem ajudar em outros transtornos, como o de transe, especialmente se houver agitação, impulsividade ou sintomas psicóticos.
Psicoterapia: “A cura pela palavra”
A psicoterapia é o tratamento mais importante para o transtorno de transe. Enquanto os medicamentos ajudam a controlar os sintomas, a terapia trabalha as causas do problema, como traumas, estresse ou dificuldades emocionais. Vamos entender as principais abordagens terapêuticas e como elas podem ajudar.
1. Terapia cognitivo-comportamental (TCC)
O que é?
A TCC é uma das abordagens terapêuticas mais usadas no mundo. Ela se baseia na ideia de que nossos pensamentos, emoções e comportamentos estão interligados e que, ao mudar um deles, podemos mudar os outros.
Como funciona para o transtorno de transe?
– Identificação de gatilhos: O terapeuta ajuda a pessoa a identificar o que desencadeia os episódios de transe (por exemplo, estresse no trabalho, brigas em casa, lembranças de traumas).
– Técnicas de enfrentamento: A pessoa aprende estratégias para lidar com os gatilhos, como técnicas de relaxamento, respiração ou distração.
– Reestruturação cognitiva: O terapeuta ajuda a pessoa a questionar pensamentos negativos que podem piorar os episódios (por exemplo, “Eu sou louco” ou “Nunca vou melhorar”).
– Exposição gradual: Em alguns casos, a pessoa é exposta de forma controlada a situações que desencadeiam os episódios, para aprender a lidar com elas sem dissociar.
Exemplo prático:
Uma mulher de 30 anos tem episódios de transe sempre que discute com o marido. Na terapia, ela aprende:
1. Identificar o gatilho: “Quando meu marido grita comigo, eu me sinto ameaçada e entro em transe.”
2. Técnica de enfrentamento: “Quando ele começar a gritar, vou respirar fundo e contar até 10 antes de responder.”
3. Reestruturação cognitiva: “Meu marido não é meu pai (que a agredia na infância). Ele está bravo, mas não vai me machucar.”
4. Exposição gradual: “Vou praticar conversas difíceis com ele, começando por assuntos leves e aumentando a dificuldade aos poucos.”
Quanto tempo dura?
– A TCC geralmente é breve e estruturada, com duração de 12 a 20 sessões. Em casos mais complexos, pode durar mais tempo.
Para quem é indicada?
– Pessoas que querem resultados rápidos e práticos.
– Pessoas que têm gatilhos claros para os episódios de transe (como estresse ou traumas específicos).
– Pessoas que não têm sintomas psicóticos (como alucinações ou delírios).
2. Terapia de dessensibilização e reprocessamento por movimentos oculares (EMDR)
O que é?
O EMDR é uma abordagem terapêutica desenvolvida para tratar traumas. Ela se baseia na ideia de que lembranças traumáticas não processadas podem causar sintomas como ansiedade, depressão e dissociação.
Como funciona para o transtorno de transe?
– Reprocessamento do trauma: O terapeuta pede para a pessoa lembrar do evento traumático enquanto faz movimentos oculares (seguindo o dedo do terapeuta com os olhos) ou outros estímulos bilaterais (como toques alternados nas mãos).
– Diminuição da carga emocional: Com o tempo, a lembrança do trauma perde a intensidade emocional, reduzindo os sintomas dissociativos.
– Integração das memórias: A pessoa aprende a processar o trauma de forma saudável, sem precisar “desligar” (dissociar) para lidar com ele.
Exemplo prático:
Um homem de 40 anos foi assaltado na rua e, desde então, tem episódios de transe sempre que passa pelo local do assalto. Na terapia EMDR:
1. Ele lembra do assalto em detalhes, enquanto segue o dedo do terapeuta com os olhos.
2. Aos poucos, a lembrança perde a intensidade emocional, e ele consegue passar pelo local sem entrar em transe.
3. Ele aprende a associar o local a uma sensação de segurança, em vez de medo.
Quanto tempo dura?
– O EMDR geralmente é mais rápido que outras terapias, com duração de 6 a 12 sessões para traumas simples. Para traumas complexos (como abuso na infância), pode durar mais tempo.
Para quem é indicada?
– Pessoas que têm traumas específicos ligados aos episódios de transe.
– Pessoas que não têm sintomas psicóticos ou transtornos graves de personalidade.
– Pessoas que querem trabalhar o trauma de forma direta, sem precisar falar muito sobre ele.
3. Terapia psicodinâmica
O que é?
A terapia psicodinâmica se baseia na ideia de que nossos problemas atuais estão ligados a experiências passadas, especialmente da infância. Ela busca entender os padrões inconscientes que influenciam nossas emoções e comportamentos.
Como funciona para o transtorno de transe?
– Exploração do passado: O terapeuta ajuda a pessoa a entender como experiências da infância (como abuso, negligência ou violência) podem estar ligadas aos episódios de transe.
– Relação terapêutica: A forma como a pessoa se relaciona com o terapeuta pode revelar padrões inconscientes (por exemplo, medo de abandono ou dificuldade de confiar nos outros).
– Insight: A pessoa desenvolve uma compreensão mais profunda de si mesma, o que pode reduzir a necessidade de dissociar.
Exemplo prático:
Uma mulher de 25 anos tem episódios de transe desde a adolescência. Na terapia psicodinâmica:
1. Ela descobre que os episódios começaram depois que seu pai foi embora de casa.
2. Ela percebe que, durante os episódios, age como uma criança pequena, como se estivesse revivendo a dor do abandono.
3. Com o tempo, ela aprende a lidar com a dor de forma consciente, sem precisar dissociar.
Quanto tempo dura?
– A terapia psicodinâmica geralmente é mais longa, com duração de vários meses ou anos.
Para quem é indicada?
– Pessoas que querem entender as raízes dos seus problemas de forma profunda.
– Pessoas que têm dificuldade de identificar gatilhos claros para os episódios de transe.
– Pessoas que gostam de explorar o passado e entender como ele influencia o presente.
4. Terapia de integração do ego (Ego State Therapy)
O que é?
A terapia de integração do ego é uma abordagem específica para transtornos dissociativos. Ela se baseia na ideia de que, em pessoas com dissociação, partes da personalidade se separam como uma forma de lidar com traumas.
Como funciona para o transtorno de transe?
– Identificação das “partes”: O terapeuta ajuda a pessoa a identificar as diferentes partes de si mesma que aparecem durante os episódios de transe (por exemplo, uma parte infantil, uma parte agressiva, uma parte protetora).
– Comunicação entre as partes: A pessoa aprende a se comunicar com essas partes, entendendo o que cada uma precisa.
– Integração: O objetivo é integrar as partes, para que a pessoa se sinta mais unificada e no controle.
Exemplo prático:
Uma mulher de 35 anos tem episódios em que age como uma criança de 5 anos, falando com uma voz fina e chorando. Na terapia de integração do ego:
1. Ela identifica que essa “parte infantil” aparece quando se sente desprotegida ou abandonada.
2. Ela aprende a conversar com essa parte, dizendo coisas como: “Eu sei que você está com medo, mas agora você está segura.”
3. Com o tempo, a parte infantil se acalma, e os episódios de transe diminuem.
Quanto tempo dura?
