Delirium em pacientes com doença de Alzheimer

Definição e conceito

Delirium é uma síndrome neuropsiquiátrica aguda ou subaguda, caracterizada por um rebaixamento do nível de consciência e uma desorganização global das funções cognitivas. Na semiologia psiquiátrica, é classificado como um transtorno da consciência, especificamente um estado confusional agudo. Em pacientes com doença de Alzheimer (DA), o delirium representa uma comorbidade aguda sobreposta a um processo neurodegenerativo crônico, configurando um quadro de extrema complexidade clínica e vulnerabilidade.

A terminologia técnica inclui: Delirium (termo preferencial no DSM-5 e CID-11), Estado Confusional Agudo (termo mais descritivo) e Síndrome Cerebral Aguda. Em inglês, os subtipos são referidos como hyperactive delirium, hypoactive delirium e mixed delirium. É fundamental distinguir o delirium das flutuações cognitivas próprias da demência, que são de base crônica e menos dramáticas na apresentação aguda.

Os dados epidemiológicos apontam para uma alta prevalência de delirium em pacientes com demência, sendo estes os indivíduos com maior risco para desenvolvê-lo. Enquanto na população idosa hospitalizada em geral as taxas são elevadas, naqueles com doença de Alzheimer pré-existente o risco é exponencialmente maior. Estudos indicam que a presença de uma demência prévia é o fator de risco mais consistente para o desenvolvimento de delirium em qualquer contexto (hospitalar, pós-operatório, por doença clínica). A sobreposição dos quadros é tão frequente que o DSM-5 estabelece como critério diagnóstico para os Transtornos Neurocognitivos (Demências) que os déficits "não ocorrem exclusivamente no contexto de um delirium". A presença de sintomas psicóticos, como delírios, na DA é comum (com prevalências reportadas entre 30% e 45%), e estes sintomas podem se exacerbar ou se transformar durante um episódio de delirium.

Apresentação clínica

A apresentação clínica do delirium no paciente com Alzheimer é a soma das características do estado confusional agudo com os déficits cognitivos de base. O quadro é marcado por uma alteração aguda e flutuante no estado mental, que piora tipicamente ao final do dia (fenômeno do sundowning ou agitação vespertina).

Domínio Cognitivo:

  • Consciência e Atenção: Há um rebaixamento do nível de claridade da consciência, com dificuldade marcada para focalizar, manter ou mudar a atenção (hipotenacidade). O paciente parece "desligado", sonolento ou, no subtipo hiperativo, inquieto e distractível. Esta é a pedra angular do diagnóstico.
  • Orientação: Desorientação alopsíquica, principalmente temporal (não sabe o dia, mês, ano) e espacial (não reconhece o ambiente hospitalar ou a própria casa em um contexto novo). A desorientação pessoal pode ocorrer em casos graves.
  • Memória: Prejuízo agudo e severo da memória de fixação (dificuldade de registrar novas informações) e da evocação. O paciente pode fazer confabulações. A hipomnésia pré-existente da DA é profundamente agravada.
  • Pensamento: O pensamento torna-se desorganizado, ilógico, incoerente e empobrecido. O discurso é confuso, pode ser tangencial ou circunstancial. Delírios, quando presentes, são tipicamente persecutórios (acredita que estão roubando seus pertences, que o cônjuge é um impostor) ou de falsos reconhecimentos (misidentification delusion – ex.: acreditar que a filha é a irmã, que o reflexo no espelho é um estranho). Estes delírios são menos sistematizados e mais flutuantes que os da esquizofrenia.
  • Sensopercepção: Ilusões e alucinações são frequentes, sendo as alucinações visuais as mais características. O paciente pode ver insetos rastejando, pessoas estranhas no quarto ou figuras deformadas. Alucinações auditivas também ocorrem, mas são menos específicas.

Domínio Afetivo e Comportamental:

  • Psicomotricidade: Define os subtipos.
    • Hiperativo: Agitação, inquietação, vocalizações (gritos, chamados), tentativas de retirar sondas ou cateteres, agressividade. É o mais facilmente identificado.
    • Hipoativo: Apatia, letargia, retardo psicomotor, redução drástica da fala e movimentos. É o subtipo mais frequente e mais negligenciado, muitas vezes confundido com depressão ou piora da demência.
    • Misto: Alternância entre períodos de hiper e hipoatividade.
  • Aspecto Emocional: Labilidade afetiva, com flutuações rápidas entre medo, ansiedade, irritabilidade, apatia ou euforia. A perplexidade é um sinal comum.

