Delirium por doença de Niemann-Pick

Definição e conceito

O delirium por doença de Niemann-Pick constitui uma síndrome neuropsiquiátrica aguda ou subaguda, caracterizada por uma perturbação flutuante da atenção, consciência e cognição, que surge como uma manifestação direta e consequente de uma doença de Niemann-Pick (NP). Na semiologia psiquiátrica, enquadra-se como um delirium devido a outra condição médica (segundo o DSM-5-TR) ou como um delirium atribuível a doença do sistema nervoso na CID-11, especificamente decorrente de um erro inato do metabolismo lipídico. O termo "delirium" deriva do latim delirare (sair do sulco, desvairar), denotando o desvio do pensamento e da percepção da realidade. É uma condição potencialmente reversível, desde que a causa metabólica subjacente seja identificada e tratada, embora o substrato neurológico da NP possa impor limitações à recuperação completa.

A doença de Niemann-Pick é um grupo heterogêneo de doenças de depósito lisossomal, classificadas principalmente nos tipos A, B, C1 e C2. Os tipos A e B resultam de deficiência na enzima esfingomielinase ácida, com acúmulo de esfingomielina. O tipo C (NP-C), clinicamente mais relevante para manifestações neuropsiquiátricas complexas, é causado por mutações nos genes NPC1 ou NPC2, levando ao transporte anormal de colesterol e outros lipídios, com seu acúmulo nos lisossomos. É crucial diferenciar o delirium (estado confusional agudo) da demência (declínio cognitivo crônico e progressivo), embora ambas possam coexistir na NP-C, onde o declínio neurológico é progressivo, mas pode ser pontuado por episódios agudos de delirium. Outro conceito adjacente é o de estado deliróide ou ideias deliroides, que se referem a crenças falsas não fixas, frequentemente observadas no contexto do delirium, em contraste com os delírios fixos e sistematizados das psicoses primárias.

Epidemiologicamente, a doença de Niemann-Pick é rara, com incidência estimada entre 0.5 a 1 por 100.000 nascidos vivos para o tipo C. Não há dados epidemiológicos robustos sobre a prevalência específica de delirium nessa população, mas sabe-se que manifestações neuropsiquiátricas, incluindo quadros confusionais agudos, são comuns, especialmente no tipo C de início juvenil ou adulto. A apresentação pode ser insidiosa, mimetizando uma doença psiquiátrica primária, o que frequentemente retarda o diagnóstico correto.

Apresentação clínica

A apresentação clínica do delirium na NP é um reflexo da disfunção cerebral difusa e aguda sobreposta a um processo neurodegenerativo crônico. Segue os critérios diagnósticos centrais de delirium (perturbação aguda da atenção e consciência, com alteração cognitiva adicional), mas tingida pelas particularidades da doença de base. A flutuação dos sintomas ao longo do dia, frequentemente com piora ao entardecer e à noite (fenômeno do "pôr-do-sol"), é uma característica cardinal.

Domínio Cognitivo:

  • Atenção: É o domínio mais gravemente afetado. O paciente apresenta hipoprosexia (dificuldade de concentração), sendo facilmente distraído por estímulos irrelevantes. A capacidade de sustentar, dividir ou mudar o foco atencional está profundamente comprometida. Em entrevista, parece "ausente" ou "desligado", perdendo o fio da meada com facilidade.
  • Consciência: O nível de consciência está reduzido, com obnubilação. O paciente pode oscilar entre um estado de sonolência e agitação.
  • Orientação:desorientação alopsíquica, principalmente temporal (não sabe o dia, mês, ano), seguida pela espacial (não reconhece onde está). A orientação pessoal geralmente é preservada, exceto em casos muito graves.
  • Memória: Predomina a amnésia de fixação (déficit na memória recente). O paciente é incapaz de reter novas informações, repetindo as mesmas perguntas. A memória de longo prazo pode parecer intacta, mas a evocação é desorganizada. Podem ocorrer fenômenos como déjà vu ou jamais vu.
  • Pensamento: O curso do pensamento está desorganizado, podendo ser acelerado na forma hiperativa ou lentificado na forma hipoativa. O conteúdo é marcado por ideias deliroides (não sistematizadas), frequentemente de tema persecutório (ex.: "os enfermeiros querem me envenenar") ou de prejuízo. O raciocínio é concreto e a capacidade de abstração está perdida.