– A terapia de integração do ego pode durar vários meses ou anos, dependendo da complexidade do caso.
Para quem é indicada?
– Pessoas com transtornos dissociativos graves, como transtorno dissociativo de identidade (TDI).
– Pessoas que agem como outra pessoa durante os episódios de transe.
– Pessoas que querem trabalhar de forma direta com as partes dissociadas.
5. Terapia familiar
O que é?
A terapia familiar envolve a família no tratamento, ajudando a melhorar a comunicação, resolver conflitos e criar um ambiente mais saudável para a pessoa com transtorno de transe.
Como funciona para o transtorno de transe?
– Educação sobre o transtorno: A família aprende o que é o transtorno de transe, como ele se manifesta e como pode ajudar.
– Melhoria da comunicação: A terapia ajuda a família a se comunicar de forma mais clara e empática, reduzindo conflitos que podem desencadear episódios.
– Resolução de traumas familiares: Em alguns casos, o transtorno de transe está ligado a traumas familiares (como abuso ou negligência). A terapia ajuda a processar esses traumas de forma saudável.
Exemplo prático:
Um adolescente de 16 anos tem episódios de transe sempre que seus pais brigam. Na terapia familiar:
1. Os pais aprendem que suas brigas desencadeiam os episódios do filho.
2. Eles aprendem a se comunicar de forma mais calma, evitando gritos e acusações.
3. O adolescente se sente mais seguro em casa, e os episódios diminuem.
Quanto tempo dura?
– A terapia familiar geralmente dura alguns meses, com sessões semanais ou quinzenais.
Para quem é indicada?
– Famílias em que conflitos ou traumas desencadeiam os episódios de transe.
– Famílias que não entendem o transtorno e precisam de orientação.
– Pessoas que dependem da família para o tratamento (como crianças ou adolescentes).
Mudanças no dia a dia: “O poder dos pequenos hábitos”
Além da terapia e dos medicamentos, pequenas mudanças no dia a dia podem fazer uma grande diferença no controle dos episódios de transe. Vamos entender como o sono, a alimentação, o exercício e a rotina podem ajudar.
1. Sono: “O cérebro precisa descansar”
Por que é importante?
O sono é essencial para a saúde mental. Quando dormimos mal, nosso cérebro fica mais vulnerável ao estresse e à dissociação. Além disso, a falta de sono pode piorar sintomas como ansiedade e depressão, que estão frequentemente associados ao transtorno de transe.
Dicas para uma boa higiene do sono:
– Horário regular: Tente dormir e acordar no mesmo horário todos os dias, mesmo nos fins de semana. Isso ajuda a regular o relógio biológico.
– Rotina relaxante: Antes de dormir, faça atividades relaxantes, como ler um livro, tomar um banho quente ou ouvir música calma. Evite telas (celular, TV, computador) pelo menos 1 hora antes de dormir, porque a luz azul atrapalha a produção de melatonina (hormônio do sono).
– Ambiente adequado: Mantenha o quarto escuro, silencioso e fresco. Use cortinas blackout, tampões de ouvido ou um ventilador para abafar ruídos.
– Evite estimulantes: Café, chá preto, refrigerantes e chocolate (que contêm cafeína) podem atrapalhar o sono. Evite-os pelo menos 6 horas antes de dormir.
– Não force o sono: Se você não conseguir dormir depois de 20 minutos, levante-se e faça algo relaxante até sentir sono. Ficar na cama rolando de um lado para o outro só aumenta a ansiedade.
Exemplo prático:
Uma mulher de 28 anos tem episódios de transe quando está muito cansada. Ela começa a seguir uma rotina de sono:
1. 21h: Desliga o celular e toma um chá de camomila.
2. 21h30: Toma um banho quente e lê um livro.
3. 22h: Apaga as luzes e tenta dormir.
4. 6h: Acorda no mesmo horário todos os dias, mesmo nos fins de semana.
Com o tempo, ela percebe que dorme melhor e tem menos episódios de transe.
2. Alimentação: “Você é o que você come”
Por que é importante?
A alimentação afeta diretamente o cérebro. Alguns nutrientes são essenciais para a produção de neurotransmissores (como serotonina e dopamina), que estão envolvidos no humor, na ansiedade e na dissociação.
Dicas para uma alimentação saudável:
– Coma regularmente: Pular refeições pode causar hipoglicemia (queda de açúcar no sangue), que piora sintomas como ansiedade e tontura. Tente fazer 3 refeições principais e 2 lanches por dia.
– Priorize alimentos integrais: Arroz integral, pão integral, aveia e quinoa são ricos em fibras e vitaminas do complexo B, que ajudam a regular o humor.
– Inclua proteínas: Carnes magras, ovos, peixes, feijão e lentilha são ricos em triptofano, um aminoácido que ajuda na produção de serotonina.
– Consuma gorduras boas: Abacate, azeite de oliva, nozes e peixes (como salmão e sardinha) são ricos em ômega-3, que ajuda a reduzir a inflamação no cérebro e melhora o humor.
– Evite excesso de açúcar e cafeína: Doces, refrigerantes e café em excesso podem causar picos de energia seguidos de quedas bruscas, piorando a ansiedade e a instabilidade emocional.
– Beba água: A desidratação pode causar fadiga, dor de cabeça e dificuldade de concentração. Beba pelo menos 2 litros de água por dia.
Exemplo prático:
Um homem de 35 anos tem episódios de transe quando está estressado no trabalho. Ele percebe que, nesses dias, costuma pular o almoço e tomar muito café. Ele decide mudar seus hábitos:
1. Café da manhã: Ovos mexidos com pão integral e uma fruta.
2. Lanche da manhã: Um punhado de nozes e uma banana.
3. Almoço: Peixe grelhado com arroz integral e salada.
4. Lanche da tarde: Iogurte natural com aveia.
5. Jantar: Frango com batata-doce e legumes.
Com o tempo, ele percebe que tem mais energia e menos episódios de transe.
3. Exercício físico: “O remédio natural para o cérebro”
Por que é importante?
O exercício físico libera endorfinas, substâncias que melhoram o humor e reduzem o estresse. Além disso, ele ajuda a regular o sono, a ansiedade e a depressão, que estão frequentemente associados ao transtorno de transe.
Dicas para incluir exercícios na rotina:
– Comece devagar: Se você não está acostumado a se exercitar, comece com caminhadas de 10 a 15 minutos por dia e aumente gradualmente.
– Escolha uma atividade que goste: Não adianta se matricular em uma academia se você odeia musculação. Experimente dança, natação, yoga, ciclismo ou artes marciais.
– Faça em grupo: Exercícios em grupo (como aulas de dança ou esportes coletivos) podem ser mais motivadores e divertidos.
– Inclua na rotina: Reserve um horário fixo para se exercitar, como logo pela manhã ou depois do trabalho. Isso ajuda a criar o hábito.
– Ouça seu corpo: Se você estiver muito cansado ou estressado, opte por atividades mais leves, como yoga ou alongamento.