Domínio do Ciclo Sono-Vigília:

  • Perturbação marcada, com inversão do ciclo: sonolência diurna e agitação/insônia noturna. Este é um dos sinais mais precoces e angustiantes para cuidadores.

Exemplos Clínicos Concisos:

  1. Caso Hipoativo: Dona Maria, 82 anos, com DA moderada, é internada por pneumonia. Nos dois dias seguintes, torna-se progressivamente mais quieta, responde monossilabicamente, não interage com a família, fica com o olhar fixo no vazio e dorme a maior parte do dia. A equipe atribui à "fraqueza da infecção" ou à "progressão da demência".
  2. Caso Hiperativo Misto: Seu João, 78 anos, com DA leve, apresenta, no terceiro dia pós-cirurgia de próstata, agitação noturna. Ele tenta sair da cama alegando que precisa "ir para o trabalho", não reconhece a esposa, aponta para o canto do quarto e grita assustado "tem um ladrão aí!". De manhã, está mais calmo, mas confuso e sem memória do evento.

Neurobiologia e fisiopatologia

A fisiopatologia do delirium é entendida como uma disfunção cerebral aguda e difusa, resultante de uma vulnerabilidade cerebral pré-existente (a reserva cognitiva reduzida pela doença de Alzheimer) sobre a qual atua um fator estressor agudo (infecção, droga, cirurgia). O modelo final comum envolve uma desequilíbrio na neurotransmissão colinérgica e dopaminérgica, com deficiência relativa de acetilcolina e excesso relativo de dopamina.

Na doença de Alzheimer, a neurodegeneração atinge de forma proeminente os neurônios colinérgicos do núcleo basal de Meynert, levando a um déficit colinérgico crônico. Este substrato torna o cérebro do paciente com DA extremamente sensível a qualquer insulto adicional que comprometa ainda mais a transmissão colinérgica (ex.: drogas anticolinérgicas, hipóxia) ou que aumente a atividade dopaminérgica (ex.: estresse, dor, medicações dopaminérgicas). A inflamação sistêmica (com liberação de citocinas pró-inflamatórias que atravessam a barreira hematoencefálica) e o estresse oxidativo são mecanismos periféricos que convergem para agravar este desequilíbrio neuroquímico central.

Evidências de neuroimagem, ainda que não diagnósticas, mostram que o delirium está associado a alterações metabólicas e funcionais difusas, com envolvimento de regiões corticais (especialmente frontais e parietais) e subcorticais. Em pacientes com DA, as áreas já comprometidas pela patologia de emaranhados neurofibrilares e placas amiloides tornam-se ainda mais disfuncionais durante o episódio agudo. A flutuação dos sintomas ao longo do dia está relacionada à desregulação dos núcleos supraquiasmáticos do hipotálamo, responsáveis pelo ritmo circadiano, que também são afetados na DA.

Portanto, o delirium na DA não é simplesmente uma "piora da demência", mas sim uma síndrome de falência cerebral aguda em um órgão já cronicamente doente, mediada por uma cascata neuroquímica, inflamatória e de estresse fisiológico.

Avaliação clínica e diagnóstico diferencial

O diagnóstico é clínico, baseado na observação cuidadosa e na história colhida de familiares ou cuidadores. O reconhecimento precoce é crucial.

Achados ao Exame do Estado Mental:

  • Atenção: Teste com sequência de dias da semana ou meses do ano ao contrário, ou o teste de subtrações seriadas (ex.: subtrair 7 a partir de 100). O desempenho é irregular e há fácil distração.
  • Pensamento e Linguagem: Discurso desorganizado, incoerente, com possibilidade de delírios persecutórios ou de falsa identificação.
  • Memória: Grave prejuízo na memória imediata e de curto prazo (não consegue reter três palavras).
  • Sensopercepção: Relato espontâneo ou sob questionamento de alucinações visuais.
  • Insight: Geralmente ausente para o estado confusional.

Instrumentos e Escalas de Avaliação Padronizadas:

  • Confusion Assessment Method (CAM): Padrão-ouro para triagem. Avalia: 1) Início agudo e curso flutuante; 2) Desatenção; 3) Pensamento desorganizado; 4) Nível de consciência alterado. O diagnóstico de delirium requer a presença de 1, 2 e 3 ou 4.
  • Delirium Rating Scale-Revised-98 (DRS-R-98): Escala mais detalhada para avaliação da severidade.
  • 4AT (4 A’s Test): Instrumento rápido que avalia alerta, cognição, atenção e início agudo. Útil em serviços de emergência.
  • Mini-Exame do Estado Mental (MEEM) ou MoCA: Úteis para estabelecer a linha de base cognitiva, mas não diagnosticam delirium. A flutuação no desempenho ao longo do dia é sugestiva.