Domínio da Percepção:

  • Alucinações e Ilusões: São comuns, tipicamente visuais e táteis. O paciente pode relatar ver insetos rastejando na parede, figuras sombrias no quarto ou sentir formigamentos anormais na pele. As ilusões (interpretações errôneas de um estímulo real) são frequentes, como confundir a mangueira do soro com uma cobra.

Domínio Afetivo:

  • Labilidade e Exaltação Afetiva: O humor é instável, com flutuações rápidas e imprevisíveis entre medo, irritabilidade, apatia e euforia. A exaltação afetiva é comum na forma hiperativa do delirium.

Domínio Comportamental e Psicomotor:

  • A apresentação pode ser:
    • Hiperativa: Agitação psicomotora, inquietação, discurso pressionado, tentativas de retirar cateteres ou fugir do leito. Esta forma é mais facilmente identificada.
    • Hipoativa: Lentificação, apatia, hipomimia, redução drástica da movimentação espontânea. Esta forma é frequentemente subdiagnosticada e confundida com depressão ou efeito de medicação.
    • Mista: Alternância entre os dois estados.

Exemplos Clínicos Concisos:

  1. Caso Hiperativo: Paciente de 19 anos com NP-C conhecida, internado para investigação de pneumonia. No segundo dia de internação, torna-se abruptamente agitado à noite, grita que há aranhas no teto, tenta arrancar o acesso venoso, acusa a equipe de ser parte de uma conspiração. Está diaforético, taquicárdico e completamente desorientado no tempo. Reconhece a mãe, mas acha que está em sua casa de infância.
  2. Caso Hipoativo: Paciente de 35 anos com NP-C de início na idade adulta, em acompanhamento ambulatorial. A família relata que nas últimas 48 horas tornou-se "um vegetal". Fica o dia todo sentado no sofá, sem iniciativa para comer ou higiene pessoal, responde monossilabicamente e com grande latência. Parece não processar perguntas simples. Não apresenta agitação, mas está claramente desconectado do ambiente.

Neurobiologia e fisiopatologia

A fisiopatologia do delirium na NP é multifatorial, resultando da convergência entre a lesão neurológica progressiva da doença de base e um ou mais fatores precipitantes agudos. Os dados técnicos fornecidos oferecem um modelo neurobiológico geral para o delirium, aplicável a esta condição.

  1. Déficit de Reserva Cerebral: Pacientes com doenças neurodegenerativas como a NP possuem uma reserva cerebral funcional limitada ou diminuída. O acúmulo lisossomal de lipídios (esfingomielina, colesterol) leva à disfunção neuronal, morte celular (particularmente em neurônios de Purkinje do cerebelo, córtex cerebral e núcleos da base) e desmielinização. Este cérebro já comprometido tem menos recursos compensatórios para lidar com novas agressões, tornando-o extremamente vulnerável a qualquer insulto sistêmico.

  2. Desequilíbrio Neurotransmissional: O modelo didático mais consolidado propõe uma hipoatividade das vias colinérgicas centrais combinada com uma hiperatividade das vias dopaminérgicas. Na NP, o metabolismo lipídico anormal pode afetar diretamente a função das membranas neuronais e a síntese/liberação de neurotransmissores. A deficiência colinérgica, crucial para atenção e consciência, é exacerbada por fatores precipitantes comuns (infecções, drogas anticolinérgicas). A hiperdopaminergia contribui para os sintomas psicóticos (alucinações, agitação) e deliroides.

  3. Resposta Aberrante ao Estresse: Ocorre uma hiperatividade do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, com liberação excessiva de cortisol. O estresse de uma infecção, cirurgia ou mesmo a internação hospitalar pode desencadear esta resposta, que tem efeitos neurotóxicos, particularmente em regiões como o hipocampo, já vulnerável na NP.