Exemplo prático:
Uma mulher de 30 anos tem episódios de transe quando está ansiosa. Ela decide começar a praticar yoga 3 vezes por semana:
1. Segunda-feira: Yoga restaurativa (focada em relaxamento).
2. Quarta-feira: Yoga vinyasa (mais dinâmica, para liberar energia).
3. Sexta-feira: Yoga nidra (uma prática de meditação guiada).
Com o tempo, ela percebe que se sente mais calma e tem menos episódios de transe.
4. Rotina: “A estrutura que protege”
Por que é importante?
Uma rotina estruturada ajuda a reduzir a ansiedade e a incerteza, que são gatilhos comuns para os episódios de transe. Quando sabemos o que esperar do dia, nosso cérebro se sente mais seguro e no controle.
Dicas para criar uma rotina saudável:
– Planeje o dia: Faça uma lista de tarefas para o dia seguinte, incluindo horários para trabalho, estudo, refeições, exercícios e lazer.
– Priorize o sono: Como vimos, o sono é essencial. Tente dormir e acordar no mesmo horário todos os dias.
– Inclua momentos de lazer: Reserve um tempo para fazer o que você gosta, como ler, assistir a um filme ou sair com amigos.
– Faça pausas: Se você trabalha ou estuda por longos períodos, faça pausas de 5 a 10 minutos a cada hora para alongar, respirar ou tomar um café.
– Evite sobrecarga: Não tente fazer tudo de uma vez. Divida as tarefas em etapas menores e comemore cada conquista.
Exemplo prático:
Um estudante de 20 anos tem episódios de transe quando está sobrecarregado com as provas. Ele decide criar uma rotina:
1. 7h: Acordar e tomar café da manhã.
2. 8h-12h: Estudar (com pausas a cada 1 hora).
3. 12h-13h: Almoçar e descansar.
4. 13h-17h: Estudar (com pausas a cada 1 hora).
5. 17h-18h: Exercício físico (caminhada ou natação).
6. 18h-19h: Jantar e relaxar.
7. 19h-21h: Revisar o conteúdo do dia.
8. 21h-22h: Ler um livro ou assistir a um filme.
9. 22h: Dormir.
Com o tempo, ele percebe que se sente mais organizado e tem menos episódios de transe.
5. Técnicas de manejo para os episódios de transe
Mesmo com tratamento, é possível que você ainda tenha episódios de transe. Por isso, é importante aprender técnicas para lidar com eles quando acontecerem.
Técnicas para usar durante um episódio:
1. Respiração profunda:
– Inspire pelo nariz contando até 4.
– Segure o ar contando até 4.
– Expire pela boca contando até 6.
– Repita até se sentir mais calmo.
– Por que funciona? A respiração profunda ativa o sistema nervoso parassimpático, que ajuda a reduzir a ansiedade e a “trazer você de volta” ao presente.
- Grounding (ancoragem):
- 5-4-3-2-1: Nomeie 5 coisas que você vê, 4 coisas que você toca, 3 coisas que você ouve, 2 coisas que você cheira e 1 coisa que você prova.
- Toque em objetos: Segure um objeto frio (como uma pedra de gelo) ou texturizado (como um chaveiro) e concentre-se na sensação.
-
Por que funciona? O grounding traz sua atenção para o presente, ajudando a sair do estado de transe.
-
Autodiálogo:
- Fale consigo mesmo em voz alta ou mentalmente: “Isso é um episódio de transe. Vai passar. Eu estou seguro.”
-
Por que funciona? O autodiálogo ajuda a se reconectar com a realidade e reduz o medo.
-
Música ou cheiros:
- Ouça uma música que você goste ou cheire algo forte (como hortelã ou café).
- Por que funciona? Sons e cheiros ativam áreas do cérebro ligadas à memória e à emoção, ajudando a “voltar” ao presente.
Técnicas para usar depois de um episódio:
1. Anote o que aconteceu:
– Escreva quando o episódio aconteceu, o que você estava fazendo antes, como se sentiu durante e como se sentiu depois.
– Isso ajuda a identificar gatilhos e a se preparar para episódios futuros.
- Converse com alguém:
- Fale com um amigo, familiar ou terapeuta sobre o que aconteceu. Não guarde para si mesmo.
-
Por que funciona? Falar sobre o episódio reduz a vergonha e o isolamento.
-
Faça algo relaxante:
- Tome um banho quente, ouça uma música calma ou faça uma atividade que você goste.
- Por que funciona? Isso ajuda a reduzir o estresse e a se reconectar consigo mesmo.
Convivendo com o diagnóstico
Receber o diagnóstico de transtorno de transe pode ser um divisor de águas. Por um lado, é um alívio saber que há uma explicação para o que você está passando. Por outro, pode gerar medo, incerteza e até vergonha. Nesta seção, vamos falar sobre como conviver com o diagnóstico, tanto para a pessoa que o recebeu quanto para seus familiares e amigos.
Para a pessoa com o diagnóstico
1. Aceitação: “Não é culpa sua”
O primeiro passo para conviver com o diagnóstico é aceitar que você tem um transtorno. Isso não significa que você está “louco” ou “fraco” — significa que seu cérebro encontrou uma forma de se proteger de situações muito dolorosas, e agora precisa de ajuda para aprender a lidar com elas de forma mais saudável.
Dicas para aceitar o diagnóstico:
– Não se culpe: O transtorno de transe não é culpa sua. Ele é resultado de uma combinação de fatores genéticos, neurobiológicos e ambientais.
– Não se compare: Cada pessoa tem sua própria jornada. O que funciona para uma pessoa pode não funcionar para você, e tudo bem.
– Busque informações: Quanto mais você entender sobre o transtorno, menos medo ele vai causar. Leia livros, assista a vídeos e converse com seu médico ou terapeuta.
– Permita-se sentir: É normal sentir raiva, tristeza ou medo ao receber o diagnóstico. Não tente reprimir essas emoções — elas fazem parte do processo.
Exemplo prático:
Uma mulher de 25 anos recebe o diagnóstico de transtorno de transe e se sente envergonhada. Ela decide:
1. Conversar com seu terapeuta sobre seus medos e dúvidas.
2. Pesquisar sobre o transtorno em sites confiáveis, como o da Associação Brasileira de Psiquiatria.
3. Escrever em um diário sobre como se sente, sem julgamentos.
Com o tempo, ela percebe que o diagnóstico não a define e que pode aprender a conviver com ele.
2. Autocuidado: “Você merece se cuidar”
O autocuidado é essencial para quem tem transtorno de transe. Ele ajuda a reduzir o estresse, melhorar o humor e aumentar a sensação de controle.
Dicas de autocuidado:
– Priorize seu bem-estar: Reserve um tempo todos os dias para fazer algo que te faça bem, como ler, cozinhar ou passear.
– Estabeleça limites: Aprenda a dizer “não” quando se sentir sobrecarregado. Não é egoísmo cuidar de si mesmo.
– Pratique a autocompaixão: Trate-se com a mesma gentileza e paciência que trataria um amigo querido.
– Celebre as pequenas vitórias: Cada dia que você consegue lidar com os sintomas é uma conquista. Comemore!
Exemplo prático:
Um homem de 30 anos com transtorno de transe decide incluir o autocuidado em sua rotina:
1. Manhã: Meditação de 5 minutos ao acordar.
2. Tarde: Caminhada de 20 minutos depois do almoço.
3. Noite: Leitura de um livro antes de dormir.
Com o tempo, ele percebe que se sente mais calmo e no controle.