Diagnóstico Diferencial Estruturado:

Característica Delirium (sobre DA) Doença de Alzheimer (sem delirium) Depressão (Pseudodemência) Demência com Corpos de Lewy (DCL)
Início Agudo (horas/dias), ligado a um fator desencadeante. Lento e insidioso (anos). Mais definido no tempo, mas não tão agudo quanto o delirium. Insidioso, mas com flutuações cognitivas (delirium-like) desde o início.
Curso Flutuante, com piora vespertina/nocturna. Progressivo e estável ao longo do dia. Pode flutuar com o humor, mas sem o padrão nictemeral do delirium. Flutuações espontâneas marcantes na atenção e alerta.
Atenção Gravemente prejudicada, desorganizada. Preservada nos estágios iniciais, depois afetada. Pode estar prejudicada pela falta de concentração. Flutuante, severamente prejudicada nos episódios.
Consciência Nível rebaixado (obnubilação). Normal (clara). Normal. Normal ou flutuante.
Alucinações Visuais Comuns, mas geralmente menos complexas. Podem ocorrer, mas não são proeminentes. Raras. Proeminentes, recorrentes, bem formadas e detalhadas.
Memória Déficit agudo de fixação sobreposto ao déficit crônico. Déficit progressivo de fixação e evocação. Queixa subjetiva maior que o déficit objetivo ("esqueço tudo"). Déficit, mas com flutuações.
Psicomotricidade Hiper, hipo ou mista. Normal ou apática (fase tardia). Retardo psicomotor ou agitação. Normal, pode ter parkinsonismo.

Armadilhas Diagnósticas Comuns:

  1. Atribuir ao "Só Piorou a Demência": A piora aguda em um paciente com demência é delirium até que se prove o contrário. Requer investigação de causa orgânica.
  2. Confundir Delirium Hipoativo com Depressão: A apatia e o retardo do delirium hipoativo são frequentemente diagnosticados como depressão. A avaliação da atenção e do nível de consciência é a chave para diferenciar.
  3. Ignorar o Delirium no Paciente Hiperativo "Só Agitado": A agitação é tratada com antipsicóticos sem se buscar a causa subjacente (ex.: infecção urinária, dor, retenção fecal).
  4. Não Reconhecer a Flutuação: Avaliar o paciente apenas em seu "momento lúcido" da manhã e perder o diagnóstico.

Condições associadas

O delirium é uma síndrome de etiologia múltipla. Em pacientes com DA, qualquer condição que represente um desafio à homeostase corporal pode desencadeá-lo. As causas mais frequentes são memorizadas pelo mnemônico "DELIRIUM" ou "I WATCH DEATH":

  • Infecção (principalmente urinária e respiratória)
  • Withdrawal (abstinência de álcool, benzodiazepínicos)
  • Acute metabolic (distúrbios hidroeletrolíticos, glicêmicos, uremia)
  • Trauma (TCE, fraturas, pós-operatório)
  • CNS pathology (AVC, hematoma subdural, meningite)
  • Hypoxia (DPOC, ICC, anemia)
  • Deficiencies (B1, B12, ácido fólico)
  • Endocrinopathies (tireoide, adrenal)
  • Acute vascular (choque, infarto agudo do miocárdio)
  • Toxins/drugs (medicações anticolinérgicas, opioides, benzodiazepínicos, corticoides)
  • Heavy metals

No contexto brasileiro, é crucial atentar para doenças infecciosas endêmicas, desidratação em períodos de calor e as barreiras de acesso a medicamentos de uso contínuo, que podem levar à descompensação.

Correlações nos manuais diagnósticos:

  • DSM-5-TR: Transtorno Neurocognitivo Maior ou Leve Devido à Doença de Alzheimer com Delirium Superposto. O delirium é codificado separadamente.
  • CID-11: 6D72.0 Demência devida à doença de Alzheimer e 6D70 Delirium. Ambos os códigos são utilizados.

Implicações terapêuticas

O tratamento do delirium na DA é primariamente etiológico e de suporte. A abordagem farmacológica é sintomática, adjuvante e deve ser a última opção, reservada para situações em que o sintoma comportamental coloca o paciente ou outros em risco iminente.