  4. Fatores Precipitantes Específicos na NP: Qualquer condição que afete difusamente o metabolismo cerebral pode precipitar o delirium. Em pacientes com NP, são especialmente relevantes:

    • Infecções: Febre e estado toxêmico de infecções intercorrentes (ex.: pneumonias de aspiração frequentes na NP) são potentes desencadeadores.
    • Distúrbios Hidreletrolíticos e Metabólicos: Dificuldades de deglutição levam à desidratação. Alterações hepáticas (comuns nos tipos A/B) podem causar encefalopatia metabólica.
    • Medicações: Pacientes com NP-C são extremamente sensíveis a efeitos colaterais de neurolépticos típicos (haloperidol), análogo ao descrito na demência por corpos de Lewy. Medicamentos com propriedades anticolinérgicas (antihistamínicos, anticonvulsivantes mais antigos) podem precipitar ou agravar o quadro.
    • Alterações Ambientais: A internação hospitalar ou mudanças na rotina, para um cérebro com reserva diminuída, podem ser suficientes para desencadear o episódio.
  5. Evidências de Neuroimagem: Embora não específicas, ressonância magnética cerebral na NP-C frequentemente mostra atrofia cortical e cerebelar proeminente, além de hipersinal na substância branca periventricular. A espectroscopia por RM pode revelar alterações metabólicas. Estas lesões estruturais constituem o substrato anatômico da baixa reserva cerebral.

Avaliação clínica e diagnóstico diferencial

A avaliação é uma emergência médica. O objetivo é confirmar a síndrome de delirium e identificar todos os fatores precipitantes reversíveis na NP.

Achados ao Exame do Estado Mental:

  • Aparência e Comportamento: Agitação ou lentificação psicomotora, descuido com a higiene.
  • Fala: Pode ser desorganizada, pressionada (hiperativo) ou escassa, com latência aumentada (hipoativo).
  • Humor e Afeto: Labilidade afetiva, afeto incongruente ou embotado.
  • Conteúdo do Pensamento: Ideias deliroides de conteúdo simples e variável (perseguição, prejuízo).
  • Processo do Pensamento: Desorganizado, tangencial, perseverativo.
  • Percepção: Alucinações visuais/táteis reportadas ou inferidas pelo comportamento (o paciente "olha" para coisas inexistentes).
  • Cognição: Teste de Atenção: Falha no teste de dígitos em ordem inversa ou na nomeação dos dias da semana ao contrário. Orientação: Totalmente desorientado no tempo, parcialmente no espaço. Memória: Incapacidade de reter três palavras após 5 minutos (amnésia de fixação). Funções Executivas: Incapacidade de realizar sequências simples (Teste do Desenho do Relógio anormal).

Instrumentos e Escalas de Avaliação Padronizadas:

  • Confusion Assessment Method (CAM): Padrão-ouro para diagnóstico rápido de delirium. Avalia: 1) Início agudo e curso flutuante; 2) Desatenção; 3) Pensamento desorganizado; 4) Alteração do nível de consciência. Positivo para delirium se 1+2+ (3 ou 4) estiverem presentes.
  • Delirium Rating Scale-Revised-98 (DRS-R-98): Mais detalhada, útil para quantificar a gravidade e monitorar a evolução.
  • Mini-Exame do Estado Mental (MEEM): Pode ser usado, mas tem baixa sensibilidade para delirium, especialmente na forma hipoativa.

Diagnóstico Diferencial Estruturado:

Condição Pontos de Diferenciação do Delirium na NP
Demência por NP (Transtorno Neurocognitivo Maior) Déficit cognitivo progressivo e irreversível, sem flutuação aguda do nível de consciência. Atenção e memória recente prejudicadas, mas o paciente geralmente está alerta. Delirium pode ocorrer sobreposto à demência.
Esquizofrenia ou Transtorno Psicótico Psicose com delírios sistematizados e alucinações auditivas, sem flutuação do nível de consciência ou desorientação. Cognição global pode estar preservada (exceto por déficits específicos da doença). História crônica.
Transtorno Depressivo Maior com Sintomas Psicóticos Humor depressivo predominante, alucinações/delírios congruentes com o humor. Pode haver lentificação psicomotora, mas a atenção e orientação estão preservadas. Sem flutuação ao longo do dia.
Estado de Mal Epiléptico Não-Convulsivo Pode mimetizar delirium hipoativo. EEG é diagnóstico, mostrando atividade epileptiforme contínua. Flutuação pode ser mínima.
Delirium Tremens (Abstinência Alcoólica) História de uso pesado de álcool e abstinência. Sintomas autonômicos proeminentes (taquicardia, hipertensão, hipertermia). Alucinações visuais são típicas, mas o contexto é distinto.
Encefalopatia Metabólica (hepática, urêmica) Pode ser indistinguível clinicamente. A investigação laboratorial (função hepática, ureia) e a história da doença de base (cirrose, IRC) são decisivas. Pacientes com NP podem ter insuficiência hepática.

Armadilhas Diagnósticas Comuns:

  1. Atribuir os sintomas apenas à "demência da NP": O risco é negligenciar um fator tratável (ex.: infecção urinária assintomática) que está precipitando o agravamento agudo.
  2. Diagnóstico de "psicose" primária: A apresentação com alucinações e ideias deliroides pode levar à prescrição de antipsicóticos típicos, que podem piorar drasticamente o quadro na NP-C devido à sensibilidade extrema.
  3. Subdiagnóstico da forma hipoativa: O paciente quieto e "comportado" é frequentemente visto como deprimido ou cansado, atrasando a intervenção.
  4. Interromper a investigação após uma causa: Como destacado nos dados, os quadros são frequentemente multifatoriais. Encontrar uma infecção não exclui a necessidade de corrigir desidratação ou revisar a farmacoteca por drogas anticolinérgicas.

Condições associadas

O delirium na NP ocorre no contexto específico dessa doença neurodegenerativa. Sua importância clínica reside no fato de ser um marcador de gravidade e um sinal de alerta para uma complicação intercorrente aguda em um paciente já cronicamente debilitado.

Correlações nos Manuais Diagnósticos:

  • DSM-5-TR: Enquadra-se em Delirium Due to Another Medical Condition (código baseado no tipo). A doença de Niemann-Pick seria a condição médica etiológica listada. O subtipo seria especificado como hiperativo, hipoativo ou misto.
  • CID-11: Código 6D70.0 Delirium, not induced by substances or withdrawal syndromes. A etiologia seria anotada a partir do capítulo de doenças do sistema nervoso (provavelmente codificando a doença de Niemann-Pick específica).

A ocorrência de delirium em um paciente com NP deve sempre levantar a suspeita de comorbidades frequentes neste grupo:

  • Infecções do Trato Respiratório: Pneumonias por aspiração devido à disfagia e à doença bulbar.
  • Epilepsia: Crises convulsivas são comuns na NP-C e podem precipitar ou mimetizar estados confusionais pós-ictais.
  • Distúrbios do Sono: Inversão do ciclo sono-vigília é comum e pode precipitar ou ser confundido com delirium.
  • Catatonia: Embora mais rara, estados catatônicos podem se sobrepor ao quadro clínico, exigindo abordagem específica.

Implicações terapêuticas

O tratamento é bi-focal: 1) Tratar o episódio de delirium agudo; 2) Identificar e tratar todos os fatores precipitantes reversíveis.

1. Abordagem da Causa Subjacente (Etiológica):

  • Investigação Exaustiva: Deve-se realizar hemograma, eletrólitos, função renal e hepática, glicemia, dosagem de cálcio, gasometria, marcadores inflamatórios (PCR, VHS), urina tipo I e urocultura, radiografia de tórax. Considerar punção lombar se houver suspeita de infecção do SNC.
  • Tratamento Específico da NP: Para NP-C, o miglustate (um inibidor da glicosilceramida sintase) é uma terapia de redução de substrato aprovada, que pode estabilizar ou retardar a progressão neurológica. Seu papel em reverter um episódio agudo de delirium é limitado, mas o tratamento de manutenção pode aumentar a reserva cerebral.
  • Correção de Fatores Precipitantes: Antibioticoterapia para infecções, hidratação venosa, correção de distúrbios metabólicos, suspensão de drogas potencialmente causadoras (especialmente anticolinérgicas).