3. Rede de apoio: “Você não está sozinho”
Ter uma rede de apoio é fundamental para conviver com o transtorno de transe. Isso inclui familiares, amigos, terapeuta e grupos de apoio.
Como construir uma rede de apoio:
– Converse com pessoas de confiança: Escolha 1 ou 2 pessoas em quem você confia e conte sobre o diagnóstico. Explique como elas podem te ajudar (por exemplo, ouvindo sem julgar ou ajudando a identificar gatilhos).
– Participe de grupos de apoio: Grupos como o Instituto de Psicologia e Controle do Stress ou a Associação Brasileira de Transtorno de Estresse Pós-Traumático oferecem espaços seguros para compartilhar experiências.
– Mantenha contato com seu terapeuta: Mesmo nos dias em que você se sentir bem, não abandone a terapia. Ela é uma parte importante do tratamento.
– Use a tecnologia: Aplicativos como o CVV (Centro de Valorização da Vida) oferecem apoio emocional por chat, telefone ou e-mail.
Exemplo prático:
Uma jovem de 22 anos com transtorno de transe se sente isolada. Ela decide:
1. Conversar com sua melhor amiga sobre o diagnóstico e pedir apoio.
2. Participar de um grupo de apoio online para pessoas com transtornos dissociativos.
3. Manter contato regular com seu terapeuta, mesmo nos dias em que se sente bem.
Com o tempo, ela percebe que não está sozinha e que pode contar com outras pessoas.
4. Lidando com os episódios: “O que fazer quando acontecer?”
Mesmo com tratamento, é possível que você ainda tenha episódios de transe. Por isso, é importante saber o que fazer quando eles acontecerem.
Dicas para lidar com os episódios:
– Não entre em pânico: Lembre-se de que o episódio vai passar. Tente se acalmar usando técnicas de respiração ou grounding.
– Peça ajuda: Se estiver com alguém de confiança, peça para essa pessoa te ajudar a se reconectar com o presente (por exemplo, segurando sua mão ou falando com você).
– Anote o que aconteceu: Depois do episódio, escreva quando aconteceu, o que você estava fazendo antes e como se sentiu. Isso ajuda a identificar gatilhos.
– Seja gentil consigo mesmo: Não se culpe pelo episódio. Lembre-se de que é um sintoma do transtorno, não uma falha sua.
Exemplo prático:
Um homem de 40 anos tem um episódio de transe no trabalho. Ele:
1. Pede para um colega ajudá-lo a se reconectar com o presente.
2. Vai para um lugar tranquilo e faz exercícios de respiração.
3. Anota o que aconteceu em um caderno para discutir com seu terapeuta.
4. Não se culpa pelo episódio, lembrando-se de que está em tratamento.
5. Planejando o futuro: “Você pode ter uma vida plena”
Ter transtorno de transe não significa que você não pode ter uma vida feliz e realizada. Muitas pessoas com o diagnóstico conseguem trabalhar, estudar, ter relacionamentos saudáveis e realizar seus sonhos.
Dicas para planejar o futuro:
– Defina metas realistas: Não tente fazer tudo de uma vez. Divida seus objetivos em etapas menores e comemore cada conquista.
– Seja flexível: Alguns dias serão mais difíceis que outros, e tudo bem. Adapte seus planos conforme necessário.
– Busque ajuda profissional: Se você tiver dificuldades para trabalhar ou estudar por causa dos sintomas, converse com seu médico ou terapeuta sobre adaptações (por exemplo, horários flexíveis ou redução de carga).
– Não desista dos seus sonhos: O transtorno de transe não define quem você é. Você pode ter uma vida plena, mesmo com os desafios.
Exemplo prático:
Uma mulher de 28 anos com transtorno de transe quer voltar a estudar, mas tem medo de não conseguir. Ela decide:
1. Conversar com seu terapeuta sobre suas preocupações.
2. Começar com uma carga horária menor e aumentar gradualmente.
3. Usar técnicas de manejo de estresse para lidar com a ansiedade.
4. Celebrar cada conquista, por menor que seja.
Com o tempo, ela percebe que pode realizar seus sonhos, mesmo com o transtorno.
Para familiares e amigos
Se você é familiar ou amigo de alguém com transtorno de transe, seu apoio é fundamental para a recuperação dessa pessoa. Mas também é importante cuidar de si mesmo e saber como ajudar de forma efetiva.
1. Como ajudar: “O que fazer (e o que não fazer)”
O que fazer:
– Informe-se sobre o transtorno: Quanto mais você entender sobre o transtorno de transe, melhor poderá ajudar. Leia livros, assista a vídeos e converse com profissionais de saúde mental.
– Seja paciente: A recuperação não acontece da noite para o dia. Evite frases como “Isso é frescura” ou “Você precisa se controlar”.
– Ofereça apoio prático: Pergunte como você pode ajudar no dia a dia (por exemplo, acompanhando a pessoa a consultas ou ajudando com tarefas domésticas).
– Esteja presente: Às vezes, o simples fato de estar ao lado já é um grande apoio. Não precisa falar nada — apenas ouvir já ajuda.
– Ajude a identificar gatilhos: Se a pessoa tiver um episódio, pergunte o que aconteceu antes para tentar identificar padrões.
O que não fazer:
– Não minimize os sintomas: Frases como “Isso é coisa da sua cabeça” ou “Todo mundo tem problemas” só aumentam a vergonha e o isolamento.
– Não force a pessoa a falar: Se ela não quiser conversar sobre o transtorno, respeite. Ofereça apoio, mas não insista.
– Não assuma o controle: Evite tomar decisões pela pessoa ou tratá-la como uma criança. Incentive a autonomia.
– Não leve para o lado pessoal: Durante um episódio, a pessoa pode agir de forma estranha ou não reconhecer você. Não é pessoal — é um sintoma do transtorno.
Exemplo prático:
A mãe de uma jovem de 20 anos com transtorno de transe quer ajudar, mas não sabe como. Ela decide:
1. Pesquisar sobre o transtorno em sites confiáveis.
2. Conversar com a filha sobre como pode ajudá-la no dia a dia.
3. Oferecer apoio prático, como acompanhá-la a consultas médicas.
4. Ser paciente e não pressionar a filha a falar sobre o transtorno.
2. Como cuidar de si mesmo: “Você também precisa de apoio”
Cuidar de alguém com transtorno de transe pode ser desgastante emocionalmente. Por isso, é importante que você também cuide de si mesmo.
Dicas para cuidar de si mesmo:
– Estabeleça limites: Não é sua responsabilidade “consertar” a pessoa. Faça o que puder, mas não se sobrecarregue.
– Busque apoio: Converse com amigos, familiares ou um terapeuta sobre como se sente. Não guarde tudo para si.
– Reserve um tempo para si: Faça atividades que te dão prazer, como ler, praticar esportes ou sair com amigos.
– Participe de grupos de apoio: Grupos como o Al-Anon (para familiares de pessoas com transtornos mentais) oferecem um espaço seguro para compartilhar experiências.
– Não negligencie sua saúde: Durma bem, alimente-se de forma saudável e faça exercícios físicos. Você não pode ajudar os outros se não estiver bem.