Abordagem Não-Farmacológica (Primeira Linha e Fundamental):

  • Identificar e Tratar a Causa Subjacente: Investigação clínica, laboratorial e de imagem para encontrar e corrigir o fator desencadeante (ex.: antibioticoterapia para infecção, correção hidroeletrolítica).
  • Medidas Ambientais e de Suporte:
    • Orientação: Presença de familiares, relógios e calendários visíveis, iluminação adequada para reduzir sombras que causem ilusões.
    • Estimulação Cognitiva: Encorajar a orientação de forma calma, evitar superestimulação ou subestimulação.
    • Mobilização Precoce: Evitar imobilização no leito.
    • Controle do Ciclo Sono-Vigília: Exposição à luz solar durante o dia, ambiente calmo e escuro à noite, evitar sonecas longas.
    • Adequação Sensorial: Uso de óculos e aparelho auditivo se necessário.
    • Hidratação e Nutrição: Manter oferta hídrica e nutricional adequada.

Abordagem Farmacológica:

  • Antipsicóticos Atípicos: São os mais utilizados, em doses baixas e por tempo limitado.
    • Risperidona: Dose inicial 0,25-0,5 mg. Eficaz para agitação e sintomas psicóticos. Monitorar efeitos extrapiramidais.
    • Quetiapina: Dose inicial 12,5-25 mg. Útil pelo seu perfil sedativo e menor risco de efeitos extrapiramidais. Pode ser preferível no subtipo hiperativo noturno.
    • Olanzapina: Dose inicial 2,5 mg. Eficaz, mas com maior risco metabólico e sedação.
    • Haloperidol (Típico): Ainda utilizado em emergências por via parenteral (0,5-1 mg), mas seu perfil de efeitos adversos (parkinsonismo, discinesia tardia, síndrome neuroléptica maligna) é mais desfavorável em idosos com demência.
  • Precauções: Todos os antipsicóticos carregam um alerta de caixa preta para aumento do risco de morte e eventos cerebrovasculares em idosos com demência. A decisão deve ser compartilhada com a família, documentada e revisada diariamente.
  • Outras Opções: A melatonina (3-10 mg à noite) pode ajudar na regulação do ciclo sono-vigília. Evitar benzodiazepínicos (exceto em abstinência alcoólica), pois podem piorar a desinibição e a confusão.

Impacto Prognóstico: O desenvolvimento de delirium em um paciente com DA é um marcador de gravidade. Está associado a:

  • Aceleração do declínio cognitivo a longo prazo.
  • Maior risco de institucionalização.
  • Aumento da morbimortalidade hospitalar e pós-alta.
  • Maior sobrecarga e estresse para os cuidadores.
    A resolução do delirium pode ser completa, mas é comum que o paciente não retorne exatamente ao seu nível cognitivo pré-mórbido, ficando com um "degrau" de piora permanente.

Perspectiva do paciente e comunicação clínica

Vivência do Paciente: O delirium é uma experiência aterradora. O paciente vive em um mundo de fragmentos de realidade distorcidos por alucinações ameaçadoras, delírios persecutórios e uma incapacidade de compreender o que está acontecendo. A desorientação gera pânico. A memória do episódio pode ser lacunar ou confabulatória, mas a sensação de medo e angústia pode persistir. No subtipo hipoativo, a experiência é de embotamento, distanciamento do mundo e profunda confusão interna.

Comunicação com a Família/Cuidador:

  1. Educação: Explicar que o delirium não é uma loucura, nem simplesmente a demência piorando, mas uma complicação médica aguda do cérebro, como uma febre cerebral. Usar analogias como "o cérebro dele está temporariamente intoxicado pela infecção".
  2. Normalizar e Tranquilizar: Informar que alucinações e delírios são sintomas comuns da condição. Orientar a não confrontar as crenças delirantes, mas tampouco concordar. Usar distração e reorientação suave ("Entendo que você está vendo coisas assustadoras. Estou aqui para te ajudar. Este é o hospital, você está seguro").
  3. Envolvimento: Encorajar a presença familiar para oferecer segurança e reorientação. Instruir a família a relatar quaisquer mudanças agudas no comportamento.
  4. Planejamento: Discutir os riscos e benefícios de qualquer medicação psicotrópica, enfatizando seu caráter temporário.