2. Abordagem Sintomática (Farmacológica e Ambiental):

  • Suporte Ambiental e Não-Farmacológico (Primeira Linha):

    • Orientação: Presença de familiar ou cuidador conhecido. Relógio e calendário visíveis. Iluminação adequada durante o dia e penumbra à noite.
    • Estimulação: Estimulação cognitiva suave e orientada à realidade. Evitar restrição física, que aumenta a agitação e o risco de lesão.
    • Mobilização: Deambulação precoce, se seguro.
    • Sono: Medidas de higiene do sono para preservar o ciclo circadiano.
  • Farmacoterapia (Quando Necessária):

    • Indicação: Agitação grave que represente risco para o paciente ou para a equipe, ou sofrimento psíquico intenso.
    • Medicação de Escolha: Antipsicóticos atípicos em baixas doses são preferíveis devido ao perfil de efeitos colaterais.
      • Risperidona (0,25-0,5 mg 12/12h) ou Olanzapina (2,5-5 mg/dia) podem ser usados com cautela.
      • Quetiapina (12,5-50 mg 8/8-12/12h) tem menor potencial extrapiramidal e pode ser útil, especialmente na forma hipoativa-mista.
    • Medicação a EVITAR: Antipsicóticos típicos (haloperidol) devem ser evitados ou usados com extrema cautela e em doses mínimas, devido ao risco elevado de reações de sensibilidade (rigidez grave, piora do estado mental) análogas às vistas na demência por corpos de Lewy.
    • Agentes Colinérgicos: Não há evidência robusta para o uso de rivastigmina ou donepezil no delirium agudo. Seu uso é reservado para o tratamento da demência associada.

Impacto Prognóstico e na Resposta ao Tratamento:
O delirium é um marcador de pior prognóstico a curto e longo prazo. Em pacientes com NP, um episódio de delirium pode acelerar o declínio cognitivo basal, mesmo após a resolução do quadro agudo. A recuperação pode ser incompleta, deixando o paciente em um nível funcional inferior ao pré-delirium. A resposta ao tratamento sintomático é variável e o manejo dos fatores precipitantes é o principal determinante da resolução. A ocorrência de delirium deve motivar uma revisão abrangente do plano de cuidados do paciente, com foco na prevenção de novos episódios.

Perspectiva do paciente e comunicação clínica

Vivência do Paciente: O delirium é uma experiência profundamente angustiante e aterrorizante. O paciente perde o controle sobre sua mente e sua percepção da realidade. As alucinações são vividas como reais. A desorientação gera um sentimento de perda e confusão profundas. Na forma hipoativa, a experiência pode ser de estar preso em um sonho vívido ou de se sentir desconectado do mundo, envolto em um nevoeiro mental. A amnésia posterior para o período é comum, mas alguns pacientes retêm memórias fragmentadas e perturbadoras.

Comunicação com a Família:

  1. Explicação Clara: "Seu familiar está apresentando um quadro chamado delirium, que é uma confusão mental aguda causada pelo estresse da doença/internação/infecção sobre o cérebro já fragilizado pela doença de Niemann-Pick. É uma complicação médica, não um problema psiquiátrico novo."
  2. Normalizar e Tranquilizar: Explicar que os comportamentos (agitação, acusações) são sintomas da condição, não um reflexo da personalidade do paciente. Enfatizar a natureza potencialmente reversível.
  3. Envolvimento como Parte do Tratamento: Instruir a família sobre medidas não-farmacológicas: falar de forma calma e clara, identificar-se, ajudar na reorientação ("hoje é terça-feira, você está no hospital"), trazer objetos familiares do lar.
  4. Discutir Prognóstico Realista: Esclarecer que, embora o episódio agudo possa melhorar, pode haver uma perda cognitiva permanente em relação à linha de base anterior.