Exemplo prático:
O marido de uma mulher com transtorno de transe se sente sobrecarregado. Ele decide:
1. Conversar com um terapeuta sobre como se sente.
2. Reservar um tempo para si todas as semanas, para praticar esportes.
3. Participar de um grupo de apoio para familiares de pessoas com transtornos mentais.
Com o tempo, ele percebe que consegue ajudar sua esposa sem se esgotar.
3. Como explicar para outras pessoas: “Quebrando o estigma”
Muitas pessoas não entendem o que é o transtorno de transe e podem fazer comentários preconceituosos. Por isso, é importante saber como explicar para amigos, colegas de trabalho ou familiares.
Dicas para explicar:
– Use uma linguagem simples: Evite termos técnicos. Explique que o transtorno de transe é uma condição em que a pessoa “desliga” temporariamente, como um mecanismo de defesa.
– Compare com algo conhecido: Por exemplo, “É como se o cérebro dela apertasse o botão de ‘pausa’ para se proteger de situações muito dolorosas.”
– Fale sobre os sintomas: Explique que, durante os episódios, a pessoa pode agir de forma estranha, não se lembrar do que aconteceu ou se sentir desconectada da realidade.
– Enfatize que não é frescura: Deixe claro que não é algo que a pessoa faz de propósito e que ela está em tratamento.
– Dê exemplos práticos: Se a pessoa perguntar “Como assim?”, dê um exemplo: “Imagine que você está assistindo a um filme de terror e, de repente, fecha os olhos porque não aguenta ver uma cena. No transtorno de transe, o cérebro faz algo parecido, mas sem controle.”
Exemplo prático:
A irmã de uma mulher com transtorno de transe quer explicar o diagnóstico para os pais. Ela diz:
1. “O transtorno de transe é uma condição em que o cérebro ‘desliga’ temporariamente, como um mecanismo de defesa.”
2. “Durante os episódios, ela pode agir de forma estranha, não se lembrar do que aconteceu ou se sentir desconectada da realidade.”
3. “Não é frescura, nem loucura. É uma reação a situações muito dolorosas, como traumas ou estresse extremo.”
4. “Ela está em tratamento e, com o tempo, vai aprender a lidar melhor com os episódios.”
Quando os sintomas podem piorar?
Mesmo com tratamento, é possível que os sintomas do transtorno de transe piorem em algumas situações. Saber identificar esses momentos pode ajudar a se preparar e buscar ajuda.
Situações que podem piorar os sintomas:
1. Estresse intenso:
– Exemplo: Perda de emprego, término de relacionamento, problemas financeiros.
– O que fazer: Tente reduzir o estresse com técnicas de relaxamento, exercícios físicos ou terapia. Se necessário, converse com seu médico sobre ajustar a medicação.
- Traumas não resolvidos:
- Exemplo: Lembranças de abuso, acidentes ou violência.
-
O que fazer: Se você ainda não trabalhou esses traumas na terapia, é hora de fazê-lo. Abordagens como o EMDR podem ajudar.
-
Mudanças bruscas na rotina:
- Exemplo: Mudança de cidade, troca de emprego, nascimento de um filho.
-
O que fazer: Tente manter uma rotina o mais estável possível, mesmo durante as mudanças. Peça apoio a familiares ou amigos.
-
Privação de sono:
- Exemplo: Noites mal dormidas, jet lag, trabalho noturno.
-
O que fazer: Priorize o sono de qualidade. Se tiver dificuldade para dormir, converse com seu médico sobre medicamentos ou técnicas de relaxamento.
-
Uso de substâncias:
- Exemplo: Álcool, maconha, cocaína, LSD.
-
O que fazer: Evite o uso de substâncias, pois elas podem piorar os sintomas dissociativos. Se você tem dificuldade para parar, busque ajuda de um profissional de saúde mental.
-
Isolamento social:
- Exemplo: Ficar muito tempo sozinho, sem contato com amigos ou familiares.
-
O que fazer: Mantenha contato com sua rede de apoio, mesmo que seja por mensagem ou telefone. Participe de grupos de apoio ou atividades em grupo.
-
Doenças físicas:
- Exemplo: Gripe, infecções, dores crônicas.
- O que fazer: Cuide da sua saúde física. Faça exames regulares e trate qualquer doença o quanto antes.
Exemplo prático:
Uma mulher de 35 anos com transtorno de transe percebe que seus sintomas pioram quando está estressada no trabalho. Ela decide:
1. Conversar com seu terapeuta sobre técnicas de manejo de estresse.
2. Praticar exercícios físicos regularmente para reduzir a ansiedade.
3. Estabelecer limites no trabalho, aprendendo a dizer “não” quando se sentir sobrecarregada.
Com o tempo, ela percebe que consegue lidar melhor com o estresse e tem menos episódios de transe.
Perguntas frequentes
Nesta seção, vamos responder as perguntas mais comuns que pacientes e familiares fazem sobre o transtorno de transe. Se você não encontrou sua dúvida aqui, não hesite em perguntar ao seu médico ou terapeuta.
1. “Transtorno de transe tem cura?”
Resposta:
O transtorno de transe não tem uma “cura mágica”, mas pode ser controlado com tratamento. Muitas pessoas conseguem reduzir a frequência e a intensidade dos episódios a ponto de levarem uma vida normal. O objetivo do tratamento não é eliminar completamente os episódios, mas sim aprender a lidar com eles e reduzir seu impacto na vida.
O que você pode esperar:
– Terapia: Ajuda a trabalhar as causas do transtorno, como traumas ou estresse, e a desenvolver estratégias para lidar com os episódios.
– Medicamentos: Podem ajudar a controlar sintomas associados, como ansiedade ou depressão, mas não “curam” o transtorno.
– Mudanças no estilo de vida: Exercícios físicos, alimentação saudável e sono regular ajudam a reduzir o estresse e melhorar o humor.
Exemplo:
Uma mulher de 30 anos com transtorno de transe começa a fazer terapia e a tomar medicamentos. Com o tempo, ela percebe que:
– Os episódios diminuem de frequência (de várias vezes por semana para uma vez por mês).
– Quando tem um episódio, consegue se recuperar mais rápido usando técnicas de grounding.
– Se sente mais no controle da sua vida e consegue trabalhar e ter relacionamentos saudáveis.
2. “Vou precisar tomar remédios para sempre?”
Resposta:
Não necessariamente. Algumas pessoas precisam tomar medicamentos por um tempo, enquanto outras conseguem controlar os sintomas apenas com terapia e mudanças no estilo de vida. Tudo depende da gravidade do transtorno e de como você responde ao tratamento.
O que influencia a duração do tratamento:
– Gravidade dos sintomas: Se os episódios são frequentes e intensos, pode ser necessário tomar medicamentos por mais tempo.
– Resposta ao tratamento: Algumas pessoas respondem bem à terapia e conseguem reduzir ou parar os medicamentos depois de um tempo.
– Presença de outros transtornos: Se você tem depressão, ansiedade ou transtorno bipolar associados, pode precisar de medicamentos por mais tempo.
Exemplo:
Um homem de 40 anos com transtorno de transe começa a tomar antidepressivos para controlar a ansiedade. Depois de 6 meses de terapia, ele percebe que:
– Os episódios de transe diminuíram muito.