Impacto Funcional: Durante o episódio, há uma perda completa da autonomia. Após a resolução, pode haver uma dependência funcional aumentada (para atividades de vida diária como vestir-se, alimentar-se), maior necessidade de supervisão e um declínio na capacidade de comunicação. A qualidade de vida do paciente e da família é significativamente impactada.

Perguntas frequentes

1. O delirium é reversível na doença de Alzheimer?
Sim, o episódio agudo de delirium é potencialmente reversível com a identificação e tratamento adequado da causa subjacente. No entanto, em pacientes com DA, a recuperação pode não ser completa, e é comum que o nível cognitivo basal após o episódio seja inferior ao que era antes. O delirium pode deixar sequelas cognitivas.

2. Meu familiar com Alzheimer ficou agitado e agressivo de repente. É delirium ou é a demência?
Qualquer mudança aguda (em horas ou dias) no comportamento ou cognição de uma pessoa com demência deve levantar a suspeita de delirium em primeiro lugar. A demência por si só tem um curso progressivo e lento. Agitação aguda é um sinal de alerta para buscar uma causa médica (infecção, dor, constipação).

3. Quais são os medicamentos que mais comumente causam delirium nesses pacientes?
Medicamentos com propriedades anticolinérgicas são os principais vilões: alguns antidepressivos tricíclicos (amitriptilina), antiespasmódicos (escopolamina), anti-histamínicos (dexclorfeniramina, difenidramina), antipsicóticos típicos e alguns atípicos em dose alta. Outros incluem benzodiazepínicos, opioides, corticoides e relaxantes musculares.

4. O delirium acelera a progressão da doença de Alzheimer?
Sim. Evidências robustas indicam que um episódio de delirium está associado a uma aceleração do declínio cognitivo a longo prazo em pacientes com demência. O cérebro, já vulnerável, sofre um insulto agudo que pode causar danos neuronais adicionais ou desmascarar déficits que só se manifestariam mais tarde.

5. Como posso prevenir o delirium no meu familiar com Alzheimer que vai ser operado?
Programas de "cirurgia geriátrica" ou "fast-track" são ideais. Medidas incluem: avaliação geriátrica pré-operatória; otimização clínica; evitar polifarmácia, especialmente drogas anticolinérgicas; usar técnicas de anestesia regional quando possível; controlar a dor de forma adequada (evitando altas doses de opioides); promover mobilização precoce; manter a orientação (trazer objetos familiares); e garantir hidratação e nutrição.

6. O delirium pode ser confundido com depressão?
Sim, principalmente o subtipo hipoativo. O paciente letárgico, apático, com pouco contato visual e retardo psicomotor pode parecer deprimido. A chave diferencial está na avaliação da atenção e do nível de consciência, que estão gravemente prejudicados no delirium e relativamente preservados na depressão. A história de início agudo ligado a um fator orgânico também aponta para delirium.

7. Alucinações são sempre sinal de delirium na DA?
Não. Alucinações, principalmente visuais, podem fazer parte da apresentação da Demência com Corpos de Lewy (DCL), onde são um sintoma central, bem formado e recorrente. Na DA "pura", alucinações podem ocorrer, mas são menos proeminentes. A diferença crucial é que no delirium as alucinações surgem no contexto de um início agudo e flutuante com desatenção e alteração da consciência. Na DCL, o paciente pode ter alucinações com o sensório claro.

8. Por que o paciente com delirium piora à noite?
Este fenômeno ("sundowning") está relacionado à desregulação do ciclo circadiano (sono-vigília) que ocorre no delirium. Fatores contribuintes incluem: redução da estimulação sensorial à noite, aumento das sombras e ilusões na penumbra, fadiga ao final do dia, e possíveis alterações na produção de melatonina. No cérebro já desorganizado do delirium, a diminuição de estímulos externos permite que estímulos internos confusos e alucinatórios predominem.

Referências

  • Dalgalarrondo, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
  • Cheniaux, E. Manual de Psicopatologia. 6ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021.
  • Sadock, B.J.; Sadock, V.A.; Ruiz, P. Compêndio de Psiquiatria. 11ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.
  • American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5-TR. 5ª ed. revisada. Porto Alegre: Artmed, 2022.
  • Organização Mundial da Saúde. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID-11.
  • Inouye, S.K., et al. Delirium in Elderly People. The Lancet, 2014.
  • Fong, T.G., et al. Delirium in Alzheimer’s Disease. The Journal of Prevention of Alzheimer’s Disease, 2019.

Conteúdo de referência clínica. Não substitui avaliação profissional individualizada.

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