Impacto Funcional: Um episódio de delirium pode ser um ponto de inflexão. Pode levar à perda definitiva da capacidade de deambular, de se comunicar verbalmente ou de realizar atividades básicas de vida diária de forma independente. Frequentemente resulta em aumento da carga de cuidados, necessidade de institucionalização ou de suporte domiciliar intensificado. A qualidade de vida do paciente e da família é significativamente impactada.

Perguntas frequentes

1. O delirium é uma forma de loucura?
Não. Delirium é uma síndrome orgânica cerebral aguda, um sintoma de disfunção cerebral difusa, semelhante a uma febre do cérebro. É uma condição médica tratável, distinta de transtornos psiquiátricos primários como a esquizofrenia.

2. Meu familiar com Niemann-Pick já tem demência. Como saber se é um delirium agora?
O principal diferencial é a mudança aguda (horas/dias) e flutuação dos sintomas. Se houver uma piora abrupta no nível de consciência (mais sonolento ou agitado), desorientação marcada, alucinações novas ou agitação incomum, sobreposta ao quadro demencial estável, é altamente sugestivo de delirium sobreposto.

3. Por que pacientes com Niemann-Pick são tão sensíveis a medicamentos como o Haldol?
A fisiopatologia da NP-C, em particular, envolve disfunção em núcleos da base e sistemas de neurotransmissores. Antipsicóticos típicos como o haloperidol bloqueiam fortemente a dopamina, podendo desequilibrar ainda mais um sistema já vulnerável, levando a rigidez muscular grave, imobilidade, piora da deglutição e agravamento do estado mental, de forma similar ao que ocorre na demência por corpos de Lewy.

4. O delirium deixa sequelas?
Sim, pode deixar. Mesmo após a causa tratada, alguns pacientes não retornam ao seu nível cognitivo e funcional prévio. O episódio de delirium pode acelerar o curso neurodegenerativo da doença de base. A recuperação completa é mais comum em cérebros mais jovens e sem doença neurológica prévia, o que não é o caso na NP.

5. Como posso prevenir novos episódios de delirium?
Estratégias focam em minimizar fatores de risco: tratar infecções prontamente, manter boa hidratação e nutrição, revisar regularmente a lista de medicamentos com o médico (evitando os desnecessários, especialmente os que causam sonolência ou têm ação anticolinérgica), manter rotinas e ambiente estáveis, e promover uma boa higiene do sono.

6. O tratamento com miglustate para NP-C previne o delirium?
O miglustate visa estabilizar a progressão da doença neurológica. Ao retardar o dano neuronal, ele pode, teoricamente, aumentar a "reserva cerebral" do paciente, tornando-o menos vulnerável a insultos que precipitam delirium. No entanto, não é um tratamento específico para o delirium e não elimina o risco, especialmente diante de infecções graves ou outros estressores importantes.

7. É seguro usar calmantes para controlar a agitação?
Benzodiazepínicos (como diazepam, lorazepam) geralmente não são a primeira escolha. Eles podem piorar a confusão, a desinibição e causar sedação excessiva, aumentando o risco de quedas. São reservados para casos específicos, como delirium por abstinência de álcool. Os antipsicóticos atípicos em baixa dose, sob supervisão médica, são geralmente mais seguros e eficazes.

8. O delirium pode ser o primeiro sinal da doença de Niemann-Pick em um adulto?
Sim, especialmente na forma de início tardio da NP-C. Um adulto jovem ou de meia-idade que apresenta um episódio inexplicado de delirium, associado a outros sinais neurológicos (ataxia, distonia, cataplexia, paralisia do olhar vertical), deve ter a NP-C incluída no diagnóstico diferencial. A investigação deve incluir avaliação neurológica detalhada e testes específicos (como a pesquisa de células espumosas na medula óssea ou testes genéticos).

Referências

  • Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
  • Cheniaux, E. Manual de Psicopatologia. 6ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021.
  • Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
  • American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5-TR. Porto Alegre: Artmed, 2022.
  • Organização Mundial da Saúde (OMS). Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID-11.
  • Patterson, M.C.; et al. Niemann-Pick disease type C: a practical guide for physicians. Molecular Genetics and Metabolism, 2020.
  • Inouye, S.K.; et al. Delirium in Elderly People. The Lancet, 2014.

Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.

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