– Ele consegue lidar melhor com o estresse usando técnicas aprendidas na terapia.
– Seu médico reduz a dose do medicamento gradualmente, até que ele consiga parar de tomá-lo.
3. “Posso trabalhar ou estudar com transtorno de transe?”
Resposta:
Sim! Muitas pessoas com transtorno de transe trabalham, estudam e têm carreiras bem-sucedidas. O importante é encontrar estratégias para lidar com os sintomas e, se necessário, fazer adaptações no ambiente de trabalho ou estudo.
Dicas para trabalhar ou estudar:
– Converse com seu empregador ou professores: Explique sua condição (se se sentir à vontade) e peça adaptações, como horários flexíveis ou pausas durante o dia.
– Use técnicas de manejo de estresse: Pratique respiração profunda, grounding ou meditação durante o dia para reduzir a ansiedade.
– Divida as tarefas: Não tente fazer tudo de uma vez. Divida seus objetivos em etapas menores e comemore cada conquista.
– Peça ajuda quando precisar: Se estiver se sentindo sobrecarregado, converse com um colega, supervisor ou professor sobre como pode reorganizar suas tarefas.
Exemplo:
Uma estudante de 22 anos com transtorno de transe tem dificuldade para se concentrar nas aulas. Ela decide:
1. Conversar com seus professores sobre sua condição e pedir mais tempo para entregar trabalhos.
2. Usar técnicas de grounding durante as aulas para se manter focada.
3. Dividir os estudos em etapas menores, para não se sentir sobrecarregada.
Com o tempo, ela percebe que consegue acompanhar as aulas e tirar boas notas.
4. “Transtorno de transe é a mesma coisa que possessão espiritual?”
Resposta:
Não. Embora os sintomas possam parecer semelhantes, transtorno de transe e possessão espiritual são coisas diferentes.
Diferenças principais:
| Transtorno de transe | Possessão espiritual |
|————————–|————————–|
| Involuntário: A pessoa não tem controle sobre os episódios. | Voluntário: A pessoa entra em transe como parte de uma prática religiosa ou cultural. |
| Causa sofrimento: Os episódios trazem angústia, vergonha ou prejuízos na vida da pessoa. | Não causa sofrimento: A pessoa não sente angústia e pode até se sentir bem depois do transe. |
| Fora de contexto: Os episódios acontecem em situações cotidianas, sem relação com práticas religiosas. | Dentro de contexto: O transe faz parte de um ritual ou prática cultural aceita. |
| Tratamento médico: Requer acompanhamento com psiquiatra ou psicólogo. | Tratamento espiritual: Envolve rituais, rezas ou práticas religiosas. |
Exemplo:
– Transtorno de transe: Uma mulher tem episódios em que age como outra pessoa no meio do trabalho, sem contexto religioso. Ela se sente envergonhada e procura um psiquiatra.
– Possessão espiritual: Um médium entra em transe durante uma gira de Umbanda para incorporar um espírito. Ele não sente sofrimento e não precisa de tratamento médico.
5. “Meu filho pode ter transtorno de transe?”
Resposta:
Sim, crianças e adolescentes também podem desenvolver transtorno de transe, especialmente se passaram por traumas, abuso ou negligência. Os sintomas podem ser diferentes dos de adultos, por isso é importante ficar atento a sinais.
Sinais em crianças e adolescentes:
– Episódios de “desligar”: A criança fica olhando para o nada, não responde quando chamada ou age de forma estranha por alguns minutos.
– Amnésia: Ela não se lembra do que fez durante o episódio ou diz coisas como “Eu não estava lá”.
– Mudanças de comportamento: De repente, a criança começa a agir como outra pessoa, com voz, gestos ou personalidade diferentes.
– Medo ou vergonha: Ela pode evitar falar sobre os episódios ou se sentir envergonhada.
– Dificuldades na escola: Problemas de concentração, queda no rendimento ou faltas frequentes.
O que fazer se suspeitar que seu filho tem transtorno de transe?
1. Observe os sintomas: Anote quando os episódios acontecem, o que a criança estava fazendo antes e como ela se comporta depois.
2. Converse com a criança: Pergunte como ela se sente durante e depois dos episódios, sem julgamentos.
3. Procure um profissional: Leve a criança a um psiquiatra infantil ou psicólogo para uma avaliação.
4. Evite rótulos: Não chame a criança de “louca” ou “dramática”. Lembre-se de que ela não tem controle sobre os episódios.
Exemplo:
Uma mãe percebe que sua filha de 10 anos tem episódios em que age como uma criança de 5 anos, falando com uma voz fina e chorando. Ela decide:
1. Conversar com a filha sobre o que está acontecendo.
2. Procurar um psiquiatra infantil, que diagnostica transtorno de transe.
3. Começar terapia familiar para entender como ajudar a filha.
Com o tempo, a menina aprende a lidar com os episódios e volta a ter uma vida normal.
6. “Posso dirigir ou operar máquinas com transtorno de transe?”
Resposta:
Depende. Se você tem episódios frequentes ou intensos, é arriscado dirigir ou operar máquinas, porque pode perder o controle durante um episódio. No entanto, se os episódios são raros e leves, e você está em tratamento, pode ser seguro.
O que considerar:
– Frequência dos episódios: Se você tem episódios várias vezes por semana, é melhor evitar dirigir ou operar máquinas.
– Gatilhos: Se os episódios são desencadeados por estresse ou ansiedade, evite dirigir em situações que possam desencadeá-los (como trânsito intenso).
– Tratamento: Se você está em tratamento e os episódios diminuíram, converse com seu médico sobre quando é seguro voltar a dirigir.
Exemplo:
Um homem de 35 anos com transtorno de transe tem episódios uma vez por mês, geralmente quando está estressado. Ele decide:
1. Conversar com seu médico, que diz que pode dirigir, desde que evite situações de estresse.
2. Usar técnicas de grounding antes de dirigir, para reduzir a ansiedade.
3. Evitar dirigir em horários de pico, quando o trânsito é mais estressante.
Com o tempo, ele percebe que consegue dirigir com segurança.
7. “Transtorno de transe pode levar à esquizofrenia?”
Resposta:
Não. Transtorno de transe e esquizofrenia são condições diferentes, com causas, sintomas e tratamentos distintos. No entanto, alguns sintomas podem se confundir, por isso é importante fazer uma avaliação médica cuidadosa.
Diferenças principais:
| Transtorno de transe | Esquizofrenia |
|————————–|——————-|
| Episódios curtos: Duram minutos ou horas. | Sintomas contínuos: Delírios e alucinações são persistentes. |
| Amnésia: A pessoa não se lembra do que aconteceu durante o episódio. | Consciência preservada: A pessoa sabe que está tendo delírios ou alucinações. |
| Sem delírios ou alucinações: A pessoa pode agir como outra pessoa, mas não acredita em coisas irreais. | Delírios e alucinações: A pessoa acredita em coisas que não são reais (como ser perseguida) ou ouve vozes. |
| Gatilhos claros: Os episódios são desencadeados por estresse, traumas ou situações específicas. | Sem gatilhos claros: Os sintomas podem aparecer sem motivo aparente. |
Exemplo:
– Transtorno de transe: Uma mulher tem um episódio em que age como uma criança, mas não acredita que é uma criança de verdade. Depois do episódio, ela não se lembra do que aconteceu.
– Esquizofrenia: Um homem acredita que seus vizinhos estão espionando ele e ouve vozes que dizem para ele se esconder. Ele sabe que está tendo essas experiências, mas não consegue controlá-las.
8. “Posso ter uma vida normal com transtorno de transe?”
Resposta:
Sim! Muitas pessoas com transtorno de transe levam uma vida plena, com trabalho, relacionamentos e hobbies. O segredo é buscar tratamento, aprender a lidar com os sintomas e não desistir dos seus sonhos.
O que ajuda a ter uma vida normal:
– Tratamento adequado: Terapia e, se necessário, medicamentos ajudam a controlar os sintomas.
– Rede de apoio: Familiares, amigos e grupos de apoio oferecem suporte emocional.
– Autocuidado: Sono regular, alimentação saudável e exercícios físicos ajudam a reduzir o estresse.
– Flexibilidade: Alguns dias serão mais difíceis que outros, e tudo bem. Adapte seus planos conforme necessário.
Exemplo:
Uma mulher de 28 anos com transtorno de transe consegue:
– Trabalhar como professora, com horários flexíveis.
– Ter um relacionamento saudável, com um parceiro que a apoia.
– Praticar yoga e meditação, para reduzir o estresse.
– Viajar e conhecer novos lugares, mesmo que precise de adaptações.
9. “Como explicar para meu parceiro(a) sobre o transtorno?”
Resposta:
Explicar o transtorno de transe para seu parceiro(a) pode ser desafiador, mas é importante para construir uma relação saudável e de apoio. O ideal é escolher um momento tranquilo, sem distrações, e usar uma linguagem simples.
Dicas para explicar:
1. Comece com o básico: Explique o que é o transtorno de transe em termos simples. Por exemplo:
– “É uma condição em que meu cérebro ‘desliga’ temporariamente, como um mecanismo de defesa. Durante esses episódios, posso agir de forma estranha ou não me lembrar do que aconteceu.”
2. Fale sobre os sintomas: Descreva como os episódios se manifestam para você. Por exemplo:
– “Às vezes, eu fico olhando para o nada e não respondo quando você me chama. Outras vezes, ajo como se fosse outra pessoa.”
3. Explique que não é frescura: Deixe claro que não é algo que você faz de propósito e que está em tratamento. Por exemplo:
– “Não é frescura, nem loucura. É uma reação a situações muito dolorosas, como traumas ou estresse extremo. Estou fazendo terapia para aprender a lidar com isso.”
4. Diga como ele(a) pode ajudar: Explique o que seu parceiro(a) pode fazer durante e depois dos episódios. Por exemplo:
– “Se eu tiver um episódio, você pode me ajudar segurando minha mão e falando comigo em voz calma. Depois, podemos conversar sobre o que aconteceu.”
5. Responda às dúvidas: Pergunte se seu parceiro(a) tem alguma dúvida e responda com paciência.
Exemplo prático:
Um homem de 32 anos quer explicar o transtorno de transe para sua namorada. Ele diz:
1. “Você já percebeu que às vezes eu fico ‘desligado’ e não respondo quando você me chama?”
2. “Isso é um sintoma de uma condição chamada transtorno de transe. Meu cérebro ‘desliga’ temporariamente, como uma forma de se proteger.”
3. “Não é frescura, nem loucura. É uma reação a traumas que passei na infância. Estou fazendo terapia para aprender a lidar com isso.”
4. “Se acontecer de novo, você pode me ajudar segurando minha mão e falando comigo em voz calma. Depois, podemos conversar sobre o que aconteceu.”
5. “Você tem alguma dúvida?”
10. “Onde posso encontrar ajuda no Brasil?”
Resposta:
No Brasil, você pode encontrar ajuda pelo SUS (Sistema Único de Saúde) ou na rede particular. Vamos entender as opções:
1. SUS (gratuito):
– Unidade Básica de Saúde (UBS): Você pode procurar uma UBS perto da sua casa e pedir encaminhamento para um psiquiatra ou psicólogo do SUS.
– Centro de Atenção Psicossocial (CAPS): O CAPS é um serviço especializado em saúde mental que oferece atendimento gratuito, incluindo terapia e acompanhamento psiquiátrico. Existem diferentes tipos de CAPS:
– CAPS I: Para municípios pequenos (até 20 mil habitantes).
– CAPS II: Para municípios médios (20 mil a 70 mil habitantes).
– CAPS III: Para municípios grandes (mais de 200 mil habitantes), com atendimento 24 horas.
– CAPSi: Para crianças e adolescentes.
– CAPSad: Para pessoas com transtornos por uso de álcool e outras drogas.
– Hospitais universitários: Algumas universidades oferecem atendimento gratuito ou de baixo custo em clínicas-escola de Psicologia ou Medicina.
2. Particular:
– Psiquiatras e psicólogos particulares: Você pode marcar uma consulta diretamente com um profissional particular. O valor varia de R$ 200 a R$ 800 por consulta, mas alguns oferecem descontos para pacientes de baixa renda.
– Convênios médicos: Se você tem convênio médico, pode procurar um psiquiatra ou psicólogo credenciado.
– Plataformas online: Sites como Doctoralia, Psicologia Viva ou Vittude ajudam a encontrar profissionais na sua região.
3. Grupos de apoio:
– Instituto de Psicologia e Controle do Stress (IPCS): Oferece grupos de apoio para pessoas com transtornos dissociativos.
– Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP): Tem uma lista de profissionais especializados em transtornos dissociativos.
– Centro de Valorização da Vida (CVV): Oferece apoio emocional por chat, telefone (188) ou e-mail, 24 horas por dia.
4. Livros e materiais educativos:
– “Transtornos Dissociativos: Uma Visão Integrativa” (Marlene Magnavita).
– “O Corpo Guarda as Marcas: Cérebro, Mente e Corpo na Superação do Trauma” (Bessel van der Kolk).
– Site da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP): www.abp.org.br.
Exemplo prático:
Uma mulher de 25 anos com transtorno de transe quer procurar ajuda. Ela decide:
1. Ir à UBS mais próxima e pedir encaminhamento para um CAPS.
2. Pesquisar psicólogos particulares na sua cidade, usando o site Doctoralia.
3. Participar de um grupo de apoio online para pessoas com transtornos dissociativos.
Com o tempo, ela encontra o tratamento certo para ela.
Quando procurar ajuda urgente
Embora o transtorno de transe não seja uma emergência médica na maioria dos casos, existem situações em que é necessário procurar ajuda imediatamente. Vamos entender quando e como agir.
Sinais de alerta
1. Risco de suicídio
Sinais:
– A pessoa fala em se matar ou diz coisas como “Eu não aguento mais” ou “As pessoas estariam melhor sem mim”.
– Ela pesquisa métodos de suicídio na internet ou faz despedidas (como dar objetos pessoais para amigos).
– Ela se isola, para de falar com as pessoas ou desiste de atividades que gostava.
– Ela tem mudanças bruscas de humor, como passar de muito triste para muito calma de repente (isso pode indicar que ela já decidiu se matar).
O que fazer:
– Não deixe a pessoa sozinha. Fique com ela até que a ajuda chegue.
– Ligue para o CVV (188) ou para o SAMU (192).
– Leve a pessoa para um pronto-socorro ou para o CAPS III (que funciona 24 horas).
– Remova objetos perigosos do ambiente, como remédios, armas ou facas.
Exemplo:
Uma jovem de 20 anos com transtorno de transe começa a dizer que “não aguenta mais viver” e pesquisa métodos de suicídio na internet. Sua mãe:
1. Fica com ela o tempo todo, sem deixá-la sozinha.
2. Liga para o CVV (188) e pede orientação.
3. Leva a filha para o pronto-socorro, onde ela é avaliada por um psiquiatra.
2. Automutilação
Sinais:
– A pessoa se corta, se queima ou se machuca de propósito.
– Ela esconde as marcas com roupas compridas ou pulseiras.
– Ela fala em aliviar a dor emocional através da dor física.
O que fazer:
– Não julgue. Frases como “Isso é frescura” ou “Você está querendo chamar atenção” só pioram a situação.
– Ofereça apoio. Diga coisas como “Estou aqui para te ajudar” ou “Vamos conversar sobre o que você está sentindo”.
– Procure ajuda profissional. Leve a pessoa para um psiquiatra, psicólogo ou pronto-socorro.
– Remova objetos perigosos do ambiente, como lâminas, facas ou remédios.
Exemplo:
Um adolescente de 16 anos com transtorno de transe começa a se cortar. Seu pai:
1. Conversa com ele sobre o que está acontecendo, sem julgamentos.
2. Remove objetos cortantes do quarto do filho.
3. Leva o filho para um psicólogo, que recomenda terapia e acompanhamento psiquiátrico.
3. Episódios de transe prolongados ou muito intensos
Sinais:
– O episódio dura mais de algumas horas.
– A pessoa não responde a estímulos (como chamar pelo nome ou tocar nela).
– Ela age de forma violenta ou se machuca durante o episódio.
– Ela não se lembra de nada depois do episódio e fica muito confusa.
O que fazer:
– Mantenha a calma. Não tente “acordar” a pessoa à força.
– Garanta a segurança. Se ela estiver em um lugar perigoso (como perto de uma janela ou escada), leve-a para um lugar seguro.
– Ligue para o SAMU (192) ou leve a pessoa para um pronto-socorro.
– Anote o que aconteceu. Depois do episódio, anote quando começou, quanto tempo durou e o que a pessoa estava fazendo antes.
Exemplo:
Uma mulher de 30 anos tem um episódio de transe que dura mais de 2 horas. Seu marido:
1. Leva-a para um lugar seguro e fica ao lado dela.
2. Liga para o SAMU (192), que a leva para o pronto-socorro.
3. Anote o que aconteceu para contar ao médico.
4. Sintomas psicóticos
Sinais:
– A pessoa ouve vozes que não existem ou vê coisas que não estão lá.
– Ela acredita em coisas irreais, como achar que está sendo perseguida ou que tem poderes especiais.
– Ela age de forma paranoica, como trancar portas e janelas por medo de invasores.
O que fazer:
– Não discuta com a pessoa. Frases como “Isso não é real” podem deixá-la mais agitada.
– Mantenha a calma. Fale em voz baixa e tranquila.
– Procure ajuda profissional. Leve a pessoa para um psiquiatra ou pronto-socorro.
– Garanta a segurança. Se a pessoa estiver agitada, remova objetos perigosos do ambiente.
Exemplo:
Um homem de 40 anos com transtorno de transe começa a ouvir vozes que dizem para ele se esconder. Sua esposa:
1. Fala com ele em voz calma, sem discutir sobre as vozes.
2. Leva-o para o pronto-socorro, onde ele é avaliado por um psiquiatra.
3. Remove objetos perigosos da casa, como facas e remédios.
5. Overdose ou intoxicação por medicamentos
Sinais:
– A pessoa tomou uma dose maior do que a prescrita de um medicamento.
– Ela está sonolenta, confusa ou não responde.
– Ela tem dificuldade para respirar ou perde a consciência.
O que fazer:
– Ligue para o SAMU (192) ou para o Centro de Informações Toxicológicas (0800 722 6001).
– Não tente fazer a pessoa vomitar, a menos que seja orientado por um profissional.
– Leve a pessoa para o pronto-socorro imediatamente, levando a embalagem do medicamento que ela tomou.
Exemplo:
Uma mulher de 25 anos com transtorno de transe toma vários comprimidos de antidepressivo de uma vez. Seu irmão:
1. Liga para o SAMU (192) e para o Centro de Informações Toxicológicas.
2. Leva-a para o pronto-socorro, levando a embalagem do medicamento.
3. Fica com ela até que seja avaliada por um médico.
Onde procurar ajuda urgente?
| Situação | Onde procurar | Telefone |
|---|---|---|
| Risco de suicídio | CVV | 188 |
| Automutilação | Pronto-socorro ou CAPS III | 192 (SAMU) |
| Episódios prolongados | Pronto-socorro ou CAPS III | 192 (SAMU) |
| Sintomas psicóticos | Pronto-socorro ou CAPS III | 192 (SAMU) |
| Overdose | Pronto-socorro ou Centro de Informações Toxicológicas | 192 (SAMU) ou 0800 722 6001 |
O que fazer enquanto espera a ajuda chegar?
- Mantenha a calma. Sua tranquilidade pode ajudar a pessoa a se acalmar.
- Garanta a segurança. Remova objetos perigosos e leve a pessoa para um lugar seguro.
- Não deixe a pessoa sozinha. Fique com ela até que a ajuda chegue.
- Anote informações importantes. Horário em que os sintomas começaram, o que a pessoa estava fazendo antes, medicamentos que ela toma.
- Não ofereça comida ou bebida. Em alguns casos, isso pode piorar a situação.
Referências
- Organização Mundial da Saúde. Classificação Internacional de Doenças (CID-11). 2022. Disponível em: https://icd.who.int/.
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). 5ª ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023.
- Associação Brasileira de Psiquiatria. Tratado de Psiquiatria da ABP. 2022.
- Ministério da Saúde. Linhas de Cuidado para Atenção às Pessoas com Transtornos Mentais. Brasília, 2021. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/.
- Bessel van der Kolk. O Corpo Guarda as Marcas: Cérebro, Mente e Corpo na Superação do Trauma. São Paulo: Editora nVersos, 2018.
- Marlene Magnavita. Transtornos Dissociativos: Uma Visão Integrativa. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2012.
- Instituto de Psicologia e Controle do Stress (IPCS). Disponível em: https://www.ipcs.com.br/.
- Centro de Valorização da Vida (CVV). Disponível em: https://www.cvv.org.br/. Telefone: 188.
- Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Disponível em: https://www.abp.org.br/.
- Doctoralia. Disponível em: https://www.doctoralia.com.br/.
- Psicologia Viva. Disponível em: https://www.psicologiaviva.com.br/.
- Vittude. Disponível em: https://www.vittude.com/.
Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação profissional. Em caso de sofrimento psíquico, procure um profissional de saúde mental.